Relatório da expedição de 1989 da Glasgow University às ilhas dos Açores
Apontamentos relativos ao ilhéu de Vila Franca do Campo
«Ecologia e Conservação das Aves Marinhas nos Açores»
O ilhéu de Vila Franca do Campo está situado aproximadamente a um quilómetro da costa sul de São Miguel em frente à Vila Franca do Campo. É a cratera de um vulcão extinto com uma área aproximada de cinco hectares, dos quais cerca de três hectares constituem um lago de pouca profundidade, aberto para o mar na costa norte do ilhéu. As elevações que se erguem na encosta do lago são a base de uma colónia de Cory´s Shearwater Calonectris diomedea, e o ilhéu foi designado uma reserva natural em 1983. Este estatuto proíbe construções, destruição da flora ou caçar sem autorização do Secretário Regional do Equipamento Social dos Açores (Silva 1983). O ilhéu constitui uma forte atracção turística, servido por um barco de passageiros a partir de Vila Franca, e estão a ser considerados planos para terraplenar a encosta que se ergue no lado oeste do lago de forma a aumentar o espaço disponível para o turismo.
Esta expedição visitou o ilhéu de Vila Franca do Campo durante Agosto de 1989 com a finalidade de conduzir um levantamento detalhado do ilhéu, de forma a recolher informações relativas à utilização dos recursos naturais e pressões ambientais que existem, e também estudar o habitat e a densidade dos ninhos dos Cory´s Shearwater e quaisquer outras espécies de aves marinhas que fazem ninhos no ilhéu. A finalidade deste projecto é juntar e fornecer dados que deverão ser utilizados no futuro para comparar e estudar o impacto de eventuais alterações ao ilhéu, ao habitat e densidade dos ninhos, e para fazer recomendações específicas no que diz respeito às propostas para o desenvolvimento do ilhéu.
Os membros da expedição visitaram o ilhéu de Vila Franca do Campo entre 13 e 18 de Agosto. Assistência logística e permissão para permanecer no ilhéu durante a noite foram obtidas pela Dra. Maria Martins da Direcção do Ambiente em Ponta Delgada e da Câmara Municipal de Vila Franca. O alojamento no ilhéu foi feito numa pequena construção em cimento que existe no encosta leste do lago.
Durante o dia, os membros da expedição faziam um levantamento da vegetação do ilhéu, registavam o número e movimentos dos visitantes e contavam os ninhos. Os habitates foram separados em termos das diferenças significativas na vegetação e substrato. As áreas definidas por habitates diferentes foram determinadas pelo processo de medir o seu perímetro com uma fita de 30 metros, e em cada habitat foi feita uma busca sistemática com o objectivo de encontrar as cavidades no solo utilizadas como ninhos dos Cory´s Shearwater. Os ninhos foram registados de duas formas dependendo se continham, ou não, um pinto. A presença ou a ausência de um ninho foi determinada pela localização do pinto ou, nos casos das cavidades serem muito longas e com muitas curvas, pela presença de materiais frescos utilizados nos ninhos dentro das cavidades. Em áreas grandes e frágeis, de forma a limitar distúrbios, foi feita uma estimativa do número de cavidades e ninhos a partir das cavidades e ninhos presentes numa sub área que se assumiu ser constante na área total. Em áreas com erva alta, nas quais a procura dos ninhos envolveria o risco de os causar dano, o número de ninhos foi calculado a partir da percentagem de ninhos ocupados num universo de 85 ninhos escolhidos de forma aleatória, entre os ninhos deste habitat.
Foi feita uma busca no ilhéu com o objectivo de encontrar azas partidas, o que forneceria evidência que as aves marinhas estavam a ser caçadas para consumo humano (uma prática comum em outras ilhas Macronesianas; Le Grande, Emmerson e Martin 1984; Zino 1985; Hamer e Read 1987), e sedimentos ou outros sinais de ratos e outros possíveis predadores das aves marinhas.
