O Ciúme e o Seu Antídoto

 

 

 

 

 

Emile Armand

Os dois textos que seguem foram escritos pelo anarquista-individualista Emile Armand, retirados do seu livro A Nova Ética Sexual, editado no brasil pela editora Germinal em 1960. No original, esta obra data de 1934 e tem o nome La révoltion sexuelle et la camaraderie amoureuse.

O Ciúme e seu Antídoto

Ocupar-se da chamada "questão social" e deixar de lado os estragos e repercussão da terrível praga social, que é o ciúme, no terreno sexual, para a humanidade, parece-me tremenda falta de lógica. Eis aqui algumas das razões em que apoio esta asserção:

1. O ciúme causa, anualmente, conforme o ano, de mil a mil e duzentas vítimas em França(1). Estes números não concernem, claro está, mais que às vítimas e estragos do ciúme conhecidos do público. Se a proporção é a mesma nos outros países, resultarão imoladas a esta modalidade da loucura, de quarenta a cinqüenta mil vítimas anualmente.

2. Consideremos os meios aos quais recorrem os ciumentos para saciar o seu furor. Assassina-se por ciúme, servindo-se de tesouras, punhais, limas, estiletes, canivetes e navalhas de toda espécie, martelos, machados, machadinhas, corte-papéis, foices, revólveres, fuzis, metralhadoras, etc. Para matar e morrer, os ciumentos recorrem ao veneno, à defenestração, ao enforcamento, ao afogamento, à estrangulação, etc., etc. Emparedam, calcinam, cortam em pedaços, crucificam. Arrancar os olhos, cortar o nariz e as orelhas, ablação dos órgãos sexuais, incluindo seios e outras mutilações – figuram no catálogo dos suplícios inflingidos aos seres a quem os ciumentos pretendem amar sem rival. E não aludo aqui às denúncias apresentadas aos tribunais. Os cárceres estão cheios de pobres-diabos de ambos os sexos, vítimas do ciúme. (Se algum leitor me acusar de exagero, convido-o a ler o relato dos dramas passionais na imprensa de todo mundo)(2).

3. Os crimes originados pelo ciúme, exigindo a intervenção da lei com as suas sanções penais, justificam e reforçam as instituições autoritárias e apertam ainda mais as redes do contrato social imposto.

Do que deixo escrito pode concluir-se que o ciumento é um ser humano em estado de demência, senão em vias de regressão. O pior é que este modelo de retardatário se encontra ainda nos meios de vanguarda ou extremistas. Até entre os chamados anarquistas, o ciúme causa mortes, suicídios, delações, brigas e inimizades entre camaradas. Importa, pois, em minha opinião, analisar o ciúme, procurar o remédio e, determinado este, combater a doença.

Tem-se objetado que "o ciúme não se compra". Fraca objeção. Aceitá-la equivaleria a desesperar de todo esforço tentado, em vista de libertar o ser humano dos preconceitos que lhe abrasam o cérebro. Também o crente, o patriota e outros doentes mentais asseguram que a fé, o amor à pátria, etc., tampouco se compram. O capitalista afirma, do mesmo modo, que o desejo de acumular riquezas todos o recebem em herança. O ciúme é diagnosticável, analisável, como qualquer outro sentimento autoritário ou paixão.

Numa novela de Georges Delbruck, "No País da Harmonia", um dos personagens, uma mulher, define assim o ciúme: "Para o homem, a graça, a beleza, os encantos duma mulher implicam na posse da referida mulher, no direito de dominá-la, de seviciar a sua liberdade, na monopolização do seu amor, na proibição de amar outro homem. O amor serve de pretexto ao homem para legitimar a sua necessidade de domínio. Esta falsa concepção do amor está de tal forma enraizada entre os chamados civilizados, que não duvidam em pagar com a sua liberdade a possibilidade de destruir a liberdade da mulher a quem pretendem amar." Este quadro é exato, mas tanto se aplica à mulher, como ao homem. O ciúme na mulher é tão monopolizador como no homem.

O amor, tal como entendem os ciumentos, é, por conseguinte, uma categoria do arquismo. Não é mais do que a monopolização dos órgãos sexuais palpáveis, da pele e do sentimento de um ser humano, em proveito exclusivamente de outro. O estatismo é a monopolização da vida e da atividade dos habitantes de toda um região, em benefício dos que a regem. O patriotismo é a monopolização, em proveito do Estado, das forças-vivas humanas de todo um conjunto territorial. O capitalismo é a monopolização, a serviço de um reduzido número de privilegiados, em cuja posse se encontram as máquinas e os gêneros necessários à vida, de todas as energias e faculdades produtivas do resto dos homens.

A monopolização estatista, patriótica, religiosa, capitalista, etc., está em germe no ciúme, pois é evidente que este precedeu as dominações política, religiosa, capitalista, etc. O ciúme precedeu a vida em sociedade. Por esta razão, os que combatem a mentalidade social dos nossos dias não podem deixar de declarar guerra ao ciúme. Sendo o amor considerado como uma estranha monopolização, o ciúme aparece-nos como um simples aspecto da dominação do homem sobre o seu semelhante, homem ou mulher, um aspecto do descontentamento ou da cólera que um ser vivo sente quando vê ou prevê que a presa se lhe escapa das mãos. A isto conduz o ciúme, na maioria dos acessos, despojados de todo floreio ou compostura de que necessitam para tornarem-se apresentáveis e aceitáveis, decorados pelas tradições, as conveniências, as leis religiosas ou civis. A este aspecto mais comum do ciúme dou eu o nome de ciúme-propriedade.

