ENTREVISTA BINHO NUNES
Inovador, criativo, radical, artista, s�o apenas algumas das qualidades de Binho Nunes. Ao contr�rio do que seu visual sugere (cabelo vermelho dessa vez e v�rias tatuagens), Binho, fora d�gua, � um cara calm�ssimo. Se deixar, ele esquece do mundo tocando seu viol�o e pintando suas pranchas. Mas sua personalidade muda completamente quando entra no mar. Agora que ganhou uns quilos, seu surf tem mais press�o. � imposs�vel v�-lo aliviando nas manobras: s�o batidas e rasgadas jogando �gua e rabeta pra todo lado. Um verdadeiro show man. D� vontade de ficar assistindo o cara surfar e tentar adivinhar qual ser� sua pr�xima manobra, ou se ele vai conseguir sair daquele tubo cavernoso. Mas como todo artista � muito exigente em rela��o a suas obras, Binho raramente est� feliz

com suas performances. Um desequil�brio m�nimo depois de uma manobra, que passaria desapercebido por qualquer um, � o suficiente para ele achar que aquela onda foi ruim. Um artista deve pensar assim, mas n�o um competidor. Ser� que algu�m pode ser artista e competidor, ao mesmo tempo?

Por que voc� resolveu parar de competir em 2001?

Resolvi abandonar o Circuito Brasileiro porque acho que o sistema est� muito ultrapassado e defasado, e acho que a comiss�o t�cnica quer comandar o surf. Os caras est�o nas cabe�as e tudo que eles decidirem, n�s vamos ter que seguir. N�o acho isso certo, pois Tinguinha, Piu, Guga Arruda, eu e v�rios outros surfistas quer�amos uma renova��o no quadro dos ju�zes. Eles aceitaram, chamaram alguns ju�zes da nova gera��o e os competidores aprovaram. Mas a partir de algumas etapas, os surfistas queriam ver caras novas no julgamento e crit�rios novos tamb�m. No come�o do SuperSurf, o Gadelha disse que haveria essa renova��o, que o julgamento seria em cima de surf progressivo, inovador e com estilo, mas nada disso aconteceu. Participei do Circuito Brasileiro inteiro e achei que o julgamento n�o ajudou em nada, tanto que perdi e fiquei fora do SuperSurf. Desanimei. E agora que estou fora, n�o vou competir em 2001, vou me dedicar ao free surf e trabalhar com meu patrocinador, desenhando roupas e fazendo milh�es de coisas l� dentro. Vou dar um break de um ano, e pensar o que vou fazer ano que vem. Quero surfar, surfar soul mesmo, de esp�rito, ir l� e fazer a cabe�a. O ano que passou n�o fiz a cabe�a e isso foi a gota d'�gua.

O seu patrocinador te apoiou nessa decis�o?


Total. O Rick Werneck � o cabe�a do marketing da Hawaiian Dreams e ele sabe que, mesmo que eu saia da competi��o, vou estar divulgando a marca, fazendo trips, v�deos, desenhando e tendo um contato maior com o marketing. Vai ser at� melhor do que quando eu estava competindo, porque durante as competi��es, ficava muito distante. Sempre opinei nas coisas, tipo cores, design, caimento, etc. Agora vou poder trabalhar esse lado e, de repente, posso criar algumas coisas e descobrir que tenho um dom de verdade. Estou amarrad�o quanto a isso.

No seu primeiro ano como profissional, voc� quase entrou no WCT. Ficou em segundo lugar no Hang Loose, no Guaruj�, e depois ganhou o Sea Club, em Ubatuba (etapas do WQS). O que aconteceu que os resultados pararam de aparecer com tanta facilidade?

