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VENTO FRIO
O frio que gelava cada poro
e transformava sua respiração em sopros do mais forte vento polar era
quase insuportável a esta altura. Pior que tudo era saber que não havia
abrigo ou agasalho no mundo que pudesse lhe trazer ao corpo e ao
espírito um pouco de calor. O frio vinha de dentro, vinha do mais
profundo do ser. Frio desesperado para o qual não havia cura. Dentro de
si, somente a escuridão, a tristeza, a amargura do sofrimento mais
inútil do qual jamais houvera notícia.
Por que sofria ? Muitos motivos, grandes e pequenos, cruzavam suas
preocupações naquele momento. Muitas eram as razões daquele estranho
vento gelado que lhe preenchia inteira.
Em primeiro lugar, o desespero de ver o sofrimento, a dor eterna de
presenciar a dor dentro daqueles que mais amava e nada poder fazer.
Quisera que seus braços pudessem enlaçar cada amigo que sofria, quisera
que seus lábios tivessem o poder de transformar o pranto em risadas, as
lágrimas em alegria, o peso do destino na leveza de um raio de sol. Nada
a desesperava mais que ver alguém querido chorar, nada lhe feria mais
mortalmente que uma lágrima correndo por um rosto amado. Nada lhe
deixava mais mergulhada em tristeza do que conhecer o sofrimento alheio
em toda a sua profundidade.
Isso era algo que ninguém poderia imaginar. Quem poderia saber que o que
sentia não era apenas piedade ou empatia e identificação com quem
sofria, e sim algo muito mais profundo ? Não conseguiria jamais explicar
a dimensão real do que sentia. Mas a verdade é que sentia exatamente
cada coisa que o outro sentia. Era uma experiência estranha, um mergulho
fora do próprio corpo. Um mergulho dentro da alma de quem sofria.
Bastava saber do fato e pronto. Estava feito. Imediatamente era
transportada para o centro de todos os sofrimentos, de todas as emoções.
Ninguém poderia imaginar que era assim que tudo se passava. Nem ela
mesma entendia. Mas era a mais pura verdade. Era assim que se passava.
Todos se admiravam de tanto sofrimento que sentia. Achavam estranho que
ela chorasse ao ver chorar, que lhe doesse ao ver a dor. Mas o caso é
que cada lágrima era também sua, e cada dor lhe doía como se saísse de
dentro de si mesma. Isso ninguém entendia. Ninguém jamais alcançaria, a
não ser que estivesse dentro dela, e sentisse tudo o que sentia. Mas
isso era uma utopia, um desejo inalcançável. Poucos simbiontes existiam,
poucos eram como ela. Na verdade, desconhecia que houvesse qualquer
outro. Parecia-lhe que era única em sua espécie.
E que espécie mais misteriosa, que espécie mais desprovida de senso de
auto preservação... A identificação era tão profunda que simplesmente
deixava de lado suas preocupações, suas ocupações, seus próprios
pensamentos. Passava a enxergar, a sentir, a ver e a pensar como o
objeto da simbiose. Sabia claramente tudo o que era sentido, pensado,
refletido. Conversava muito, conversava demais. O sofrimento não lhe
atraía, ao contrário, causava-lhe horror. Mas parecia que ele a
perseguia como uma sombra. Era como uma esponja, que absorvia tudo que
havia.
E, estranhamente, mesmo de forma inconsciente as outras pessoas pareciam
perceber que era formada de uma matéria diferentes das demais.
Procuravam-na no meio da noite, procuravam-na para contar suas histórias
e mágoas, procuravam-na para desabafar, para buscar conselho e consolo.
E a ninguém ela negava todas essas coisas. Não conseguia deixar de
atender aos apelos, não conseguia deixar de ouvir, e pior do que tudo
isso, não conseguia deixar de amar.
