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Qual
o significado do Estado para os trabalhadores no fim do século
XX? Qual postura política a adotar em suas lutas até a sua
emancipação como classe oprimida? Partindo de uma revisão
do Manifesto, algumas formulações do marxismo no Brasil
[1] procuraram responder essas questões. Esse
artigo resgata, em síntese, apenas a sua compreensão revisionista
de Estado e sugestões políticas, no interior de um confronto
crítico com a teoria marxiana.
Como apontou Gorender (02: 1998), a mundialização capitalista,
sob a égide da fração financeira do capital, formava
o olho do furacão neoliberal que violentou muitos dos direitos
sociais e trabalhistas da rede social do Estado. A remoção
dessas barreiras legislativas favoreceu, de um lado, o movimento da acumulação
capitalista – apropriação privada financeira das verbas
públicas, privatizações - e, de outro, provocou o
rebaixamento da condição de vida dos dependentes da venda
de sua força de trabalho - desemprego, precarização
do trabalho, perdas salariais e de serviços coletivos. Esse cenário
sombrio parece ter contribuído para confundir a postura política
do neoliberalismo como antiestatal. É um passo para conceber positivamente
o Estado em relação aos trabalhadores e, por conseguinte,
para revisar a teoria de sua extinção, preconizada na origem
do marxismo.
“Uma questão relevante, que requer abordagem é a questão
do Estado. Desde sua origem dissociado do anarquismo e adversário
dele, o marxismo sempre focalizou o Estado como instituição
negativa, que deve desaparecer paulatinamente a partir do próprio
momento em que o proletariado se assenhora do poder político. Mas
também esta tese deve ser posta em questão e qualificada.
Em nosso tempo, a doutrina neoliberal também se apresenta como
antiestatista e negadora do Estado. Seria ingenuidade de nossa parte nos
confundirmos com a ideologia neoliberal”. (Id.: 08)
Minado hoje, o Estado em sua forma de Bem-estar social não seria
apenas um mero engodo para organizar o domínio da burguesia e abafar
o comunismo, pois, antes de qualquer coisa, foi também uma construção
proletária.Caberia, então, defender uma outra intervenção
do Estado favorável aos interesses da classe trabalhadora para
resgatar os direitos sociais do período fordista-keynesiano solapados
nos últimos anos.
“Diante da prova histórica, cumprem que os marxistas reconheçam
que o Estado do Bem-estar não constitui somente um engodo da burguesia,
não procedeu exclusivamente da intenção estratégica
de desviar a classe operária da atração comunista.
O Estado do bem-estar também resultou – em proporção
substancial – da luta de classes travada pelos trabalhadores, foi
também uma conquista dos trabalhadores. Por isso mesmo, cabe defender
hoje a rede de proteção social estendida precisamente naquele
período caracterizado como fordista-keynesiano”. (Id.: 08)
Esses fatos observáveis servem de base para o revisionismo propor
uma nova compreensão de Estado capaz de superar as limitações
daquela sugerida no Manifesto [2]. Primeiro, entende
que ocorreu uma socialização da política, caracterizada,
entre outros, pelo sufrágio universal e pelas as organizações
políticas dos trabalhadores – sindicatos e partidos. Segundo,
esta ampliação do político permitiu que os trabalhadores
pudessem obrigar o Estado capitalista a se abrir para seus interesses,
extirpando o seu monopólio pela classe dominante. Assim, embora
o Estado permaneça com seu caráter de classe, não
o é mais somente da burguesia.
“(...) a crescente ‘socialização da política’
(conquista do sufrágio universal, criação dos sindicatos
e partidos operários de massa) forçou o Estado capitalista
a se abrir para outros interesses que não apenas os da classe dominante,
com o que – sem deixar de ser um Estado de classe – ele não
mais pode ser definido como um mero ‘comitê executivo’
da burguesia”. (COUTINHO, 1998, 03)
Além disso, conforme, Genro (1998: 02), a redução
do Estado à classe dominante impossibilita a apreensão dos
“movimentos reais” que permeiam a estrutura política
no “estágio civilizatório” atual. Explica que
(Id.: 02):
“estes movimentos
são tanto tipicamente de ‘classe’, como se originam
de vários outros fatores, nem sempre de natureza econômica,
como , por exemplo, aqueles orientados pelos costumes nacionais, pela
cultura, pela religião e pela própria forma com que
os homens se relacionam com a natureza”
A suposição das
demandas de caráter universais serve para corroborar concepção
do Estado como “uma instância que reflete, nas suas próprias
instituições, não só os antagonismos de classe
que permeiam a sociedade, mas também – por elas – assegura
algumas demandas de caráter universal acima das classes”.