Nesse primeiro ano, estava com a cabe�a bem livre de qualquer bloqueio, n�o pensava muito nas coisas, nos pepinos... Tinha apenas 17 anos. Comecei a correr o Circuito no final de julho, na Calif�rnia, depois fui para a Inglaterra, nem corri na Fran�a. Come�ou em seguida a "perna brasileira", estava totalmente free, com a prancha no p�, s� pensava em me dar bem. Fui bem no Hang Loose, depois fiquei em 9o no Sul, o campeonato seguinte ganhei... Aquele foi um momento de �xtase para mim, competir era a coisa mais maravilhosa do mundo. No ano seguinte, achei que iria dar tudo certo para entrar no WCT, mas dei uma relaxada, queria pegar ondas boas, queria surfar com uma linha mais legal, pois achava que alguma coisa estava errada. Foi a� que comecei a botar alguns pepinos na minha cabe�a, "tenho que mudar isso, aquilo, aprender a surfar de borda". Depois dos campeonatos em que me dei bem, fui para o Hawaii e, ao inv�s de ficar dois meses e voltar pra casa, fiquei logo seis meses. E, quando voltei, n�o conseguia surfar direito, at� engatar no rip das marolas demorou uns dois meses. Fui competir na Europa, estava com uma prancha m�gica, mas eu era muito doido em rela��o a ser profissional. Fui para Europa com apenas duas pranchas, uma m�gica e outra mais ou menos. Entrei em Zarautz (Espanha) com o mar grand�o e quebrei minha prancha logo na segunda onda, da� tive que ir para a bateria com um toco. A partir disso, perdi todos os campeonatos de cara. Cheguei no Brasil sem prancha, desanimado. No Brasil tamb�m n�o arrumei nada. Como em 94 eu havia terminado bem perto de me classificar para o WCT, fui chamado para correr o Pipe Master de 95, fui bem e fiquei amarrad�o. Em 96 n�o tive bons resultados, pois me machuquei, torci o joelho, fiquei quatro meses de molho, s� consegui um resultado bom no final do ano, quando ganhei no Cear�. Nos outros anos tive v�rias contus�es, e n�o consegui segurar a onda. A �ltima que tive foi em 97 e fiquei seis meses fora d'�gua e parecia que tinha perdido o ritmo totalmente. Voltei em 98, meio desanimado... Cada vez mais eu estava me afastando das competi��es e procurando o outro lado, que seria o free surf, fazer a cabe�a e trabalhar com meu patrocinador.
Voc� tem uma previs�o de quando vai voltar a competir?

N�o tem nada programado. Este ano quero viajar muito, ir para o Tahiti, Indon�sia, Ilhas Maur�cio, fazer v�deos etc. Ano que vem, quero passar um temp�o no Hawaii, e l� � que vou parar e sentar... Se bater a vontade, vou voltar as competi��es.

O fato de ter se tornado profissional com 17 anos e sair viajando pelo mundo atrapalhou sua carreira?

Acho que n�o, aprendi muita coisa viajando desde cedo, a me virar, respeitar as pessoas, falar outras l�nguas... O que pesou mesmo foi n�o estar preparado profissionalmente. N�o achava que precisaria de um quiver, achava que apenas uma prancha bastava, era s� ir l� destruir e pronto, achava que, com as manobras que fazia na �poca, iria conseguir as coisas f�cil. Quebrar uma prancha n�o estava nos planos, a� passava umas roubadas e n�o conseguia sair daquela situa��o, ficava frustrado. Deixava de passar umas baterias porque estava com um puta toco. Se tivesse tido uma base melhor, quando entrei no Circuito, talvez tivesse me sa�do melhor.

Fala um pouco da sua atua��o no Pipe Master de 95. Acredito que esse tenha sido o seu melhor momento, em termos de surf competi��o.

Competir em Pipe sempre foi meu sonho. Desde moleque eu olhava as revistas, e minha vontade era de estar l�. Depois que surfei pela primeira vez l�, minha vontade passou a ser a de competir em Pipe. Quando pintou a oportunidade, eu entrei de cabe�a.

Em nenhum momento fiquei com medo, n�o queria saber quem estava l� fora ou quem estava julgando, s� queria pegar minhas ondas. Fiz o que deu, pra minha idade achei que botei pra baixo. Dentro dos padr�es do surf brasileiro, fiquei muito satisfeito com o que fiz naquela �poca. E com certeza esse foi o auge da minha carreira como competidor at� agora. Desde esse campeonato eu agrade�o muito o fato de estar envolvido com o surf e com a competi��o.
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