Os dois �lbuns do projeto tem�tico da cantora singram entre �guas de rio e de mar




Mais do que outros elementos da natureza, a �gua sempre teve presen�a de profundo significado no repert�rio de Maria Beth�nia. Agora, em generosa e caudalosa corrente, o tema desemboca em dois �lbuns tem�ticos, de lan�amento simult�neo: Pirata (Quitanda), em que se aprofunda na mem�ria afetiva da terra natal, Santo Amaro da Purifica��o; e Mar de Sophia (Biscoito Fino), em que singra pela poesia da portuguesa Sophia Mello Breyner em uma vis�o feminina sobre o mar.

O Estado desta sexta-feira traz reportagem sobre o projeto Dentro do Mar Tem Rio, que abrange dois CDs e o show que estr�ia no dia 10 em S�o Paulo. �Agora tenho j� um pouquinho de autoridade para transform�-las numa express�o art�stica de cantora popular�, diz Beth�nia sobre a concentra��o de tantas �guas num trabalho s�.

Beth�nia reuniu can��es in�ditas e antigas. Dentre os compositores est�o Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Vanessa da Mata, Villa-Lobos, Ana Carolina, Edu Lobo, Vinicius de Moraes, Antonio Carlos Jobim e Jo�o de Barro. Versos de poetas brasileiros e portugueses, como Jo�o Cabral de Mello Neto, Guimar�es Rosa e Fernando Pessoa, se unem �s letras de m�sica.

Novidades sonoras

Entre o doce e o salgado, o azul do mar e o amarelo do rio, Beth�nia faz a ponte entre �pocas, origens, inten��es e sensibilidades. Arregimentou can��es in�ditas de compositores como Roberto Mendes e Jorge Portugal, autores de uma das melhores can��es dos CDs, Mem�ria das �guas, que diz: �Amores s�o �guas doces/ Paix�es s�o �guas salgadas/ Queria que a vida fosse/ Essas �guas misturadas�.

Mar de Sophia tem trilha r�tmica de Nan� Vasconcelos. �Quando entrei em est�dio n�o sabia o que ia fazer porque para fazer o mar nenhum instrumento dava, nenhum casava com meus sentimentos, com a sonoridade que eu queria�. Ent�o veio a colabora��o de Nan�. �Para mim a grande marca do disco � o trabalho dele�.

A sonoridade dos dois CDs prima pelo despojamento e especialmente em Pirata, retoma a trilha rural de Brasileirinho, pela �nfase no som da viola, que tamb�m deve ser destaque do show.

Outra combina��o que ressalta aos ouvidos � a de voz com piano, com Beth�nia �s vezes afinando mais nos agudos. �Voz e piano sempre me comoveu muito, porque o primeiro instrumento pra n�s � o piano, em Santo Amaro�, lembra a int�rprete.

Consci�ncia ecol�gica

Mesmo sem falar diretamente sobre a polui��o e o desperd�cio de �gua, estes s�o alertas latentes no trabalho de Beth�nia. �N�o vou dar uma aula. Sou uma cantora popular, mas falando do elemento mais importante, a meu ver, na face da Terra, e que est� sendo dizimado, vai acabar�, alerta.

Para Beth�nia, versar sobre a �gua � a oportunidade de falar como �os homens que comandam o mundo� se comportam com superioridade arrogante diante dos elementos da natureza. �Falar da �gua em dois discos e num show � uma surra. Quem me ouvir vai ter que pensar na �gua�.



Lauro Lisboa Garcia
O Estado de S�o Paulo - 03/11/2006






Mar de Sophia' � mais denso e profundo

Dos dois discos tem�ticos lan�ados por Maria Beth�nia, Mar de Sophia � o que apresenta �guas mais profundas. A imers�o da int�rprete nos versos da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen foi o ponto de partida para a cria��o deste �lbum mais denso e introspectivo do que seu g�meo Pirata, urdido pela percuss�o personal�ssima de Nan� Vasconcellos em faixas como Yemanj� Rainha do Mar (Pedro Amorim e Paulo C�sar Pinheiro), Gr�o de Mar (M�rcio Arantes e Chico C�sar) e a �pica Kirimur� (Jota Velloso).

Sempre h�bil na costura de m�sica de poesia, Beth�nia insere os versos de Sophia entre sauda��es aos orix�s como a que abre o disco (Canto de Oxum, tema de Vinicius de Moraes e Toquinho em que a int�rprete arrisca um canto mais agudo com excelente resultado) e o fecha (Canto de Nan�, de Dorival Caymmi), sublinhando o universo afro-brasileiro que emerge forte do Mar de Sophia.

Por evocar sentimentos inspirados pela mitologia constru�da em torno do mar, a poesia de Sophia conduz o barco de Beth�nia para portos rom�nticos como As Praias Desertas (cl�ssico de Tom & Vinicius, rebobinado com o piano de Antonio Adolfo, convidado tamb�m de Poema Azul, de S�rgio Ricardo), L�grima (faixa mais camer�stica em que desponta o piano de Jo�o Carlos Assis Brasil) e Cantiga da Noiva, tema de um Dorival Caymmi mais surpreendente. Mas surpresa mesmo � ouvir na voz de Beth�nia - com batucada tipicamente carioca e com o bandolim de Luciana Rabello - um samba-enredo da Portela. Das Maravilhas do Mar, Fez-se o Esplendor de uma Noite (1981) � das pe�as mais lindas do g�nero e injeta alegria na interiorizada viagem mar�tima conduzida por Beth�nia.

A interioriza��o atinge um de seus pontos m�ximos em Debaixo D'�gua, m�sica em que Arnaldo Antunes discorre poeticamente sobre as �guas do ventre materno. Na faixa, Beth�nia arrebanha os versos escritos pelos Tit�s para Agora, ditos pela int�rprete num canto falado pr�ximo do rap. E o fato � que, aos 60 anos, completados em junho, Beth�nia est� cantando muito bem.

Pelo roteiro denso, a viagem proposta por Mar de Sophia inclui caminhos mais dif�ceis, ainda que Maria Beth�nia j� tenha navegado por todas essas �guas que, em s�ntese, fazem emergir a cultura popular brasileira.

Mauro Ferreira
No Est�dio com Mauro Ferreira - 03/11/2006

Pirata � belo mergulho �ntimo nos rios

O artesanato que ilustra a capa e o encarte do CD Pirata - um delicado trabalho de costura feito por fam�lia de bordadeiras que vivem nas proximidades do Rio S�o Francisco - � a imagem perfeita para traduzir o esp�rito do �lbum. Dos dois discos tem�ticos sobre as �guas lan�ados simultaneamente por Maria Beth�nia, Pirata � o de textura mais artesanal. Remete instantaneamente a Brasileirinho, o incensado �lbum editado pela int�rprete em 2003, inclusive pelo car�ter eventualmente folcl�rico.

Criada entre os rios que atravessavam a interiorana Santo Amaro de Purifica��o (BA), Maria Beth�nia esteve imersa nas mem�rias dessas �guas para formatar o conceito de Pirata, CD centrado nos rios, apesar do nome que remete ao mar (Dentro do Mar Tem Rio � o t�tulo que abrange os dois �lbuns e o show que estr�ia em S�o Paulo, em 10 de novembro). Como seu g�meo Mar de Sophia, Pirata costura elementos que sempre moldaram a obra teatral da cantora para formar mosaico auto-referente que inclui cantigas folcl�ricas, sambas de roda, compositores recorrentes em sua discografia e, claro, poesia.

Se Beth�nia adentrou as matas em Brasileirinho, ela se joga nos rios de sua inf�ncia em Pirata, entre textos de Guimar�es Rosa e a s�plica por um sert�o mais chuvoso, feita em Meu Divino S�o Jos�. Para refor�ar seu conceito de que o rio des�gua no mar, Beth�nia regrava fado do mano Caetano Veloso, Os Argonautas. Caetano est� representado ainda por Onde Eu Nasci Passa um Rio, outro tema recorrente no repert�rio da cantora.

Entre a lembran�a de um Dorival Caymmi nada �bvio (Hist�ria pro Sinhozinho) e uma recria��o superior de O Tempo e o Rio, a int�rprete pisa no terreiro de Jovelina P�rola Negra. Pedra surpreendente deste rio caudaloso, �guas de Cachoeira � samba gravado pela autora em 1993, em disco de pouca repercuss�o (Vou na F�). A faixa tem levada carioca real�ada pelo arranjo de Rildo Hora.

A veia sertaneja da artista pulsa firme em De Papo pro Ar - com a viola caipira de Jaime Alem, diretor musical dos dois discos - e em A Saudade Mata a Gente. S�o contrapontos para a sensualidade de Eu que N�o Sei Quase Nada do Mar, a in�dita parceria de Ana Carolina com Jorge Vercilo que tem pegada radiof�nica por conta do refr�o-chiclete. J� Vanessa da Mata reafirma a origem ruralista no samba Sereia de �gua Doce, que evoca brejeiramente lenda do folclore brasileiro sobre os rios.

Por conta das levadas baianas de sambas como Santo Amaro, composto por Roque Ferreira com D�lcio Carvalho e arranjado pelo violonista Luiz Brasil, Pirata tem leveza que quase inexiste no mais denso Mar de Sophia. �, em s�ntese, mergulho �ntimo e pessoal de Maria Beth�nia em �guas que j� lhe s�o familiares.

Mauro Ferreira
No Est�dio com Mauro Ferreira - 03/11/2006







Maria Beth�nia homenageia oceanos e rios em novos discos

Maria Beth�nia tinha tr�s ou quatro anos quando conheceu o mar de Salvador com sua m�e, dona Can�. Primeiro, o bonde puxado a burro at� o porto de Santo Amaro da Purifica��o. Depois, o vapor sacudido a valer pelas �guas do Atl�ntico.

"Fiquei impressionada com a cor, as ondas. Minha m�e passando mal, o cheiro de �leo, e eu me lembro de sentir uma coisa muito grande, medo junto de prazer. Gosto da sensa��o de estar em cima da �gua. Fico um pouco inating�vel", conta ela.

Quando fala dos rios de sua terra, tamb�m remonta ao passado. No Suba�, de navega��o, e no Sergimirim, c�rrego cheio de pedras, ela nadava na inf�ncia com Caetano Veloso e os outros irm�os. "Mataram os dois rios [com a polui��o]. A mem�ria que tenho � de quando eram vivos e eu era menina. Eles se encontravam, "um amor de �guas limpas'", diz, citando "Mem�ria das �guas" (Roberto Mendes/Jorge Portugal).

Oceanos e rios s�o os temas, respectivamente, de "Mar de Sophia" e "Pirata", CDs que chegam �s lojas na pr�xima semana --vendidos separadamente. Na sexta-feira da pr�xima semana, a cantora estr�ia o show "Dentro do Mar Tem Rio" no Tom Brasil Na��es Unidas, em S�o Paulo.

�guas doces e salgadas

Os novos t�tulos prosseguem o mergulho em �guas passadas que a cantora j� dera em "Brasileirinho" e "C�nticos, Preces e S�plicas � Senhora dos Jardins do C�u" (ambos de 2003). Tem sido sua marca desde que trocou as grandes gravadoras pela Biscoito Fino, na qual tem o selo Quitanda. "Como acho que [o mundo] est� muito feio hoje, fico procurando alguns o�sis na mem�ria. Imaginando, emanando para ver se cola", explica.