Tantas áreas quanto possível, e sem envolver risco pessoal ou causar dano ás cavidades no terreno frágil, foram visitadas à noite para procurar o Cory´s Shearwater. Isto foi feito para determinar se locais que aparentemente eram bons para ninhos estavam a ser ocupados por pássaros adultos à noite, por que isto seria uma boa indicação que eles são normalmente utilizados para procriar (Den Hartog, Norrevang e Zino 1984). A procura começava assim que os primeiros adultos eram ouvidos a chamar sobre o ilhéu, e a procura continuava até à alvorada. As noites foram também passadas a ouvir as chamadas feitas por outros adultos que voltavam para o ilhéu.
Habitates são descritos em termos da espécie dominante. Dois tipos de zonas vegetativas foram reconhecidos. Uma era dominada por uma mistura de laurisilva species (Hansen 1969) formando uma coberta densa e uniforme a uma altura de cinco metros aproximadamente, com pouca cobertura do solo. A outra era dominada por tree heather (Erica sp. Azoria) formando uma copa pouco densa a uma altura ente três e cinco metros, como uma cobertura parcial do solo composta principalmente de ervas e bracken. Um tipo de cana, provavelmente cana de açúcar, formava zonas muito densas com altura até aos quatro metros. As ervas que cresciam nas zonas de areia eram dominadas por espécie de erva marítima que cresciam em moças até um metro de altura. Agaves, provávelmente Agave americana estavam dispersas de forma uniforme com uma vegetação parcial de ervas e vegetação crescendo entre elas.
Pelo que conseguimos registar, o Cory´s Shearwater foi a única espécie de ave marinha que se reproduz no ilhéu. Os ninhos foram encontrados em zonas de laurisilva e entre ervas que cresciam nas zonas de areia, e foram encontrados também locais propícios à construção de ninhos, que no entanto estavam vazios, entre zonas com árvores, canaviais e Agaves. Todos os ninhos estavam em cavidades que foram escavadas no solo, em contraste com outras ilhas Macronesianas, nas quais os ninhos estavam normalmente localizados entre rochas (Zonfrillo, Jones e Lace 1986; Jones 1986, 1987). Estes factores combinados produzem uma estimativa de um potencial de 1160 locais para ninhos e 320 ninhos ocupados no ilhéu.
A área de laurisilva por cima da encosta oeste do ilhéu possuí uma densidade de locais, aparentemente, propícios para ninhos (um por 25 metros quadrados) quase cem vezes maior do que a densidade de ninhos com pintos durante a nossa visita. Aproximadamente um terço dos ninhos sem pintos eram ocupados por um adulto por algum momento durante a noite, indicando que estes locais poderiam ser utilizados para ninhos em outros anos.
Entre 13 e 17 de Agosto o mínimo e máximo número de visitantes diários ao ilhéu foi de 45 e 595 respectivamente. O valor mínimo e máximo de pessoas em qualquer altura no ilhéu durante este período foi de 223 e 352 respectivamente. Embora a maior parte dos visitantes restringia os seus movimentos à praia e pedras à volta do lago, um mínimo de 14 pessoas por dia (4% dos visitantes) foram vistos a andarem nas áreas arborizadas e canaviais por cima da encosta oeste do ilhéu.
Aproximadamente 20 pares de azas de Cory´s Shearwater foram encontradas, todas estas nas áreas arborizadas e canaviais por cima da encosta oeste do ilhéu. Fezes e dois corpos de Rato Preto Rattus rattus foram também encontrados.
A área incluída em propostas actuais para o desenvolvimento do ilhéu da Vila Franca do Campo envolve o Agaves no lado oeste do lago. Este habitat não contém quaisquer ninhos e os locais propícios à construção de ninhos nesta zona são muito poucos; a proposta de desenvolvimento, se limitada a esta área, teria pouca ou nenhuma influência na quantidade de ninhos no ilhéu. A zona arborizada que rodeia esta área continha uma baixa densidade de ninhos ocupados (1 por 2000 metros quadrados), sugerindo que distúrbios a esta área não seria um problema grave. Contudo, a densidade de potenciais locais para ninhos nesta área era quase cem vezes maior do que a densidade dos ninhos. O facto de que um terço destes locais eram ocupados por adultos à noite e a descoberta de aproximadamente 20 pares de azas de aves adultas nesta área, sugere que a baixa densidade registada no mês de Agosto pode ter sido o resultado de algum acto predatório realizado mais cedo na estação. Se a percentagem de ocupação destes locais na ausência de actos predatórios por humanos é assumida ser igual aquela que se registou nos canaviais, então a zona arborizada que rodeia a zona proposta para desenvolvimento conteria aproximadamente 75 ninhos, igual a um quarto do total calculado como sendo utilizado durante o estudo. Toda a diligência deverá ser feita no sentido de assegurar que o desenvolvimento não irá ocupar a zona arborizada.