Existe uma segunda forma do ciúme, a que poderemos chamar ciúmes sensuais. Um dos participantes da associação amorosa, encontrando no seu companheiro ou companheira perfeita satisfação, vê-se privado, pelo fato de haverem cessado as relações puramente sexuais, que o vinculavam ao outro ou à outra. Seu pesar agrava-se, ao saber que um terceiro desfruta de um prazer que o "doente" se havia acostumado a reservar para si, sem receio de comparticipação. A doença agrava-se à medida em que é mais voluptuoso o objeto de carinho, ou mais dotado está de atributos físicos especiais.

Há ainda uma terceira modalidade de ciúme: a sentimental. É, segundo os especialistas, a mais grave e a mais interessante forma da doença. O padecimento, que pode chegar até uma indescritível tortura moral, provém dum sentimento claramente caracterizado por uma diminuição da intimidade, redução da amizade, debilitação da felicidade. Explique-o ou não, o paciente percebe a sensação, bem clara, de que o amor, do qual era o eixo, diminui, baixa e ameaça extinguir-se, enquanto que o seu, sobreexcitado, aumenta. Ressente-se moral e fisicamente, e a sua saúde geral altera-se.

Reconheço que os "ciúmes sentimentais" podem considerar-se como uma reação do instinto de conservação da vida amorosa contra o que ameaça a sua existência. Sabendo-se que uma vida sentimental profunda se alimenta de amor, de afeição, de confiança recíproca, compreender-se-á que, ao faltar-lhe o seu alimento, e ao ameaçá-la com o desaparecimento, haja reação lógica, resistência natural.

Eu sei, os fatos o demonstram, que o "ciúme sentimental" é difícil de curar, que pode mesmo ser incurável. Certos enfermos recebem tal golpe duma decepção amorosa, que toda a sua vida se ressentem disso. Seres que edificaram a sua vida sentimental sobre uma afeição única, sentem-se, ao faltar-lhes esta, de tal modo desorientados, que se suicidam, como acontece freqüentemente com os portadores de doenças tidas incuráveis. Não é que eu negue que seja uma crueldade, sadismo até, deixar no abandono e na dor a quem ama sincera e profundamente e já teve ocasião de ser amado do mesmo modo. Negar isto evidenciaria falta de juízo por parte de um partidário do contrato ou do pacto. Mas não são estas considerações que hão-de curar o doente.

Restam ainda a considerar os ciúmes de ordem sentimentalo-sexual. Na sua "Dor Universal" (p .3), Sébastien Faure apresenta o ciúme como um "sentimento puramente artificial", "derivado de circunstâncias abolíveis", "ele próprio eliminável". Para mim, a abolição dos ciúmes depende da "abundância" sexual e sentimental, que possa reinar no meio em que o indivíduo se desenvolve, da mesma forma que a satisfação intelectual deriva da abundância cultural posta à disposição do indivíduo, do mesmo modo que aplacar a fome se deduz da abundância de alimento posto à disposição do indivíduo.

Quer se trate dum meio comunista, em que as necessidades se satisfazem sem reparar no esforço dispendido, ou dum meio individualista, em que a satisfação de desejos se baseia sobre a reciprocidade da prestação de serviços, a situação é a mesma. Tanto um como outro o que desejam é que seus componentes sejam felizes, e não o são enquanto algum deles sofre sua mentalidade, sua fome, seus sentidos ou seus sentimentos insatisfeitos. O capricho, a fantasia, o "pior para ti", a preferência, a "criança melindrosa", para o isolado não há caso entre associados que nada podem se entre eles não reina um espírito de bom companheirismo que implique paciência, compreensão, concessões mútuas. E não apenas quando se trata de associados, mas até mesmo tratando-se de companheiros com pouca intimidade e que indo em pós do prazer individual, sem querer ocasionar o mínimo estorvo ao prazer do outro, se emanciparam de preconceitos, como a fidelidade sentimental, no inerente à coabitação, o proprietarismo conjugal e o exclusivismo sexual como sinal de amor geral.

É NA ABUNDÂNCIA, pois, de ofertas e procuras, de ocasiões, que vejo o remédio para os ciúmes. E de que maneira se arrumará esta abundância, para que ninguém seja posto de lado, não sofra, para dizer tudo? Eis aqui o problema a resolver. Na sua "Teoria Universal da Associação", Fourier tinha-o resolvido, constituindo o matrimônio de tal forma "que cada homem possa ter todas as mulheres e cada mulher todos os homens".

Não posso estender-me sobre as conseqüências desta ética sexual, a principal das quais é o desaparecimento da família. Afigura-se-me dificílimo que o comunismo anarquista, apesar do apego de muitos dos seus partidários à fórmula familiar, possa finalmente evitar esta solução, se quer permanecer conseqüente consigo próprio, ou seja não estabelecendo uma hierarquia de prazeres e necessidades. Não se concebe, efetivamente, que haja anarquistas que possam admitir distinções qualitativas entre as aspirações dos diversos apetites humanos.

O que mais atrai a atenção, quando se estudam a fundo as objeções formuladas contra a solução fourierista, é que as apresentadas pelos libertários se assemelham, como duas gotas de água entre si, aos protestos dos educadores religiosos e dos representantes do Estado contra aquela solução. Aqueles e estes vêem na união do casal e na agrupação da família uma garantia para a perpetuação do sistema de dominação espiritual ou laica. Daí a poesia, as frases enxudiosas, os panagíricos, com que acompanham as descrições do amor conjugal, da Família célula da sociedade. Além disso, se, por um lado, se persegue os partidários das concepções sexuais que contrariam os interesses dos dirigentes, eu ignoro a existência duma lei – desde o código de Hamurabi até os códigos soviéticos – que decrete alguma penalidade contra a exaltação do amor romântico ou da indissolubilidade do laço conjugal. Os que governam, ou seja, os que dominam, bem sabem o que fazem. Penso, por isso, que os comunistas-anarquistas chegarão a considerar a abundância a que atrás me referi (o comunismo sexual voluntário)como o remédio para todos os males do amor. Uma regressão notável a este respeito se verifica desde a guerra européia, de 1914 -1918.

Outra questão se nos oferece: Poderá o remédio para o ciúme, o exclusivismo sentimental ou a apropriação sexual, remédio que eu resumirei na fórmula tomada a Platão todos para todas e todas para todos, conciliar-se com os princípios do individualismo-anarquista, convir a individualistas? Repondo: Convém certamente aos individualistas dispostos (para usarmos uma expressão de Stirner) a sacrificar algo de sua liberdade para que melhor se afirme sua individualidade. Que visam, associando-se, no domínio sentimentalo-sexual, determinado número de individualistas? Aumentar, manter ou reduzir cada vez mais o sofrimento? Se o que perseguem é este último objetivo, se é na desaparição do sofrimento que se afirma a sua individualidade de associados, entre eles, na esfera de que nos ocupamos, o amor perderá gradualmente o seu caráter passional para chegar a ser uma simples manifestação de companheirismo; o monopólio, a arbitrariedade, o reparo a dar-se desaparecerão cada dia mais, tornando-se cada vez mais raros. Chegar-se-á assim à fórmula acima expressa, porque nela encontrarão o melhor método para eliminar do seu meio os ciúmes sexuais e as suas conseqüências, porque, tendo que escolher entre diversos processos, a sua "livre escolha" deteve-se naquele.

Por outra parte, são somente eles os que se comprometem. Não são zelosos (é o caso de jamais sê-lo) de qualquer outro sistema escolhido por grupos diferentes para eliminar o ciúme.

Os partidários da abundância, como antídoto contra o ciúme, os organizadores de associações anarquistas com fins sentimentais ou sexuais, os propagandistas da "camaradagem amorosa", não ignoram a que troças estão expostos por parte de excelentes camaradas ainda não emancipados de preconceitos correntes em matéria de moral sexual. Recordam-se, porém, do que escreveu "Free Society", num artigo solidamente esboçado sobre a "Pluralidade em Amor", o anarquista-comunista F. A. Bernard: "Aqueles que se sentem bastante fortes e bastante entusiastas para atrever-se a serem os primeiros propulsores deste movimento podem animar-se pensando em que as antiquadas concepções do amor se dissolvem, queiramo-lo ou não, até o ponto de que a espécie humana toda inteira não sabe como sair do caos em que se debate. Podem ainda encontrar motivo de satisfação pensando em que vivem coerentemente com as idéias cuja realização assegurará ao ser humano uma existência normal e fértil".

 

A Camaradagem Amorosa

Há dois anarquismos, mais exatamente, duas escolas de anarquismo. As duas crescem na liberdade do amor. Uma favorece a promiscuidade irresponsável nas relações sexuais (a comunidade responsabilizar-se-á pela progénie); a outra favorece o livre contrato, que dá às duas partes liberdades iguais e sanciona as responsabilidades mútuas. (Henrique Seymour, "Os dois anarquismos").

Quando o mundos se coloca no meu caminho (e sempre o está), emprego-o em satisfazer a fome do meu egoísmo: não "és para mim mais que um alimento; da mesma forma tu me tomas, utilizando-me para teus usos...". pela minha parte, prefiro recorrer ao egoísmo dos homens a recorrer aos seus "serviços de amor", à sua misericórdia, à sua caridade. O egoísmo exige a reciprocidade (toma lá dá cá); nada faz por nada, e se oferece os seus serviços é para que lhos COMPREM... O amor não se paga; mais exatamente, o amor pode muito bem pagar-se, mas somente com amor: um serviço vale outro (Max Stirner, "O Único e a sua Propriedade").

Por camaradagem amorosa, os individualistas à nossa maneira entendem em especial a integração, na camaradagem, de diversas espécies de realizações sentimentais e sexuais. Quer dizer que a sua tese de camaradagem amorosa implica num livre contrato de associação (anulável com ou sem aviso prévio) concertado entre individualistas anarquistas de sexo diferente, possuindo as necessárias noções de higiene, cujo fim é assegurar os contratantes contra os azares das experiências amorosas, tais como: o repúdio, a rutura, o ciúme, o exclusivismo, o proprietarismo, a unicidade, a coqueteria, a indiferença, o flirteio, o pior-para-ti, o recurso à prostituição.

***

É conhecida a história de Carmem, a heroína duma famosa novela de Próspero Merimée, da qual Henrique Meilhac e Luís Halevy extraíram uma ópera cômica célebre, sobretudo pela música de Bizet, tão apreciada por Nietzsche. Carmem, depois de haver seduzido um pobre-diabo, um soldado chamado José, obrigado a desertar e a acompanhá-la para viver a vida, segundo ela, cheia de aventuras e encantos, de contrabandistas. Carmem prossegue sua carreira de amorosa "que faz sofrer" e enamora-se de um garboso toureiro. José não aceita a situação e, roído de ciúmes, apunhala a bela cigana. Em vez de buscar refúgio na serra, após o crime, entrega-se à Polícia, com o que demonstra não ser adequado para o papel que Carmem lhe destinava... Na obra há, entremeadas, coplas sobre "o amor, filho da Boémia", que se tornaram clássicas.

Tenho encontrado camaradas anarquistas a quem a tese de Carmem entusiasmava. "Livre para dar-se a um, livre para tornar e dar-se a outro!". Mas, por mais que me esforce, nada acho, na história de Carmem, que de longe ou de perto, se enquadre numa concepção qualquer de camaradagem. Só acho sofrimento, só conto vítimas. Pode transplantar-se o drama para outro ambiente, transformar os personagens de "Carmem" numa "grande dama" ou num filho de "importante família", e as situações não se modificarão. Um ser humano, argumentando com seu grande amor, arrasta outro a abandonar certo modo de vida e, logrado isto, impõe-lhe a separação.

A definição que o comunista-libertário Sébastien Faure nos dá do amor justifica o procedimento de Carmem, assim como vários outros procedimentos. Pode qualquer um escudar-se com a definição segundo a qual "o amor é espontâneo, inanalisável, caprichoso, irresistível", para justificar todas as possibilidades imaginárias de rechaço, abandono, rompimento, ciúmes, que pouca ou nenhuma relação tem com a mais elementar concepção de camaradagem amorosa, visto que esta é algo mais que um encontro fortuito em momento de reuniões distanciadas. Tenho por certo que entre camaradas que se frequentam assiduamente a aplicação da definição de Sébastien Faure engendraria inevitavelmente o sofrimento, como a seguir demonstrarei.

Tenho- me encontrado com certos místicos, que me objetam que "o sofrimento é necessário ao aperfeiçoamento ou evolução individual". Se assim é, porque clamar então contra o sadismo e o masoquismo? Não, o sofrimento não é fator de aperfeiçoamento individual, mas sim fator de vingança, de dissídia, de ódio, de inimizade, numa palavra, de empobrecimento ou involução. Concentrar todo o dinamismo individual na vingança ou na dissídia é encolher, secar até a esterilidade o uso das faculdades, que poderiam de outra maneira servir ao desenvolvimento ininterrupto da personalidade.

Não ignoro que há indivíduos, espiritualistas ou materialistas, que podem comprazer-se no padecimento, encontrando prazer na dor. Mas isto não é mais que um erro de expressão. Tal espécie de seres humanos encontra prazer naquilo que nos faz sofrer, naquilo que o nosso egoísmo reduz ou repele. É uma excepção que confirma a regra.

Não é o sofrimento que aperfeiçoa o indivíduo, mas sim a busca, a perseguição de experiências. Quanto mais experiências tiver realizado um ser humano, tanto mais se haverá aperfeiçoado ou enriquecido mentalmente, tanto maior consciência haverá adquirido das suas reações e aptidões, mais conscientemente se haverá dado conta da amplitude do seu determinismo. A investigação pode conduzir a uma tensão extraordinária do esforço pessoal (cerebral ou muscular, ou os dois ao mesmo tempo), mas nisso não há sofrimento nem dor, visto que tal tensão tem como finalidade a conquista de um estado de prazer melhor afirmado, melhor sentido.

Disse atrás que a definição que Sébastien Faure nos dá de amor ("espontâneo, inanalisável, caprichoso, irresistível") é susceptível de gerar sofrimento. E isto porque conduz ao rompimento brutal, ao abandono brusco, ao desapiedado "pior para ti", à deslocação cruel das associações afetivas, etc. Se o amor é "irresistível" e "espontâneo", é-o tanto para o solteiro como para a mãe de seis filhos, para o isolado como para o que vive em matrimônio, para a mulher e o homem jovem como para a mulher e o homem de idade. Em minha opinião, um comunista-anarquista não poderia querer, excepto se fosse perjuro, que se criasse uma classe privilegiada, a quem as circunstâncias econômicas (ou o seu direito de coabitação, ou a sua recusa a constituir família) colocassem em condições de aproveitar-se da definição do amor, tal como no-la formula Sébastien Faure, enquanto existisse uma classe deserdada, sacrificada, numa situação econômica, ou familiar, ou física tal, que não pudesse beneficiar-se de tal definição. E o elemento feminino seria a primeira vítima, coisa que o comunismo-anarquista não pode pretender, estou certo.

