Salve-me que puder!!
- gggggEstou na segunda-feira. Diz
o relógio aqui do computador que são exatamente 12h19.
Acabou de mudar para 12h20.
gggggJá havia acabado de escrever esta
crônica, já devia ter mandado para a redação. Estou
atrasado. Resolvi reescrever tudo. E você vai entender o
porquê.
gggggHavia escrito uma crônica sobre a
quantidade de coisas que mandam para eu ler. Leitores e
leitoras. Uns mandam pelo correio, outros por e-mail,
outros telefonam.
gggggUns, mais assanhados, ousam deixar
na minha portaria. Teve até um que entrou no meu
apartamento com seus textos, às 9 da manhã. Uma
autêntica invasão de privacidade intelectual.
gggggMe faz lembrar uma crônica do meu
querido Caio Fernando onde ele implorava aos leitores que
não mandassem texto para ele, que ele não iria ler
mesmo.
gggggE não são só os leitores. Mandam
texto para o meu pai, lá em Uberaba. Ele manda para mim.
Minha irmã mais velha telefona e diz que a prima
fulaninha "está com uma filha de 18 anos muito
inteligente e"... Lá vem texto.
gggggE a vizinha de frente da minha irmã
mais nova que deu para escrever? Me manda por e-mail.
gggggE a mãe da amiga da namorada do meu
filho que é minha fã número um e anda fazendo umas
poesias e...
gggggE aquele amigo dos anos 60 que tem
um amigo que tem uma idéia que é a minha cara? Meu
Deus, como será a minha cara? Dá uma novela que
"só você pode escrever".
gggggE aquelas que mandam cinco contos,
eu não dou retorno, elas mandam mais cinco e, ainda por
cima, me dão um esporro porque eu não disse nada?
gggggE os 18 calhamaços que estão aqui
na minha estante, de gente que eu nunca vi mais gordo (ou
gorda) me pedindo prefácios?
gggggSomente em 1997 eu escrevi seis
prefácios. Seis! De livros que eu gostei, é claro.
gggggHá alguns que têm uma idéia e
cismam em escrever comigo. Minha amiga: não se esqueça
de que eu também tenho, às vezes, idéias. Por que iria
escrever a sua idéia? Pense um pouco nisso.
gggggEu queria dizer para esse pessoal
todo, duas coisas: primeiro, não sou editora. Segundo:
não sou crítico literário.
gggggFico até mesmo com medo de dizer
que uma coisa é boa, a pessoa levar-se a sério e eu
ficar responsável. O inverso pode ocorrer: dizer que é
um horror e estar diante de um gênio ou gênia.
gggggTem aqueles que dizem: minha avó
está escrevendo a vida dela. A vida dela dá um romance.
Meu filho, digo eu, toda vida dá um romance, dá uma
novela, um filme. Basta saber escrever. O que são outros
quinhentos.
gggggEu dizia que estava a escrever isso
tudo e reescrevi. Entre as 9 da manhã e agora (12h49)
recebi dois telefonemas. O primeiro, da veterana e
excelente atriz, minha amiga e afilhada Ruthineia de
Moraes. Diz que vai me mandar quatros contos dela. Quer
que eu "encaminhe".
gggggO segundo, de uma senhora (d.
Conceição) muito simpática e falante que, com a
sabedoria de quem já passou dos 80 anos, depois de me
repreender por às vezes criticar o papa, me informa que
está escrevendo a vida dela e dos filhos já mortos e
alcoólatras. Me diz que já escreveu um terço do livro
e, se for necessário, me paga para dar uma orientação.
Duas mulheres inteligentes, simpáticas, gente boa.
gggggVamos fazer o seguinte: vou ler com
todo o carinho os contos da Ruthineia e o romance da d.
Conceição. E, com essas duas madrugadoras
escrevinhadoras, vou dar por encerrado este capítulo da
minha vida.
gggggVou fazer como o Carlos Heitor Cony,
o Fernando Sabino e o Campos de Carvalho. Quando eu
estava começando este meu ofício, mandava tudo para
eles. Eles nunca responderam nem se devem lembrar daquele
garoto pentelho de Lins. Valeu a pena: hoje somos grandes
amigos.
gggggE hoje, tantos anos e livros depois,
não tenho mais coragem de pedir um prefácio para eles.
gggggSerá que eu fui claro?
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