Vida alternativa e liberdade do coração

Irmão Marcelo Barros, osb
Na sociedade que favorece um jeito padronizado de ser e viver, a normalidade se torna “normose” e, cada vez mais, um número maior de pessoas aspira por um estilo de vida mais livre e alternativo que dê sentido às lutas cotidianas fundamentais da condição humana.
Nestes dias, a população da Cidade de Goiás está profundamente marcada por dois testemunhos extraordinários. O primeiro encheu de dor e de saudade a comunidade vilaboense: a morte repentina da irmã Aspásia Lisboa. Desde 1979, esta irmã dominicana vivia em Goiás e dedicava todas as suas forças ao cuidado amoroso das pessoas com necessidades especiais, idosos/as e mais jovens, todas feridas pela pobreza injusta e por alguma deficiência física ou psicológica que ela acolhia e coordenava no Asilo São Vicente de Paula. Nos últimos anos, já doente, nunca aceitou se afastar do trabalho para cuidar da própria saúde. Sua forma de ser e de viver deixava claro: era uma pessoa cuja felicidade era servir totalmente aos outros e consagrar sua vida para que todos os seres humanos sejam tratados com dignidade e justiça. No último 28 de outubro, a irmã Aspásia deixou esta condição de vida, deixando o testemunho de uma vida doada até o último suspiro.
Agora, nesta segunda-feira, 14 de novembro, a comunidade do Mosteiro da Anunciação do Senhor celebra os 60 anos de consagração como monge do querido irmão Pedro Recroix. Quem o encontra pela primeira vez pode estranhar o seu humor quase ferino que mexe com todo mundo e, às vezes, pode parecer quase meio agressivo e pouco delicado. Quando se entra em um contato mais profundo se descobre a profunda inocência de suas brincadeiras. Aos 83 anos, vivendo no Brasil desde 1960, Pedro mantém sempre uma simplicidade austera e, com seu jeito de ser aparentemente desligado, trabalha uma disciplina interior que lhe dá capacidade de avançar sempre. Mora em um barraco, com o mínimo de utensílios que, normalmente, se encontram em um quarto de alguém e, cada dia, precisa de menos coisas.
Desde 1976, tenho a graça de conviver com ele e pude acompanhar um processo de amadurecimento pessoal que me ajuda profundamente. Se alguém me pergunta algo que gostaria de garantir, respondo: a capacidade de lidar com a terceira idade com tanto equilíbrio e liberdade interior. Poucas vezes, convivi com uma pessoa que envelhece com tanta liberdade interior e leveza. Seu sorriso aberto e seu humor permanente revelam a todos sua felicidade pessoal e o acerto de sua consagração.
Certamente, uma explicação fundamental para esta evolução humana é o tempo diário que Pedro reserva à oração silenciosa e à meditação, exercícios, hoje, cada dia mais universais. É este tempo de convívio profundo consigo mesmo e com o mistério presente em cada ser que o torna sempre disponível, das três da madrugada quando acorda até a hora de dormir, à noite, desde que não esteja ajudando a algum irmão, atendendo a tarefas de padre, ou talhando na madeira suas belas peças de escultura.
É sempre bom encontrar alguém que, como Pedro e irmã Aspásia, tenham aos 80 anos, um espírito aventureiro e capaz de se renovar permanentemente. Principalmente se, como canta o Mílton Nascimento, podem dizer: “eu, caçador de mim”.
Entre si, estes dois amigos seguiram caminhos diferentes e aparentemente pouco convergentes: um homem e uma mulher, ele, dedicado à meditação permanente e ela, uma missionária dedicada ao cuidado dos mais pobres. Quando a juventude e as pessoas que buscam contam com poucas lideranças que sirvam de referência e exemplo de vida a ser seguido, o testemunho da irmã Aspásia e do Pedro são preciosos porque vão além do aspecto religioso e nos desafiam a refletirmos sobre o que queremos de mais profundamente na vida e como buscamos este tesouro interior.
É verdade que muitos dos que tiveram algum contato com a irmã Aspásia e com o padre Pedro consideram admirável o modo de viver deles, mas sentem ser um ideal tão exigente que se torna acessível a poucos. Um e outro apontam para uma vida cujo segredo de paz e felicidade está na capacidade de ir além do sucesso imediato, da realização pessoal e da auto-satisfação considerada como absoluto.
O biógrafo latino Suetônio conta que, quase quatro séculos antes de Cristo, na Grécia, o filósofo Diógenes lavava lentilhas para fazer uma sopa. O filósofo Aristipo que andava bem de vida porque sabia agradar ao rei, lhe disse com ironia:
- Se você aprendesse a adular o rei não precisaria se contentar com um prato de lentilhas.
Diógenes respondeu:
- E se voce tivesse aprendido a sentir-se bem em comer apenas um prato de lentilhas não precisaria adular o rei.
No mundo atual, o rei que exige culto e reverência é o fascínio do dinheiro e a cultura do consumo que compram o coração humano. Esta é a questão para cada pessoa: um prato de lentilhas ou a venda da própria dignidade, expressa em determinadas carreiras e em certas concessões que fazemos sem nos darmos conta.
A irmã Aspásia e o monge Pedro, pela radicalidade de suas vidas conduzidas na busca do essencial, gritam para quem quiser ouvir: a fonte desta alegria espiritual e da força com que se tornam capazes de doar a sua vida é uma presença misteriosa neles e em cada ser humano. A vida da irmã Aspásia e a consagração do irmão Pedro nos convidam a procurarmos e descobrirmos esta fonte de liberdade que dá força para mudar de vida.
- Marcelo Barros, monge beneditino, autor de 29 livros, entre os quais o mais recente é "A Vida se torna Aliança", (Orar ecumenicamente os Salmos), Ed. CEBI- Rede da Paz, 2005. Email: [email protected]