Os comunsitas-anarquistas jamais quiseram, com efeito, que no concernente a satisfações afetivas alguém seja sacrificado. O "Manifesto de Orleães", novamente aceito pelo grupo comunista-anarquista de Saint-Etienne, afirma que a organização social, que os seus redatores reivindicam, assentará sobre a livre organização de produtores e consumidores, associados com o objetivo de satisfazerem "todas as suas necessidades", entre elas as quais o manifesto cita as afetivas.

Do ponto-de-vista comunista, nada mais natural. Como imaginar uma associação comunista-anarquista em que as necessidades afetivas ficassem por satisfazer? Tal coisa é inconcebível. Não se pode supor que no seio de tal associação um produtor ou uma produtora fique exposto ou exposta a que se lhe negue uma afeição (neste caso, a afeição é um objeto de consumo, e assim o entende o "Manifesto de Orleães", visto que fala de necessidades afetivas). De outra forma, ter-se-lhe-ia prometido, a troco da sua produção "segundo as suas forças", a satisfação de todas as suas necessidades, e, no dia em que não servisse para nada, mandá-lo-iam ou mandá-la-iam passear. Isto é uma burla, dir-se-ia, e com razão. E em que situação moral se colocaria o autor da negativa?

Nas "necessidades afetivas" estão compreendidas as "paixões", como é natural. A sexologia mostra-nos hoje que os "apaixonados" podem ser excelentes produtores manuais ou intelectuais, mais completos até do que outros. Suponhamos uma associação cujos componentes dizendo-se "irredutíveis inimigos da moral oficial", que põem "tudo em comum", prometem dar a cada um "as possibilidades materiais" de desenvolver, em todos os sentidos, e a gosto de cada um, a sua individualidade". Como se arranjará esta associação se as necessidades da afetividade de algum dos seus produtores "apaixonados" forem objeto de negativa? Principalmente se estes produtores, de um meio inimigo da moral oficial, não tiverem qualquer motivo para negar-se a satisfazer as suas "necessidades"? Não se encontrariam então no direito de se queixarem de exploração?(3) Isto sem contar os produtores ou produtoras com algum defeito físico, e cujas necessidades afetivas, não obstante, podem ser tão fortes como as dos favorecidos pela Natureza. Sem contar os velhos de ambos os sexos, que sentem, não obstante, necessidades afetivas com características iguais às dos jovens. Freqüentemente, esta ou aquele desfavorecido pela Natureza é melhor produtor que os outros. Esta mulher de idade ou aquele ancião possuem, muitas vezes, maior capacidade, maior competência técnica ou mais conhecimentos experimentais, que a maior parte dos produtores jovens.

Solução radical consistiria em eliminar velhos e inutilizados. Mas o "Manifesto de Orleães" promete, precisamente, uma "parte igual de bem-estar", "particularmente aos velhos, enfermos ou menos dotados", categorias humanas cujas "necessidades afetivas" em nada cedem às dos outros, como no-lo mostram os fatos. As necessidades afetivas tanto podem ser variadas, simultâneas, plurais, refinadas, etc., como grosseiras ou únicas.

Não sei se os autores do "Manifesto de Orleães" pensaram em todas as conseqüências desta parte da sua declaração. Não se pode, porém, negar, em comunismo-anarquista, que por "recusar satisfação a necessidades afetivas" se entenda simplesmente a "recusa em satisfazer necessidades econômicas ou intelectuais". De outro modo, a organização comunista-anarquista seria inferior à sociedade burguesa, em que florescem as mentiras, as traições, as hipocrisias, e, o que é pior, a prostituição.

Além disso, defendo a tese de que uma sociedade, arquista ou anarquista, na qual as necessidades afetivas, duma espécie ou de outra, tropecem com a negativa do meio em satisfazê-las, implica ou requer a PROSTITUIÇÃO, ou outro sistema análogo, consistente em pôr a margem uma categoria de mulheres ou de homens destinada, em troca de remuneração adequada, a satisfazer os desejos os necessidades sentimentais ou sexuais daqueles ou daquelas a quem se opõem restrições ou recusas. E quem diz prostituição diz também proxeneta, rufião e cafetina.

Pode responder-se-me que estes problemas serão examinados... no dia seguinte ao da revolução. Assim se evita o debate, assim se foge ante a dificuldade! Significa isto, por outro lado, que não haverá comunistas-anarquistas até o dia-seguinte da revolução, isso é, que eles não existem atualmente. E se não há comunistas-anarquitas, como pode formular-se um programa, redigir-se um manifesto comunista-anarquista? Fraca solidez há nisto!

Em seus "Propos Subversis" (1920), capítulo "La Femme", o mesmo onde nos expõe sua definição de amor, o camarada Sébastien Faure considera, como eu, que o problema é de atualidade, visto que escreve: "Se no espantoso deserto, que é a vida para a maior parte de nós, se encontra um oásis fresco, repousante e alegre, no qual, chegada a noite e depois de haver, durante o dia todo, caminhando sob um sol abrasador, o viajante se sente feliz por encontrar a tranqüilidade, a amenidade e a frescura, a fonte que acalma a sêde de repouso e refrigério de que necessita, não deveria este oásis, camaradas, ser o amor?". Ora, um problema de atualidade, como este, deve ser resolvido agora, pois de outra forma os que recusam tratá-lo estão expostos, com razão, a que por isso os considerem impotentes para tal.

***

Aceito esta concepção do amor (que nada tem, aliás, de original), como um oásis no horrendo deserto da vida, oásis fresco, alegre e repousante, no qual não somente o militante, o propagandista ,como também o simples companheiro encontrarão descanso, refrigério, essa fonte sedativa de que têm necessidade.

Mas para que o amor seja este oásis acho que deve despojar-se dessa altivez romântica que o fazia "espontâneo, inanalisável, caprichoso, irresistível", atributos que o tornavam, na maioria da vezes, um sacrifício, um tormento, atributos que justificam os "ciúmes passionais", estado mórbido que leva até o cometimento de assassínios, exigindo medidas de precaução de ordem arquista.(4)

Para que o amor seja esse oásis, insisto em que deve ser despojado de seu caráter exclusivo, monopolizador, proprietarista.

Enquanto conservar este caráter, será de ordem arquista, pois que implica propriedade ou exclusividade de sentimento ou do corpo do ser a quem se diz amar, subtração ou usurpação de manifestações de suas necessidades amorosas, ameaças feitas mais ou menos ostensiva ou tacitamente.

Penso, enfim, que o amor é um sentimento perfeitamente analisável e que deixa de ser espontâneo, caprichoso ou irresistível, conforme se eduque.

E afirmo que, produto do organismo, este sentimento é um produto orgânico educável como todos os outros sentimentos, uma paixão cultivável como as demais paixões. Não estabeleço diferença entre o amor e a memória ou a respiração, a paixão amorosa e a paixão pela observação, por exemplo. A educação amorosa ou sensual ou sentimental é uma questão de vontade. E a própria vontade é educável.

Desde que o despojemos de seu romanticismo, que se faça dele um objeto de educação e de vontade, pode o amor ser o que Sébastien Faure chama "um oásis no deserto espantoso que é a vida", o que por meu lado chamo uma simples conseqüência da "camaradagem", tão somente. O amor, considerado como manifestação do companheirismo, ignora o monopolismo, o exclusivismo, os ciúmes, como também ignora a recusa e o rompimento.

***

Expliquemo-nos melhor. Admito perfeitamente que, até mesmo impostas, sejam a excusa e o rompimento manifestações da personalidade. Mas nego que sejam atos, gestos, provas, mostras de companheirismo. Se o companheirismo é um seguro ou pacto que contraem, para se garantirem mutuamente anarquistas dos dois sexos, por meio da eliminação do sofrimento no seio da associação, para se resguardarem contra os riscos da luta contra o meio hostil ou por cima do meio indiferente, não se concebe no domínio do amor, excusa ou rutura impostas. De outra forma é ir contra a própria finalidade do seguro. Se o companheirismo é questão de reciprocidade, de troca de serviços de toda a espécie, não se descortina a razão por que o amor deva ser eliminado da lista dos objetos de reciprocidade.

Tenho posto todo o meu empenho para que o meio a que tu e eu pertencemos se estabeleça, exista, prospere, para que as idéias que nos são mutuamente queridas se propalem e sejam acolhidas por um número cada vez maior de unidades humanas. Tenho oferecido aos meus companheiros de idéias todos os serviços compatíveis com as minhas aptidões e os meus conhecimentos. Tenho-te feito conhecer novos camaradas, aberto novos horizontes. Como compensação, quisera o teu afeto, manifestações de carinho (poderia pedir-te outra coisa: reciprocidade econômica, intelectual, recreativa, etc.), e tu recusas. Toma lá dá cá! Consumiste de mim. É graças a mim que a tua concepção de vida se dilatou, transformou, renovou. Que contraíste amizades, que sem mim não terias tido o prazer de conhecer, e agora recusas, justa reciprocidade, a que tome de ti. Bem sabias que eu não faço "nada por nada".

Na nossa associação de egoístas, se oferecemos os nossos serviços é para recebermos, em troca, alguma coisa. Pretendias obter ajuda sem reciprocidade? Repara que não apelo para a tua humanidade, para a tua piedade, etc. Trata-se, pura e simplesmente, de um pacto.

Conviemos em que, pela delicadeza das variadas manifestações da camaradagem, nos protegeríamos contra as asperezas da luta pela vida, edificaríamos o oásis cuja sombra nos resguardasse dos raios do tórrido sol que passa por sobre o meio anarquista. Pus todo o meu empenho, todo, em criar esta associação de egoístas, edificar este oásis. Mandar-se-me-á passear quando eu peça reciprocidade (econômica, intelectual) afetiva? Porventura um favor não vale outro? Se não tivesse esperado receber o equivalente do que dei, o egoísta que eu sou teria permanecido fora da associação. Não quero prejudicar os meus coassociados, mas tampouco ser por eles prejudicado. Toma lá dá cá! Sem o respeito a esta fórmula, de nada vale a associação.

Eis como se explica a tese da "camaradagem amorosa" do ponto-de-vista da ética stirneriana.

