TODO CASTO É UM OBSCENO.


A frase acima é do maior dramaturgo de todos os tempos: Nélson Rodrigues, que anda fazendo falta, muita falta. Tenho pensado muito na frase e nele nas últimas semanas.
Nélson Rodrigues, conhecedor lúcido, lúdico e profundo das almas brasileiras, adoraria assistir ao programa do Ratinho que, diariamente, nos joga pela TV os mais ricos personagens da fauna e da flora brasileira.
Não se fala em outra coisa nas festinhas de aniversário e demais reuniões sociais. Tanto no grupo dos homens como no grupo das mulheres. O tema Sérgio Naya caiu do 12º andar. Ninguém está mais preocupado com a Copa do Mundo. E o Little Mouse ganha as rodas da fortuna.
Os intelectuais de plantão e os críticos de televisão caem de pau (e cassetete) em cima do pobre rato. Você já percebeu que os críticos de televisão brasileiros, que vivem dizendo que a televisão não se renova, são os mesmos, desde que a televisão existe? Basta olhar na votação do Troféu Imprensa, ano após ano. Todo ano eles (e elas) estão lá. Os mesmos!
Qual é a bronca desta hipócrita e decadente sociedade brasileira para com o Ratinho? Será que é porque o cara está ganhando muito dinheiro? Brasileiro odeia brasileiro que ganha dinheiro. Qual é o problema com o Ratinho? Mostrar o que ele mostra? Outro dia eu estava vendo o Corinthians perder para o Guarani e no intervalo dei uma geral. Caí no Ratinho.
Um vereador do interior mostrava um vídeo com o prefeito local transando com uma "de menor". Imagino que todo mundo deve ter ficado escandalizado com libidinagem interiorana.
Mas não se esqueça de que isso é pinto perto do que anda fazendo (ou tentando fazer) o presidente Bill Clinton nos Estados Unidos. Ah, se a ABC ou a CBS tivessem um vídeo como o do Ratinho. Que furo! O que é bom para os Estados Unidos continua sendo bom para o Brasil?Você aí que me está lendo, diga-me com toda a sinceridade. Você anda vendo o Ratinho, não anda? Fala a verdade! Escondido, né? O problema é esse: está todo mundo vendo o Ratinho. E adorando. Mas como é que você diz uma coisa dessas, adorar um programa que só mostra a desgraça alheia?
Em primeiro lugar, minha amiga, ninguém é obrigado a ir lá. Aliás, todos querem ir lá. Basta ver a fila para inscrever a própria desgraça. Em segundo lugar, meu amigo, ninguém é obrigado a assistir. Dizem até que a colônia portuguesa está colocando queijo na antena de televisão. Para pegar o Ratinho! Rarará, como diria o Macaco, assíduo Ratinho.
Aquilo é um mundo-cão, dizem os hipócritas. Mundo-cão é gente morrendo de fome, de frio e caindo dos prédios. Mundo-cão é o salário que o brasileiro recebe. Mundo-cão é o Zagallo atrás do número um. Mundo-cão é o FHC fugindo dos jovens na televisão. Mundo-cão são as alianças políticas brasileiras tipo Lula-Brizola. Mundo-cão é criancinha morrer todo dia dentro de hospital.
Sempre me ensinaram que a televisão (e não é apenas no Brasil) coloca no ar o que o espectador quer ver. São as chamadas pesquisas, as estatísticas. A telinha da televisão, esse espelho mágico (como diria Lauro César Muniz, um dos mais brilhantes novelistas brasileiros) reflete a sua cara, cara-pálida. Se aquilo está lá, é porque você quer. O que está ali é o reflexo (e não a reflexão, como querem os castos) da nossa sociedade. Sociedade essa à qual eu e você pertencemos.
Não estou aqui a defender o Ratinho. Estou tentando, apenas, olhar para a cara dos hipócritas. Os falsos castos que, no fundo, são mesmo todos uns obscenos, como diria o Nélson.




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