Pior, sim, pior, porque quanto mais via alguém mergulhado em problemas,
quanto mais via alguém tentando se desvencilhar de alguma dificuldade,
quanto mais via alguém tentando não sufocar em meio à tristeza, mais
crescia sua admiração por aquela pessoa que se debatia, mais crescia sua
empatia, mais crescia em seu coração o amor. Tentava de todas as formas
que conhecia ajudar a resolver os problemas, ajudar a consolar as
tristezas, ajudar a secar as lágrimas, tornar-se uma parte da solução.
Estranho sentimento aquele que a fazia amar desesperadamente a quem mais
precisava, especialmente a quem menos era amado, ou a quem menos se
deixava amar.
A tristeza alheia não a satisfazia, não a deixava feliz ou realizada.
Não precisava do sofrimento dos outros para se sentir necessária, para
se sentir amada. Não se tratava disso. Não era apenas uma sanguessuga,
uma vampira de almas. A tristeza lhe causava acima de tudo uma dor
profunda, lhe causava revolta e uma grande indignação. Não queria que
ela reinasse sobre a terra, muito menos que reinasse sobre aqueles que
amava. Faria qualquer coisa para combatê-la, usaria qualquer arma para
derrotá-la. E as armas que tinha infelizmente eram poucas. Apenas suas
mãos, seus braços, suas palavras e seu coração. Era pouco, era muito
pouco. Mas lutava com todas as armas que tinha.

EM VOLTA, A DOR, APENAS A
DOR
Por mais que eu tente
enxergar a vida com os olhos otimistas e cheios de pollyanismo como
sempre, confesso: não está dando. Não estou conseguindo.
Perco a conta das horas que passo chorando, perco a conta dos dias em
que deito na cama rodeada de gatos e tristezas, de lágrimas e agonia, a
lenta agonia das horas de escuridão, uma escuridão que se avizinha e que
ameaça instalar-se de vez dentro de mim.
Tristeza, dor, solidão, desespero, angústia. Tudo isso me cercando e
rodeando, sentimentos e fatos, coisas ruins e terríveis atingindo como
uma flecha envenenada as pessoas que mais amo. Uma a uma as vejo cair,
as vejo chorar, as vejo sofrer. Uma a uma atingidas pelo desespero que
traz a falta de dinheiro, uma a uma sofrendo com gente mesquinha e que
jamais lhes dará
valor. Uma a uma pagando caro por tudo, e por quê ? Por que motivo
acontecem essas coisas todas somente com pessoas boas, pessoas doces,
que deveriam ser as que mais alegrias tivessem na vida ? Não consigo
compreender, está além de mim.
Que Deus é esse que permite que uma amiga tão doce, tão boa, tenha que
passar por tudo o que tem passado, depois de tudo o que já sofreu na
vida ?
Que Deus é esse que deixa um gato doado por outra despencar de uma
janela, que deixa outro morrer de forma tão estúpida nas mãos de uma
assassina, que coloca tamanho amor pelos bichos no coração dela só para
vê-la sofrer quando eles se vão ?
Que Deus é esse que tira de alguém justamente os escolhidos, os eleitos,
aqueles a quem ela mais ama ?
Que Deus é esse, afinal, que mata lentamente, um pouco por dia, tirando
a alegria, a luz, a vontade de viver, a memória e as forças ?
Que Deus é esse que golpeia com perda após perda, uma pior do que
a outra, que deixa alguém mergulhado em desespero, sem saída, sem
ter para onde se virar ?
Que Deus é esse, que deixa a minha própria vida livre de tudo isso, mas
me atinge justamente com aquilo que mais temo, com aquilo com que não
consigo lidar - ter que assistir ao sofrimento de todas elas sem poder
fazer absolutamente nada, sem poder nem mesmo oferecer ajuda ou consolo
?
Não é justo, não é bom, não é amor nem bondade. Deus às vezes me parece
mais um Shakespeare maluco.

