| THIAGO FERNANDES | A Tarde | 2/8/2006 |
Buracos nas calçadas são um transtorno para qualquer pessoa que precise andar a pé em Salvador. Para os deficientes visuais que se aventuram nas ruas da capital baiana, a má conservação das pistas táteis representa riscos ainda maiores de acidentes e mostra as dificuldades de quem vive em uma cidade que não respeita os portadores de deficiência.
As pistas táteis são trilhas de lajotas em alto relevo, instaladas em algumas calçadas para permitir aos deficientes visuais identificarem o caminho a seguir sem riscos de sair do passeio ou de esbarrar em paredes e postes. Em Salvador, foram instaladas em 1991 nas proximidades da Associação Baiana de Cegos (ABC), nos Barris, do Instituto de Cegos, em Nazaré, e na Barroquinha. Desde então, não receberam nenhuma manutenção por parte da prefeitura.
De acordo com Jeferson Teles, deficiente visual e diretor de esportes da ABC, com a falta de conservação, as placas soltam do chão causando diversos acidentes. "Temos casos de pessoas cegas que já caíram por causa disso", diz. Ele aponta ainda a urgência de se reformar a trilha, em especial nas proximidades da associação, onde o fluxo de deficientes é constante ao longo de todo o dia.
Mais problemático ainda, aponta Teles, é o desrespeito à necessidade de manter a pista sempre desobstruída. "São portões abertos, pessoas paradas, lixo e, às vezes, carros estacionados". Enfrentar o percurso entre a Estação da Lapa e a ABC, localizada na Ladeira dos Barris, é um verdadeiro desafio. Teles esclarece que o problema do estacionamento na calçada é mais comum nos fins de semana, quando não funciona a zona azul dos Barris e há menor fiscalização por parte da Superintendência de Engenharia de Tráfego.
A prática já causou um grave acidente com uma das funcionárias da associação. "Ela perdeu o olho depois de bater num tubo que estava na carroceria de um carro estacionado na calçada, na frente da Biblioteca Central", conta.
De acordo com o gerente de operações da Superintendência de Manutenção da Capital (Sumac), Antero Souza, estão previstas obras de reparação das pistas a partir deste mês. "Nós já estávamos atentos ao problema, mas adiamos as obras por causa do período chuvoso no Estado". Ele garante, ainda, que o órgão estuda a instalação do equipamento em outros locais da cidade, a começar pelos terminais de transbordo. Segundo Souza, o estudo vai levar em consideração também a retirada de obstáculos aéreos, como orelhões, que possam afetar o trânsito de deficientes visuais.
DESINFORMAÇÃO – Na opinião do presidente da Comissão Civil de Acessibilidade de Salvador (Cocas), Ednilson Sacramento, o problema é causado pela desinformação da população e pela falta de campanhas de esclarecimento.
"Muitos que passam por ali não sabem nem para que serve essa pista".
Sacramento aponta também falta de planejamento na definição dos trajetos seguidos pelas pistas.
"Na Rua do Salete (Barris), por exemplo, foi colocada uma pista que não leva a lugar nenhum, termina num cruzamento, perigoso até para quem enxerga", diz. Teles concorda que falta planejamento para construção de novas pistas.