
Durante
três dias os participantes discutiram auditoria da dívida externa, soberania
nacional, papel do Estado, modelo econômico, novas formas de trabalho, políticas
públicas, desenvolvimento sustentável e direitos dos povos indígenas e
quilombolas.
Biomas
– Os debates foram realizados em torno de biomas: Cerrado, Pantanal, Amazônia,
Semi-Árido, Mata Atlântica e Temperado Sul. Esta perspectiva revela a
preocupação em estudar a realidade brasileira não apenas nos aspectos econômicos
e políticos, mas também na perspectiva da diversidade sócio-ambiental e
cultural.
Cerca
de 40 movimentos e entidades estiveram na Coordenação Geral da Assembléia.
Entre elas, a Rede Jubileu Sul/Brasil, a 4ª Semana Social – CNBB, o Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Conselho Indigenista Missionário
(Cimi), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Cáritas Brasileira.
Conheça a carta final da Assembléia Popular: Mutirão por um Novo Brasil
CARTA
DA ASSEMBLÉIA POPULAR – MUTIRÃO POR UM NOVO BRASIL
“A
emancipação dos oprimidos será obra deles mesmos.” (Karl
Marx)
Companheiras
e Companheiros, Irmãs e Irmãos do Brasil,
Na
condição de cidadãs e cidadãos, somos sujeitos de direitos iguais e
habitantes de um dos territórios mais ricos em sua diversidade étnica, de
regionalismos, clima, vegetação, fauna, solos, rios, litorais. Ricos em história,
culturas, tradições, costumes, valores e espiritualidades. Viemos de
diferentes biomas (regiões socioculturais/socioambientais) e queremos que o
Brasil seja uma unidade da riqueza de toda esta diversidade, em favor de uma
vida com dignidade para e com todas as pessoas e todos os seres vivos.
É
inaceitável que nossas regiões estejam ameaçadas de destruição, em nome do
“progresso” capitalista e do apelo consumista do mercado, que só visa o
lucro imediato e a acumulação de riquezas, explorando o trabalho humano e
ignorando o equilíbrio da vida e da natureza. Os povos da Caatinga, da Amazônia,
do Pantanal, do Cerrado, do Pampa, da Mata Atlântica - e sendo parte dela ou
seus vizinhos, os povos da longa Costa marítima e a região da Floresta de
Pinhais -, se sentem ameaçados pelo avanço do agronegócio e de projetos que não
levam em conta as potencialidades e limites de cada bioma e não se interessam
pelo destino de seus povos. Um exemplo disso é o projeto de transposição do
Rio São Francisco.
A
quem serve esse tipo de “progresso”, irresponsável, em nosso país e no
mundo?
O
cenário mundial revela que, apesar dos avanços tecnológicos, se aprofundam as
desigualdades sociais. O “progresso” não serve à maioria da população.
Cresce em número e agrava-se a situação de vida dos pobres, excluídos de
oportunidade, enquanto uma minoria de banqueiros, especuladores e grandes empresários
acumula privilégios, concentra fortunas e comanda o mercado financeiro, que é
o principal responsável pelas nefastas políticas neoliberais.
A
situação brasileira não é diferente. Um por cento da população controla e
dispõe de 13% da renda nacional—a mesma quantia com que sobrevive a metade de
toda a população! Um por cento dos proprietários concentra mais de 46% das
terras agricultáveis. Nas cidades, 1% dos proprietários controlam mais da
metade dos lotes, enquanto milhares de pessoas são perseguidas por lutarem por
um espaço para viver. Em matéria de educação, ainda existe considerável
quantidade de analfabetos no Brasil e menos de 8% dos estudantes chegam às
universidades, sendo que a maioria vem das escolas particulares. A Fome é uma
vergonhosa realidade em nosso país e o desemprego, o subemprego e a
informalidade são alarmantes. Milhões de pessoas, sobretudo jovens e aquelas
acima de 40 anos, vivem sem garantias, desprotegidas pelo Estado e lançadas à
própria sorte. O acesso à saúde é restrito a poucos, por falta de
investimentos públicos, enquanto assistimos fortunas vazarem pelo ralo dos
encargos da dívida e da corrupção.
É
decisivo que toda a sociedade conheça as causas desse quadro de desigualdade e
opressão:
1.
Elevada remuneração do capital, por meio da prática das taxas de juros mais
altas do mundo, passando grande parte da riqueza nacional para o setor
financeiro, que tem auferido os lucros mais elevados de todos os tempos. Além
disso, o Banco Central tem promovido a liberdade cambial, que além de facilitar
a lavagem de dinheiro, deixa o país à mercê da especulação financeira e
atenta contra a soberania nacional.
2.
Exploração do trabalho infantil, do trabalho escravo e de toda a classe
trabalhadora, por meio de salários achatados e salário mínimo indigno, que não
cumpre o disposto no artigo 7o., inciso IV, da Constituição
Federal, segundo o qual “os trabalhadores urbanos e rurais têm direito ao
salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às
suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação,
educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência
social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo
vedada sua vinculação para qualquer fim”.
