Depois que eu soube que dois garotos, procurando a mula
Juliana, chegaram até a casa de d. Eugênio Sales, onde
o papa estava hospedado, comecei a imaginar que a
segurança não devia estar lá essas coisas. Liguei para
o 102 do Rio, pedi o telefone do dono do papa e eles me
deram na maior.
- É da casa do d. Eugênio?
- Sim, senhor.
- Quem fala?
- É a Creuza.
- Creuza, o papa já acordou?
- Já sim, senhor.
- Pode me chamar, por favor?
- Segundinho. Quem deseja? Vou ver se ele pode falar.
Donde é?
- Daqui da terra mesmo.
- Pastoral da Terra?
- Isso.
Eu sei que você não vai acreditar e os colegas
jornalistas vão ficar morrendo de inveja. E não é que
o homem veio ao telefone? De longe eu já ouvia a
batidinha do cajado dele no chão.
- Deus te abençoe, filho meu.
Tremi.
- Bênção, papa. Como vai o senhor?
- As juntas, filho meu. Fora a gota, o lumbago...
- Queria falar com o senhor sobre cultura.
- Ah, gostei muito da música que o Chico Buarque de
Netherland compôs pra mim, Karol-line. Percebi
que tem uma crítica velada quando ele diz "o tempo
passou na janela, e só Karol-line não viu". Sei
que ele quis falar na janela do Vaticano, que eu não
estaria vendo o mundo passar. Em consideração ao pai
dele eu perdôo.
- E teatro, santidade, o senhor, que foi ator, até
escreveu uma peça...
- Soube que tem uma peça de um autor carioca - e eu sou
carioca! - que tem um título muito edificante. Vou ler
na volta.
- O senhor se lembra do título?
- O título, filho meu, vem ao encontro de tudo o que
tenho dito: Toda Nudez Será Castigada, conhece?
- O senhor está gostando do tratamento que estão lhe
dando no Brasil.
- Tudo muito bom, filho. Apenas d. Eugênio que não
tampa a pasta de dentes.
- E a família brasileira?
- Filho meu, se os três filhos do presidente Cardoso
vivem como amantes, sem os sagrados sacramentos, imagino
o resto da nação...
- Futebol, viu alguma coisa?
- Sou Flamen, te uma nega chamá Terê.
- O senhor soube que o Zé Celso está representando o
senhor no teatro?
- Não vi a peça, mas já mandei ordens para o bispo de
Araraquara. Vamos tomar providências.
- E os sem-terra, papa? Encontrou com algum deles?
- Não, sei que saíram na Playboy.Mas
não vi. Sou meio São Tomé... D. Eugênio acha melhor
não. Ele não compreende que eu preciso ter uma visão
mais detalhada dos problemas do campo.
- E, por falar em campo, desta vez o senhor não beijou o
chão brasileiro. Por quê?
- Beijei na época da ditadura e do Collor. Porque me
diziam que havia muita sujeira. Agora, não. Desta vez
não vi nenhum mendigo, estava tudo lavadinho, pintadinho
de novo.
- E o abominável, santo homem?
- O abominável é um crime abortável (riu da própria
piada, engasgou, d. Eugênio deu uns tapas nas costas
dele).
- A comida brasileira, gostou?
- Sim, queria agradecer os frangos que a dona Sylvia me
mandou e, infelizmente, nada acabou em pizza. Não
aguento mais comer pizzas na Itália. Lá também tudo
termina em pizza.
- Aquele escândalo do Banco Ambrosiano...
- Nada a declarar.
- Desculpa, santidade. O senhor viu TV no Brasil?
- Vi um jogo do Fluminense. Santo Deus da Cracóvia! Vou
rezar pela equipe. Não devemos nos rebaixar nunca. Vou
rezar para todos os Santos, o São Paulo, o Santo André,
o São Bento, o São Caetano, o São Bernardo, o Santa
Cruz... calma, d. Eugênio, já vou. Mania de mandar em
mim!
- O senhor tem falado com Deus?
- Sim, estive com toda a família dele. D. Ruth parece
não gostar muito de mim...
- Muito obrigado, santidade.
- Escuta, me explica uma coisa. Essa palavra
"precatório" tem alguma coisa a ver com
"pecado"?
- Tem. Muito. E muito obrigado pela atenção.
- Pois é, meu filho. Agora tenho de ir para o aterro
ouvir o Roberto Carlos cantar Jesus Cristo. Fazer
o que, é a vida. Que Deus abençoe sua família, filho
meu. Aliás, o senhor tem família?