(Id.: 04) Por trás dessas ponderações encontra-se
o temor em reeditar “o problema da negação da democracia
e das liberdades políticas, pelo marxismo vencedor.“ (Id.:
04) O revisionismo entende que há hoje um “Estado fundado
numa ordem jurídica e sob permanente assédio do proletariado”.
(Id.: 04), e, desse modo, o mesmo não tem um caráter específico
e de correspondência com o domínio burguês. Pelo contrário,
o seu valor universal choca-se com a restrição de classe.
Alterar o significado da estrutura política para os trabalhadores
– que de meio de repressão e desarticulação
para ser meio para a organização política dos mesmos
- implica chegar numa nova forma das lutas de classes mediada pelo Estado.
O ponto central na transição socialista configura-se pela
permuta, no seu interior, entre o conteúdo de classe burguesa pelo
conteúdo de classe proletária, já que o movimento
dos trabalhadores revolucionários (pode e) deve fazer a apropriação
do mesmo e retirá-lo das garras burguesas. Destruí-lo e
substituí-lo por outra forma política, como a ditadura do
proletariado, mediante um embate violento com a burguesia, seria um anacronismo
[3], pois as instituições liberal-democráticas,
supostamente neutras, abrem caminho para uma revolução processual
e pacífica. É como se estas também já fossem
portadoras de um conteúdo proletário, por serem resultados
de seus esforços políticos.
“Tudo isso, finalmente, motivou uma nova concepção
da revolução socialista: esta pode agora ser imaginada como
um movimento processual, que opera nos espaços abertos pelas instituições
liberal-democráticas (resultantes, em grande parte, das lutas dos
trabalhadores), e não mais, como ainda supunha o Manifesto, sob
a forma de uma ‘explosão violenta’ concentrada num
curto lapso de tempo”. (COUTINHO, 1998: 03)
Em grande parte, foi pelo resgate da tradição liberal-democrática
que o revisionismo buscou renovar a teoria política marxista e
superar seus limites. Esse flerte é explícito em Coutinho
(1998: 04) quando afirma que o ideal emancipatório do comunismo
– a associação de indivíduos livres –
encontra seu ponto de apoio naquela tradição, capaz de contribuir
para esclarecer, por isso mesmo, as razões do fracasso do “socialismo
real”. Desse modo, se o erro central foi o da estatização
totalitária dos meios de produção (GORENDER, 1998:
08), recomenda-se, então, uma reformulação do marxismo
no que tange a estatização total desses meios e ao planejamento
ultra-centralizado. Uma configuração mista da propriedade
socialista, estatal e outra sob formas não exatamente estatais.
“Diante da experiência soviética, diante dos resultados
negativos do planejamento ultra-centralizador praticado na extinta URSS,
cabe colocar em questão a estatização total como
forma socialista de coletivização dos meios de produção,
Certamente, ao lado da propriedade estatal dos meios de produção,
é possível imaginar a atuação de formas diferentes
– comunitárias, locais, regionais, setoriais e até
familiares. Conservando o seu cerne, precisam os marxistas reformular
as proposições fundamentais do Manifesto comunista”.
(Id.: 08-09)
Em suma, a tese revisionista acaba sendo o contrário da proposta
por Marx, ou seja, o Estado possibilitaria a organização
política do proletariado como classe social para romper com o domínio
da burguesia. As instituições liberal-democráticas
são o núcleo contrário da ordem de classe burguesa
por basear-se em princípios universais que a ultrapassa.Basicamente,
esta compreensão compõe-se por duas considerações:
a) o Estado ampliou-se para a atuação política do
proletariado e, portanto, não está mais restrito para repressão
burguesa e seus interesses dominantes; b) a partir disso, o Estado pode
também corresponder aos interesses e finalidades da classe dominada,
inclusive ser o instrumento fundamental de sua emancipação.
Nova época, velho debate? Renovação que supera, ou
renovação que retrocede?