3.
Distorções do sistema tributário, que privilegia os ricos e castiga a classe
trabalhadora, principalmente os trabalhadores e trabalhadoras de baixa renda. O
sistema tributário deveria ser o principal veículo para a redistribuição da
renda. Deveria tributar os grandes capitais, lucros, fortunas, heranças e latifúndios,
e destinar esses recursos à garantia de políticas e serviços públicos de saúde,
educação, esporte, segurança, saneamento, assistência, previdência,
cultura, lazer etc. O atual modelo econômico, ao contrário, tira recursos
dos p obres e passa aos ricos, levando a uma concentração de renda cada
vez maior. Além disso, o país tem implementado uma legislação que favorece o
grande capital.
4.
Concentração da propriedade da terra, dos meios de produção, e ausência de
uma política agrária sustentável que garanta sua democratização através da
Reforma Agrária, além da demarcação das terras indígenas e quilombolas. O
modelo agrário neoliberal e a ausência de uma política agrícola para os/as
camponeses/as mantêm e aumentam a concentração de renda e de poder, e estão
diretamente voltados à produção de dólares para pagar os encargos da dívida
externa.
5.
Ausência de investimentos públicos em favor de iniciativas comunitárias e
cooperativas de economia popular solidária, de pequenas e médias empresas,
especialmente as empresas autogestionadas. Ausência também de infra-estrutura
para melhorar a vida do povo, o que poderia gerar inúmeros empregos e
impulsionar a economia do país, já que políticas compensatórias como o Fome
Zero são insuficientes. A atual política econômica governamental exige
agressivos cortes nos investimentos e gastos sociais, afim de oferecer garantias
aos credores das dívidas interna e externa através do “superávit primário”.
Além de não realizar investimentos, tem ocorrido o processo inverso, por meio
da privatização de empresas nacionais prestadoras de serviços essenciais e,
recentemente, a entrega de bens naturais essenciais como a água. Há também o
perigo da contaminação de sementes nativas, causada pela liberação de
sementes transgênicas, além da valorização do agronegócio depredador e da
desnacionalização de jazidas de petróleo.
6.
Privilégios para o pagamento dos encargos das dívidas, tanto interna quanto
externa, que consomem grande parte do orçamento público e da receita de
exportações. A Dívida Pública é o pano de fundo dos grandes problemas
nacionais. O processo de endividamento está diretamente ligado à
retirada de direitos, à perda de soberania diante das imposições de
políticas de ajuste fiscal e estrutural, e também às dificuldades decorrentes
do comércio injusto, que nos obriga a produzir cada vez mais para exportar, sem
respeitar nossos biomas e seus povos. Por isso, exigimos a realização de uma
Auditoria, prevista na Constituição Federal, dessas questionáveis dívidas,
que tanto têm sacrificado a nação brasileira.
7.
Impunidade para os que agridem os direitos humanos e a crescente criminalização
dos pobres e dos movimentos sociais. Outro grave problema é a ausência de
justiça social e segurança pública nos grandes centros urbanos e no meio
rural.
8.
Concentração dos meios de comunicação, sob domínio direto de poucas famílias,
com o objetivo de fazer a disputa e a formação ideológica da população, a
partir da visão das elites. Outro problema é a permanente perseguição às rádios
comunitárias.
Diante
desse quadro de enormes injustiças e desse conjunto de políticas contrárias
às necessidades do povo, é urgente realizamos uma ampla mobilização social,
de forma consciente, contra tudo que impede que as enormes potencialidades de
cada região, de cada bioma, e do país como um todo realize plenamente os
direitos de seus cidadãos e cidadãs.
É
preciso que todo o povo conheça a força do seu poder! A mobilização que
estamos iniciando requer o envolvimento das organizações da sociedade civil -
entidades, associações, sindicatos, movimentos sociais, igrejas, e dos cidadãos
em geral - a fim de pressionar os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário
para exigir o direcionamento das políticas nacionais em favor dos interesses
populares e não do mercado financeiro. Exigimos comportamento transparente e ético
de todas as pessoas responsáveis por serviços públicos, bem como a apuração
completa de todas as denúncias de corrupção e o ressarcimento dos recursos
desviados aos cofres públicos. É necessário viabilizar instrumentos de
fiscalização popular da aplicação de recursos públicos e acabar com a
imunidade parlamentar.
A
participação dos cidadãos e cidadãs nas Assembléias Populares contribuirá
para instituir uma soberania popular efetiva, e
não meramente simbólica. As Assembléias serão nossa força para impedir a
subordinação do bem comum do povo ao interesse particular, bem como a subserviência
da nação aos interesses estrangeiros. Elas serão nossa força para tornar
efetivo o poder popular, para construir um Brasil livre, soberano e socialista,
que queremos para nós e para as futuras gerações, convivendo com todos os
povos da Terra em espírito de cooperação e solidariedade.
Brasília, 28 de outubro de 2005.