Tudo está bem... (quando acaba...)
- Concordas comigo?- dissera Maurice após mostrar a Michèlle
os segredos da Côte d'Azûr.
- Parece que sim- respondeu ela num sorrisso rasgado. Contemplava maravilhada o
belo cenário em que se via rodeada. Haviam percorrido juntos a cidade, e
Maurice havia-lhe prometido um sonho real. Cumprira a promessa na totalidade.
Aquela paisagem bela e vasta, assim banhada pela luz do sol, tinha algo de
sonho.
Em frente o mar, reflectia o sol poente, que ao misturar-se com o imenso azul do
céu, formava um conjunto de rara beleza. Como se estivesse emoldurado,
encontrava-se ladeado de ambos os lados por árvores, moitas exuberantemente
floridas, agitadas apenas por uma suave brisa. Uma brisa que ao agitar a
superfície da água num movimento contínuo, a cobria de pequenas e
prazenteiras ondas.
Por detrás deles, as folhas de uma árvore centenária também se agitavam num
vaivém mais intenso, e sob eles próprios, somente as escarpas, imensas massas
rochosas das quais sobressaíam as pequenas pétalas de flores, quase
transparentes, de arbustos agrestes, os únicos que conseguiam subsistir em tão
inóspito local.
Deitados sobre a relva esverdeada, observavam desde o campo de
girassóis que ao longe brilhavam como pequenos astros, às imensas
papoilas que os rodeavam, dispersas na relva daquele terraço e que luziam como
chamas incandescentes.
Ao longe, o porto e a marina captavam o pôr-do-sol, articulando o seu próprio
reflexo nas águas calmas e claras. Os diversos cambiantes da Natureza, que se
exercem sobetudo nas diferenças entre o sol matinal e o entardecer, na falta de
transparência do ar húmido, do céu azul... Um cenário quase irreal, que
fazia as delícias dos dois enamorados.
- Nunca pensei que houvesse um pequeno parraíso tão perto da cidade... -
Michèlle estendeu-se na relva. - É tudo tão bonito, e tão calmo! Dá vontade
e ficar aqui para sempre.
- Sem mim ? - Maurice voltara-se para ela e beijara-a. - Claro que tens razão,
mas para nós, ainda bem para nós, que ninguém conhece isto. Já imaginaste no
que seria se todos os turistas o invadissem, como fizeram com toda a cidade? Os
excursionistas, quando visitam uma cidade ou um país, preocupam-se apenas em
seguir os seus roteiros turísticos. A Torre Eiffel, o Big Ben... Aqui, só
sabem visitar as praias e as casas das vedetas.
- Acredito que assim seja. - rematou Michèèlle. - Se não tivesses sido tu a
guiar-me nos nossos passeios, tenho a certeza que passaria todo o tempo dividida
entre a praia, a universidade e o meu barco. Nunca teria tido paciência para
visitar todos estes recantos escondidos desta terra!
- Felizmente, eu conheço-os a todos. - Mauurice encostou-se também sobre a
relva e respirou profundamente. Só pessoas como eu, que viveram toda a vida
aqui, conhecem os melhores sítios para visitar, os melhores restaurantes, as
pousadas que valem a pena ir...
- Tinha de ser- interrompeu-o, gracejando,, Michèlle. - Estava à espera que
dissesses isso. E esse sítio é, com certeza , a pousada da tua mãe...
- Pois fica sabendo que é melhor de toda a cidade! É das mais famosas e
frequentadas, e se assim não fosse, nunca te teria conhecido. - levantou-se,
juntando-se a ela, que se tinha levantado e agora sacudia a saia.
Maurice e Michèlle conheciam-se à somente um ano, desde que ela viera para
Saint-Tropez, estudar Biologia Marinha na Universidade. Encontrava-se instalada
na Marina, onde era a proprietária de um pequeno mas confortável iate, que
restaurara com a ajuda de uns amigos. Desde que chegara, ela ia com frequência
visitar uma prima, Arièlle, que alugara um quarto numa das muitas pensões
residenciais da cidade. Fora numa dessas curtas visitas que travara conhecimento
com Maurice, filho único da dona da pousada. Haviam desde logo simpatizado um
com o outro; e de início saíam juntos com o grupo de amigos que se havia
formado. Arièlle, Jean Luc, um velho amigo, e por vezes até André, irmão
deste. Daí até começarem a apaixonar-se foi um pequeno passo, e passado quase
um ano, continuavam mais apaixonados que nunca.
- Mas sabes, este pequeno pedaço de paraísso está condenado.- avisou Maurice.
- O quê?- surpreendeu-se ela.
Maurice deu-lhe então uma péssima notícia, e que o deixara desconsolado
quando soubera. Georges DeLannoy, um magnata conhecido por todos, pai de Jean
Luc e André, tinha se interessado por aqueles terrenos e, num ápice,
adquirira-os, tencionando construir ali mesmo um bloco de moradias de
aluguer para os turistas.
- Como vês, temos de aproveitar bem enquannto podemos. Possivelmente, serão os
últimos momentos que aqui passamos.