Em linhas gerais, as questões anotadas aqui relembram o caloroso
debate travado nas origens do século XX, entre outros posteriores,
ao redor das teses de Bernstein e Kautsky, cujas críticas vieram,
para citar algumas célebres da época, de Lênin e Rosa
Luxemburgo. Neste [4], admitir ou não o caráter
especificamente burguês do Estado e de suas instituições
liberal-democráticas desemboca, respectivamente, em duas posturas
políticas opostas: 1) processo de ruptura e de lutas até
violentas, esmagar a estrutura política existente e substituí-la
por uma outra estritamente classista derivada da organização
dos trabalhadores; 2) processo evolutivo e pacífico, conquistá-la
para aperfeiçoar suas dimensões supostamente emancipatórias.
Se para Marx, o Estado não passava de um meio de opressão
de dominação da classe burguesa sobre a classe proletária,
queria dizer isso que o caráter burguês reside na sua apropriação
pela classe dominante e na realização exclusiva de seus
interesses? A resposta é negativa. Superando o Manifesto [5],
Marx (1997: 66) apreende, no seu 18 Brumário, o desenvolvimento,
em conformidade com os interesses da burguesia, da estrutura interna do
Estado - sua máquina burocrática e militar, centralizada
e hierarquizada - que não se identifica com nenhuma das classes.
A específica organização do aparelho estatal perante
a sociedade impossibilita a gestão livre e igualitária do
ser social, coagindo e reprimindo todos os movimentos autônomos
que desafiam a estabilidade da ordem social burguesa. Esta, profundamente
contraditória, provoca os embates entre as classes e, nestes momentos,
“revela-se com traços cada vez mais nítidos o caráter
puramente repressivo do poder de Estado” (MARX, 1875: 195), por
amortecê-los em nome do “interesse público”.
Esta aparência de neutralidade da máquina estatal é
fortalecida e possibilitada ideologicamente através de sua forma
democrática e republicana que supõe essa vida política
formada pelos indivíduos livres e iguais, os cidadãos, abstrações
das classes sociais (MARX, 1997: 35-36) - possíveis pela esfera
mercantil da produção capitalista, conforme cap. VI Inédito
d’O Capital. Aliás, o Estado, em certos momentos, pode abrigar
certos interesses proletários, sem deixar de ser capitalista, para
possibilitar a reprodução da dominação burguesa,
conforme análise de Marx (1998: 277) sobre a legislação
fabril na Inglaterra. Esta é uma contradição da própria
realidade e, aprendendo nela a luta revolucionária dos proletários
franceses em sua experiência na Comuna de Paris, Marx - junto com
Engels – (1998: LXXXI) fez sua famosa retificação
do Manifesto, no prefácio deste texto em 1872: “a classe
operária não pode limitar-se a tomar conta da máquina
do Estado que encontra montada a pô-la em movimento para atingir
os seus próprios fins”. O nascimento do ser social livre
não pode ser realizado por um Estado organizado para perpetuar
a dominação de classe. Assim, conseguiu Marx (1975: 199-200)
vislumbrar dentro da transição socialista a necessidade
de outra forma política própria à classe trabalhadora
organizada para eliminar as bases econômicas do poder burguês.
Palavras finais... voltando ao ponto de partida
A dialética marxiana foi capaz de apreender a unidade entre forma
e conteúdo burguês do Estado ao captar a necessária
relação entre a superestrutura política e sua infraestrutura
socioeconômica. Afirmando a historicidade do Estado burguês
e de suas manifestações ideológicas burguesas como
resultados da organização da sociedade em classes sociais
antagônicas, Marx rompeu com as mistificações idealistas
do hegelianismo - a realização universal - e da tradição
liberal-democrática – o bem comum -, formadas pela união
de indivíduos livres e iguais. Por isso, ao contrário do
que podem objetar, voltar ao pensamento científico de Marx pode
contribuir para romper com o dogmatismo que eterniza as categorias históricas,
revolucionar a própria ciência social em suas abstrações
e desmascarar suas dimensões burguesas de classe.
O caminho revisionista pareceu estar mais próximo, de certo modo,
da dialética hegeliana do que a de Marx, já que compreendeu
o Estado de forma autônoma diante da produção social
burguesa, como forma política capaz de subverter a dominação
burguesa – de existir além desta. Assim, o Estado burguês
pôde ser perpetuado num processo de síntese entre a afirmação
e a negação de duas dimensões, classista e universalista,
supostamente sem ligações necessárias. Enfim, esse
revisionismo brasileiro apontou para uma superação do Manifesto
e de Marx que retrocedeu da radicalidade de seu estatuto teórico
e político clássico para o universo ideológico burguês.
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