Colónias de Cory´s Shearwater noutras zonas na Micronésia têm sofrido reduções drásticas devido a excessivas actividades predatórias por humanos (Bannerman e Bannerman 1965; Zino 1986; Zonfrillo et al. 1986). Enquanto que colónias podem suportar um certo grau de caça, particularmente se limitado às crias (Zino 1971; 1986), a baixa taxa de ocupação nas zonas arborizadas, registadas durante o estudo, sugerem que uma actividade predatória em excesso terá um resultado dramático na colónia. No futuro, a administração do ilhéu deverá incluir um estudo dos ninhos ocupados no ilhéu, particularmente nas zonas arborizadas, no início da estação de acasalamento do Cory´s Shearwater (Março-Abril), para determinar a proporção de ninhos em cada habitat que sofre destruição. Se for determinado que este é um problema grave, então o ilhéu deverá ser guardado e vigiado por um guarda durante o dia e a noite na estação de acasalamento.
Embora a perca de pintos e adultos devido à caça por humanos pode ser um problema no ilhéu, a ameaça mais séria a longo prazo é provavelmente a perca dos ninhos e dos locais propícios aos ninhos devido ás pessoas pisarem a área dos ninhos. Estas zonas têm um solo muito frágil e são altamente susceptíveis à erosão, particularmente nas áreas da encosta. A área por cima do atalho que vai para o oeste na encosta do lago é particularmente susceptível, porque é aquela que está mais sujeita a distúrbios (ver resultados). Embora o número de pessoas que penetrou nesta área durante o estudo foi pequeno, encontramos vários locais de ninhos que tinham sido parcialmente expostos e um pinto que tinha sido retirado do seu ninho e morto, provávelmente por crianças que visitavam o ilhéu naquele dia. Este habitat possuí a maior densidade e número de ninhos no ilhéu.
Cory´s Shearwater não estão ameaçados nos Açores, mas o ilhéu de Vila Franca do Campo é excepcional na densidade e acessibilidade dos ninhos presentes e na variedade de habitates utilizados como locais para ninhos. O desenvolvimento proposto, se for limitado à zona do Agaves na encosta da praia, deverá ter pouco impacto. Contudo, o desenvolvimento deve ser acompanhado pela implementação de medidas que visem reduzir distúrbios no resto do ilhéu, particularmente nas áreas de areia com vegetação. Estas medidas deverão incluir a colocação de placardes para informar o público e evitar que este se desvie das áreas destinadas ao público e acabem por penetrar áreas que contêm ninhos, para além de uma melhor administração e vigia do ilhéu. Quaisquer mudanças no tamanho dos diferentes habitates existentes e a densidade dos ninhos dentre deles deverá ser monitorizada pelo menos de cinco em cinco anos. Atenção especial deverá ser prestada à possibilidade dos canaviais, que possuem uma densidade muito baixa tanto em ninhos como nos locais propícios para ninhos, poderá invadir outros habitates. Limpando os canaviais existentes no ilhéu, e substituindo os com vegetação que cresce na areia, poderá encorajar um aumento no número de Cory´s Shearwater que acasalam no ilhéu, embora não há evidência que o tamanho da colónia está presentemente limitado por locais disponíveis para ninhos. A presença de ratos pretos no ilhéu aparentemente não está afectando significativamente a colónia de Cory´s Shearwater, embora poderão ser responsáveis pela ausência de pequenas Procellariid espécies provenientes de habitates propícios, como é o caso em muitas ilhas oceânicas (Moors 1983).
K. C. Hamer, I. Baber, R.W. Furness, N.I. Klomp, S.A. Lewis, F.M. Stewart, D.R. Thompson and B.Zonfrillo
Unidade
de Orontologia Aplicada, Departamento de Zoologia,
Glasgow University, Glasgow G12 8QQ

Clube Naval de Vila Franca do Campo