UMA VIDA EM SEGREDO
Vida obscura, escondida,
oculta, vida secreta que espia por detrás da máscara colorida e risonha
que ostento em minha face. Por fora, a feliz constatação de que a vida,
afinal de contas, é bela. Por dentro, um profundo abismo. Medo de cair,
de me perder, medo de ver refletida no espelho uma imagem retorcida.
Tantas angústias, tanto aperto, uma mão pesada sufocando a garganta.
Sorrir mesmo triste, palpitar amor mesmo mergulhada em carências.
Transformar a dor e as lágrimas em mãos estendidas para o outro. Dar
colo mesmo precisando de colo, apoiar mesmo sem encontrar apoio. Não há
braço a amparar a queda; quedar-se e deixar-se levar torna-se
impossível.
Há apenas a necessidade de estar presente nos momentos de desespero, de
ser uma luz iluminando os caminhos. Por dentro as trevas, por fora a
alegria. Fogo interior e secreto corroendo a alma. Até quando a torrente
oculta permanecerá quieta e adormecida sob a superfície da pele ? Até
quando a ira se sustentará inerte, correndo turbulenta sob a calma
aparente ?
Perguntas sem respostas. Jogos de palavras. Ar perpétuo de compreensão,
cercado de meigos sorrisos. Sorrisos sinceros na atitude e no coração,
porém traçados às custas de oprimidas lágrimas. O sonho da adolescência
transformado em ideal de vida.
Minissérie. O tempo e o vento. Veríssimo configurado em um índio ferido
à beira do riacho, um homem cansado e sozinho, precisando de cuidados. O
sonho de estar ali, amparando, ajudando, acariciando os cabelos molhados
e afirmando que tudo no fim das contas estaria bem. Espírito de Madre
Teresa ? Não, nada disso. Apenas a vontade de fazer-se útil, de ser
importante, a necessidade urgente de se sentir necessária, de saber que
por menos que seja, fiz alguma diferença no rol das coisas. A premência
de extravasar o amor contido presente no gesto de cuidar. A urgência de
amar, de tocar, de abraçar, contida no ato de estender a mão. Supressão
de carências.
Sonhar com o atormentado Athos, sonhar e sonhar noites a fio com o herói
frágil de "O Exterminador do Futuro", sonhos de carinhoso consolo. A
vontade suprema e incontestável de ser a heroína, jamais a mocinha. De
ser a parte forte, a que decide, a que resolve, a parte que ampara e que
conforta, que ama sem limites e que se recusa a aceitar a
inevitabilidade do destino. A parte que odeia a morte e as pequeninas
mortes pelas quais passamos durante a vida.

SOB O SIGNO DE GÊMEOS
Não saberia dizer como tudo
começou, tampouco de onde vinha a profunda angústia que sentia. A
consciência apenas me dizia que estava lá, guardada, atiçando meus
sentimentos como um aguilhão afiado nas mãos cruéis de um toureiro.
Angústia palpável, terrível, oprimindo todo o meu ser com um peso
enorme.
Fundações obscuras cercam as bases que sustentam o que sou. A primeira
lembrança, um vislumbre apenas, sombras que passam rápidas, contornos
mal definidos. Um dia de sol, uma bola colorida e imensa, um prato de
batatas fritas em uma mesa alta demais para ser alcançada por dedinhos
miúdos e gorduchos. Quinta da Boa Vista, a grama, o sol. As mesinhas do
restaurante. Uma menina igualzinha a mim. Meu pai, uma moça loura,
talvez mãe da menininha, minha primeira amiga. Risos felizes. Dias
inocentes.
Difícil lembrar mais fragmentos dessa época tão longínqua.
Um dia no Zôo, um collant que se abria e me deixava embaraçada. Um saco
de batatinhas fritas gordurosas nas mãos, grãozinhos de sal derretendo
na boca.
Um dia na escola, o uniforme molhado do Jardim de Infância, sentada na
cadeira do gabinete da diretora, esperando minha mãe, talvez atrasada.
Uma farpa no dedo, choro, uma longa subida até o topo do trepa-trepa, o
deslizar macio pelo escorrega. A casinha de bonecas, massinha que
grudava nos dedos, a tinta guache que escorria pelas mãos pequenas.
Mais tarde, outra escola, primeiro dia, uma rampa enorme, a sala errada.
Risos, uma menina loura e tímida sem saber onde enfiava a cara. Desde
cedo detestava estar errada. Tinha cabelinho nas ventas. A mamadeira
largada tão tarde, brincadeiras nas escadas do prédio, esconde-esconde
nos corredores com uma cocker preta. Brincar de bicho, hamsters
passeando pelo carrinho de transportar carrinhos do meu irmão. Casinha
arrumada, móveis no lugar, ataque de raiva, tudo derrubado. A casinha de
Playmobil destruída, fúria incontida contra meu irmão.
Os natais na casa da minha avó materna, cheios de cheiros gostosos,
brinquedos e descobertas, a ceia servida mais cedo para as crianças,
todos dormindo juntos esperando Papai Noel. Saber que Papai Noel era
apenas uma invenção. Chegar em casa e encontrar um saco maior do que eu
em cima da cama, recheado de surpresas e maravilhas diversas.
Nem todas as lembranças são boas. Esperar meu pai, que chegava tarde
várias noites por semana, sentada na janela do quarto, agarrada nas
grades, chorando lágrimas sem fim. Estaria morto ? Porque não chegava
nunca ? Onde estava ? A angústia cerrando suas garras com punhos de aço.
As entradas dele em casa, tarde, muito tarde, gritos, berros, ameaças,
saber que ele estava com alguma puta na rua. Sim, muito cedo aprendi o
que era uma puta... O cheiro de cerveja que me deixava nauseada, desde
tão pequena odiando toda e qualquer bebida, especialmente cerveja. Meu
pai bebendo cerveja, parte essencial do dia, cervejas no bar da esquina,
no bar da outra esquina, em vários bares. Eu não entrava em bares, Tinha
nojo de quem os freqüentava. Tinha raiva.
As brigas terríveis todos os dias, faca em punho, cabeça rodando,
doendo, doendo. Meus pais gritando, meu pai chamando minha mãe de
frustrada, burra, a mesma ladainha repetida todas as vezes - eu amo você
e as crianças.
As crianças em questão criadas sem carinho, sem beijos, sem abraços,
criadas sem colo e sem ternura, esquecidas em meio à guerra que permeava
nossas vidas. Crianças perdidas, cada qual seguindo seu rumo torto na
vida, diferentes compulsões atrapalhando os caminhos. Mentes confusas,
atarantadas, atormentadas. Cheias de maus pensamentos, de falsas idéias,
de crenças mesquinhas, sentimentos inúteis.
Essa criança em particular, crescendo afastada de todos, sem criar
vínculos verdadeiros, esquecendo cada amigo ao passar dos anos, deixando
para trás toda e qualquer possibilidade da existência de afeto. Sem
querer criar laços, sem querer intimidades, fugindo de beijos e abraços,
sumindo nas festas de fim de ano antes de acabarem, um tchau gritado
para todos ao mesmo tempo. A negação da carência de afeto, a negação da
existência do amor. Para que amar, se tudo acabava em gritos e mágoa ?
Frieza, amargura, timidez. Uma máscara pesada cobrindo tudo, cobrindo os
sentimentos com uma névoa espessa.
Uma briga, outra briga, brigas em todas as noites, em todos os dias, em
todos os momentos. Vida gritada, vozes altercadas. Decepção, tristeza,
muita tristeza, Incerteza do que haveria, do que aconteceria, do que
seria de nós. A insegurança lançando profundas raízes. Uma frase no meio
da noite - vou ligar o gás e morreremos todos juntos. Uma noite inteira
acordada, quantos anos ? Talvez nove, um menino pequeno ao lado, um bebê
amado dormindo tão perto. Uma noite em vigília, tentando sentir o cheiro
malévolo do gás de cozinha. Jamais voltei a dormir. Precisava cuidar dos
pequenos. Precisava cuidar de tudo.
O peso enorme na cabeça, o isolamento nas páginas dos livros.
Maravilhosos livros, tantas portas abertas para o mundo, para vários
mundos, mundos onde se podia ser feliz, mundos onde existia uma
felicidade eterna, onde por mais que houvessem tempestades, tudo dava
certo no final. Era só mergulhar nas aventuras dos mosqueteiros, chorar
por Athos tão angustiado, sonhar com o homem da máscara de ferro preso
no calabouço, tudo tão triste e ao mesmo tempo tão mágico e tão real.
Era só ler e ler e mais ler, viver vidas que não eram minhas. Mergulhar
nos sentimentos de fora, nos sentimentos alheios, esquecendo dos meus.
Uma vida de disfarces, uma vida de máscaras. O sorriso eterno no rosto,
apesar dos olhos tristes. A síndrome da eterna Pollyana lançando suas
bases. O jogo do contente. Sob o signo de gêmeos, para sempre dividida
em duas.

Lágrimas & Cura
Engraçado como as grandes
revelações da vida nos vêm quando menos se espera. O que era para ser
apenas um fim de semana divertido com uma amiga querida transforma-se em
uma grande viagem de descoberta. Descubro a mim mesma em outros olhos.
Reconheço-me em tantas palavras... Histórias diferentes, diferentes
vidas, mas um fio as une. Um elo poderoso que ligou duas vidas que não
se conheciam, e tornou-as tão próximas... Uma amiga em comum, o amor
pelos animais, o instinto a mostrar que confiar é possível.
Lágrimas são derramadas, sofridas lágrimas de dores e mágoas, mas que
rolam como a chuva que lava a alma e deixa transparecer a vida debaixo
do pó. Lágrimas que queimam o rosto, que tocam cada fibra e cada célula,
que sensibilizam e movem o coração em direção a um imenso amor, a
compreensão absoluta.
Olho dentro de outro espírito, e o que vejo me desola, me consola, me
emociona, me transforma e me faz ainda mais capaz de amar. Sinto dentro
de mim cada dor, cada tristeza, com a nitidez com que são sentidas não
por mim, mas pela amiga que tenho em meus braços e que chora. Chora sua
vida, chora tudo o que há para chorar, chora em meus braços segura do
meu entendimento, do meu consolo, do meu amor. Chora sabendo que é amada
e compreendida de qualquer jeito, de qualquer forma, sabendo o quanto é
possível falar de tudo que guarda sem julgamentos, sem críticas, sem
repreensões ou conselhos vazios. Sabe minha amiga o quanto a amarei
incondicionalmente, o quanto beberei cada palavra e cada lágrima.
E em meio a suas palavras, descubro tudo de que sou capaz. Descubro em
mim uma força e uma emoção que transbordam, um amor que apenas ama,
descubro que a despeito do que pensava de mim mesma, sou capaz de
oferecer o colo e o carinho que curam o coração, sou capaz não de
enxugar as lágrimas, mas de ajudá-las a sair todas de uma só vez.
Enxergo que enxugá-las não é a necessidade absoluta que pensava, percebo
que talvez elas existam mesmo para serem derramadas... Percebo em meus
próprios olhos lágrimas, escondidas durante tanto tempo, por tantos
meses sufocadas. Descubro lágrimas que se infiltraram tão fundo que me
tornaram apenas uma imagem da tristeza personificada, uma triste figura
dúbia, que é capaz de sorrir mesmo em pedaços. Descubro que não é
necessário abafa as lágrimas, mas sim permitir que cumpram sua função de
formar rios que se acalmam na mesma proporção em que correm, rios que
vão diminuindo e secando por si só, ao estar esgotada a fonte das
tristezas, ao estar aliviada a alma.
