
O
QUE É FILOSOFIA
Marilena Chauí
O texto de Marilena Chauí O Que É Filosofia não só problematiza o
sentido da filosofia, como também desmitifica a sua usual definição: “ciência
universal”, “ciência de todas
as coisas”, “ciência dos conteúdos. Ela nos diz:
“... Seria uma tarefa absurda e pouco produtiva, para não dizer inglória
e vã, tentar uma definição de Filosofia. Não porque a filosofia seja essa
coisa imprecisa, flutuante, tal que tudo é filosofia, mas porque definir a
Filosofia é dar a ela, de antemão, conteúdos. Se eu der, de antemão, conteúdos
para a Filosofia, eu terei retirado, pelo menos na perspectiva em que eu me
coloco, a própria possibilidade de fazer filosofia. Então, o problema de uma
definição de Filosofia se coloca não tanto porque tudo e nada é Filosofia,
mas pelo próprio tipo de atividade que caracteriza a Filosofia.
Que atividade caracterizaria a Filosofia? ... Se nós considerarmos que
a Filosofia é, em primeiro lugar, um trabalho para transformar uma experiência
imediatamente vivida numa experiência compreendida, e , portanto, a Filosofia
é um trabalho para transformar uma experiência em um saber a respeito dessa
experiência, o campo da Filosofia é vastíssimo. É o campo de todas as
experiências possíveis...
O que significa isso? Em primeiro lugar, significa que a Filosofia,
enquanto trabalho do pensamento, enquanto reflexão (refletere,
voltar sobre), vai negar a experiência imediatamente vivida como uma experiência
imediata e vai mostrar que essa experiência está carregada de sentido, ...
possui o seu tempo próprio, possui significações...
Em segundo lugar, é o conhecimento da origem dessa experiência. Quer
dizer, o que diferencia a experiência imediata e a reflexão dessa experiência
é que essa reflexão conduz ao conhecimento da origem de uma experiência e
do sentido que essa experiência tem a partir de sua origem...
A filosofia não trabalha com dados, mas com gêneses.”
O
QUE É IDEOLOGIA
Marilena
Chauí
No livro O Que É Ideologia,
Marilena Chauí, no capítulo inaugural “Partindo de alguns exemplos”,
chama a atenção para o sentido da realidade. Ela mostra que é através
desse sentido que a ideologia se
afirma como representação e oculta a realidade enquanto práxis, isto é,
enquanto processo histórico.
“...É, portanto, das relações sociais que precisamos partir para
compreender o que, como e por que os homens agem e pensam de maneiras
determinadas, sendo capazes de atribuir sentido a tais relações, de conservá-las
ou de transformá-las. Porém, novamente, não se trata de tomar essas relações
como um dado ou como um fato observável, pois nesse caso estaríamos em plena
ideologia. Trata-se, pelo contrário, de compreender a própria origem das
relações sociais, de suas diferenças temporais, em uma palavra, de encará-las
como processos históricos.
Mas, ainda uma vez, não se trata de tomar a história como sucessão
de acontecimentos factuais, nem como a evolução temporal e das coisas dos
homens, nem como um progresso de suas idéias, mas o modo como homens
determinados em condições determinadas criam os meios e as formas de sua
existência social, reproduzem ou transformam essa existência social que é
econômica, política e cultural.
... A história é praxis (no grego, praxis significa um modo de agir
no qual o agente, sua ação e o produto de sua ação são termos
intrinsecamente ligados e dependentes uns dos outros, não sendo possível
separá-los). Nessa perspectiva, a história é o real e o real é o movimento
incessante pelo qual os homens, em condições que nem sempre foram escolhidas
por eles, instauram um modo de sociabilidade e procuram fixá-lo em instiuuições
determinadas (família, condições de trabalho, relações políticas,
instituições religiosas, tipos de educação, formas de arte, etc.). Além
de procurar fixar o seu modo de sociabilidade através de instituições
determinadas, os homens produzem idéias ou representações pelas quais
procuram explicar e compreender sua própria vida individual, social, suas
relações com a natureza e com o sobrenatural. Essas idéias ou representações,
no entanto, tenderão a esconder dos homens o modo real como suas relações
sociais foram produzidas e a origem das formas sociais de exploração econômica
e de dominação política. Esse ocultamento da realidade social chama-se
ideologia.”
Outros Textos: