ENTREVISTA DO JORNAL DO BRASIL
hENTREVISTA QUE O MARIO PRATA DEU PARA O JORNAL DO BRASIL, NO DIA 26/09/1998.
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"Minha picaretagem é outra"
MARILI RIBEIRO
No prelo para ser editado em Paris, o último sucesso do escritor e dramaturgo Mário Prata, Minhas vidas passadas - a limpo (editora Globo), trata da regressão a vidas passadas. É mais uma bem-humorada tentativa de ironizar um tema em voga. Prata vem acumulando sucessos (Minhas vidas vendeu cerca de 70 mil exemplares), mas garante que descobriu este filão por acaso. Já tem na bagagem pelo menos duas obras no mesmo gênero, o Diário de um magro, que explora os dramas dos gordinhos nos spas, e Schifaizfavoire, onde debocha das diferenças do uso da língua portuguesa entre brasileiros e lusos. Aos 52 anos, sempre disposto a assumir uma boa gozação, ele escreve para teatro e TV. Para completar o orçamento - que inclui sustentar dois filhos - batuca crônicas para jornais e revistas. Intrigado com o sucesso de livros esotéricos, ele resolveu conferir a fórmula. "Achei que era tudo ficção. Só que disfarçada. Resolvi então escrever minha versão assumindo que era ficção. Minha picaretagem é outra".
- O livro Schifaizfavoire (dicionário de português editado em 1993) foi o primeiro de um série voltada para aproveitar situações em evidência?
- Logo que cheguei a Portugal para ficar 15 dias, acabei ficando dois anos, comecei a ouvir essas palavras que são diferentes e fui anotando no computador de brincadeira. Um dia na casa de uma amiga comecei a ler e ele sugeriu que eu publicasse isso. Foi aí que fiz uma pesquisa séria sobre o assunto. Ou seja, pintou acidentalmente e deu certo. O livro que foi feito dentro desse espírito mais oportunista, ao se aproveitar de um momento, é realmente esse último: Minhas vidas passadas (a limpo). Nem mesmo o livro Diário de um magro (aliás o título não é meu, e sim do Fernando Morais) foi programado. Também aconteceu sem querer. Fui para um Spa acompanhando o Fernando e acabei como sempre faço, anotando no computador uma série de histórias absurdas que ouvi por lá.
- Quase todos nasceram circunstancialmente, mas acabaram vendendo bem, certo? Isso não acabou funcionando como estímulo?
- O Diário de um magro entrou para a lista dos mais vendidos, mas nunca passava do segundo lugar. Os primeiros lugares sempre mudavam e eram sobre temas relacionados com vidas passadas ou algum tipo de esoterismo. Foi aí que eu resolvi ler esses livros e saber qual era a deles. Achei que era tudo ficção. Só que disfarçada. Resolvi então escrever minha versão assumindo que era ficção. E aconteceu o fenômeno inverso: as pessoas que me lêem acreditam que seja verdadeiro. Nos livros que li sobre o tema, percebi que o que me interessava não era o fato de alguém assumir que tinha vivido na China dos século 12, mas sim o que rolava em torno. Como eram os costumes a vida social e política de então.
- Foi por isso que você investiu numa séria pesquisa histórica?
- Foi. Recorri à historiadora Angela Marques da Costa. Foi um trabalho muito rico. Qualquer um menos avisado, lendo as minhas "vidas passadas", vai pensar que são verdadeiras. Tem até receitas da época em que vivi. Foi um livro escrito de sacanagem, mas os outros não têm nada a haver com isso.
- Em termos de vendagem como estão as obras dessa sua fase como escritor?
- Não sei precisar. Mas O diário de um magro vendeu entre 60 e 70 mil, o que é muito livro, porque com dois mil exemplares você satisfaz a editora e com quatro mil entra na lista dos mais vendidos. O que também é um parâmetro de como se lê pouco no país. Os outros também estão vendendo bem.
- Qual sua opinião sobre o trabalho de Paulo Coelho ?
- Quanto ao Paulo Coelho, acho que cada escritor sabe como pegar o leitor por um lado. Aliás acho que todos temos essa manha, senão não se vende. O Paulo Coelho sabe disso. Outro dia, numa entrevista, ele disse que "as pessoas lêem muito meus livros não porque eu seja um mago, mas eu tenho as mesmas perguntas que o público tem". Ele usa muito esse recurso e aí ele pega o público.
- Você diria que está numa fase de responder às perguntas do grande público quando você faz livros como Diário de um magro e Minhas vidas passadas (a limpo)?
- Não. A minha picaretagem é outra. Na verdade eu pego a banalidade, o que está na tua casa e você não vê e mostro para você. Eu vejo isso pelas respostas às minhas crônicas (NR: Mário Prata escreve no jornal ESTADO DE SÃO PAULO). Eu chamo de bobageiras. E quanto mais bobagem é, mais sucesso faz. Outro dia escrevi sobre o drama de tirar o colchão velho quando se compra o novo. Todo mundo passa por isso e não sabe o que fazer com o trambolho. Eu me especializei em escrever essas coisas. Quando estreei a minha primeira peça teatral, em 1970, um crítico escreveu que eu tinha a capacidade de transformar a banalidade em arte. Foi talvez o único toque que recebi da crítica ao meu trabalho que me pegou.
- Essa foi a característica que você desenvolveu e hoje trabalha sem grande esforço?
- Não é fácil. Para mim o mais trabalhoso não é a hora em que eu estou digitando. Trabalho muito na cabeça; elaboro tudo. Tenho três gravadores em que vou registrando idéias. Escrever é um prazer. O duro é ter uma idéia original.
- Como é que você explica o fascínio das pessoas por essas tramas de vidas passadas?
- Todas as pessoas gostam de acreditar numa loucura. Os religiosos em geral vão a um lugar e ficam ajoelhados falando com Deus. Isso tudo é loucura. Livro também é loucura. E, a desses livros é muito próxima da ficção. Tudo, no fundo, é uma boa sacada. O Dr. Leonardo Ramos (o terapeuta-personagem que analisa as vidas passadas no livro), é pura ficção, mas tem muito leitor que não se convence disso e acredita que ele é real. Muitos me ligam ou mandam e-mail, pedindo um contato com ele porque querem fazer regressão. Há os que não acreditam e aí sou obrigado a dar o telefone do meu psiquiatra, o dr. Jair de Jesus Mari, que assina o prefácio do livro. Apesar de ter seis "eus" nesse livro (os personagens da vidas passadas), o maior sucesso é o Dr. Leonardo Ramos.
- Você fez terapia?
- Não, mas quando voltei de Portugal eu sofri de síndrome do pânico. Foi aí que acabei, por indicação de um amigo, sendo atendido pelo Jair. Depois do tratamento fiquei uns seis meses com ele. Acabamos ficando amigos, depois da décima sessão começamos a fazer terapia no bar e viramos amigos. Foi por isso que ele topou entrar na brincadeira e fazer o prefácio do livro.
- Você é uma pessoa que vive de literatura?
- Só de literatura não dá. Mesmo para mim, que sou um best-seller. Somente exceções como Paulo Coelho conseguem viver somente de escrever livros. Eu faço também jornalismo, escrevo crônicas. Agora, por exemplo, estou criando uma peça de teatro. Na verdade, vivo do ofício de escritor.
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