ENTREVISTA:OPINIÃO NACIONAL

ENTREVISTA QUE O MARIO PRATA DEU PARA O "OPINIÃO NACIONAL" EM ABRIL/MAIO DE 1998.

 

HERÓDOTO BARBEIRO

Mario: Eu tive 12 vidas, mas iria ficar um livro muito grosso, e eu pessoalmente não gosto de um livro grosso. Eu optei por publicar 6 que eu gostei mais.Gostei mais das mulheres do que de alguns homens que eu fui, fui umas mulheres interessantes.

Heródoto: Eu vi o primeiro capítulo que é da irmã do Lázaro, e agora eu fiquei sabendo que você encomendou pesquisa, você pegou a pesquisadora e mandou pesquisar o ambiente histórico pra você escrever em cima, agora...Eu conheço outros livros de ambientação histórica, desse período, por exemplo, eu conheço um livro excelente, "Uma Vida de Jesus" de Giovani Pappini. Você lê aquilo e é como se  tivesse vivido na época. Há também os livros do Rochester(?), acho que você já ouviu que são ditos psicografados, que eu não vou entrar no mérito se são ou não, mas que faz uma reconstituição muito maior...Você não acha que tá pobre a reconstituição histórica das personagens? Eu tô falando só do primeiro que eu li...

Mario: Não.

Heródoto: Não tá muito pobre, não? Mario: Não, não. A reconstituição que esses autores fazem são mais históricas, a minha reconstituição é alimentação, os tipos de comida, tem até receita da Ana, primeira personagem, né? O que eu quis fazer mesmo é comportamental, não foi História, embora fala quem era o presidente, quem era o rei, quem era isso tudo...Mas não era essa a preocupação. Heródoto: Sei. Vamos deixar o histórico de lado e falar da vida cotidiana...

Mario: Mas não são livros de vidas passadas. Tô falando esses de vidas passadas que eu li recentemente, sem citar nomes aqui, eu sentia isso, você não pode comparar livros de ficção como Giovani Pappini, que era um estudioso...

Heródoto: Não, estou só falando porque a gente imagina o cotidiano da vida de Cristo. Mario: Mas é isso que eu quis. Heródoto: Aliás eu não sabia que a Santa Ceia na sua taberna...

Mario: Foi na minha taberna...(risos)

Heródoto: Então não é como foi pintado, né?

Mario: Isso é verdade, a Santa Ceia não foi feita como se fosse novela da Globo, todo mundo come virado pra câmera, era uma mesa redonda e parece que era mais de uma mesa. Era a turma "dele" sentada ali. Incluvise, uma coisa que eu não pus no livro, que ia até pegar mal...Jesus usava rabo-de-cavalo, não só ele, mas todo o pessoal.Naquela época era muito comum homem usar rabo-de-cavalo..Não devia chamar rabo-de-cavalo.

Heródoto: E aquilo de que Cristo não tinha barba, foi tirado de onde?

Mario: Não tinha, cresceu depois.

Heródoto: Isso é verdade?

Mario: É, é. Têm vários historiadores que falam que isso é real.

Heródoto: Mas você não acha que isso vai virar uma grande confusão, Mario? Porque tem um pouco de História, mesmo aí tem um pouco de ficção...Tem uma pergunta aqui do Abinael Amaro, de Natal-RN : " Como é que você pode provar que já foi outra pessoa no passado? "

Mario: Eu tô dizendo que é um livro de ficção. Eu acho que a pessoa que lê esse livro verá que é ficção.

Jornalista: E até o psicanalista...

Mario: Leonardo Ramos. Tem consultório na rua Dr. Bacelar.

Jornalista: É tudo criado.

Mario: É tudo criado. No livro, a relação do psiquiatra comigo, com o autor, é uma relação que qualquer pessoa percebe que é impossível, é ficção.

Heródoto: Prata, porque você escolheu essas épocas e não outras?

Mario: Aí foi...

Heródoto: Aleatório?

Mario: Foi. Os personagens eu sei porque eu escolhi, as épocas são as que eu gosto. Por exemplo, o descobrimento do Brasil acho riquíssimo...

Heródoto: Esse índio...

Mario: O Anhangá.

Heródoto: Aparece no quadro?

Mario: Não, não. O Anhangá foi o seguinte: eu peguei a carta do pero Vaz de Caminha, que descreve exatamente desde que chegaram e viram os índios, levaram para o barco, aí eu fiz exatamente o contrário. O Anhangá é a carta do Pero Vaz de Caminha, quando o Pero Vaz de Caminha leva os índios pra dentro da nau principal. Foi um encontro. Eu fui um dos que foi lá. Ele mostra uma galinha pros índios. Os índios se assustam porque não tinham galinha, bica. Aí, como Anhangá, eu falo o que tinha de plantação, de bichos. Falo da Primeira Missa, como é que ela foi, e os índios...

Heródoto: Participaram da Primeira Missa?

Mario:Assistiram, comungaram. Ele mandou um cara ver o que eles estavam colocando na boca. O cara foi lá, experimentou e viu que era farinha. Então tem esse lado que eu acho legal.

Jornalista: E tem também uma coisa, que você é muito humorado e os seus textos são bem humorados. Isso tem haver com querer tirar aquele estigma que ficou da síndrome do pânico, de brincar um pouco com aquilo que foi bem pesado pra você?

Mario:Não, eu acho que todos os meus livros tem esse humor. Eu não sei escrever sério. Esse livro, talvez, até no começo, eu imaginava tentar fazer uma coisa séria, mas pinta, entende? Rola humor, é uma coisa nata.

Heródoto: Mario, o Sr. Antônio Carlos quer saber o seguinte: se você " acredita que pessoas com espírito extra-terrestre vivem entre nós? ".

Mario: Eu acredito em tudo. Acredito muito em disco-voador, por exemplo. Eu adoraria viajar num disco-voador, é um dos sonhos da minha vida. Se perguntassem: " O que você gostaria na vida? ". Só que eu iria pra onde eles quisessem.

Jornalista: É um bom tema para um livro de ficção?

Mario: É. Mas se eles chegarem, se eu ver...Eu vou, vou onde vocês quiserem, eu faço as experiências que vocês quiserem comigo, só que tem uma coisa, eu quero voltar num " Fla-Flu " no Maracanã (risos), final de Copa, porque se me deixarem atrás do morro, eu vou chegar aqui no programa e falar: " Sr. Heródoto, eu tive lá...sozinho, só eu ". Então, tem que descer alí. E mais, eu não dou entrevista, eu vou escrever um livro...Já li um livro de um gaúcho que tava lá na plantação dele, e foi pra um lugar desses. Um livro que ele mesmo editou, um pouco melhor que mimiografado e é impressionante a capacidade, e me convenceu porque ele chegou lá, um sujeito humilde, tiraram a roupa dele...E sumiu a roupa de camponês dele, aí um dia ele foi num lugar e viu a roupa dele e começou a chorar. Através da roupa ele começou a sentir saudade daquilo, da mulher. É um negócio muito verdadeiro aquilo, entendeu? Então eu acredito.

Heródoto: Mario Prata, obrigado pela gentileza da participação.

Mario: Não, eu é que agradeço.

Jornalista: Sucesso para seu livro.

Mario: Muito obrigado.

Jornalista: Obrigada.

 



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