Me percebo capaz de ajudar a curar. Dom tão desejado, tão chorado, tão
pedido aos céus em cada oração. Tamanha é minha vontade de ser agraciada
com este abençoado dom de cura, que me tornei cega para o fato de que
não existe apenas um corpo para se curar. Tornei-me cega para o que está
além do físico, além das fronteiras da matéria. Tornei-me completamente
cega para o poder que existe dentro de cada um. Poder que se manifesta
de diferentes formas, por diferentes canais.
Durante muito tempo, me debati com uma questão que se tornou bastante
dolorosa para mim. Sentia-me incapaz de usar as palavras pessoalmente
tão bem como no papel. Sentia-me totalmente incapaz de provocar
sentimentos, de consolar, de ajudar e acalmar, de expressar em viva voz
o que penso e sinto. Sentia-me impotente, pois não me achava capaz de
oferecer qualquer amparo. Palavras... O poder demolidor e arrebatador
que existe dentro delas sempre foi meu instrumento, no trabalho, nos
estudos, nas mensagens aos amigos. Consciente de que escrevia bem e com
o coração, me tornei no entanto muito magoada comigo mesma por achar que
jamais saberia usar as mesmas palavras em uma conversa ao vivo. Tinha
como certeza absoluta o fato de que era incapaz de dizer qualquer coisa
que prestasse, portanto, media cuidadosamente cada palavra. Media tanto
que as impedia de sairem livres pela garganta.
O fim de semana foi um mergulho profundo, foi uma fonte de reflexão e de
descoberta da minha própria força. Pois descobri que sou capaz de
expressar tudo o que sinto, de dizer tudo o que penso, de ser aquilo que
sempre quis ser - a amiga que conforta e oferece o carinho de seu
abraço, a certeza de seu amor, o calor do seu colo. Descobri que sou
capaz de um amor sem limites, de enxergar de olhos fechados, de ouvir
sem palavras. Sou capaz de vislumbrar tudo de bom e de ruim, tudo de
força e fraqueza, todas as pequenas coisas e os menores detalhes, todas
as particularidades que faz de alguém único, maravilhoso e infinitamente
belo. Descobri que amo as pessoas não pelo que elas possam representar
ou pelo que possam vir a ser, mas apenas pelo que realmente são.
E percebo a verdade que perpassa nas palavras sábias de Albert Einstein,
"Deus não joga dados com o Universo". Nada nem ninguém se encontra pela
vida por acaso. Tudo o que há e todos os encontros fazem parte dos
planos Dele. Todos os caminhos se cruzam seguindo seus desígnios. Todos
temos uma missão. Creio ter encontrado a minha.
Agradeço a Deus por esse fim de semana. Agradeço por cada lágrima e por
cada sorriso. Agradeço por cada palavra e por cada silêncio. Agradeço
por cada abraço e por cada gesto. Agradeço especialmente pela amiga
sensível e doce que ele me confiou durante estes dois dias. Agradeço
pela oportunidade. Senhor... Espero ter correspondido ao que desejavas.

De Alegria e Doação
Doação não significa apenas
dar uma parte daquilo que temos, ou ceder aos mais necessitados algo do
qual muito precisam e que lhes falta.
Doação deve ser uma entrega do que temos de melhor, do que temos de mais
precioso a oferecer. Deve ser um ato de amor que nos faz desapegados até
de nós mesmos.
A doação de tempo, carinho, esforço e afeto, longe de ser uma perda, é
um ganho inestimável. Ganha mais quem doa a si mesmo do que quem se
fecha para as necessidades e carências alheias.
O ato de doar-se a outra pessoa nos faz mais fortes, imbuídos da certeza
de que somos capazes de oferecer amparo. Somos capazes de mudar vidas,
estados de espírito; somos capazes de fazer brilhar uma luz no fim do
túnel.
A cada vez que se doa um bocado de tempo, por mais custoso que seja,
para ouvir um problema, para consolar, para fazer companhia ou
simplesmente oferecer um sorriso, nos tornamos mais próximos do ideal
que Deus propôs para cada ser humano.
