CRIANÇA DIZ CADA UMA...


               Há muito tempo, o pediatra, jornalista e dramaturgo Pedro Bloch tinha uma página na revista Manchete com o título acima. Contava histórias engraçadas e inusitadas ocorridas com crianças que passavam pelo seu consultório.
Outro dia, achei uma revista dos anos 60 e me diverti muito com o Bloch. E lembrei-me de histórias recentes com filhos ou filhas de amigos meus que, tenho certeza, o velho jornalista não titubearia em publicar.
O protagonista da primeira delas é o Antonio (homenagem ao meu filho?), filho da velha amiga Maria Emília Bender, digníssima editora da Companhia das Letras, e do grande italiano Lorenzo, ilustre professor de música na Universidade de São Paulo.
Antonio, 6 ou 7 anos, tinha o aniversário de um amigo, o Bruno, lá num daqueles bufês do Itaim. Festa das seis às nove da noite. O pai, Lorenzo, conhecido por suas distrações cá no Brasil, ficou de levar o garoto ao tal bufê. Depois iria pegar a Emília, iriam a um cinema e voltariam para buscar o menino. E assim foi feito. Lorenzo deixou Antonio no bufê, pegou a mulher e foram para o cinema. Nove da noite, conforme o combinado, foram buscar o pimpolho. Tocaram a campainha, veio o menino.
Já no carro:
- Tava boa a festa do Bruno, filho?
- A festa tava boa, só que você errou de bufê. Era aniversário de uma menina que eu nunca tinha visto na vida. Mas foi legal. Ajudei até o mágico. O nome dela é Andréia.
A segunda história é de minha mais recente afilhada, a Maria Shirts, filha do Mateus e da Silvinha.
Deu-se que o pai da Sílvia morreu, o velho e bom Lori. Maria, 5 anos, insistiu em ir ao velório ver o avô morto. Foi levada (nos dois sentidos).
No colo da mãe ficou ali alguns segundos, olhando para o avô. A sala cheia. De repente ela pergunta bem alto, como são, geralmente, as perguntas impertinentes:
- Mãe, como é que ele sabe que morreu?
Risadas filosóficas e generalizadas.
Já disse que meu filho se chama Antonio. Um dia, ele tinha uns 4 anos, dei uma bronca nele sei lá por que e ele me xingou, feroz:
- Você é uma anta!!!
Ao que eu, sem perder a calma, perguntei:
- Ah, é? E quem é filho de anta, o que é?
Pensou dois segundos e me desarmou completamente:
- Filho de anta é... é... Antonio!
E mais uma:
Uma minha prima, hoje já casada e com dois filhos, quando tinha uns 12 anos, a mãe chamou para um reservado:
- Hoje eu vou lhe ensinar o que é sexo.
A menina já fez cara feia. E a mãe começou lá pelo princípio com a história da maçã.
- Uma vez Adão e Eva estavam no paraíso e...
- Isso eu já sei. Pula.
- O homem tem uma sementinha e...
- Isso eu já sei. Vai mais para a frente.
- Bem, para nascer uma criança é preciso que...
- Pô, mãe, eu sei como é. Pode pular essa parte.
- Bem, a mulher tem um órgão chamado útero...
- Grande novidade, mãe.
- O espermatozóide tem umas substâncias...
- A p...
- Isso. Escuta aqui, menina. O que é que você não sabe?
- O que é que a senhora quer saber? Pode perguntar, mãe. Pergunta!
E tinha um garotinho que era infernal. Brigava todo dia na escola. Um dia, no almoço, o pai, para testar seus conhecimentos bíblicos (ele estudava num colégio de padre), perguntou:
- Meu filho, me diz quem foi que jogou a pedra no Golias.
O garoto desatou a chorar.
- Tá vendo, mãe? Tudo eu. Tudo eu. Juro, pai, juro pelo que há de mais sagrado que eu nem conheço esse menino.

15/ 12/ 93

Fonte: Filho é bom, mas dura muito - Prata, Mário



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