CARTA AOS VISITANTES
Prezado Visitante do site do CNPSP,
O CNPSP se sente profundamente sensibilizado com o imprudente e trágico desfecho que teve o episódio do dia 12/06/2000, no ônibus da linha 174, no Jardim Botânico, na cidade do Rio de Janeiro, com a morte da Professora SANDRA e pela situação vivida por cada uma das vítimas do seqüestro que durou uma tarde toda.
É de preocupar a qualquer ser humano saber que, a insegurança tenha assumido índices tão alarmantes quanto os de hoje, e que, as autoridades constituídas pelo povo de nosso país tenham tão pouca sensibilidade ao ponto de falar de assuntos desta natureza, através das redes de televisão, com muita naturalidade, como que se falasse de um assunto comum. Apesar deste alarmante o índice, as autoridades vêem o assunto como quem tem realizado grandes obras para conter a demanda da criminosa do Estado. Criminalidade não se resolve apenas com compra de veículos, requer uma série de medidas conjuntas como treinamento especializado, organização, disponibilização de equipamento adequado para cada tipo de operação e condições adequadas ao trabalho do efetivo policial, tais como; suporte a estrutura familiar, educação, saúde, remunerações compatíveis e etc..
Temos mesmo um grande motivo para nos preocupar quando vemos que existem diversos projetos, elaborados com seriedade e estudo, para a elevação do nível de qualidade da educação nas escolas de primeiro e segundo grau, retirada de meninos de rua e recuperação de menores delinqüentes, e estes são tratados da mesma maneira que um assunto relacionado ao esgoto de rua, de forma meramente político eleitoreira. Quando a educação deixa de ter importância prioritária em nosso planejamento estrutural e as escolas são administradas para exclusivamente desenvolver ensino básico temos de fato com o que nos preocupar. É triste se ver que a educação básica caiu no esquecimento daqueles que não se preocupam em entendem que a maior infra-estrutura de uma nação está na qualidade da educação do seu povo.
Um país aonde policiais decidem livremente quando devem ou não matar, pois não têm equipamento de comunicação adequado para que a ação seja direcionada pelo comandante da operação, e diante das cameras de TV vários policiais espremem um assassino dentro de uma viatura oficial da polícia ao ponto matá-lo por asfixia, não conhece o que é se combater de fato a criminalidade. Um país aonde as ações criminosas são sempre consideradas isoladas, as polícias não dispõem de armamento técnico qualificado por estar sob o controle das forças armadas, aonde as forças armadas não se envolvem na segurança pública, não permitem que as polícias utilizem os equipamentos apropriados e não treinam as polícias que estão sob o seu controle, certamente não tem como gerar perspectiva de qualidade na segurança pública. Um país que não aprendeu que descentralizar a segurança pública é municipalizar as polícias para que tenham maior capacidade de especialização, treinamento, qualificação e controle da qualidade e do equipamento para uma ação rápida e eficaz, dificilmente irá compreender que a prevenção é a melhor arma contra o crime.
A ação de um governo não pode ser constantemente posterior aos fatos. Um governo competente e consciente deve estar sempre preparado, deve se antecipar aos fatos ao invés de estar tapando buracos como se isso fosse o melhor que pode fazer, ou passar o tempo todo cobrindo o sol com uma peneira como se isso fosse conter a claridade do sol. Um governo sério deve levar a sério os assuntos de educação, infância, juventude, família, segurança e infra-estrutura da sociedade e da cidade como um todo, sob todos os aspectos. Um governo sério não pode tratar de assuntos desta importância de forma irresponsável, com políticas populistas, com pavoísses, ou arrogância.
Talvez quando o nosso país levar estes assuntos com maior responsabilidade, se possa evitar que hajam tantas incidências como aquela que deu início a esta carta. Devemos criar o nosso próprio modelo social. Temos em nosso quadro nacional profissionais de gabarito com capacidade para apresentar soluções coerentes e concretas Temos na verdade projetos que trariam soluções quase que imediatas. Não podemos continuar a nos espelhar em sociedades que, embora vivam de forma mais responsáveis do que a nossa tiveram o despropósito de permitir que assuntos como a criminalidade e violência na infância e juventude viessem a tomar um vulto tão perigoso e nocivo a sua sociedade. Geralmente isso ocorre quando os profissionais que elegemos consideram estes casos como fatos isolados até que atinjam proporções escandalosas. Isso aconteceu com os Estados Unidos, por exemplo, que hoje enfrentam uma avalanche de crimes cometidos por menores em suas escolas.
A segurança pública e a criminalidade na infância e juventude têm sido assuntos de prolongadas teses e teorias em nosso país. Enquanto isso, na prática os criminosos se organizam e desenvolvem novas técnicas de ação com base nas telas de cinema, utilizando-se cada vez mais de crianças e adolescentes em seu quadro de profissionais. Até quando iremos permitir isso? Quando iremos parar com isso?
Necessitamos despertar nossas autoridades com a máxima urgência, para que eles aprendam a antencipar-se aos fatos. Torna-se cada vez mais prioritário que seja desenvolvido um programa de conscientização nacional no sentido de que as leis sejam cumpridas, como um fator de honra pessoal da sociedade. Porque, quando numa nação as pessoas perdem o horizonte de vida, e surgem como novas opções profissionais como tráfico de drogas, o crime organizado e a prostituição; quando propagandas que estimulam a infidelidade conjugal passam em pleno dia em nossa TV, produzindo um verdadeiro estimulo a desestruturação familiar em detrimento do prazer pessoal (lembre-se que traição é legalmente crime, segundo a legislação em vigor), estamos de fato estimulando aos nossos jovens a perder conceitos básicos de ética e honra, é como dizermos a eles que se está na propaganda é certo fazer, mesmo que contra a lei. E pior. Tudo isso passa a ser sinônimo de esperteza diante de uma sociedade em constante construção. Este é o exemplo que temos dado aos nossos filhos, se está na mídia é porque é certo, a lei é secundária e foi feita para ser burlada. Será que é de fato este tipo de sociedade que queremos construir?
Cremos que esteja na hora de refletirmos mais uma vez, como cidadãos que somos, e analisarmos que tipo de sociedade queremos construir! Afinal, uma sociedade está em constante construção. Quem verdadeiramente deve ser eleito para dirigir esta construção social, qual seu caráter, sua visão, seus projetos sociais e estruturais. As eleições municipais estão aí e sabemos que todos parecem ser bons antes de assumir o poder.
O CNPSP deixa aqui um desafio para todos os brasileiros: "Pense e decida! Qual é a qualidade de vida e de sociedade que você deseja construir no Brasil de agora, para viver no futuro"? Está na hora de você se portar como um brasileiro autêntico!
Atenciosamente,
EQUIPE
DE PROFISSIONAIS DE ANÁLISE E PESQUISA DO CNPSP
Centro Nacional de Pesquisas Sociais e Políticas
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