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0 MANIFESTO COMUNISTA DE 1848
Em meados do século XIX, a Europa estava, política e economicamente
bastante diferenciada. A Inglaterra era a nação mais industrializada
e com a classe operária já organizada em sindicatos. A França,
de economia ainda predominantemente rural, convivia com intensa agitação
revolucionária, tendo o movimento operário alcançado
uma grande experiência de luta a partir de 1830. A Alemanha, dominada
pelos "junkers" (grandes proprietários de terras), não
conhecia ainda a liberdade de opinião, de reunião, de imprensa;
apesar disso, a classe operária já tinha propostas de organização
sindical e partidária. A Itália, atrasada industrialmente,
estava ainda dividida em principados autônomos. E a Rússia
permanecia autocrática e feudal.
Em 1848, eclodiu em Paris a revolução que derrubou Luís
Felipe, o rei burguês. Nessa evolução, o proletariado
lutou contra a burguesia em defesa da liberdade e de direitos políticos
Em outros países, como nos Estados alemães e italianos e
na Áustria, ocorreram também revoltas e derrubadas de governos.
0 "Manifesto Comunista" de Marx e de Engels foi publicado no
mesmo ano das Revoluções de 1848, mas não teve influencia
direta sobre esses acontecimentos. Surgiu como o programa da "Liga
dos Comunistas", organização de caráter socialista
que agregava representantes de vários países e da qual ambos
participavam. A palavra comunista foi usada para diferenciar o socialismo
marxista do socialismo "utópico" dos pensadores franceses.
Pouco lido quando de seu lançamento, gradativamente o Manifesto
foi sendo traduzido e se espalhando pelo mundo ocidental, atingindo realmente
aqueles a quem se dirigia: aos "trabalhadores de todo o mundo".
O manifesto fazia uma análise da História e do papel da
burguesia e do proletariado: "Toda a história da sociedade
humana ate hoje é a história das lutas de classes. Homem
livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, patrão
e assalariado, numa palavra, opressores e oprimidos, estiveram em constante
oposição uns contra os outros, numa luta sem tréguas
(.... ) que, de cada vez, terminou por uma transformação
revolucionária da sociedade inteira ou pela destruição
comum das classes em luta. Cada vez mais se divide a sociedade inteira
em dois grandes campos inimigos, em duas grandes classes diametralmente
opostas uma à outra, a burguesia e o proletariado". (Citado
por Chevalier, J. J., op. cite p. "49/250).
Marx e Engels reconheciam a importância da burguesia no aperfeiçoamento
técnico, na melhoria dos meios de comunicação e na
difusão dos produtos até as regiões mais distantes,
"Ela (a burguesia) criou cidades colossais, aumentou muito a população
urbana em relação a rural...durante pouco mais de cem anos
em que se encontra no poder, ela criou forças produtivas colossais
e mais sólidas do que todas as gerações anteriores
juntas.
Mas, apesar do papel revolucionário da burguesia no que tange à
produção e à derrubada das monarquias absolutistas,
o proletariado surgido do sistema fabril era oprimido, vivendo em extrema
penúria. 0 único meio de o proletariado superar essa situação
seria pela tomada do poder, derrubando a burguesia via revolução.
0 Manifesto sugeria então um conjunto de medidas a serem seguidas
para si iniciar a transformação da sociedade como:
- a expropriação
da propriedade privada da terra, em proveito do Estado; · a criação
de um imposto de renda progressivo e de um banco nacional para monopolizar
as operações bancárias ;
- a estatização
dos meios de comunicação, das ferrovias e das indústrias;
- ensino gratuito
para as crianças e o trabalho obrigatório para todos.
0
texto terminava afirmando: "Os comunistas não procuram ocultar
seus pontos de vista ou objetivos. Declaram abertamente que suas metas
só podem ser atingidas pela derrocada à força de
todas as condições sociais existentes. Deixem que as classes
governantes tremam de medo diante de uma revolução comunista.
Os proletários nao tem nada a perder, exceto seus grilhões.
E têm tudo a ganhar. Trabalhadores de todos os países, uni-vos".
(Citado por GALBRAITH, John Keneth. A Era da Incerteza. Editora Pionéira
e Editora Universidade de Brasília, São Paulo, 1979, p.
87.)
O CAPITAL
A "mais valia"
Marx publicou, em 1867, o primeiro volume de sua obra "0 CAPI TAL
- ANÁLISE CRÍTICA DA PRODUÇÃO CAPITALISTA",
onde analisa detalhadamente o funcionamento do sistema capitalista e mostra,
como suas con adições levá-lo-ia inevitavelmente,
à destruição.
Através do conceito da "mais valia", Marx demonstrou
que o capi talismo se baseia na exploração do trabalho.
Vejamos como isso se dá:
"0 sistema
capitalista se ocupa da produção de artigos para a venda,
isto é, de mercadorias. 0 valor de uma mercadoria é determinado
pelo tempo de trabalho socialmente encerrado na sua produção.
0 trabalhador não possui os meios de produção (terras,
ferra mentas, fábricas, etc.), que pertencem ao capitalista. 0
valor de sua força de trabalho, como o de qualquer mercado ria,
é o total necessário a sua reprodução - no
caso, a soma necessária para mantê-lo vivo. Os salários
que lhe são pagos, portanto, serão iguais apenas ao necessário
a sua manutenção Mas, esse total que recebe, o trabalhador
pode produzir em par te de um dia de trabalho. Isso significa que apenas
par-ce do dia de trabalho o trabalhador estará trabalhando para
si. 0 resto do dia, ele está trabalhando para o patrão.
A diferença entre o que o trabalhador recebe de salário
e o valor da mercadoria que produz é a mais-valia. A mais-valia
fica com o empregador - o dono dos meios de produção. É
a fonte do lucro, dos juros, das rendas - as rendas das elas classes que
são proprietárias. A mais-valia é também a
medida da exploração do trabalhador no sistema capitalista."
(HUBERMAN, Leo. História da Riqueza do Homem. Rio de Janeiro, zahar,
(1972, p. 232/233.)
Portanto,
segundo Marx, a exploração do trabalhador não decorre
do fato de o patrão ser bom ou mau, e sim da lógica do sistema:
para o empresário vencer a concorrência entre os demais produtores
e obter lu cros para novos investimentos, ele utiliza-se da mais-valia,
que constitui a verdadeira essência do capitalismo. Sem ela, este
não existe, Mas, a exploração do trabalho acabaria
por levar, por efeito da tendân cia decrescente da taxa de lucro,
ao colapso do sistema capitalista.
b)
As crises e a transição para o Comunismo
No sistema capitalista, o empresário obtém lucros por ser
o dono do capital. Ele investe a maior parte dos lucros na ampliação
de sua fábrica ou em novos empreendimentos. Com isso, aumenta seu
capital e obtém, numa etapa seguinte, maiores lucros. Torna reinvesti-los
sucessivamente, caracterizando o processo de acumulação
de capital. A crescente acumulação de capital traz o crescimento
da produção e a contratação de novos empregados.
Como todos os capitalistas fazem o mesmo, a tendência é a
expansão do valor dos salários, devido à necessidade
de trabalhadores. Mas o aumento dos salários provoca a diminuição
da mais-valia. Para isso não ocorrer, introduzem-se aperfeiçoamentos
técnicos, como novas maquinas, que economizam mão-de-obra.
Em conseqüência, trabalhadores são despedidos, criando-se
uma reserva de desempregados que impede o aumento dos salários,
restabelecendo-se novamente o lucro do capitalista.
Entretanto, as novas máquinas são caras e têm um custo
alto, diminuindo o lucro do empresário. As dispensas de empregados
contribuem também para diminuir o consumo, provocando a recessão.
Isso significa salários menores e mais sacrifícios para
os trabalhadores que conseguem manter o emprego. Para os capitalistas,
traz dificuldades e falências. Os que sobrevivem, compram a preços
inferiores as máquinas e as fábricas fechadas, auferindo
grandes lucros e levando à concentração do capital
em poucas grandes empresas. Estas passam a monopolizar determinados setores
da produção, eliminando a concorrência.
Com o aperfeiçoamento constante das máquinas, consegue-se
produzir mais mercadorias do que o poder de compra dos salários,
dando origem a uma crise de superprodução. O Capitalista,
que agora não consegue mais vender o seu produto com o mesmo lucro,
é obrigado a reduzir o investimento, e a dispensar mão-de-obra,
desorganizando o mercado e o sistema.
Diante das crises cada vez mais constantes e agudas do capitalismo, a
classe operária, unida e disciplinada, toma o poder, destruindo
o Estado burguês e implantando o Estado operário ou a "ditadura
do proletariado". Esse Estado possui um caráter mais democrático
do que o seu antecessor, porque a classe operária que vai assumi-lo
constituía maioria da população. Seu estabelecimento
implica na supressão da propriedade privada dos meios de produção
que passa a pertencer à coletividade; conseqüentemente, desaparecem
as classes sociais.
A coletivização dos meios de produção é
o passo fundamental para a transição para a sociedade comunista,
sem propriedade particular, sem conflitos de classe e, portanto, sem necessidade
de Estado. No comunismo, o produto do trabalho de todos é repartido
segundo o trabalho realizado por cada um, extinguindo-se toda a exploração.
Constitui, assim, o último estágio da História da
Humanidade. |