sob o signo de gêmeos
** Marcas do que se foi... Sonhos que já dançaram e outras conclusões **




 

 

VENTO FRIO

O frio que gelava cada poro e transformava sua respiração em sopros do mais forte vento polar era quase insuportável a esta altura. Pior que tudo era saber que não havia abrigo ou agasalho no mundo que pudesse lhe trazer ao corpo e ao espírito um pouco de calor. O frio vinha de dentro, vinha do mais profundo do ser. Frio desesperado para o qual não havia cura. Dentro de si, somente a escuridão, a tristeza, a amargura do sofrimento mais inútil do qual jamais houvera notícia.
Por que sofria ? Muitos motivos, grandes e pequenos, cruzavam suas preocupações naquele momento. Muitas eram as razões daquele estranho vento gelado que lhe preenchia inteira.
Em primeiro lugar, o desespero de ver o sofrimento, a dor eterna de presenciar a dor dentro daqueles que mais amava e nada poder fazer. Quisera que seus braços pudessem enlaçar cada amigo que sofria, quisera que seus lábios tivessem o poder de transformar o pranto em risadas, as lágrimas em alegria, o peso do destino na leveza de um raio de sol. Nada a desesperava mais que ver alguém querido chorar, nada lhe feria mais mortalmente que uma lágrima correndo por um rosto amado. Nada lhe deixava mais mergulhada em tristeza do que conhecer o sofrimento alheio em toda a sua profundidade.
Isso era algo que ninguém poderia imaginar. Quem poderia saber que o que sentia não era apenas piedade ou empatia e identificação com quem sofria, e sim algo muito mais profundo ? Não conseguiria jamais explicar a dimensão real do que sentia. Mas a verdade é que sentia exatamente cada coisa que o outro sentia. Era uma experiência estranha, um mergulho fora do próprio corpo. Um mergulho dentro da alma de quem sofria. Bastava saber do fato e pronto. Estava feito. Imediatamente era transportada para o centro de todos os sofrimentos, de todas as emoções. Ninguém poderia imaginar que era assim que tudo se passava. Nem ela mesma entendia. Mas era a mais pura verdade. Era assim que se passava.
Todos se admiravam de tanto sofrimento que sentia. Achavam estranho que ela chorasse ao ver chorar, que lhe doesse ao ver a dor. Mas o caso é que cada lágrima era também sua, e cada dor lhe doía como se saísse de dentro de si mesma. Isso ninguém entendia. Ninguém jamais alcançaria, a não ser que estivesse dentro dela, e sentisse tudo o que sentia. Mas isso era uma utopia, um desejo inalcançável. Poucos simbiontes existiam, poucos eram como ela. Na verdade, desconhecia que houvesse qualquer outro. Parecia-lhe que era única em sua espécie.
E que espécie mais misteriosa, que espécie mais desprovida de senso de auto preservação... A identificação era tão profunda que simplesmente deixava de lado suas preocupações, suas ocupações, seus próprios pensamentos. Passava a enxergar, a sentir, a ver e a pensar como o objeto da simbiose. Sabia claramente tudo o que era sentido, pensado, refletido. Conversava muito, conversava demais. O sofrimento não lhe atraía, ao contrário, causava-lhe horror. Mas parecia que ele a perseguia como uma sombra. Era como uma esponja, que absorvia tudo que havia.
E, estranhamente, mesmo de forma inconsciente as outras pessoas pareciam perceber que era formada de uma matéria diferentes das demais. Procuravam-na no meio da noite, procuravam-na para contar suas histórias e mágoas, procuravam-na para desabafar, para buscar conselho e consolo. E a ninguém ela negava todas essas coisas. Não conseguia deixar de atender aos apelos, não conseguia deixar de ouvir, e pior do que tudo isso, não conseguia deixar de amar.
Pior, sim, pior, porque quanto mais via alguém mergulhado em problemas, quanto mais via alguém tentando se desvencilhar de alguma dificuldade, quanto mais via alguém tentando não sufocar em meio à tristeza, mais crescia sua admiração por aquela pessoa que se debatia, mais crescia sua empatia, mais crescia em seu coração o amor. Tentava de todas as formas que conhecia ajudar a resolver os problemas, ajudar a consolar as tristezas, ajudar a secar as lágrimas, tornar-se uma parte da solução. Estranho sentimento aquele que a fazia amar desesperadamente a quem mais precisava, especialmente a quem menos era amado, ou a quem menos se deixava amar.
A tristeza alheia não a satisfazia, não a deixava feliz ou realizada. Não precisava do sofrimento dos outros para se sentir necessária, para se sentir amada. Não se tratava disso. Não era apenas uma sanguessuga, uma vampira de almas. A tristeza lhe causava acima de tudo uma dor profunda, lhe causava revolta e uma grande indignação. Não queria que ela reinasse sobre a terra, muito menos que reinasse sobre aqueles que amava. Faria qualquer coisa para combatê-la, usaria qualquer arma para derrotá-la. E as armas que tinha infelizmente eram poucas. Apenas suas mãos, seus braços, suas palavras e seu coração. Era pouco, era muito pouco. Mas lutava com todas as armas que tinha.

EM VOLTA, A DOR, APENAS A DOR

Por mais que eu tente enxergar a vida com os olhos otimistas e cheios de pollyanismo como sempre, confesso: não está dando. Não estou conseguindo.
Perco a conta das horas que passo chorando, perco a conta dos dias em que deito na cama rodeada de gatos e tristezas, de lágrimas e agonia, a lenta agonia das horas de escuridão, uma escuridão que se avizinha e que ameaça instalar-se de vez dentro de mim.
Tristeza, dor, solidão, desespero, angústia. Tudo isso me cercando e rodeando, sentimentos e fatos, coisas ruins e terríveis atingindo como uma flecha envenenada as pessoas que mais amo. Uma a uma as vejo cair, as vejo chorar, as vejo sofrer. Uma a uma atingidas pelo desespero que traz a falta de dinheiro, uma a uma sofrendo com gente mesquinha e que jamais lhes dará
valor. Uma a uma pagando caro por tudo, e por quê ? Por que motivo acontecem essas coisas todas somente com pessoas boas, pessoas doces, que deveriam ser as que mais alegrias tivessem na vida ? Não consigo compreender, está além de mim.
Que Deus é esse que permite que uma amiga tão doce, tão boa, tenha que passar por tudo o que tem passado, depois de tudo o que já sofreu na vida ?
Que Deus é esse que deixa um gato doado por outra despencar de uma janela, que deixa outro morrer de forma tão estúpida nas mãos de uma assassina, que coloca tamanho amor pelos bichos no coração dela só para vê-la sofrer quando eles se vão ?
Que Deus é esse que tira de alguém justamente os escolhidos, os eleitos, aqueles a quem ela mais ama ?
Que Deus é esse, afinal, que mata lentamente, um pouco por dia, tirando a alegria, a luz, a vontade de viver, a memória e as forças ?
Que Deus é esse que golpeia  com perda após perda, uma pior do que a outra, que  deixa alguém mergulhado em desespero, sem saída, sem ter para onde se virar ?
Que Deus é esse, que deixa a minha própria vida livre de tudo isso, mas me atinge justamente com aquilo que mais temo, com aquilo com que não consigo lidar - ter que assistir ao sofrimento de todas elas sem poder fazer absolutamente nada, sem poder nem mesmo oferecer ajuda ou consolo ?
Não é justo, não é bom, não é amor nem bondade. Deus às vezes me parece mais um Shakespeare maluco.

UMA VIDA EM SEGREDO

Vida obscura, escondida, oculta, vida secreta que espia por detrás da máscara colorida e risonha que ostento em minha face. Por fora, a feliz constatação de que a vida, afinal de contas, é bela. Por dentro, um profundo abismo. Medo de cair, de me perder, medo de ver refletida no espelho uma imagem retorcida.
Tantas angústias, tanto aperto, uma mão pesada sufocando a garganta. Sorrir mesmo triste, palpitar amor mesmo mergulhada em carências. Transformar a dor e as lágrimas em mãos estendidas para o outro. Dar colo mesmo precisando de colo, apoiar mesmo sem encontrar apoio. Não há braço a amparar a queda; quedar-se e deixar-se levar torna-se impossível.
Há apenas a necessidade de estar presente nos momentos de desespero, de ser uma luz iluminando os caminhos. Por dentro as trevas, por fora a alegria. Fogo interior e secreto corroendo a alma. Até quando a torrente oculta permanecerá quieta e adormecida sob a superfície da pele ? Até quando a ira se sustentará inerte, correndo turbulenta sob a calma aparente ?
Perguntas sem respostas. Jogos de palavras. Ar perpétuo de compreensão, cercado de meigos sorrisos. Sorrisos sinceros na atitude e no coração, porém traçados às custas de oprimidas lágrimas. O sonho da adolescência transformado em ideal de vida.
Minissérie. O tempo e o vento. Veríssimo configurado em um índio ferido à beira do riacho, um homem cansado e sozinho, precisando de cuidados. O sonho de estar ali, amparando, ajudando, acariciando os cabelos molhados e afirmando que tudo no fim das contas estaria bem. Espírito de Madre Teresa ? Não, nada disso. Apenas a vontade de fazer-se útil, de ser importante, a necessidade urgente de se sentir necessária, de saber que por menos que seja, fiz alguma diferença no rol das coisas. A premência de extravasar o amor contido presente no gesto de cuidar. A urgência de amar, de tocar, de abraçar, contida no ato de estender a mão. Supressão de carências.
Sonhar com o atormentado Athos, sonhar e sonhar noites a fio com o herói frágil de "O Exterminador do Futuro", sonhos de carinhoso consolo. A vontade suprema e incontestável de ser a heroína, jamais a mocinha. De ser a parte forte, a que decide, a que resolve, a parte que ampara e que conforta, que ama sem limites e que se recusa a aceitar a inevitabilidade do destino. A parte que odeia a morte e as pequeninas mortes pelas quais passamos durante a vida.

SOB O SIGNO DE GÊMEOS

Não saberia dizer como tudo começou, tampouco de onde vinha a profunda angústia que sentia. A consciência apenas me dizia que estava lá, guardada, atiçando meus sentimentos como um aguilhão afiado nas mãos cruéis de um toureiro. Angústia palpável, terrível, oprimindo todo o meu ser com um peso enorme.
Fundações obscuras cercam as bases que sustentam o que sou. A primeira lembrança, um vislumbre apenas, sombras que passam rápidas, contornos mal definidos. Um dia de sol, uma bola colorida e imensa, um prato de batatas fritas em uma mesa alta demais para ser alcançada por dedinhos miúdos e gorduchos. Quinta da Boa Vista, a grama, o sol. As mesinhas do restaurante. Uma menina igualzinha a mim. Meu pai, uma moça loura, talvez mãe da menininha, minha primeira amiga. Risos felizes. Dias inocentes.
Difícil lembrar mais fragmentos dessa época tão longínqua.
Um dia no Zôo, um collant que se abria e me deixava embaraçada. Um saco de batatinhas fritas gordurosas nas mãos, grãozinhos de sal derretendo na boca.
Um dia na escola, o uniforme molhado do Jardim de Infância, sentada na cadeira do gabinete da diretora, esperando minha mãe, talvez atrasada. Uma farpa no dedo, choro, uma longa subida até o topo do trepa-trepa, o deslizar macio pelo escorrega. A casinha de bonecas, massinha que grudava nos dedos, a tinta guache que escorria pelas mãos pequenas.
Mais tarde, outra escola, primeiro dia, uma rampa enorme, a sala errada. Risos, uma menina loura e tímida sem saber onde enfiava a cara. Desde cedo detestava estar errada. Tinha cabelinho nas ventas. A mamadeira largada tão tarde, brincadeiras nas escadas do prédio, esconde-esconde nos corredores com uma cocker preta. Brincar de bicho, hamsters passeando pelo carrinho de transportar carrinhos do meu irmão. Casinha arrumada, móveis no lugar, ataque de raiva, tudo derrubado. A casinha de Playmobil destruída, fúria incontida contra meu irmão.
Os natais na casa da minha avó materna, cheios de cheiros gostosos, brinquedos e descobertas, a ceia servida mais cedo para as crianças, todos dormindo juntos esperando Papai Noel. Saber que Papai Noel era apenas uma invenção. Chegar em casa e encontrar um saco maior do que eu em cima da cama, recheado de surpresas e maravilhas diversas.
Nem todas as lembranças são boas. Esperar meu pai, que chegava tarde várias noites por semana, sentada na janela do quarto, agarrada nas grades, chorando lágrimas sem fim. Estaria morto ? Porque não chegava nunca ? Onde estava ? A angústia cerrando suas garras com punhos de aço. As entradas dele em casa, tarde, muito tarde, gritos, berros, ameaças, saber que ele estava com alguma puta na rua. Sim, muito cedo aprendi o que era uma puta... O cheiro de cerveja que me deixava nauseada, desde tão pequena odiando toda e qualquer bebida, especialmente cerveja. Meu pai bebendo cerveja, parte essencial do dia, cervejas no bar da esquina, no bar da outra esquina, em vários bares. Eu não entrava em bares, Tinha nojo de quem os freqüentava. Tinha raiva.
As brigas terríveis todos os dias, faca em punho, cabeça rodando, doendo, doendo. Meus pais gritando, meu pai chamando minha mãe de frustrada, burra, a mesma ladainha repetida todas as vezes - eu amo você e as crianças.
As crianças em questão criadas sem carinho, sem beijos, sem abraços, criadas sem colo e sem ternura, esquecidas em meio à guerra que permeava nossas vidas. Crianças perdidas, cada qual seguindo seu rumo torto na vida, diferentes compulsões atrapalhando os caminhos. Mentes confusas, atarantadas, atormentadas. Cheias de maus pensamentos, de falsas idéias, de crenças mesquinhas, sentimentos inúteis.
Essa criança em particular, crescendo afastada de todos, sem criar vínculos verdadeiros, esquecendo cada amigo ao passar dos anos, deixando para trás toda e qualquer possibilidade da existência de afeto. Sem querer criar laços, sem querer intimidades, fugindo de beijos e abraços, sumindo nas festas de fim de ano antes de acabarem, um tchau gritado para todos ao mesmo tempo. A negação da carência de afeto, a negação da existência do amor. Para que amar, se tudo acabava em gritos e mágoa ? Frieza, amargura, timidez. Uma máscara pesada cobrindo tudo, cobrindo os sentimentos com uma névoa espessa.
Uma briga, outra briga, brigas em todas as noites, em todos os dias, em todos os momentos. Vida gritada, vozes altercadas. Decepção, tristeza, muita tristeza, Incerteza do que haveria, do que aconteceria, do que seria de nós. A insegurança lançando profundas raízes. Uma frase no meio da noite - vou ligar o gás e morreremos todos juntos. Uma noite inteira acordada, quantos anos ? Talvez nove, um menino pequeno ao lado, um bebê amado dormindo tão perto. Uma noite em vigília, tentando sentir o cheiro malévolo do gás de cozinha. Jamais voltei a dormir. Precisava cuidar dos pequenos. Precisava cuidar de tudo.
O peso enorme na cabeça, o isolamento nas páginas dos livros. Maravilhosos livros, tantas portas abertas para o mundo, para vários mundos, mundos onde se podia ser feliz, mundos onde existia uma felicidade eterna, onde por mais que houvessem tempestades, tudo dava certo no final. Era só mergulhar nas aventuras dos mosqueteiros, chorar por Athos tão angustiado, sonhar com o homem da máscara de ferro preso no calabouço, tudo tão triste e ao mesmo tempo tão mágico e tão real. Era só ler e ler e mais ler, viver vidas que não eram minhas. Mergulhar nos sentimentos de fora, nos sentimentos alheios, esquecendo dos meus. Uma vida de disfarces, uma vida de máscaras. O sorriso eterno no rosto, apesar dos olhos tristes. A síndrome da eterna Pollyana lançando suas bases. O jogo do contente. Sob o signo de gêmeos, para sempre dividida em duas.

Lágrimas & Cura

Engraçado como as grandes revelações da vida nos vêm quando menos se espera. O que era para ser apenas um fim de semana divertido com uma amiga querida transforma-se em uma grande viagem de descoberta. Descubro a mim mesma em outros olhos. Reconheço-me em tantas palavras... Histórias diferentes, diferentes vidas, mas um fio as une. Um elo poderoso que ligou duas vidas que não se conheciam, e tornou-as tão próximas... Uma amiga em comum, o amor pelos animais, o instinto a mostrar que confiar é possível.
Lágrimas são derramadas, sofridas lágrimas de dores e mágoas, mas que rolam como a chuva que lava a alma e deixa transparecer a vida debaixo do pó. Lágrimas que queimam o rosto, que tocam cada fibra e cada célula, que sensibilizam e movem o coração em direção a um imenso amor, a compreensão absoluta.
Olho dentro de outro espírito, e o que vejo me desola, me consola, me emociona, me transforma e me faz ainda mais capaz de amar. Sinto dentro de mim cada dor, cada tristeza, com a nitidez com que são sentidas não por mim, mas pela amiga que tenho em meus braços e que chora. Chora sua vida, chora tudo o que há para chorar, chora em meus braços segura do meu entendimento, do meu consolo, do meu amor. Chora sabendo que é amada e compreendida de qualquer jeito, de qualquer forma, sabendo o quanto é possível falar de tudo que guarda sem julgamentos, sem críticas, sem repreensões ou conselhos vazios. Sabe minha amiga o quanto a amarei incondicionalmente, o quanto beberei cada palavra e cada lágrima.
E em meio a suas palavras, descubro tudo de que sou capaz. Descubro em mim uma força e uma emoção que transbordam, um amor que apenas ama, descubro que a despeito do que pensava de mim mesma, sou capaz de oferecer o colo e o carinho que curam o coração, sou capaz não de enxugar as lágrimas, mas de ajudá-las a sair todas de uma só vez.
Enxergo que enxugá-las não é a necessidade absoluta que pensava, percebo que talvez elas existam mesmo para serem derramadas... Percebo em meus próprios olhos lágrimas, escondidas durante tanto tempo, por tantos meses sufocadas. Descubro lágrimas que se infiltraram tão fundo que me tornaram apenas uma imagem da tristeza personificada, uma triste figura dúbia, que é capaz de sorrir mesmo em pedaços. Descubro que não é necessário abafa as lágrimas, mas sim permitir que cumpram sua função de formar rios que se acalmam na mesma proporção em que correm, rios que vão diminuindo e secando por si só, ao estar esgotada a fonte das tristezas, ao estar aliviada a alma.
Me percebo capaz de ajudar a curar. Dom tão desejado, tão chorado, tão pedido aos céus em cada oração. Tamanha é minha vontade de ser agraciada com este abençoado dom de cura, que me tornei cega para o fato de que não existe apenas um corpo para se curar. Tornei-me cega para o que está além do físico, além das fronteiras da matéria. Tornei-me completamente cega para o poder que existe dentro de cada um. Poder que se manifesta de diferentes formas, por diferentes canais.
Durante muito tempo, me debati com uma questão que se tornou bastante dolorosa para mim. Sentia-me incapaz de usar as palavras pessoalmente tão bem como no papel. Sentia-me totalmente incapaz de provocar sentimentos, de consolar, de ajudar e acalmar, de expressar em viva voz o que penso e sinto. Sentia-me impotente, pois não me achava capaz de oferecer qualquer amparo. Palavras... O poder demolidor e arrebatador que existe dentro delas sempre foi meu instrumento, no trabalho, nos estudos, nas mensagens aos amigos. Consciente de que escrevia bem e com o coração, me tornei no entanto muito magoada comigo mesma por achar que jamais saberia usar as mesmas palavras em uma conversa ao vivo. Tinha como certeza absoluta o fato de que era incapaz de dizer qualquer coisa que prestasse, portanto, media cuidadosamente cada palavra. Media tanto que as impedia de sairem livres pela garganta.
O fim de semana foi um mergulho profundo, foi uma fonte de reflexão e de descoberta da minha própria força. Pois descobri que sou capaz de expressar tudo o que sinto, de dizer tudo o que penso, de ser aquilo que sempre quis ser - a amiga que conforta e oferece o carinho de seu abraço, a certeza de seu amor, o calor do seu colo. Descobri que sou capaz de um amor sem limites, de enxergar de olhos fechados, de ouvir sem palavras. Sou capaz de vislumbrar tudo de bom e de ruim, tudo de força e fraqueza, todas as pequenas coisas e os menores detalhes, todas as particularidades que faz de alguém único, maravilhoso e infinitamente belo. Descobri que amo as pessoas não pelo que elas possam representar ou pelo que possam vir a ser, mas apenas pelo que realmente são.

E percebo a verdade que perpassa nas palavras sábias de Albert Einstein, "Deus não joga dados com o Universo". Nada nem ninguém se encontra pela vida por acaso. Tudo o que há e todos os encontros fazem parte dos planos Dele. Todos os caminhos se cruzam seguindo seus desígnios. Todos temos uma missão. Creio ter encontrado a minha.
Agradeço a Deus por esse fim de semana. Agradeço por cada lágrima e por cada sorriso. Agradeço por cada palavra e por cada silêncio. Agradeço por cada abraço e por cada gesto. Agradeço especialmente pela amiga sensível e doce que ele me confiou durante estes dois dias. Agradeço pela oportunidade. Senhor... Espero ter correspondido ao que desejavas.

De Alegria e Doação

Doação não significa apenas dar uma parte daquilo que temos, ou ceder aos mais necessitados algo do qual muito precisam e que lhes falta.
Doação deve ser uma entrega do que temos de melhor, do que temos de mais precioso a oferecer. Deve ser um ato de amor que nos faz desapegados até de nós mesmos.
A doação de tempo, carinho, esforço e afeto, longe de ser uma perda, é um ganho inestimável. Ganha mais quem doa a si mesmo do que quem se fecha para as necessidades e carências alheias.
O ato de doar-se a outra pessoa nos faz mais fortes, imbuídos da certeza de que somos capazes de oferecer amparo. Somos capazes de mudar vidas, estados de espírito; somos capazes de fazer brilhar uma luz no fim do túnel.
A cada vez que se doa um bocado de tempo, por mais custoso que seja, para ouvir um problema, para consolar, para fazer companhia ou simplesmente oferecer um sorriso, nos tornamos mais próximos do ideal que Deus propôs para cada ser humano.
Todas as vezes que paramos para doar um bocado de carinho e de afeto, abrindo nossos braços para abrigar lágrimas, corações partidos e desilusões, nos fazemos mais humanos, pois somente quem é capaz de dar amor sem limites e incondicionalmente é capaz de se sentir verdadeiramente humano.
Sempre que dedicamos nossos esforços em prol de nossos irmãos, sempre que nos mostramos dispostos a oferecer a bondade de uma palavra, o afago que alegra a alma e a paz reconfortante de um sorriso, podemos estar certos de que somos quem mais tem a ganhar.
Nenhum prazer desta terra supera o conquistado através da oferta do que temos de melhor. Nenhum sentimento é mais precioso que a da solidariedade. Nada traz tanta felicidade quanto a doação. Nada nos torna mais belos que o amor.

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã" ( Renato Russo, "Pais e Filhos" )
" Ainda que eu falasse a linguagem dos homens e falasse a linguagem dos anjos, se não tivesse o amor, eu nada seria." ( 1 Coríntios 13 )

Palavras...

Penso hoje em tudo de bom e belo que a vida tem me trazido. Sei bem que há algum tempo andava completamente entorpecida pelas más lembranças, pela falta de fé, e pela expectativa de acontecimentos negativos. Mas hoje acordei com novo espírito, e rogo a Deus que o mantenha assim.
Recebi mensagem que me encheu o peito de ternura, pelo amor que li em cada linha. Linda mensagem, tão linda quanto a amiga que me enviou. Mensagem que me deu ainda mais ânimo e energia, que me levou ainda mais para cima. Poder estranhamente grande esse, das palavras... Palavras que bastam para levantar, para encorajar, para aconselhar... Palavras que dão novos rumos à vida.
Peguei-me pensando qual seria o dom que Deus poderia ter me dado. Sei que todo ser humano tem seu dom. Pois me parece ser o meu dom o das palavras, o de mexer com o sentimento alheio, o de trazer esperanças e alegria, o de consolar e fazer com que as pessoas se sintam amadas... Tudo isso através das palavras.
Mas tanto quanto eu falo, tanto quanto consolo e animo, preciso ser consolada, preciso ser animada, preciso sentir-me amada. Preciso ouvir outras palavras.
E na doçura das palavras... Encontro uma poderosa receita. Receita testada por muitas e muitas semanas...

Os Poderes Terapêuticos da Pizza

É incrível como algo tão simples provoca um efeito tão benéfico para a saúde física e mental.
Aqueles pedacinhos de queijo derretidos espalhados sobre um disco de massa fofa podem fazer você dormir feliz uma noite inteira e sentir um passarinho cantando dentro do peito.
Ir a uma pizzaria após o expediente, mais do que uma happy hour, é uma experiência que dá vontade de repetir sempre mais e mais vezes.
Os efeitos tranqüilizadores e animadores da pizza podem ser sentidos muito antes dela chegar até a boca.
No caminho mesmo você já vai se transformando, os olhos brilhando, renovando a alegria de se sentir viva.
E pelo caminho até a pizzaria, você se dá conta de que os nós que existem dentro da sua cabeça até que não são tão impossíveis de desatar.
Com a pizza na mão, você alimenta não só seu estômago, mas também sua alma. Um com o queijo e a massa da pizza; a outra com palavras e risos.
É fascinante perceber que a cada mordida, ao invés de se sentir mais pesada, você se sente mais leve.
E mesmo quando a pizza finalmente acaba, a presença dela continua no ar durante toda a semana.
São os poderes terapêuticos da pizza.
É uma receita que todos deveriam experimentar.

MAS ATENÇÃO !!!

Nada disso funciona sem o ingrediente principal:

Uma grande AMIGA.

Os Que Esperam

"Mas os que esperam no Senhor, estes renovarão as suas forças"

Após o torvelinho desvairado em que mergulhei, e tenho andado mergulhada, na fúria que me consumiu nos últimos dias, apodera-se de mim estranha calma, plantada em meu peito como uma erva estranha que nasce insensata e inesperada em um terreno cultivado.
Nos últimos dias, cultivei em mim apenas maus pensamentos, desilusão, rancor, tristeza, apenas fantasmas que me puxam para o fundo, apenas espectros que me acorrentam à negatividade, ao pessimismo, à falta de esperança.
Mergulhada tão fundo em todo esse lodo, fechei meus olhos a tudo de bonito e bom que a vida me traz a cada dia. Fechei meus ouvidos às palavras meigas das amigas, fechei meus olhos para a beleza das cores trazidas pelo sol, fechei meus sentidos para o perfume delicado que pairava sobre a rosa que ganhei, linda e inesperada rosa, que deveria ter me trazido alegrias e sentimentos de amor, mas me trouxe pouco mais que nada, pelo desespero em que me encontrava.
Mas tão grande é ainda a minha sorte, que meus dedos em pânico e desespero procuraram incessantemente um consolo entre as páginas de um livro... E lá, logo ao abri-lo, deparei-me com estas palavras:
"Mas os que esperam no Senhor, estes renovarão as suas forças. Subirão com asas, tal como águias. Correrão e não se cansarão jamais; caminharão e não se fatigarão."
É uma citação do livro do profeta Isaías... Se Ele não estava pretendendo mandar assim o seu recado, não sei o que mais pretenderia...

O Fio da Espada

O fio da espada talvez tenha sido o marco que daria novo impulso à sua vida.
A espada pertencia não a algum charmoso cavaleiro antigo, não, antes fosse. Era uma espada ainda mais pesada. A espada invisível que parece pairar vez por outra em nossas vidas e torna-se um divisor de águas. Há momentos em que velhos clichês se fazem verdadeiros. O mundo cai, um véu se rasga em dois. E de repente estamos expostos em toda a nossa fragilidade.
Siallon sentia-se como alguém completamente despido em meio a uma multidão. A confusão tomava conta de seu espírito, e se avolumava a sombra das incertezas. O que aconteceria agora ? Qual seria o rumo a tomar ? O que seria feito de sua vida ? Siallon não sabia. Não poderia saber jamais. Nesses momentos de cisão, pouco sabemos além da certeza de que nada poderemos saber.
Lembrava ainda da última vez em que havia estado com Kundalar. Lembrava-se de suas palavras carregadas de sentimento, lembrava-se claramente de seu rosto, por onde passavam tantos pensamentos distintos, que se transformavam em marcas visíveis. Lembrava-se do calor, dos sorrisos. Lembrava-se de cada gesto com uma dolorosa nitidez.
Não saberia explicar o que havia acontecido. Onde teria se quebrado o elo que os unia ? Onde teriam arrebentado os laços que os tornavam partes de um mesmo ser ? Onde teria ido parar aquela conexão tão profunda, onde se rompeu a fusão de duas mentes tão parecidas ?
Siallon sentia-se sem chão. O fio da espada pendia sobre sua cabeça. O mundo dividia-se em antes e depois de Kundalar. O antes era repleto de vida. O depois... Não sabia. O que o esperava além da curva do caminho ? Não podia prever. Mas esperava que fossem momentos tão memoráveis quanto os que já havia vivido.

Demolições

Incrível como uma coisa tão simples como o ato de ler um livro possa ser capaz de mudar tantas coisas.
Os últimos dias têm sido de muita reflexão.
Reflexão, lágrimas, revoluções interiores.
O livro, aparentemente inofensivo, está trazendo grandes mudanças.
Está me mostrando a outra volta do parafuso, o que se esconde por trás de muitas das minhas atitudes.
E como é difícil passar por essas demolições... Não tem sido fácil.
Tenho uma colega aqui no trabalho que gosta de fazer massagens, e ela me disse hoje que fica espantada quanto toca no meus ombros e percebe o quanto é falsa a calma que aparento.
E é verdade, por dentro está tudo em ebulição.
Às vezes não consigo dar conta de tantos pensamentos desencontrados.
É nada e tanta coisa aO mesmo tempo.
É um sentimento ansioso de querer prever o futuro, e de querer mudá-lo.
É um sentir-se presa na teia da vida, nas mãos de algum deus maluco que rege os destinos.
É uma sensação de impotência e pequenez diante de tudo o que eu não consigo mudar.
É a angústia de querer viver tudo ao mesmo tempo, e de querer fazer tudo diferente, porque tudo pode acabar tão de repente.
É a dor de não poder fazer diferente, de não poder esticar o número de horas dos dias.
É a alegria ao estar junto de quem eu amo, é querer rir feito louca sem motivo.
É a felicidade de alguns momentos que brilham como estrelas iluminando um céu escuro.
É o amor enorme, constante e silencioso que sinto pulsando dentro de mim.
É um duvidar permanente de todas as certezas, e ao mesmo tempo saber que existem verdades inexoráveis.
É a constatação de que as coisas são como devem ser, e que a vida segue em frente mesmo a gente esperneando, mas, ao mesmo tempo, é a não aceitação dessa constatação.
É uma ampliação vertiginosa dos pensamentos, janelas que se abrem novas a cada novo dia.
É perceber o quanto tudo no mundo está tão errado desde sempre, e querer mudar tudo, mas não saber por onde começar.
É estar mais atenta a tudo o que é dito, é conseguir ler as pessoas nas entrelinhas e enxergar o perigo e o veneno que se esconde por trás de comentários aparentemente inocentes.
É se decepcionar com muita gente insuspeita, é descobrir que as pessoas são tremendamente falhas, e, mesmo assim, continuar gostando delas.
É cada vez mais não querer ter definições nem etiquetas, e detestar os rotuladores de emoções, pessoas e atitudes.
É começar a ver a vida não como uma estrada em linha reta, mas como um grande caminho cheio de curvas, às vezes interrompido, às vezes tortuoso, mas quase sempre desembocando na mesma velha poeira.
É saber que não sou apenas uma passageira nesse barco, mas quem sabe o próprio barco...

As Vinhas da Ira

Se há um pecado favorito, um que mais cometo, dentre tantos, a cada dia... Inevitavelmente só consigo pensar na ira.
Ira que me acomete com a mesma facilidade do embevecimento do amor.
Ira que me cerra os olhos e me tranca o coração.
Ira que envenena e cega para qualquer outra coisa.
A ira torna-me uma fúria descontrolada, um ser desprovido de bom senso.
A ira corrói profundamente, em pouco tempo, tudo o que tenho de bom.
As paixões que me movem são todas intensas.
Amo demais, me entrego demais, vivo demais.
Tudo é muito intenso e apaixonado, todos os sentimentos à flor da pele.
A ira, obviamente, não poderia ser exceção.
São tantos os motivos que podem acender essa chama, tantas as pequeninas fagulhas que detonam essa implosão.
Pode ser contrariedade, desânimo, pode ser a raiva de constatar que mesmo sendo um ser aparentemente livre tenho ainda assim obrigações a cumprir.
E então, uma nuvem negra se abate sobre mim, e sinto-me aprisionada e cega, destemperada, uma bomba prestes a explodir em cima do primeiro que aparecer.
Tudo isso seria extremamente desagradável, é lógico... Mas o fato é que, por mais que a ira cresça e tome força, ela jamais se expande para fora dos limites do meu corpo.
A ira não atravessa minhas palavras; não faz de minha boca seu instrumento.
A ira mesmo, fervente, tempestuosa, não sai de dentro de mim, não jorra sua torrente de destruição sobre qualquer outro ser que não eu mesma.
Poder-se-ia dizer que tudo isso é muito bom, um prodígio de auto-controle, um triunfo da bondade e da abnegação...
Mas não... A ira contida se expande em detonações internas, em tempestades de pensamentos negativos, de ódios e rancores.
A ira está contida pelo orgulho. Pelo não querer dar o braço a torcer, pela não aceitação de que sou humana, sujeita à fúria das paixões humanas.
A ira está contida pela culpa antecipada de causar qualquer dano.
A ira está contida em si mesma, aprisionada como a lava no subsolo da terra.
O grande medo é saber que todos os rios de lava que percorrem o subsolo um dia se transformam em vulcões.
Quando se abrirá a cratera que permitirá a essa torrente de ira subir à tona e causar estragos ?
Qual será o estopim que abrirá uma ferida tão grande que permita à ira se manifestar sem freios ?
Temo em pensar. Temo pelo dia em que vai acontecer.

Da Impossibilidade do Afeto

Quinta corrente.
Uma algema aprisionando os sentimentos dentro do peito, sem permitir-lhes nenhuma saída.
A corrente opressora da falta de afeto.
A impossibilidade de demonstrar carinho por outro ser humano, qualquer que ele seja.
Foi uma das barreiras mais intransponíveis, que me acompanhou em boa parte da vida.
Certamente que ninguém nasce assim.
A sociedade nos faz assim, incapazes de demonstrar o que sentimos.
Nossos pais nos fazem assim, nossa criação nos fazem assim, as amizades, amores, decepções e julgamentos nos fazem assim.
A vida desde cedo é recheada de ¿não podes¿. Não pode isso, não pode aquilo, nada pode.
Ou melhor, talvez possa, mas o medo dentro da gente toma tais proporções que nos impede completamente de ousar.
É permitido conviver com meninas. É permitido que você tenha amigas. É permitido que troquem confidências, sussurros, mas jamais devem ser tocadas. Jamais, pena de banimento total.
É permitido que você conviva com meninos, mas não confie neles, não dê confiança, porque eles só querem te arrastar para algum canto escuro e fazer todas aquelas coisas que você ainda nem tem idade para saber quais são, mas certamente devem ser terríveis.
É permitido que você saia na rua depois de certa idade, mas pelo amor de Deus volte logo, o mundo é um perigo, você pode morrer a cada esquina. Não confie em ninguém.
É permitido que você seja a menininha do papai, a princesinha, mas só até crescer. Ou você não sabe que uma mocinha não pode ficar dando beijo no pai ? Homem é homem !!!
É permitido que se viva a vida.
Mas que se viva pela metade.
Que se viva sempre com medo, sempre com receio de estar infringindo regras imemoriais, com verdadeiro terror de estar se tornando um ser de comportamento indesejado.
O toque, o beijo, o abraço, não são permitidos salvo em ocasiões especiais, como aniversários, casamentos e etc, ou entre namorados.
Mesmo assim, oras, tenha compostura !!! Que história é essa de ficar se agarrando em público ? Que indecência...
Lógico que não falo aqui de todas as histórias. Falo da minha história, que é certamente a história de outras tantas pessoas.
História dos meninos a quem o pai jamais permitiu um choro sem críticas.
História de todos os que não conseguem consolar um amigo que chora simplesmente porque não consegue se aproximar.
História de quem não consegue expressar o que sente, por mais que tente.
Há coisas que ficam para sempre dentro de nós.
E mesmo fatos aparentemente insignificantes podem provocar esse sentimento de que demonstrar afeto é inadequado.
Talvez quem me conheça hoje desconheça essa batalha interna.
Talvez jamais possa imaginar que há não muito tempo atrás eu era aquela que saía antes de acabarem as comemorações de fim de ano porque me repugnava a idéia de sair distribuindo beijos e abraços.
Talvez não acreditassem se me vissem naquela época, ostentando minha frieza e minha indiferença como se fosse algo para se orgulhar.
Talvez se espante ao saber que antes do ano passado e da corrente ser quebrada, eu só havia dito ¿eu te amo¿ a uma única pessoa, justamente a que demonstrou menos merecer tamanho sentimento.

A Enganosa Onipotência

Quarta corrente.
Uma das mais pesada.
A corrente da onipotência diante da vida e da morte, diante do drama que se desenrola diante de nossos olhos, e sobre o qual não temos o menor controle.
Desde muito cedo as pessoas são levadas a pensar que são um pouco deuses, que tudo podem, desde que queiram com vontade, desde que lutem para conseguir.
Vem das próprias escrituras essa noção, afinal, é lá que está escrito que fomos feitos por Deus à sua imagem e semelhança.
Talvez por isso seja tão terrível e avassalador o sentimento de que existem muitas coisas diantes das quais pouco ou nada podemos fazer.
Talvez venha daí a dificuldade enorme em aceitar a morte, de aceitar que tudo que começa um dia tenha um fim.
Talvez por isso nos culpemos tanto por tudo, e sempre tenhamos aquela impressão de que poderia ter sido diferente, "se"...
A existência do "se" nos traz de volta, paradoxalmente, a tranqüilidade, pois, mesmo nos culpando por não termos agido da forma que teria dado certo, ainda assim reafirma que o controle sobre os fatos é possível.
Tudo isso é ilusório.
Não há como controlar o fluxo de acontecimentos que se sucedem, às vezes de forma positiva, às vezes catastrófica.
Não há como controlar o imprevisto, o desastre, o acidental, o que não deu certo.
Não há como manter seguras as rédeas da vida...
Mas talvez também seja um engano essa visão da vida como um cavalo chucro que devemos tentar manter sob controle, custe o que custar.
Talvez a vida seja muito mais como uma montanha-russa, na qual você embarca disposto a enfrentar tudo o que encontrar.
Talvez a vida se assemelhe não a um barco que se navega, mas ao próprio rio onde se navega.
E, se a vida for como um rio, está sujeita a momentos de cheia e de estiagem, está sujeita a oscilações em suas águas, está sujeita ao tempo, as intempéries, à inclemência do sol e da chuva.
Está sujeita a curvar-se ao inesperado, a tornar-se caudalosa e fértil ou estéril e destituída de sentido.
Não devemos achar, contudo, que este rio deve ser apenas desfrutado e devemos nos deixar levar por seu fluxo, seja ele qual for.
É necessário lutar contra a correnteza se ela se mostrar desfavorável, e estiver nos afastando do nosso destino.
É necessário não se tornar um tronco de árvore que flutua ao sabor das águas, mas sim um peixe valente que sobrevive seja em que água for.
O fato de sabermos que não somos onipotentes não nos torna impotentes.
Apenas nos torna humildes e capazes de reconhecer nossos limites, reconhecer quando avançar e quando retroceder, e até onde podemos ir sem nos machucar.
É preciso conhecer o fluxo e o refluxo da maré, para saber como agir da forma que menos traga dor.
Como agir de forma a passar pelas águas molhados, sim, mas sem nos afogarmos nelas.

O Elogio da Loucura

Será loucura aquilo que se mostra dissonante,
Rebelde, livre e sem condenações interiores ?
Será loucura querer voar, querer ir além, querer ser mais
Do que a simples miragem enevoada que esconde
Tudo aquilo que se passa no mais profundo do espírito ?
Será loucura ousar, quebrar as regras, destituir de seu trono imutável
Todas as comodidades e convenções que norteiam a vida ?
Ah, se louco é aquele que se diferencia do mar sempre igual de rostos,
Se louco é aquele que se faz original e não se importa em apenas ser,
Louca eu também hei de querer ser.

Hoje me pego pensando no quanto a noção de normalidade é equivocada.
No quanto é uma noção injusta, e baseada tão somente em pontos de vista, em enfoques pessoais, em visões particulares de mundo.
De perto ninguém é normal, nos diz Caetano.
E é uma verdade mais que cristalina.
É mais que claro que a maior das loucuras é se achar um ser completamente normal.
Ah, pobre daquele que se acha dono de todas as certezas e condena o outro baseado tão somente no que pensa, sente, ou julga ser melhor e mais adequado.
Pobre daquele que se julga tão são quanto se percebe como a melhor e mais perfeita criatura do mundo, e não admite suas falhas, atos falhos e omissões.
Pobre de quem entende os atos e sonhos, e idéias e vislumbres alheios como falhas, defeitos, deméritos, loucura...
Pobre, pois encontra-se tão amparado em sua visão, tão cego às suas imperfeições, tão crente em sua tranqüila normalidade, que jamais perceberá crescer em seu íntimo o abismo a se formar.
Abismo que se tornará armadilha certa para, ao primeiro sinal de discordância, nele despencar e perder-se para sempre, na confusão de pensamentos e emoções na qual se verá envolto.

A Frágil Teia das Verdades Absolutas

A terceira corrente a ser quebrada foi a corrente das idéias certeiras, das verdades absolutas, das certezas consolidadas.
Batalha difícil essa...
Complicado mexer em time que está ganhando.
Esse é um dos conceitos mais difundidos do mundo.
Impossível não temer a mudança.
Impossível evitar de pensar se não seria melhor tudo permanecer como está, se não seria melhor deixar quieto...
A gente vai colecionando certezas ao longo da vida.
Certezas sobre quem se é.
Certezas quanto ao que é certo ou errado.
Certezas sobre o que é ou não normal, o que é ou não aceitável, o que é ou não tolerável...
Certezas que vão se consolidando e enrijecendo de tal forma que, de simples conceitos que são, passam ao status definitivo de verdades absolutas.
Porém nos esquecemos de que nenhuma verdade é absoluta, nem conceito é definitivo, nenhuma idéia consegue se manter imutável no correr do tempo...
É preciso sempre revisar o que se pensa, o que se sente, é preciso renovar o pensamento e arejar o porão onde guardamos nossas certezas, porque, se não o fizermos, corremos o risco de nos transformarmos em pessoas mofadas, em completo desuso.
Pior que isso, corremos o risco de jamais podermos contemplar a beleza de um novo olhar.
Olhar o mundo com outros olhos, debruçar-se sobre a vida, mergulhar nas paixões que movem o corpo e o espírito, afundar-se em divagações, reflexões...
Tudo isso é necessário, tudo isso é imprescindível para que possamos verdadeiramente existir.
Se permanecermos atrelados aos conceitos com os quais fomos criados, se permanecermos atados à visão comum, ao bom senso, aos bons costumes, ao pensamento cristão ortodoxo, que nos diz que tudo é pecado, inclusive a vida, não conseguiremos jamais enxergar a enorme beleza do universo.
Universo que se expande em todos os sentidos. Universo cósmico, sim, mas o universo humano acima de tudo.
É preciso realizar uma viagem ao fundo de nós mesmos, uma viagem sem compromissos e críticas ao fundo de nossos companheiros de jornada ¿ amigos, parentes, conhecidos, ou simplesmente os rostos desconhecidos dos noticiários de TV.
Não importa.
Importa apenas a viagem, a travessia, o conhecer.
Reconhecer a si mesmo no outro, reconhecer nossa própria feição em seus traços.
Reconhecer a humanidade que nos une e nos faz a todos peças da mesma grande engrenagem.

A Onda Pegajosa do Desânimo

Segunda corrente.
Lutar contra o desânimo.
Muitas vezes essa onda pegajosa me prendeu, tolhendo que acontecessem muitas pequenas maravilhas.
Mas já faz algum tempo que aprendi a contorná-la e a deixar de lado os sentimentos negativos que só nos levam para baixo.
Aprendi demais no ano que passou.
Aprendi que a vida merece ser celebrada a cada segundo.
Aprendi que a gente deve dizer aos que amamos sempre e cada vez mais o quanto são importantes.
Aprendi que mesmo o pouco que podemos fazer por alguém pode ser muito.
Aprendi que secar as lágrimas de uma amiga que chora pode ser mais precioso que qualquer tesouro.
Aprendi que fazer brotar um sorriso da dor e do pranto é de um valor inestimável.
Faz o coração dar pulos e as lágrimas correrem de alegria.
Descobri que quanto mais minutos de atenção que você doa, mais tem para doar.
Descobri que madrugadas no icq podem ser mais poderosas que muitos anos de terapia.
Descobri que a verdade às vezes dói, mas que é sempre melhor encará-la de frente do que se iludir.
Descobri que nem sempre podemos tudo, e que infelizmente não somos Deus.
Descobri que, mesmo sem ser Deus, temos parte de sua chama, e podemos dividir as tristezas, alegrar o espírito, estar ao lado, amparar, apoiar, trazer o sentimento de que não se está só.
Descobri que o amor é o sentimento mais poderoso, que cruza qualquer distãncia e é capaz de sobreviver a tudo.
Descobri que tenho amigas verdadeiras.
Descobri que as amigas mais caras que tenho são muito mais que irmãs.
 

Síndrome de Heroína

Por muito tempo em minha vida ( desde sempre, eu diria ), eu desejei ser algo mais no mundo, como uma luz que brilhasse forte, como um lampejo salvador que se faz presente frente a uma situação de risco, como um pássaro que consegue com seu vôo rápido alcançar o abrigo antes da chuva, como uma nuvem que passa deslumbrante no céu, levando embora consigo a poeira que embota os dias.
Desejei ser maior e mais forte. Desejei ter o poder da fala fácil, o dom de escolher as palavras com precisão.
Desejei poder ser uma força da natureza, um rio que se renova e traz a vida sempre renascida.
Desejei, em minha infinita ignorância da vida, ser mais do que na verdade eu era. Desejei ser uma heroína.
Não sei dizer bem quando esses sentimentos e desejos começaram a brotar dentro de mim.
Não sei precisar o exato momento em que surgiu em mim a primeira vontade de ser esse algo mais que faria diferença no arrastar sempre igual dos dias.
Talvez tenha sido ao ver o pequeno pombo ser atropelado na minha frente, aos cinco anos.
Talvez tenha sido ao ouvir minha mãe dizer que ia ligar o gás durante a noite para que morressemos todos, aos nove.
Talvez tenha sido ao perder minha melhor e então única amiga, aos dez.
Talvez tenha sido ao saber da irmã que tive e que se foi tão pequena.
Talvez tenha sido ao saber da história trágica de meu avô, que se lançou nos braços da morte em plena véspera de Natal.
Talvez tenha sido ao ver o choro por dias a fio de minha mãe traída.
Talvez tenha sido no dia em que minha irmã adoeceu e eu desejei ser Deus para curá-la.
Não sei. Não sei dizer ao certo. Só sei que um belo dia o desejo de ser mais brotou, e desde então só fez crescer e lançar raízes.
Não sei se surgiu da carência. Talvez. Talvez tenha surgido simplesmente da raiva, e da recusa em aceitar a inevitabilidade do destino.
Lembro-me de Cazuza cantando "eu vi a cara da morte e ela estava viva".
Eu nunca quis que ela, a tenebrosa morte, ganhasse nenhuma batalha.
Assim como nunca quis que a dor ganhasse, porque a dor é um pequeno pedaço de morte dentro da vida da gente.
Cresci assim, com esse desejo sempre vivo. Cresci com essa vontade de dar um soco bem dado na cara de todas as tristezas. Com uma vontade doida de encher de chutes todas as maldades, as injustiças e as dores que houvessem por perto.
Cresci querendo ser a heroína.
Enquanto as mocinhas suspiravam pelo Capitão Rodrigo, em "O Tempo e o Vento", o garboso cavaleiro no cavalo branco, o salvador... Eu queria apenas poder ser Ana Terra, salvando o índio ferido e solitário de dentro do riacho.
Eu pensava na saga dos três mosqueteiros, e sonhava com Athos sempre tão triste e tão magoado. Sonhava em encontrá-lo e poder curá-lo.
Me tornei professora porque gostava. Mas desde o primeiro dia, lá estava eu ao lado dos que mais precisavam ser salvos. Pela minha carência ? Não sei... Ela poderia ser resolvida com qualquer outra criança. Mas eu só pensava nos que precisavam ser "salvos", e isso se tornou cada vez mais marcante em mim.
Em nenhum momento eu quis ser santa, anjo ou nada parecido. Em nenhum momento desejei ser uma Madre Teresa.
Eu apenas tinha uma imensa raiva da dor, e não queria que ela ganhasse a batalha. Não queria me render a ela, não queria dar o braço a torcer. A teimosia sempre foi um traço forte do meu caráter.
O fato de não me dobrar à vontade de ninguém, também. A única coisa que me fazia agir diferente era a necessidade de salvar.
E salvar incluía dar apoio, dar carinho, dar amor. Incluía estar sempre perto, sempre constante. incluía ouvir e aconselhar. Salvar era a única coisa que importava. Era um maldito desejo de onipotência. Era querer ser Deus e dar um soco na cara da morte, de todas as pequenas mortes por quais passamos durante a vida.
Não desejava salvar as pessoas apenas por elas. Acho que desejava também por mim. Pela minha recusa em aceitar a rendição. Pela minha recusa em aceitar que não era onipotente. Pela minha teimosia de achar que minha vontade teria que ser soberana. Pelo meu egoísmo, por assim dizer.
Esse desejo ardente permeou toda a minha vida, e foi o fator que mais contribuiu para o fracasso do único e grande amor da minha vida.
Não me eximo de culpa no fim desastroso desse amor. Sei que não fui a única culpada, mas a gente deve aprender a enxergar os próprios erros, e eu errei ao ver no homem que amei a soma gloriosa de todos os salvamentos possíveis.
Eu quis torná-lo melhor. Eu quis deixá-lo bem novamente com a vida.
Eu quis devolver tudo o que havia perdido. Eu quis salvá-lo das crises de depressão, dos acessos incontidos de choro, da baixa auto estima, do preconceito, da injustiça, da falta de grana, da infelicidade, quis salvá-lo de tudo que pudesse remotamente um dia lhe causar algum tipo de dor.
E com isso me tornei exatamente o que ele não precisava. Me tornei não mais uma mulher, mas uma mãe.
E a mãe mais paciente, amorosa e compreensiva que jamais havia existido.
Me tornei a mão sempre estendida, mesmo que não encontrasse uma mão que se estendesse de volta.
Me tornei alguém que dava sempre, que dava muito, que dava tudo, mas que nunca exigia algo em troca.
Me esqueci completamente que a vida é feita de trocas. Me esqueci de mim.
Mergulhada nos problemas dele, eu não enxergava os meus. Melhor dizendo, não achava que existiam. Era muito melhor não vê-los, nem acreditar na sua existência. Eu era feliz, acreditava. E bastava.
Ao terminar o que foi meu grande amor, e ao terminar da pior forma possível, eu mergulhei no inferno. Nada mais importava, nada mais havia de bom. Nem no mundo nem nas pessoas. Eu não acreditava nas pessoas. Eu não acreditava em Deus nem em justiça. Eu me meti nas trevas e fiquei sentada na escuridão do quarto dias a fio, sem pensar em nada além da minha desgraça. Eu não queria mais acreditar. Eu não podia mais confiar.
Eu me sentia morta. Mas ao mesmo tempo ansiava pela vida. Ansiava por ter de volta as sensações de antes, ansiava por poder amar, por poder lutar, por poder viver. Eu olhava para minha mãe e não sentia nada. Olhava para meu irmão e não sentia nada. Olhava para amigas de muitos anos e não sentia nada. Eu não me sentia morta apenas. Eu estava verdadeiramente morta. Não sentia nada quando via o noticiário na tv. Não sentia nada ao ver alguém chorar. Não sentia absolutamente nada. Era como um deserto árido. Mas um deserto que um dia havia sido um jardim, e então eu me culpava por ter me tornado assim.
Eu queria poder ter coragem para mudar as coisas.
Eu queria ter coragem para poder mudar as coisas que eu via acontecerem erradas. Queria ter coragem de parar a mão que via agredindo, queria ter coragem de falar aquela palavra entalada na garganta.
Queria ter coragem de ousar, de lutar pelo que acreditava.
Mas sempre fui muito covarde. Sempre fui tomada por um medo imenso.
Medo de dizer o que eu pensava e afastar as pessoas de mim, medo de me expor e afugentá-las, medo de mostrar minha raiva por ser um sentimento maligno, medo de descobrir que eu não cabia no molde que havia traçado para mim.
Medo de enxergar que agia como uma Pollyanna louca, como uma maquiadora destrambelhada, que transformava ruínas em castelos, e farrapos em seda.
Medo de ver que eu tinha também os meus próprios problemas. Medo de ver que eu era humana também.
Medo principalmente, e tremendo, de descobrir um dia que eu não passava de uma pessoa tremendamente mesquinha, tremendamente egoísta, tremendamente infeliz.

Paralisante Medo

A primeira corrente.
A primeira barreira a vencer.
Talvez tenha sido a do medo.
Medo que sempre esteve presente, desde que comecei a pensar.
Medo que tolhia cada movimento, que travava as palavras na garganta, medo que me impedia de viver.
Porque sentir tanto medo ? Não sei explicar.
Talvez eu não quisesse errar.
Talvez eu achasse que se mostrasse o que eu pensava e sentia, e isso fosse errado ou ofensivo, as pessoas se magoariam e se afastariam de mim. Não sei ao certo. Talvez eu quisesse ter mais coragem, ser mais ousada, mas tinha medo.
Era um medo tão enorme e sufocante que não me deixava sair. Medo de não voltar. Medo que me acontecesse alguma coisa ruim na rua.
Medo grande que não deixava que eu me aproximasse das pessoas, muito menos daquele menino bonito que eu tanto amava. Medo da rejeição.
Medo que não permitia que eu levantasse a voz para responder aquela pergunta do professor, embora eu tivesse certeza da resposta. Medo de errar e ser ridicularizada.
Medo que me travava a língua, e me fazia engolir a resposta a algum comentário desaforado. Medo do descontrole que a raiva gerava em mim.
Medo gigante de agir, mesmo quando via que as pessoas eram injustas e cruéis umas com as outras. Medo de defender e apanhar também.
Medo de tantas coisas. Medo de enfrentar o mundo, de encarar a vida, de mudar de rumo.
O que teria sido se o medo tivesse sido maior que tudo ?

Duas Vilas

Existia em verdade um povo, esquecido entre as montanhas, que vivia como se na vida nada houvesse além de sonhos e encantamento.

Vivia este povo em uma idade dourada, um tempo esquecido nas brumas, um instante cristalizado no tempo.

Era quase um Eldorado, um perpétuo amanhecer presente em cada sorriso amigo, em cada abraço fraterno, em cada pequenino gesto de bondade e amor.

Vivia este povo cercado pela cálida certeza dos bem aventurados, dos amados, dos benquistos; acostumados que estavam a serem sempre como irmãos,

permaneciam seguros no seio da pequena comunidade, sem jamais quererem saber o que se passava no mundo além das montanhas.

Eis que, um dia, em meio à calma dourada dos dias, surgiu em meio à vila um estranho ser, um homem coberto com um manto esfarrapado, sujo, trajando palavras amargas que o cobriam como um espectro imundo.

O estranho não era amável, nem mesmo generoso como os demais. Não existia nele nenhum traço de bondade ou amor, não havia em seu rosto a menor sombra de um sorriso.

Apenas os grandes sulcos deixados pela mágoa e pelo tempo existiam em sua face. Em seus olhos, mudos como a floresta incendiada, apenas os vestígios da desolação.

Entretanto, o povo bondoso que habitava a aldeia, acostumado que estava a aceitar seus semelhantes e amá-los como a si próprios, imediatamente o acolheu em seu seio, e mesmo com seu aspecto desagradável e inóspito, começou a acariciá-lo com palavras gentis, a encher seus ouvidos com a música dos sorrisos, a instilar em seu espírito a humanidade.

Em pouco tempo, o homem deixou-se conquistar pelo amor de seus pares, e transformou-se em um grande líder, que muitos progressos trouxe à vida da pequena vila.

 

Existia em verdade um outro povo, também isolado entre as montanhas, que vivia em meio à tormenta, como se mergulhado em perpétuo pesadelo.

Este povo habitava uma vila desolada, cercada de ruínas, onde imperavam o medo e a traição; era o inferno na terra, um território onde não se respeitava ninguém. Pais matavam seus filhos, filhos matavam seus pais; a maldade se infiltrava como lodo em cada coração.

Cada dia era marcado por novas indignidades, e a desesperança era uma constante, levando os habitantes da vila a se enfurnarem em suas casas, trancados à sete chaves, temendo até a própria sombra.

Em cada esquina escondia-se um algoz. Nunca se sabia em quem confiar.

Eis que um dia, em meio ao conflito reinante, surgiu em meio à vila um estranho ser, trazendo no rosto um sorriso e a paz plantada fundo no peito.

O homem era cercado por uma aura luminosa, pela segurança que irradiava, e pela luz do amor que transmitia a cada palavra.

O estranho não era insensível nem desagradável como os demais. Não existia nele nenhuma mágoa, nenhum rancor, sequer o menor rastro de ódio.

Em seus olhos brilhava a chama das certezas plenas, a luminosidade do arco-íris após a chuva.

Entretanto, a vida de crimes e violência daquela vila terminou por minar sua confiança e foi transformando-se lentamente para pior, adequando-se, por fim, ao comportamento vigente, passando a viver mergulhado nas trevas.

Em pouco tempo, estava transmutado em um vago fantasma do homem que fora, vindo a morrer de puro desgosto.

 

*   *   *

 

As pessoas constantemente se transformam na imagem que projetamos delas.

Se alguém convive com amor, é tratado com respeito e recebe sorriso e gestos de carinho, tenderá a se tornar semelhante aqueles com os quais convive.

Ouvindo como é importante, tendo suas qualidades reconhecidas e apreciadas e recebendo elogios a cada acerto, é altamente provável que venha a ser tudo aquilo que acreditamos que seja.

O fortalecimento da auto estima e a generosidade são capazes de transformar mesmo espectros em pessoas de verdade.

Se, ao invés disso, tratarmos com rudeza e desrespeito aos que nos cercam, desestimulando o carinho e o amor, desprezando suas atitudes, tecendo críticas sobre críticas, sem jamais tentarmos compreender nem aceitar aquilo que trazem de diferente de nós, faremos morrer aos poucos tudo o que tiverem a nos oferecer, terminando por transformar a vida em morte, o amor em ódio, o doce em fel.

 

 

O Dom da Rosa


O dom de cada rosa é se transformar inteira em uma explosão de perfumes.
O dom de cada rosa é se suplantar a cada pétala desabrochada, a cada novo raio de cor, a cada veio empergaminhado e macio.
O dom de cada rosa é se constituir inteira de lembranças suaves, de duradouros beijos, de encantadoras cores.
O dom de cada rosa é se infiltrar no espírito de todos os que a seguram, mesmo que somente por um instante.
O dom de cada rosa é trazer a vida, renovar o ânimo, fazer retornar aos rostos cansados a pura alegria de um sorriso.
O dom de cada rosa é ser única mesmo em um imenso mar de rosas, mesmo sendo cada rosa cópia exata da primeira.
O dom de cada rosa é se fazer toda ela mesma, rainha absoluta, com plena consciência de sua maravilhosa constituição de rosa.
 

 

O Mar Em Uma Caneca

 

Um dia, Anya olhou para o mar e viu-se repentinamente tomada de um grande temor diante de sua imensidão.
Desanimava pensar na tarefa árdua que a aguardava. Desanimava pensar que o esforço poderia resultar inútil.
Com paciência e tentando se sentir confiante, segurou com força sua caneca de louça e entrou em meio às ondas, para iniciar sua missão.
Começou a encher a caneca com a água do oceano e, atravessando as pequenas ondas que brincavam na orla, seguia até a areia quente, onde a esperava um pequeno balde. A cada vez que o balde se enchia, Anya o levava até o reservatório de água, e de lá deixava que o líquido precioso escoasse para cada casa da vila.
Muitas vezes desanimava, e pensava em desistir. Muitas vezes se entristecia, quando a caneca levava um tranco mais forte das ondas e derramava toda a água. Muitas vezes chorava quando via o tamanho do esforço que a aguardava, o enorme tamanho do mar.
Mas Anya era persistente, e seguia em frente sempre, por mais que o mau tempo tentasse dobrá-la, por mais que o vento soprasse em direção contrária, por mais que as ondas quebrassem com força por entre seus pés.
Durante muito tempo, permaneceu sozinha ali, a encher canecas e mais canecas de água do mar, e levando-as até o reservatório, de onde seguiria cada gota o seu destino.
Porém, lentamente percebeu que seu esforço havia chamado a atenção de um pequeno grupo de pessoas, que, envergonhadas de sua falta de ação, e impressionadas com o tamanho de sua coragem, trouxeram também suas canecas para a praia, e juntaram-se a ela em silêncio.
Anya não mais se sentia só, mas o oceano parecia permanecer imenso; melhor dizendo, parecia encher-se mais e mais a cada nova gota que lhe era retirada.
No entanto, mesmo tendo se dado conta de que nem a soma de todos os esforços do mundo dariam conta de esvaziar completamente o oceano, percebeu que as gotas d'água que levava ao reservatório faziam felizes muitas pessoas, salvando suas vidas, e matando a sede incalculável que havia em seus corações.

 

 

Descobertas & Encantamentos

 

Hoje estava envolvida em lembranças.
Lembranças novas e velhas,
Lembranças de fatos passados há muito tempo.
Lembrança de palavras ditas à pouco.
Lembrança da primeira e fundamental amiga,
Que infelizmente se foi tão cedo.
Lembrança de novas amizades descobertas,
Todas necessárias para a possível felicidade.
Lembranças da infância, lembranças doces...
Lembranças de manhãs de sol, de conversar e risos,
De deslumbramento, dúvidas e descobertas
Que se renovam, se repetem e se encadeiam
Tornando cada vez mais interessante e profundo
O desenrolar dos dias.
Descobrir a si mesmo no outro.
Descobrir seu olhar em outros olhos.
Descobrir sua alma escondida no fundo de outra alma.
A descoberta da vida que se abre em possibilidades
Frente a uma palavra amiga, o apoio que consola,
O cuidado desinteressado, a compreensão incondicional.
A descoberta do sentimento do mundo,
E de todos os sentimentos que há no mundo.
A redescoberta de todos os pensares,
Gostares e desejos que se julgava perdidos.
O encantamento de se encontrar novamente, uma volta ao lar...
Volta ao estado primal de ternura, ao estado latente de esperança.
A redescoberta do deslumbramento, da amizade, da solidariedade.
A volta da confiança, o acreditar no poder de um abraço,
No poder de um beijo, das palavras.
Emoções que evocam o passado, que evocam o futuro,
Que clareiam a mente, que norteiam o coração.
Emoções que renascem como grãos que aguardavam a chuva.
A volta aos anos da infância, à amizade mais terna,
Ao afeto compartilhado em uma era de inocência...
- Seremos amigas para sempre.
Sorrisos, dias de sol divididos, olhar para as nuvens que passam
Colher muitas flores, falar sobre todos os sonhos,
Sobre todos os medos, sem temores, sem receios,
Sem o fantasma da incompreensão, da crítica,
Sem a tensão que antecipa a dor de não ser entendida.
Saber que sempre haverá alguém com quem contar,
Alguém que sempre ouvirá com toda a dimensão do espírito,
Que sempre estará com o coração aberto,
Que sempre será tudo o que expressa
O mais pleno signifcado da palavra amiga.

 

 

Em Meio à Escuridão

 

Enquanto sentia o medo crescendo dentro de si, Siang era invadida por ondas de um pânico que congelava seus músculos e não lhe permitia pensar em uma saída.

Estava sozinha. Trancada no escuro, deixando-se tomar pelo medo que a cada segundo só fazia crescer.

Siang procurava por uma solução. Olhava em desespero para todos os lados, mas tudo o que enxergava era o vazio. Um vazio enorme, infinito.

Estava sozinha. Tateando, seguiu em frente com passos trêmulos, mãos estendidas, perdida em meio à escuridão que a cercava com sua fome devoradora.

Cada passo era dificultado pela ansiedade e pelo coração que se acelerava no peito. Sentia mais e mais medo. O que haveria à frente ? Que coisas terríveis poderiam lhe acontecer, que monstros espreitavam nas sombras ?

Siang não sabia, e avançava lentamente.

De repente, suas mãos tocaram em algo sólido. Enorme. Uma parede. Onde iria terminar ?

Foi tateando, passo após passo, sem enxergar, numa angústia sem fim. Não via como escapar; parecia-lhe não haver saída.

Em seu desespero, não percebeu que havia um som que se repetia através do silêncio e das sombras. Um som ritmado, de cadência suave.

Siang não conseguia ouvir.

Quando, muito tempo depois, cansada de tatear pelo escuro e abatida pelo pânico resolveu desistir de sua busca infrutífera, sentou-se no chão desolada, o rosto delicado coberto de lágrimas.

Foi quando ouviu o som. Ouviu-o, e aquele pulsar transformou-se em um último fio de esperança.

Siang ergueu-se e andou em sua direção. Não lhe importavam mais os perigos que a rondavam nas sombras, não lhe importavam mais os riscos que corria. Apenas caminhou, guiada pelo som cadenciado e suave.

E descobriu no escuro outra pessoa. Não estava sozinha. Havia alguém.

Siang tocou aquele outro ser igual à ela, estendendo suas mãos para aquele coração que como o su batia nas sombras.

E fez-se a luz.

 

É bom saber que não estamos sozinhos quando sentimos medo ou relutamos em assumir um risco. Quando tomamos coragem e expomos nossas dúvidas a alguém de nossa confiança, o medo perde seu poder sobre nós. E nos tornamos mais fortes e capazes de chegar até a luz.

 

 

O Mar Nos Olhos de Ana

 

Era possível que jamais se soubesse o que significou para Ana aquele pequeno gesto. Apenas um abraço, seguido de um "eu te amo" proclamado aos sete ventos.
Sozinha olhando o mar, Estela pensava em tudo o que havia acontecido nos últimos anos.
Lembrava bem de quando haviam se visto pela primeira vez. Embora não fosse a primeira vez que se falavam, ainda assim foi uma surpresa agradável.
Ana era como Capitu: tinha olhos de ressaca, que atraíam para dentro. Olhos da cor do mar. Revelou-se desde o primeiro momento uma pessoa admirável, dotada de muita alegria e vida.
Tudo em Ana era movimento, e Estela ficou fascinada por seu jeito divertido, e sua enorme simpatia. Naquele mesmo dia, começou a amá-la. 
Durante o tempo que se seguiu, a amizade entre as duas só fez crescer, lançamdo suas profundas raízes em ambos os corações.
Ana era um farol que ajudava a atravessar as tempestades. Ana era um refúgio seguro para todas as tristezas.
Estela ainda se lembrava da primeira vez em que a visitara. Lembrava-se bem dos sorrisos, do encantamento ao descobrir a alma de Ana em cada pequeno detalhe da casa.
Entretanto, apesar de amá-la como se fosse parte de si mesma, sempre que estavam juntas Estela era somente egoísmo. falava muito de si, sem jamais ouvi-la. Estela na verdade acreditava que era impossível que alguém como Ana tivesse problemas. Parecia impossível que sofresse. Se soubesse então o que sabia hoje... Como teria agido diferente ! Teria procurado saber mais da vida de Ana; teria procurado descobrir seus sonhos, seus temores, suas esperanças. Teria dito com todas as letras o quanto era importante em sua vida.
Agora era tarde demais. Ana se fora para não mais voltar, e a dor da perda devastava a alma de Estela.
Nunca havia perdido alguém a quem amasse de verdade. Ou ao menos nunca havia perdida alguém a quem amasse tanto. Era uma dor completamente nova, um sentimento terrível de melancolia e saudade, que a deixava completamente sem ânimo.
Doía o peito cada vez que se lembrava do sorriso de Ana. Doía muito cada vez que se lembrava do seu olhar. Estela não sabia ainda como lidar com a dor. Mas sabia que teria que aprender. Teria que sobreviver.
Agora, sozinha olhando o mar, Estela sentia todo o peso da tristeza. O mal calmo como Ana. Mar imenso como o amor que abrigava em seu coração. Mar que brilhava da cor de seus olhos.
Apenas uma coisa fazia com que Estela se sentisse melhor. Felizmente pudera dizer à Ana o quanto a amava. Tivera tempo de lhe contar das coisas que apreciava nela. Tivera tempo de lhe mostrar o quanto se importava. Tivera tempo de faze-la mais feliz.
Era possível que jamais se soubesse o que significou para Ana aquele pequeno gesto.
Mas, para Estela, significou a diferença entre despencar em um mar de culpa e deixar-se invadir pela saudade. E a saudade que sentia era imensa, mas boa, repleta de lembranças felizes e iluminadas pelo sorriso de Ana. Um sorriso emoldurado pelo mar em seus olhos, que viveria para sempre em seu coração.

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar, na verdade não há."

( Legião Urbana, in "Pais e Filhos" )

 

 

Um Amor Imortal

 

Para um discípulo, ninguém é mais admirável que seu mestre. Ninguém será mais confiável nem mais digno de ser imitado.
Assim também Kyalir admirava o exemplo de seu amado mestre Ryashi.
Dia após dia Kyalir observava a eloqüência e o poder de oratória do mestre, e bebia suas palavras como se fossem um néctar dos mais preciosos. Kyalir apreciava sua rapidez de raciocínio, sua transparência, sua honestidade. Kyalir alimentava-se de sua sabedoria e sentia o espírito transbordar com a sua fé.
Ryashi parecia também ele apreciar muito a companhia de seu jovem discípulo. Freqüentemente procurava por ele, e lhe elogiava sempre a força de vontade, a grandeza da alma, o poder de concentração. Ryashi admirava sobretudo sua inesgotável capacidade de amar.
Sem perceber, Kyalir tornava-se a cada dia mais parecido com seu mestre. Trilhava com outros passos pelo mesmo caminho. Percebia com novos olhos tudo o que Ryashi já havia visto. Sentia em seu coração jovem toda a riqueza de sentimentos que o amoroso mestre já havia experimentado ao longo da vida.
Os laços entre discípulo e mestre se tornaram mais e mais fortes com o passar dos anos. Ambos compartilhavam seus sonhos e unificaram seus espíritos, alcançando cada um, com profundidade, o mais íntimo do ser.
Entretanto, como sempre acontece na vida, houve entre eles um desentendimento, que os levou a um rompimento total.
Passou-se o tempo, e, um dia, já muito avançado nos anos, Ryashi veio a falecer esquecido em sua aldeia natal.
Kyalir, ao saber de sua morte, mesmo com a enorme distância que então os separava, trancou-se em seu quarto chorando um pranto convulsivo por muitos e muitos dias.
Foi então que percebeu que o amor compartilhado por duas almas em sintonia jamais morre. Os laços que o uniam ao velho mestre eram muito mais profundos e muito mais duradouros que qualquer desentendimento.
As lições que aprendeu através do exemplo e da dedicação de Ryashi o tornaram apto a viver sua própria vida. O afeto que dividiram tornou-se eterno no tempo.

"A sobrevivência de um organismo depende da sobrevivência de um outro." ( Charles Darwin ) 

 


A Talha e o Jarro de Ouro

 

Nos tempos antigos, era comum que se usasse uma talha para buscar água em rios e fontes. As talhas eram geralmente de barros, toscas, saídas muitas vezes de mãos pouco habilidosas e rústicas.
Essa é a história de uma destas simples talhas.
A talha da qual falamos se encontrava em uma casa muito humilde, onde morava um pescador e sua filha.
Todos os dias, a filha do pescador andava até a única fonte da aldeia para encher a talha de água e com ela prover o sustento de sua casa.
Anos a fio serviu a talha a seu propósito. Anos a fio saciou a sede daquela pequena família.
Entrementes, um belo dia o pescador, ao lançar suas redes, recolheu com ela não peixes, mas um belo tesouro afundado. Havia muitas moedas de ouro e prato, muitas jóias preciosas e diversas outras quinquilharias preciosas.
O pescador e sua filha eram agora muito ricos.
Imediatamente, como sempre acontece na vida, ambos se desfizeram de todo e qualquer vestígio de sua vida de pobreza. Atiraram ao mar suas roupas velhas e usadas, quebraram sua mobília grosseira, e, como não poderia deixar de ser, lançaram ao longe a velha talha de barro.
Compraram em seu lugar um reluzente jarro de ouro, cravejado de brilhantes. E de muitas outras coisas se cercaram, toda a espécie de luxo e riquezas...
No entanto, dentro de poucos anos chegou à aldeia, onde agora o pescador enriquecido ostentava sua fortuna como um rei, um mercador de um distante país, dizendo-se dono do tesouro encontrado.
Com seu séquito de soldados, arrasou o palacete do pescador, tomou-lhe todos os bens, expulsou sua bela filha e jogou-o no fundo de uma prisão.
O rico jarro de ouro, agora inútil, servia ao mercador de enfeite, obra rara a ser apreciada em suas viagens pelo mundo.
O pescador agonizava em sua prisão... Tinha sede.
Sua filha, do lado de fora, em desespero, procurava dar ao pai algum conforto, através das grades.
Lembrou-se então da velha talha, esquecida durante anos perto da cabana agora semi destruída e cercada pelo mato. Correu até lá, mas ao chegar, para seu infortúnio, percebeu que a talha estava partida, definitivamente estragada, perdida para sempre...

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Assim fazemos nós muitas vezes ao longo da vida. À menor possibilidade de ganhos, abandonamos nossos amigos, nossos sonhos, nossos valores... Deixamos de lado tudo aquilo que verdadeiramente somos.
Até chegar o dia em que a superficialidade da nova vida se quebra, e ao tentar retomar o que um dia fomos, percebemos, com profunda tristeza, que algo se quebrou. Os amigos se foram, os sonhos estão mortos, os valores corrompidos, nossa essência, para sempre perdida..

 

 

Você Ama Alguém ? Diga-lhe Agora !

 

Minha bisavó sempre dizia que há sempre tempo pra tudo nessa vida.
Não é verdade.
Não há tempo na loucura do dia a dia. 
Não há tempo sobrando na correria da vida. 
Tempo para tudo nunca haverá.
Existe sempre o risco de deixar de se fazer, dizer ou viver o necessário.
Possível é definir prioridades. 
O que é mais importante em nossa vida ?
Trabalho, família, amigos, estudo, lazer ?
Aqueles que amamos são o mais importante de tudo. Para sermos sensíveis ao próximo é necessário dedicar-lhe tempo.
Tire um tempo para...
Enxugar as lágrimas de um amigo que sofre...
Pensar, pois é a fonte do entendimento de si mesmo...
Ouvir as alegrias e tristezas daqueles que te amam...
Brincar, por é o segredo da eterna juventude...
Dizer "eu te amo" para quem considera importante...
Amar, pois é o maior poder que existe sobre a terra...
Ser amado, pois é um privilégio divino...
A amizade, pois é o caminho para a felicidade...
Rir, pois é a música do espírito...
Dar, pois a vida é curta demais para ser egoísta...
A caridade, pois é a chave do céu...
E o céu ou começa agora aqui na terra, 
Ou não começa nunca.
Não perca tempo. O agora é o momento mais importante. Valorize. Ame. Construa. Lute para ser feliz. Jamais se envergonhe de viver e sentir.

 

 

Quando Há Nuvens

 

"Não dá para ficar intacta em meio a uma maluqueira dessas !"
A frase, dita em tom de desânimo, muitas vezes me acompanhou por essa vida.
A maluqueira em questão é a de hábito, a de todo dia. Família, trabalho, aborrecimentos, falta de grana, violência, medo do futuro.
Muitas vezes, sobreviver ilesa parece mesmo difícil.
Talvez porque tenhamos nos acostumado a encarar a felicidade como algo eterno e linear...
A autêntica felicidade vem e vai e geralmente não dura muito. Você passa o resto do tempo pensando nela, esperando-a, procurando-a...
Conhecendo esse fato, é fácil encontrá-la com mais freqüência e usufruir dela apaixonadamente.
A felicidade está no sorriso sincero de um amigo, nas pétalas perfeitas de rosa, na calma serena de um papo gostoso, na alegria dos encontros pela madrugada, conversar no escuro, sentir a chuva cair sobre o rosto, está no ronronar confortante de um gatinho...
Se você carrega nas costas o seu passado, se além disso carrega a angústia e o medo do futuro, não lhe sobram forças para enfrentar o mais importante: você agora, no momento presente.
A vida é feita de pequenas vidas de um dia cada uma.
Nem todos os dias são fantásticos, mas quase todos tem algo de bom que não houve nos outros e você tem que viver cada momento, cada "agora", como se fosse o momento mais importante da sua vida.
O tempo corre entre os dedos... Não desperdice !!!
Faça o que fizer, esteja com quem estiver, viva com emoção !!!
É uma chance de ficar inteira !!!


 

Recordações


Hoje estava remexendo uns papéis velhos, e achei uma carta de uma amiga da época do normal... Nessa época, escrevíamos muito uma pra outra. Ambas adoravam escrever, e faziam isso muito bem.
Lendo a carta, me senti um tanto triste por nunca mais tê-la visto... E isso me fez pensar...
Quantas vezes pensamos em ligar para um amigo mas a falta de tempo nos impede ?
Quantas vezes, quando o tempo aparece, dizemos "ah, amanhã eu faço ?"
Quantas vezes pensamos em escrever uma mensagem, mas não temos paciência para fazê-lo ?
Quantas vezes simplesmente ignoramos mensagens tristes de nossos amigos por achar que não vai adiantar de nada respondê-las ?
Quantas vezes por preguiça, indiferença ou descuido, deixamos de dizer aquilo que é tremendamente necessário ?
Quantas vezes deixamos de dizer a um amigo querido o quanto o amamos ?
Eu mesma deixei de fazer tudo isso tantas vezes...
E as pessoas se vão, partem sem saber o quanto foram importantes...
Muitas vezes uma palavra simples é capaz de fazer tanto !
Temos que dizer, fazer e acontecer hoje.
O amanhã nem sempre existe. 
Acho que é por isso que hoje em dia sou tão diferente...

 

 

Do Espírito Turbulento

 

Hoje foi um dia feito da pura matéria dos sonhos. Vaporoso, enevoado, confuso. Um dia que não houve.
Na vida há dias assim. Dias que passam e se acabam sem que nem porque. E de repente você se dá conta de que chegou a noite e a madrugada se aproxima à toque de caixa.
Dia estranho, de estranhos pensares. As coisas parecem estar suspensas no ar por um fio. Há um certo mistério, um não saber como será o amanhã. Muita incerteza, isso me atordoa. Como gostaria que fosse tudo previsível e controlado ! Quer dizer, não as coisas boas. Essas poderiam cair como uma surpresa dos céus. Mas as coisas ruins, decepções, doenças, morte, ah ! Essas a gente devia poder prever e controlar, paralisá-las e não deixar que acontecessem. Senhor, isso seria tão bom !
Sinto a alma turbulenta que se esconde dentro de mim. Na superfície tudo é calma. Reina a tranqüilidade, a paz, os bons conselhos. Mas o fundo... Ai, o fundo é tempestuoso ! Águas que se agitam sem trégua, dúvidas, tanta ansiedade, tanta angústia, medo... Sentimentos sepultados bem lá dentro. A vida não pode ser uma ode à tragédia, enfim. Há que se viver da melhor maneira, há que se sorrir embora se sangre, há que se agüentar firme e seguir levando porque... É o que há a se fazer.
Não me dou nunca ao luxo de chorar, não me dou nunca ao luxo de sofrer. Pessoas precisam ser cuidadas, acariciadas, confortadas. Sempre uma mensagem confiante, de fé, de esperança. Nunca a tristeza ou o desespero. Sempre avante, sempre tocando o barco. Amor há muito pra dar. Minha dor é pequena frente a outras tantas dores.
Tenho medo de quebrar um dia. Medo de me partir em duas. Medo que a metade sombria sufocada venha à tona. Mas acho que é um medo comum, no fim das contas. Conheço outras pessoas assim. Reconheço meus semelhantes quando os vejo. Sei que há quem ria e sorria para afastar a angústia enorme da vida. E, na maioria das vezes, funciona mesmo. Líquido e certo.
A vida é um reflexo do que fazemos e pensamos. Espelhos somos de nossas atitudes perante a vida. Pensar pra baixo só afunda. Pensar pra cima levanta, dá fôlego novo, reanima, traz bons fluidos, boas energias, transforma o que sentimos e o que somos.
Não se trata de se enganar. Não se trata de ter duas caras. A dor e a alegria são dois lados da mesma moeda. Não se trata de esconder o que se sente de ruim, trata-se de não cultivar esses sentimentos. Não cultuá-los jamais. Reconhecer que existem. Que são normais. E saber, ter certeza plena de que um dia tudo passará.
Minha bisavó sempre dizia que tudo nessa vida tem jeito, até a morte. Porque a morte nada mais é senão a continuação da vida. Sábias palavras !

