DEZEMBRO DE 2005
O NATAL DE JESUS DA SILVA
A cada ano o mundo todo celebra o Natal. De festa pagã do Império
Romano à festa cristã que simboliza o nascimento do Filho de Deus, Jesus de
Nazaré, que segundo a tradição nasceu numa manjedoura em Belém.
Assim, todos os anos a cultura ocidental festeja este momento de Ação
de Graças. De tanto incentivar os festejos, até mesmo a cultura oriental
aceitou vive-la também.
Jesus também sonha em celebrar este momento apesar de sentir que as
coisas estão difíceis para seu lado. Ontem, a polícia o expulsou do banco da
praça em que dormia no Centro de São Paulo. A expulsão se deu visto que onde
ele estava são pontos de comércio e nesta época de Natal, as ruas e lojas
ficam cobertas de clientes a procura de ofertas imperdíveis. Mas, isso já era
normal para Jesus da Silva, um jovem mineiro que nasceu num prostíbulo de
estrada, ponto de caminhoneiros, na região do Vale do Jequitinhonha. Desde
cedo, sua mãe veio com ele à São Paulo tentar a sorte, mas ela morreu de
overdose de cocaína quando Jesus tinha apenas 6 anos de idade. Por coincidência
do destino ou da história, sua mãe se chamava Maria das Graças da Silva, mais
conhecida como Gracinha. Morreu jovem com apenas 23 anos. Jesus ficou na rua,
nos albergues e em centros de acolhimento ao “menor abandonado”, mas
não gostava. Sempre se identificou com a rua e com os seus.
Jesus nunca foi à escola. Não sabe ler e escrever. Conhece somente as
histórias do povo da rua e seus midrashes (contos e histórias
populares) de um mundo suburbano e subumano. Nunca foi a um posto de saúde,
exceto uma única vez que um dono de bar lhe quebrou o braço por estar pedindo
esmola na frente de seu estabelecimento. A polícia o levou para engessar seu
braço no Hospital. Quanto ao agressor foi aplaudido pela polícia que o
incentivou a continuar atuando dessa forma, “metendo a mão” como
falam no popular.
Jesus da Silva carrega consigo sua certidão de nascimento que sua mãe
entregou antes de morrer com as drogas, já que era viciada. Talvez, por isso,
Jesus nunca tenha cedido lugar às drogas em sua vida. Somente “cola de
sapato” que utilizava como recurso para superar a fome quando esta lhe
apertava o corpo e a alma. Também, nunca roubou coisas grandes como bolsas das
madames ou celulares, pois não via necessidade disso. Às vezes, por causa da
fome furtava um pão, um doce, um salgadinho de alguém e quase sempre era pego
e apanhava. Ele sabia que não era pecado, pois uma vez ouviu um homem franzino
com roupa de padre falar na Catedral da Sé que se o roubo for para matar a fome
não era pecado, tratava-se de Dom Hélder Câmara. Mesmo sem saber o que era
pecado confiou naquele homem de aparência franzina, mas com uma voz que o
deixou em paz e feliz.
Todos os seus o conhecem. Os seus são moradores de rua como ele. Viram o
menino Jesus crescer e se tornar um homem. Ele sempre ouviu falar do Natal,
dessas festas, mas nunca entendeu muito bem o seu significado. Para ele, Jesus
era seu nome, nada mais que isso. Papai Noel era um velhinho que aparecia nesta
época do ano para das presentes às crianças ricas, pois ele mesmo jamais
recebeu um presente sequer. Com 11 anos, tentou pedir um presente na frente de
uma loja na Rua Direita, mas retiraram-lhe dali, daí o surgimento dessa intuição
de que Papai Noel é para os que não são como ele.
O tempo passou. Hoje Jesus está com 33 anos e ainda morador de rua.
Nunca foi para a FEBEM e nem preso. O seu mundo é a rua. O seu lar é a calçada
e os becos de um submundo da dor. Para ele, apenas destino. Uns têm o direito
de ter casa, estudo, trabalho e família. Outros, como ele, têm o direito de
respirar e pedir aos outros, assim pensa Jesus da Silva. Sua concepção de
cidadania parte do pressuposto da normatização dos destinos, ou seja, é
natural sua condição de vida, pois Deus e a sociedade assim o quis.
Mais um Natal chegou. Papai Noel, presépios, compras e muitas compras.
Com o advento do deus mercado, nesta sociedade de consumo, as origens da Festa
cristã estão sendo substituídas para a Festa Lucral, tempo do Kairós do
Mercado Total e da Livre Concorrência, pois tudo vale na lógica do lucro e do
capital. Então, de pagã à cristã e de cristã a lucral.
Jesus, o Silva, mais uma vez passará o Natal entre os seus, procurando
as migalhas que caem da mesa farta dos ricos. E, Jesus, o Nazareno ficará mais
uma vez preso ao presépio ou sacrário dentro de uma Igreja ou em praças como
um símbolo ultrapassado do
Verbo de Deus que se encarnou entre nós, pois Jesus nasce entre, com e como os
pobres de todos os tempos da história. O que importa hoje para a sociedade é o
Papai Noel. As próprias crianças conhecem muito mais Papai Noel, produto da
Coca-Cola, do que Jesus de Nazaré que nasceu em Belém da Judéia.
Ceia? Jesus da Silva nem sabe o que é isso. Sua ceia será o lixo a
procura de um alimento que com sorte deverá encontrar. Com certeza não será
peito de frango ou de peru. Nesta noite dormirá com os seus junto a um viaduto
onde se esquentarão do frio da cidade. Frio do esquecimento e da naturalidade
de condição que lhes foi imposta pela mesma sociedade hipócrita que hoje
celebra o Natal em nome do nascimento de Jesus de Nazaré e se curva ao deus
mercado e à Papai Noel.
Jesus da Silva fará a fração dos alimentos que encontrou no lixo com outros moradores de rua, alguns já meio altos da pinga que não é difícil de conseguir neste mundo. Na manjedoura do viaduto partilharão os restos de comida encontradas nos lixos depois de tanta procura. Na fração desse alimento Jesus da Silva se encontra com seu amigo Jesus de Nazaré. Mesmo sem saber ambos comerão a Ceia, pois Jesus e Jesus, o Silva e o Nazareno serão a mesma pessoa. Mais um Natal se passará, a exclusão continuará e só teremos uma certeza, a de que “a Palavra se fez homem e habitou entre nós!” (Jo 1, 14). Enquanto isso... No mundo lucral...
Claudemiro Godoy do Nascimento
Filósofo. Mestre em Educação pela Unicamp. Agente de Pastoral.
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