Cavaleiro Andante (as aventuras do)

 

   O mar estava tranquilo, e o ar, puro e diáfano. Ao longe, uma ténue visão, quase uma miragem, de terras zululandesas; apenas uma orla escura bordada no manto azul do firmamento.

   Demétrio, o “Cavaleiro Andante”, navegava num dos muitos navios que cruzavam o Cabo da Boa Esperança, com vista a trocas comerciais em terras indianas. Subitamente, o céu tornou-se negro de azeviche, e o vento soprando fortemente, levava a pequena embarcação a balouçar instavelmente no mar revolto.

- É o Adamastor! Estamos perdidos!, gritava um marinheiro.

- O fim do mundo chegou!, berrava um  outro, lançando-se à água.

- Homem ao mar, salve-se quem puder!

E o que fazia o nosso herói, enquanto tudo à sua volta parecia um reboliço? Encostado à balaustrada, o Cavaleiro Andante fumava a sua cigarrilha, muito pausadamente, e dizia:

- Não sejam ignorantes, meus caros. Todos nós sabemos que esse monstro não existe. Que sempre se tratou de uma invenção dos ossos marinheiros para impedir  que navios estrangeiros se aventurassem nestas águas. Marinheiros experientes como são, pensei que reconhecessem uma mera tempestade... E o mar assim enfurecido é a consequência da junção do oceano Atlântico com o Índico. Até um miúdo da primária o sabe, só os imbecis acreditam no Adamastor.

Mas apesar destas sábias palavras, ditas pelo Homem Que tudo Sabe, nenhum dos marinheiros parava, e acorriam esbaforidos aos botes salva-vidas, prontos para qualquer eventualidade. Somente Demétrio se encontrava descansado, não se importando com a borrasca, ou mesmo com o vento que lhe fustigava as faces e os longos cabelos negros, sentado calmamente no convés a fumar pausadamente.

“Nunca existiram sereias, tritões, monstros e muito menos Adamastores. Tudo não passa de reles superstições.”, pensava. Suspirou profundamente,  fechando os olhos por breves momentos, imaginando a sua chegada em breve à Terra Prometida. Quando os reabriu, um clarão iluminava todo  firmamento e, um rugido atemorizador parecia provir das profundezas do oceano.

- Salve-se quem puder! Para os escaleres! –ordenava o capitão – O barco vai naufragar!

Todos os marinheiros seguiam o capitão e, em pouco tempo, os salva vidas tinham sido lançados à água. Demétrio quis seguir-lhes o exemplo, mas nos botes não haviam já lugares vagos, e os marinheiros apressavam-se a remar com todas as forças só para fugirem dali.

- Então e eu? Não me deixem aqui!...- gritava ele desesperado.

- Com que então o Adamastor era uma invenção?  - respondeu-lhe o capitão- Se acredita mesmo nisso, fique aí descansado, e afunde-se com o navio! Vamos, homens, mais forças nos remos!

Demétrio amaldiçoou-os, mas resignou-se à sua sorte. “Tenho que sair daqui,”, pensava, “mas como?”. Subitamente, teve uma ideia luminosa. Acorreu à sua cabina, a qual começava afundar-se, e de lá retirou um perna de presunto, que colocou, juntamente com o seu diário manuscrito, numa maleta pessoal, impermeável, que acabou por lançar à água. Olhou em volta e, vendo o barco afundar-se cada vez mais rapidamente, buscou uma corda, que atou a uma bóia  salva vidas, e a outra extremidade, à sua própria cintura.

Atirou de seguida a bóia ao mar, respirou bem fundo , “Não sei nadar, mas a minha sorte não me irá abandonar agora.”, e com este pensamento, atirou-se muito corajosamente, ao mar.

A corda que escolhera fora demasiado comprida, obrigando-o a mergulhar mais fundo do que gostaria. Mas, sustendo a respiração, mal o impulso inicial passou, encontrou a corda, à qual se agarrou com ambas as mãos, tentado subi-la para encontrar de novo a superfície. Conseguiu finalmente, não sem muito esforço, e aí, agarrado firmemente à bóia, tentou alcançar a sua preciosa mala que vagava ao sabor das ondas. O oceano tinha então acalmado, e o firmamento voltara ao seu azul celestial.

Demétrio conseguia avistar terra firme, mas ao tentar aproximar-se, viu-se impelido por uma corrente marítima, que o arrastava para longe do local do naufrágio e para longe de terra. “ E não surgem quaisquer socorros”, pensava. ”Vou ter de me desenrascar sozinho.“ Com um golpe de rins, sentou-se na bóia de salvação, apanhou a sua maleta e abriu-a.

- Vamos ver se tenho aqui alguma coisa que me possa ajudar. Deixa ver: - e começou a enumerar tudo aquilo que ali encontrava – um canivete suíço, um estojo de primeiros socorros, uma t-shirt do exército da salvação...Óptimo, que estou cheio de frio! – e continuou a retirar utensílios desta maleta: um aparelho receptor de rádio, uma garrafa de água, um pequeno fogão a petróleo, sacos plásticos, uma cafeteira, alguns anzóis, foguetes de salvação...

- Exactamente o que eu precisava! Não há melhor maneira para que me localizem...Onde está o meu isqueiro? – procurou em todos os bolsos, até que acabou por encontrá-lo. – É pena os foguetes não terem manual de instruções. Bem, deve ser só acender. 

E assim fez; acendeu ambos os foguetes, que subiram cerca de dois metros, mas acabando por cair um pouco mais adiante.

- Que azar! E agora?..- mas após pensar  um pouco, lembrou-se que faltava na maleta algo...- Não é possível que não esteja aqui!

Procurando melhor na mala, acabou por encontrar o que buscava.

- A minha Vitamina T! Que susto, pensava já ter perdido o meu bebé. Vou arranjar socorros imediatamente!– mas, azar dos azares, precisamente quando tinham atendido do outro lado da linha, a bateria  acabara!- Esta porcaria já não funciona! Também nunca prestou para nada...!Ainda se pudesse levar pilhas!- furioso, Demétrio acabou por o  atirar ao mar, privando-se assim de um indispensável objecto.

- Acalma-te, Demétrio. – dizia para consigo- Já estiveste em piores situações. Foste condecorado em todas as guerras; sobreviveste a todas; e este pequeno percalço não é nada comparado com tudo o que já sofreste, desde as Grandes Guerras.

O currículo do nosso Cavaleiro  Andante era muito vasto, e fazia inveja a muitos. Participara em todas as mais importantes guerras do século: em bebé, fora cobaia de experiências químicas na Primeira Guerra Mundial. Anos mais tarde, na Segunda, fora também cobaia, mas para testes nucleares, e já como militar. Fora piloto de testes para aviões–alvo no Vietname e piloto para mísseis “Patriot” durante a Guerra do Golfo. Mais recentemente, voluntariou-se para desarmador de minas em Sarajevo, tarefa da qual obteve agora umas merecidas férias, que resolvera passar com uns amigos e terras indianas.

Passava assim os seus dias, longos e frios, e nem sinal de terra. A mesma corrente marítima que o arrastava desde o local do naufrágio, encaminhava-o para o desconhecido, mas sem muitos precalços. Um dia, avistara ao longe a barbatana dum tubarão, mas prescindindo de metade da sua perna de presunto acabou por conseguir afastá-lo de si. Vira também por diversas vezes bandos de golfinhos, que lhe faziam companhia durante parte da viagem, mas sempre que tentava que estes puxassem a bóia, acabava por afugentá-los.

Os dias passavam assim, até que um dia, quando Demétrio estava quase a perder as esperanças de um dia conseguir regressar a casa, surgiu-lhe no horizonte um maciço rochoso.

“Será uma miragem? Ou uma dádiva de Deus?!”, exclamou. Mas mesmo após esfregar os olhos e beliscar mais de uma dúzia de vezes, continuava a avistar a mesma imagem.

- Estou salvo! Finalmente, Terra Firme!

 A alegria de tal visão era tanta que, enquanto festejava, desequilibrou-se, escorregou da bóia e caiu à água.

“Glu, Glu, morrer afogado agora, não!” – pensava, enquanto se debatia para chegar à superfície, mas em vão. Lembrou-se então da corda que conservava ainda atada à bóia, e recorrendo ao estratagema anterior, conseguiu equilibrar-se novamente na sua bóia da salvação.

- Parece que ainda não foi desta. – suspirou, aliviado. Ao mesmo tempo, olhava para a visão da terra prometida. De início uma massa escura, viam-se agora, para além de água, praias, rochedos, vegetação e habitações- Que terra será esta? – perguntava-se. – Não parece uma ilha! O que é isto agora?

Alarmara-se novamente, mas não em vão. A corrente que o arrastara até ali, subitamente, mudara de direcção e arrastava-o para o alto mar. Assustado, Demétrio começou então a remar contra a corrente, e aos poucos, quer usando as pernas, a maleta, ou a própria bóia, o cavaleiro aproximava-se devagarinho da costa. Quando pôde finalmente descansar, pois a ondulação empurrava-o para a praia, o nosso amigo observava-a com atenção que conseguia distinguir. Em frente, a praia, repleta de animação – jovens, surfistas, raparigas de biquini reduzido... Um pouco afastada da praia, a cidade, que pelo casario que conseguia distinguir deveria ser grande.

A alegria de voltar a pisar terra firme foi indiscritível. Bem, neste caso foi mais areia da praia que terra, mas mesmo assim Demétrio lançou-se à areia, beijou-a, enrolou-se nela, pulou de alegria, de tal modo que quando acalmou dir-se-ia parecido com um croquete pronto a fritar.

Só após estes momentos iniciais, de pura emoção, olhou em volta, tentando descortinar que terra seria aquela, reparando num pequeno pormenor: todos o fixavam, e apontando ou olhando de revés, pareciam rir-se  dele.

- O que foi? – Gritou-lhes, agora já zangado. –Nunca viram um náufrago? Deixem-me em paz! – e para consigo continuou- Parvos, estúpidos... Gozarem com a desgraça alheia.

O gesticular do nosso personagem, levou a que alguns dos banhistas, ao pensarem que ele realmente seria doido, se afastassem, mas um dos nativos, acabou por se aproximar, tentando meter conversa:

- Hey dude! Who are you? An alien, or just nuts? Ah Ah Ah! [1]



[1] Hey, meu! Quem és tu? Um extraterrestre ou apenas maluco? Ah Ah Ah!

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