Há uns 30 anos que os primeiros classificados nos vestibulares são chineses, coreanos e japoneses. Há 30 anos que não se ouve mais falar neles depois desses minutos de glória. O que será? Onde se meteram depois da decoreba?
Há três anos venho acompanhando os vestibulares de perto. Você já viu as provas, as questões que caem? O que é que um cara que vai fazer artes cênicas tem a ver com a plataforma marítima do Sul da Austrália? E a curva de Gauss? Unificaram tudo. Aliás, todas as provas de vestibular em São Paulo, acompanhei de perto. Não passaria nem em português. Com exceção da Unicamp e da PUC-São Paulo, as provas foram feitas para chineses, por professores que não falam – absolutamente – a mesma língua dos estudantes. E você, aí, bem posto na vida, passaria numa Fuvest hoje em dia? Tenho certeza que não.
Cada vez mais me convenço de que as questões falam de uma realidade e os jovens vestibulandos vivem outra. Os vestibuladores (deve ser o nome dos que "bolam" os quesitos) não passariam por um vestibular preparado pelos estudantes.
Por exemplo: "quem não tem colírio, usa óculos escuros." O que um vestibulador diria disto? Tudo, menos o certo: o assunto refere-se ao uso da maconha.
Será que os vestibuladores sabem o que é:
Animal? Não, não é nem bicho nem Edmundo.
Bagana? Tribo xingu ou planta rasteira? Pergunte ao seu filho.
Balada? Elvis Presley? Como você está por fora, meu caro professor.
Básico não tem nada a ver com o curso que ele já fez e muito menos com algo essencial.
Beata. Seu filho vai rir se você disser que beata é aquela velhinha que vai à igreja todos os dias. Peça uma para ele.
Becado. Não, senhor, professor, não tem nada a ver com vestimenta de magistrado ou juiz.
Se você acha que a Bic é usada só para escrever, nunca viu um paraíso artificial pela frente.
Há muito tempo que boquete não é mais uma entrada estreita, como diz o Aurélio.
E breaca, irmão? Consegue imaginar o que seja uma mulher breaca?
Brilho há muito tempo não significa o jeitão que ficou o seu assoalho.
Brizola deixou de ser político há muito tempo. Sua filha, Neuzinha, que o diga.
Chavecar, com ch ou com x, não é mais andar de embarcação. Sabia?
Cheirar? É mais ou menos como tirar o pó dos móveis.
Cinira não é mais nome de mulher. Parece sinistro, não parece?
Dar um tiro não significa mais tentar acertar um alvo ou deixar uma bala perdida por aí.
Ficar é incrível. É quase o contrário de ficar estático.
Fileira não tem mais nada a ver com fila. A não ser com a fila que fica atrás da fileira. Entendeu?
Galera. Nem antigo navio nem torcida. Pergunte para a galera da sua casa.
Gererê? Tribo indígena? Tu tá por fora mesmo.
Matar! Tão gostoso alguém perguntar a um jovem: quer matar? Não, pode matar você mesmo.
Mó. Pedra de moinho? Palavra de palavras cruzadas? Mó erro.
Não fique preocupado se você não souber o que é noiada. Não vai cair na prova. Bilac também não sabia.
Pá. Há muito tempo que deixou de ser um objeto. A não ser que você se considere um objeto do seu filho.
Paranga. Você é uma trouxinha se não souber o que é isto.
Peteca. As petecas estão cada vez menores e mais caras. Já percebeu?
Racionais. Há de se ouvir um bom racional. Percebeu, meu caro vestibulador, como você está por fora e fica a julgar os jovens muito mais racionais que você?
Sarado? Não professor, um jovem sarado ou saradinho nunca esteve doente. Muito pelo contrário.
Tipo se você sipar sarado e sirolar não vai sujar, tá ligado? Ou você está nessa viagem?
E os cursinhos, então? Alguns, mais caros que um ano em Harvard ou Berkeley. Isto é que é Primeiro Mundo!!!
Afinal, e por fim, mas não menos importante, gostaria de perguntar aos doutores mestres:
Dentre as alternativas abaixo, qual não descreve a instituição cursinho?
a) Leito estreito e pouco profundo das nascentes dos rios do centro-oeste capixaba;
b) Engodo semelhante à auto-escola, conveniado ao Detran e ao MEC;
c) Ritual de passagem judaico-cristão que tem, no sofrimento e na autopenitência, seus alicerces;
d) Lobotomia grupal, visando a aniquilação dos instintos e da criatividade pessoal;
e) Curso intensivo de truco, jogo de baralho violento e ruidoso, muito comum em finais de milênios. Uma espécie de clubão;
f) Concentração inútil de jovens talentosos, com finalidade econômica, de fins culturais ainda não conhecidos;
g) nenhuma das respostas anteriores.