Perguntar-se-á se admito que se imponha o rompimento em matéria sentimental ou amorosa. Em verdade, fora do mútuo consentimento, concebo o rompimento somente no caso de que um dos dois amantes queira impedir seu companheiro ou companheira de ter afeição por outro ou outra, que não seja ele ou ela, sem querer por isso afastar-se, deixá-lo ou abandoná-lo. Este entrave, que pode manifestar-se em forma de ameaça de separação, aparece-me como um ato de autoridade, de arquismo, justificando, ampla e simplesmente, o rompimento.(5)

A "camaradagem amorosa", tal como a entendemos, admite também o casal, a família, a coabitação a dois ou mais (formas que podem ser do agrado de individualistas anarquistas, porque o seu egoísmo encontra nelas satisfação), visto que, única ou plural, concebe muito bem um centro afetivo e amores secundários, duradouros ou passageiros, evoluindo à margem deste centro.

Tampouco pretendemos que todos os individualistas anarquistas ou stirnerianos estejam aptos a conceber praticamente a nossa tese da "camaradagem amorosa", e admitimos de bom grado que o ponto-de-vista que estamos desenvolvendo não se revele eficaz senão em unidades ou associações limitadas em número. Razão de mais para advertirmos os que têm a coragem de proclamar a sua adesão a estas teses, de que, no caso de fracasso, ataque ou qualquer outro obstáculo, podem contar com o apoio dos seus camaradas partidários da liberdade de experiência em todos os domínios. Acrescento que por certos sinais me parece que a porção consciente e inteligente da humanidade se dirige para uma concepção de relações sentimentalo-sexuais muito parecida àquela a que sempre expusemos. Não devem deixar de ter isto em conta aqueles que trabalham pelo advento duma sociedade anarquista.

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1. Uma associação de camaradagem amorosa é uma cooperativa de produção e de consumo no terreno do amor. Numa cooperativa agrícola produzem-se e consomem-se artigos agrícolas. Numa cooperativa de calçado produz-se e consome-se calçado. Numa cooperativa de camaradagem amorosa produz-se e consome-se amor em camaradagem. Produtores e consumidores fazem parte da cooperativa para extrair dela os benefícios esperados, compreendendo-se que hão-de passar pelos riscos de desvantagens eventuais. Claro que se não tivessem encontrado mais vantagens na cooperação teriam permanecido isolados. E compreende-se que de uma cooperativa individualista possa quem quer que seja retirar-se de acordo com regras previamente convencionadas. Posto isto, não aceitamos do cooperador, enquanto o é, salvo no caso de força maior, excusa de produção ou abstenção de consumo. Não aceitamos que se encaixem os benefícios, se desta maneira se evita o tributo. No caso que nos ocupa, o princípio da "reciprocidade" tem sobre "a lei do coração" a vantagem de equilibrar a produção e o consumo, de suprimir o privilegiado pela aparência, o privilégio do "moço bonitão", ou da coquete, monopolizadores sentimentais ou eróticos; o monopólio do engraçadinho, da dengosa, dos "filhos de papai". Eis aqui porque somos partidários desta forma de associação individualista à base de seguro cooperativo, que designamos por "camaradagem amorosa".

2. Concebemos uma "cooperativa de produção e consumo de camaradagem amorosa" somente para uso dos que consideram as relações sentimentalo-sexuais mais no que concerne às relações mesmas, que relativamente aos produtores, tomados individualmente. Doutro modo, é mais a idéia e o resultado da cooperativa o que nos interessa e justifica a nossa comparticipação na empresa, que a própria pessoa dos cooperadores. Como são vários os métodos de seleção no recrutamento dos cooperadores, a liberdade de escolher reside na adoção de um método de seleção com preferência a outro.

3. No tocante ao rompimento do contrato de cooperação (que à vezes é a faculdade de subtrair-se às obrigações contraídas com a associação, depois de haver desfrutado os benefícios), não vejo que seja razoável fazer crer a um camarada que pode contar conosco, se não temos a intenção de respeitar o prometido. Em certos casos, o rompimento do contrato pode ocasionar grandes perdas para um indivíduo ou um conjunto, como prevenimos. Sustento, pois, que é necessário pensar bem, antes de romper o acordo que voluntariamente se adotou, pois de outro modo se expõe o indivíduo (esta é a sanção) a ser, daí em diante, apontado como pessoa em cuja companhia nada se pode empreender sem o risco de que, ao menor capricho, nos abandone. Por este motivo insisto em que o prévio aviso preceda o rompimento do contrato, de maneira que os demais cocontratantes possam prevenir a tempo os inconvenientes resultantes da carência do seu camarada.

O contrato entre os associados pode estipular, por exemplo, que a cooperativa está aberta das 14 às 22 horas. O que reivindico é que (salvo em caso de força maior), às 20 e 30, não depare com a porta fechada, porque "em anarquia, cada qual obra segundo lhe parece". O que quero é que, quando eu vá buscar um quilo de feijões, só porque a minha estatura, o meu peso ou a cor dos seus cabelos não agradem ao camarada distribuidor dos produtos, se me diga que é de bom companheirismo dar-se-me apenas 925 gramas.

Tínhamos convindo, quando aderi à cooperativa, em que encontraria ali determinados produtos, nitidamente definidos. Não é compreensível que, pretextando anarquismo, se me obrigue a fazer inutilmente duas horas de caminho. Deveria ter-se-me prevenido de antemão. É o mínimo que se pode esperar da camaradagem. Porque haverá de ser de outra forma uma cooperativa de produção e consumo de camaradagem amorosa?

4. Advogo, afim de se evitar todo equívoco, que se precisem aquelas manifestações de ordem sentimentalo-sexual que um coassociado há-de esperar encontrar numa cooperativa de produção e consumo de camaradagem amorosa. Não se trata de uma espécie única em valor sentimentalo-sexual. Trata-se duma associação com o objetivo de procurar tal valor ou valores bem definidos, determinados pelo nosso gosto, pois que, bem informados disto, não pode haver burla nem engano, nem caberá inquirir se se deu demais ou se se recebeu de mais, encontrando-se satisfeitos os gostos dos associados.

5. Não se admite que haja privilegiados numa cooperativa. Só porque a forma do meu nariz ou a cor dos meus olhos não agrade ao distribuidor de produtos, justificar-se-á que se me forneça salpicão de cavalo em vez de salpicão de porco, tal como estabelece o contrato? Que, fora da cooperativa de produção e consumo de camaradagem amorosa, tenha eu os meus "privilégios", tolera-se. Mas nela, NÃO! De que teria servido esclarecer-se-nos, antes de fazermos parte dela, sobre o que esperávamos uns dos outros?

6. Quanto ao "sacrifício" que pode implicar a cooperação, permita-se-me que remeta o objetante individualista, cem por cento, a Stirner, que me fará então o favor de reconhecer-me tão individualista como o fôra ele. Não deixará de objetar-se-nos que o acordo por nós concluído poderá ocasionar-nos posteriores aborrecimentos e que limitará a nossa liberdade. Dir-se-nos-á que, no fim de contas, nós também acabaremos reconhecendo que "cada qual deve sacrificar uma parte da sua liberdade no interesse comum". Mas não é de nenhum modo, em favor da "comunidade", ou de quem quer que seja, que se fará esse sacrifício, como tampouco o será pelo amor da "comunidade", ou de quem quer que seja, que eu firmei contrato. Se me associo, faço-o no meu interesse, e se algo sacrifício, será isto ainda no meu interesse, por puro egoísmo.

Desejaria saber como este objetante, se porventura é camarada, se sentiria numa cooperativa deste gênero, se, sendo ele privilegiado, outros camaradas fossem ignorados, postos de lado, repelidos. Pois é isto o que ocorre a cada passo nos centros burgueses, repito, e por isso vale mais abster-se de toda associação desta índole que tolerar nela o monopólio e o privilégio, mesmo após a seleção.

7. Quer se trate duma cooperativa de camaradagem amorosa, quer de outra associação qualquer, com não importa que fins, há benefícios e há incovenientes com que contar, seres e coisas que agradam mais ou menos. Feita a seleção, creio não ser necessário voltar ao assunto, visto que se examinaram de antemão todas as possibilidades e modalidades de "comportamento". Sem isto, é inútil associar-se. Antes abster-me, que perseguir um empreendimento com pessoas a quem importa pouco a clareza das relações inter-humanas, ou que não sabem o que querem.

tradução de Roberto das Neves

De cada 10 mulheres assassinadas no Brasil hoje em dia (século XXI), 8 são mortas por seus atuais "companheiros" ou "ex-companheiros" (maridos, ex-maridos, namorados, ex-namorados,). O que significa que as mulheres costumam dormir e transar com seus mais potenciais assassinos entre todos os homens e mulheres [Nota do Digitador].

2 Não se trata aqui da Antigüidade nem da Idade Média. Os dados a que me refiro foram colhidos na imprensa cotidiana de diversos países, no período de 1927 a 1928. O vitríolo, de que ciumentos tanto se utilizaram até o aparecimento da "brouwing", está já fora de moda.

 3 Apresentaram-me o caso de um velho camarada perdido por jovens. Dá-se a esta inclinação o nome de "pedofilia". A sexologia reconhece hoje que esta afeição encontra correspondência na amizade que experimentam certas jovens e mulheres pelos mais velhos, a "presbiofilia". Um centro logicamente constituído poria em relações pedófilos e presbiófilos. Basta estar a par da questão para compreender-se que cada "paixão" poderia, assim, encontrar eco sem causar a menor perturbação "moral" no meio.

4 Isto explica o plano de "casas de satisfação física" submetido recentemente ao comissariado de Higiene e ao comitê central do Partido Comunista russo por um membro deste, de nome Saiko, residente em Rostoff, no Don, e funcionário do conselho regional de Cultura Física. Insatisfeito com os resultados até agora obtidos na Rússia soviética, parte do princípio de que é necessária uma reforma radical na "utilização" dos sexos com o objetivo de criar "novas formas de correspondência sexual". Se a informação é exata, Saiko não faria outra coisa senão trazer novamente à luz um projeto acariciado por certos utopistas da Segunda metade do século 18.

5 Não vale a pena falar dos casos de violência ou traição, como justificação do rompimento por imposição.

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