 

Das Amizades Trazidas Por 2001

 

 Estou muito, muito cansada. Cansaço tremendo, profundo. Dormi pouco, dormi mal. Acordei com dor. A manhã foi atordoante, me sinto extremamente confusa.
Apesar disso, estou feliz. Cansada e confusa, mas feliz. A página fez sucesso. Minhas homenageadas ficaram felizes. É tudo que me importa !
Ambas são pessoas fantásticas, com quem me orgulho de poder conviver. Aliás, verdade seja dita, me orgulho demais das minhas amigas. O amor que eu sinto é algo mágico, inexplicável e muito forte. Unidas. Essa é a palavra. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, para sempre e sempre, cada vez mais junto.
Elas são meus raios de sol, são o lastro do navio. A vida pegou novo sentido, simplesmente porque existem. Confidentes, conselheiras, anjos, irmãs. Minhas certezas mais verdadeiras, meus belos presentes de Deus. Presentes de gato ! Quem poderia adivinhar que seria assim ? Quem poderia prever essa empatia instantânea, esses laços tão fortes, essa comunhão de almas ? Ah, os gatos são realmente iluminados, mensageiros da alegria ! Trouxeram consigo uma grande luz...
Um ano tão ruim esse em que estamos ! Mas em meio a tanta turbulência, brilha uma coisa enormemente boa, que foi tê-las conhecido. Foi um conhecimento de vida, um leque que se amplia. Um universo inteiro se abriu, com seus muitos sóis. Cada astro de um jeito, cada qual com sua órbita. Cada uma com seu jeito de ser. Conhecimentos profundos de seres humanos. Com suas dores, perdas, sorrisos, carências, tristezas, mas, acima de tudo, vida ! Exemplos de vida, modelos, tanto a admirar em cada uma, tanto a aprender com todas...
Meu eu reflexivo, que se compraz em analisar e compreender tudo o que há, se derrama e se espraia em suas vidas. Ah, se cada uma soubesse o quanto é admirável, o quanto é delicada, o quanto é batalhadora, o quanto me faz bem saber que somos amigas... Uma guerreira vive em cada uma de nós. Guerreiras juntas fazem um exército. E exércitos vencem batalhas, mesmo as mais difíceis.
O tanto que sei de cada uma só me dá certezas do quanto foi maravilhoso encontrá-las. Como foi fundamental para cada uma que nos encontrássemos. Isso parece fazer parte de uma espécie de projeto, de plano de uma esfera superior. Dizer isso parece supersticioso, mas é a pura verdade ! É o que eu sinto. Porque não nos encontramos somente. Não foi um esbarrão puro e simples.
As vidas se cruzaram, fizeram-se pontes, traçaram-se objetivos comuns. Formou-se uma rede. Aranha nenhuma teceria uma teia tão perfeita... Somos quase mosqueteiras, uma por todas e todas por uma !
Delícia saber que temos com quem contar, aconteça o que acontecer.

 

Inclusão & Doação

 

Palestra sobre inclusão. Muito interessante. Bom para refletir sobre o que é diferente. Qual o significado dessa palavra ? Há que se mudar o olhar, como trabalhar, como encarar as pessoas independentemente do que apresentem.

Penso na dificuldade que muitas pessoas têm de encarar os problemas alheios, e, às vezes, até os seus próprios. Gente que sussurra ao falar as palavras. Gente que tem palavras proibidas. Gente que diz: "Coitada, o filho dela tem ......" Você pergunta: "O quê ?" E a pessoa: "Problemas, coitado ! Coisa de cabeça. Sabe ?" E você: "Não, o que éééééééééééé ?!" Depois você descobre. E aí você se pergunta, com os diabos, que mal há nisso ? Qual a vergonha em dizer ? Porque o medo ? Porque tamanho horror ? Acham que escondendo ou sussurrando a coisa some ? Só pode !!!

Pessoas são pessoas, cada uma do seu jeito, cada uma com seu momento, cada uma com seus problemas e limitações. Cada um é cada um. Há que se tratar a todos com igualdade, respeito, carinho, amor...

Já resolvi: vou trabalhar nessa área. Estão sempre precisando de gente. É um trabalho que ninguém quer. A maioria das pessoas não têm estrutura, ou, simplesmente, não quer se envolver. Eu tenho, e quero. 

Já estão me condenando por isso. Me perguntaram se estou ficando doida, se não tenho mais o que fazer... Porque é tão difícil aceitar ? Tenho tanto amor pra dar,  tanto carinho a distribuir, tanto sentimento, tantas idéias !!! Conheço tantas atividades, tantas dinâmicas, tantos trabalhos a desenvolver !!! Então, porque não faria uso de tudo isso ?

Deus não nos dá dons para que usemos em nosso próprio proveito. Ele nos dá suas graças para que sejamos úteis, para que sejamos parte de seus planos, para que ajudemos a formar seu reino de amor, para que amar ao próximo acima de nós mesmos.

 

 

Da Vida e da Morte

 

Hoje pensei em Luciano. Faz anos que não penso nele. Luciano que se foi tão jovem, Luciano que se foi de repente, Luciano tão amigo, tão meigo...

Um jovem sensível, delicado, e muito, muito bonito. Uma amizade ainda em botão, começando a florescer. Flor que foi cortada antes do tempo.

Estive com ele em seu último dia entre nós. Quatro dias antes do Natal. Desci do ônibus, ele estava no ponto. Conversamos, rimos, brincamos... Na manhã seguinte, a notícia. Um acidente. Foi instantâneo. Luciano tornou-se mais um entre os belos anjos de Deus.

Lembro do desespero que tomou conta de todos. O inesperado da notícia foi um choque. Alto impacto. A tristeza se espalhou como uma mancha negra.

Lembrei-me de Cazuza, o meu poeta, que, ao ser perguntado sobre como se sentia por conviver com a morte, disse simplesmente que isso não era privilégio seu, mas sim que acontecia com todos nós, todos os dias. E é verdade. Vidente nenhum, medicina alguma pode ter a pretensão absurda de querer prever quanto tempo nos resta. Somente a Deus pertence o poder sobre nosso destino. É ele quem escreve a duração da vida no eterno livro do tempo.

A morte, porém, assusta à maioria dos povos ocidentais. No oriente, ao contrário, veste-se branco. Festeja-se a passagem para uma nova vida.

Mas não assusta a mim a morte, em absoluto. Por algum motivo, desde muito cedo aprendi que não somos eternos. Aprendi a lidar com o sentimento da nossa efemeridade. E, acima de tudo, percebi que não há um fim. O espírito continua vivo, imutável, eterno como o universo. O corpo é uma passagem, um veículo, um claustro onde a alma habita e aprende, cresce e conhece, amplia os horizontes e desabrocha. A morte apenas nos encaminha para o imenso amor de Deus. Ninguém termina. Não viramos pó.

Esse fantasma só é ruim para quem fica. Quem parte vai ao encontro de algo maior. Vai para um plano infinitamente superior, onde a felicidade e a fraternidade são sonhos possíveis. Mas quem fica... Esses sim são os verdadeiros miseráveis, pois sofrem a dor da eterna saudade e choram a ausência mais sentida a cada dia. Nesse ponto, sou covarde. Tenho medo de sofrer. Mas sei que é inevitável. É um dos preços que se paga. Ou paga-se o preço, ou não se vive.

Da vida nada se leva, senão o que vivemos e sentimos. Como já dizia Renato Russo, "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã". É preciso dizer hoje o que se sente, é preciso desmanchar as mágoas, é preciso estreitar os laços no momento presente, porque amanhã pode ser tarde... É tempo de amar, é tempo de sentir, é tempo de compreender, é tempo de viver cada momento.

Um momento pode ser eterno. Um único momento de ternura vibra por muito e muito tempo. A dimensão do tempo é relativa. Cem anos mal vividos não valem vinte e um como os de Luciano. Pessoas como ele sobrevivem através dos tempos, e mesmo sua breve vida torna-se enorme nas pequenas coisas que ficam na memória.

São suaves as lembranças que tenho dele. São doces os momentos que ficaram. É tudo que espero que aconteça quando meu momento chegar. Que meus amigos guardem de mim a recordação de palavras de amor, de carinho, de sorrisos e festa. Quero ser uma fotografia viva que se guarda dentro do peito.

 

 

 

Virada

 

A felicidade chega, sem avisar que vinha. Numa nuvem dourada, trazendo de volta a fé e a esperanças quase que perdidas. Estava tudo por um fio, e esse fio... Acaba de receber nova roupagem, novo encapamento, fortaleceu-se, encorpou, está forte novamente.

Engraçado como o estado de espírito é capaz de mudar num giro de 180 graus, de um momento a outro... Uma horas, estamos quase a ponto de desistir, de repente... A maré muda, começam a chegar boas notícias, sopra um vento novo !!!

Estava muito desanimada, por conta de tanta coisa !!! Mas agora... Sinto que o mundo está retomando seu eixo. A vida está retornando aos poucos, a luta, enfim, vale à pena !!!

Resoluções novas. Novas prioridades. Voltar ao ponto que larguei.  Tenho que me esforçar. Tenho que conseguir.

Ah, a vida novamente se estende pela frente mansa, parece que as águas turbulentas sossegaram... Que o rio finalmente está fluindo sereno. Ninguém sabe nunca o que virá na próxima curva, mas mesmo assim... O que vier será apenas passageiro... Apenas o rio é eterno, em sua viagem em direção ao mar.

 

 

 

A Pior Parte do Amor

 

Dia triste. A tristeza me invade sem controle. Sem domínio, sem freios, sinto-me invadida pelo desânimo, pelo cansaço, pela dor, pela impotência. Não consigo lutar contra essas coisas, parece impossível resistir. Hoje nem mesmo a máscara de eterna Pollyanna consigo vestir.

Sei que não devia, sei que estou errada em questionar e não aceitar o destino, mas me desespero tanto, sofro tanto, não consigo deixar de achar injusta a vida. Por que um Deus de amor permite a existência da dor ? O que Ele espera de nós, afinal ?

Somos tão pequenos, tão inúteis, tão impotentes, somos como folhas voando ao sabor do vento. Somos esmagados pela vida, somos forjados pelo destino, somos presa fácil das armadilhas desse caminho tão curto. O que podemos fazer senão tentar viver da melhor forma possível ? O que podemos fazer senão viver ? Viver e lutar, lutar e viver, nisso se resume tudo.

Eu poderia não estar sofrendo, eu poderia não estar chorando. Mas estou, e a escolha foi toda minha.

Foi minha decisão voltar a me aproximar das pessoas, foi minha decisão assumi-las e, com elas, toda a vastidão de sentimentos que trazem dentro de si. Ninguém pode escolher viver um meio-amor, ou ter uma meia-amizade. Toda pessoa tem suas duas faces, todos têm um lado iluminado e um lado negro. Não dá pra se amar meia-pessoa. Ou se assume o pacote completo ou não se assume tudo.

Dessa decisão vem todo o meu sofrimento, mas também toda a alegria que tem preenchido meu coração. Não me arrependo. Não me arrependo de amar.

É impressionante a força desse amor, é incrível que tenha brotado tão fácil e criado raízes tão profundas tão rápido. É um poder estranho, é algo que me perturba, o fato desse sentimento ter chegado tão de repente e tão forte.

Não sei se é um amor compartilhado, não sei se é desse mundo, não sei nem mesmo se é recíproco. Mas isso pouco me importa. De fato, me importa apenas que amo. É um amor completamente incondicional. Eu amo e pronto. Não faço questionamentos. Recebi presentes especiais de Deus.

Todas tão diferentes, todas tão parecidas, todas tão ricas, todas tão guerreiras, todas tão meninas, todas esperança em botão, luminosidades, flores que me alegram a vida.

É como já disse antes. Não se pode amar pela metade. Só se ama a totalidade do ser.

Se a vida traz junto com o amor a tristeza das dores compartilhadas, e a amargura da perda possível, traz também todo um universo de histórias, carinho, risadas, encontros, solidariedade e união.

O mesmo destino que nos traz as trevas, traz também a luz.

Por ela, pela luz, e pela honra de poder ter conhecido e compartilhado de tantas vidas, eu já seria eternamente grata. Por esse preço, vale a pena viver.

No balanço final das coisas, podem restar algumas tristezas, mas sem dúvida alguma restará em muito maior quantidade uma lembrança suave do afeto compartilhado.

 

 

 

Aquecendo o Coração

 

Das muitas coisas da vida que fazem com que ela valha a pena, nenhum é mais valiosa que a amizade verdadeira. Amigos têm sempre o poder de aquecer o coração. Mesmo nos momentos de maior tristeza, mesmo naqueles dias em que o pranto impera, nunca se estará totalmente sozinho se existir um amigo, mesmo que longe.

Sou uma pessoa privilegiada. Conto com o amor de muitas amigas. E todas elas são pessoas esplendidamente tocadas pelo dedo de Deus. Todas abençoadas com os dons do seu Espírito.

 

 

 

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