Entusiasmada com os poemas da portuguesa Sophia de Mello Breyner (1919-2004), cuja obra lhe foi apresentada h� cinco anos pelo escritor (tamb�m portugu�s) Ant�nio Al�ada Batista, Beth�nia planejou primeiro "Mar de Sophia". Logo pensou em um CD para �guas doces e outro s� para a Ba�a de Todos os Santos -que chama pelo nome original, Kirimur�, t�tulo de uma m�sica de seu sobrinho Jota Velloso.

"Mas, quando fiz o "Mar", j� senti o Kirimur� ali. E, quando fiz o "Pirata", acabei de p�r os caboclos e as coisas da minha regi�o. Foi um veio que n�o precisou alargar mais", conta.

As �guas do Rec�ncavo Baiano, "de fundo de ba�a, meio mangue, cor de palha", continuam sendo as preferidas de Beth�nia, que aproveita as cachoeiras da regi�o quando est� l�. "Enquanto tem, n�?", lamenta. Foi por esse rastro de destrui��o que ela incluiu "Os Argonautas", m�sica de Caetano que remete �s grandes navega��es ("Navegar � preciso/ Viver n�o � preciso"), no CD de �guas doces, n�o no de �guas salgadas, como seria l�gico.

"Como os rios est�o mortos, achei que a dramaticidade da letra deixaria mais n�tido o que eu queria falar no "Pirata". � um barco imagin�rio que foi parar em Santo Amaro", diz.

A can��o de Caetano que est� em "Mar de Sophia" � "Marinheiro S�", que faz par com "O Marujo Portugu�s" (Linhares Barbosa/Arthur Ribeiro). "Enquanto o samba-de-roda tem o suingue, o fado � empolado. Acho bonitas essas diferen�as, duas vis�es do mesmo of�cio."

"Pirata" � costurado por trechos de Guimar�es Rosa ("Ele j� me conduz h� tempo e para sempre h� de me conduzir", diz Beth�nia) e tem uma inevit�vel homenagem ao S�o Francisco. "� o rio santo, que comove romeiros, poetas, cantores e escritores, tal sua for�a e sua beleza", exalta ela, que escolheu trabalhos de bordadeiras da beira do rio para ilustrar o CD.

Comuns nos discos de Beth�nia, as louva��es a orix�s n�o faltariam nos novos, que t�m, entre outros, cantos a Oxum e Iemanj�, divindades das �guas. "Vou nas festas de Iemanj� e de Nossa Senhora da Purifica��o. Meu ber�o � cat�lico, mas h� o outro, que eu escolhi adulta. N�o tem briga", concilia.

H� l�quidos diversos nos CDs, entre eles "L�grima" (Roque Ferreira) e a "�gua do ventre", como a cantora se refere a "Debaixo d'�gua", que Arnaldo Antunes lhe ofereceu juntamente de "Agora", do repert�rio dos Tit�s. "Aqui � reservat�rio", aponta para a barriga.

"Mundo mau"

Desencantada com um "mundo mau, mentiroso, enganador", Beth�nia prefere n�o dizer se votou ou n�o em Lula, pois j� n�o acredita em grandes mudan�as a partir da pol�tica. Sua queixa � internacional.

"� uma afronta quem manda mesmo no mundo, que � o presidente norte-americano, n�o assinar o Protocolo de Kyoto [que visa controlar a emiss�o de gases poluentes]. A gente s� pode se aborrecer, porque somos lixo. Os bacanas deveriam dizer: "Voc� est� fora". Fa�am com ele [George Bush] o que fizeram com Cuba [bloqueio econ�mico]. Mas n�o muda, s� piora. Daqui a pouco v�o liberar para jogarem bomba na Amaz�nia", diz ela, resumindo seu desencanto: "Quero moda de viola. Pelo menos me comove."

Luiz Fernando Vianna
Folha de S�o Paulo - 03/11/2006




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