Todas as vezes que paramos para doar um bocado de carinho e de afeto,
abrindo nossos braços para abrigar lágrimas, corações partidos e
desilusões, nos fazemos mais humanos, pois somente quem é capaz de dar
amor sem limites e incondicionalmente é capaz de se sentir
verdadeiramente humano.
Sempre que dedicamos nossos esforços em prol de nossos irmãos, sempre
que nos mostramos dispostos a oferecer a bondade de uma palavra, o afago
que alegra a alma e a paz reconfortante de um sorriso, podemos estar
certos de que somos quem mais tem a ganhar.
Nenhum prazer desta terra supera o conquistado através da oferta do que
temos de melhor. Nenhum sentimento é mais precioso que a da
solidariedade. Nada traz tanta felicidade quanto a doação. Nada nos
torna mais belos que o amor.
"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã" ( Renato Russo,
"Pais e Filhos" )
" Ainda que eu falasse a linguagem dos homens e falasse a linguagem dos
anjos, se não tivesse o amor, eu nada seria." ( 1 Coríntios 13 )

Palavras...
Penso hoje em tudo de bom e
belo que a vida tem me trazido. Sei bem que há algum tempo andava
completamente entorpecida pelas más lembranças, pela falta de fé, e pela
expectativa de acontecimentos negativos. Mas hoje acordei com novo
espírito, e rogo a Deus que o mantenha assim.
Recebi mensagem que me encheu o peito de ternura, pelo amor que li em
cada linha. Linda mensagem, tão linda quanto a amiga que me enviou.
Mensagem que me deu ainda mais ânimo e energia, que me levou ainda mais
para cima. Poder estranhamente grande esse, das palavras... Palavras que
bastam para levantar, para encorajar, para aconselhar... Palavras que
dão novos rumos à vida.
Peguei-me pensando qual seria o dom que Deus poderia ter me dado. Sei
que todo ser humano tem seu dom. Pois me parece ser o meu dom o das
palavras, o de mexer com o sentimento alheio, o de trazer esperanças e
alegria, o de consolar e fazer com que as pessoas se sintam amadas...
Tudo isso através das palavras.
Mas tanto quanto eu falo, tanto quanto consolo e animo, preciso ser
consolada, preciso ser animada, preciso sentir-me amada. Preciso ouvir
outras palavras.
E na doçura das palavras... Encontro uma poderosa receita. Receita
testada por muitas e muitas semanas...
Os Poderes Terapêuticos da Pizza
É incrível como algo tão simples provoca um efeito tão benéfico para a
saúde física e mental.
Aqueles pedacinhos de queijo derretidos espalhados sobre um disco de
massa fofa podem fazer você dormir feliz uma noite inteira e sentir um
passarinho cantando dentro do peito.
Ir a uma pizzaria após o expediente, mais do que uma happy hour, é uma
experiência que dá vontade de repetir sempre mais e mais vezes.
Os efeitos tranqüilizadores e animadores da pizza podem ser sentidos
muito antes dela chegar até a boca.
No caminho mesmo você já vai se transformando, os olhos brilhando,
renovando a alegria de se sentir viva.
E pelo caminho até a pizzaria, você se dá conta de que os nós que
existem dentro da sua cabeça até que não são tão impossíveis de desatar.
Com a pizza na mão, você alimenta não só seu estômago, mas também sua
alma. Um com o queijo e a massa da pizza; a outra com palavras e risos.
É fascinante perceber que a cada mordida, ao invés de se sentir mais
pesada, você se sente mais leve.
E mesmo quando a pizza finalmente acaba, a presença dela continua no ar
durante toda a semana.
São os poderes terapêuticos da pizza.
É uma receita que todos deveriam experimentar.
MAS ATENÇÃO !!!
Nada disso funciona sem o ingrediente principal:
Uma grande AMIGA.

Os Que Esperam
"Mas os que esperam no
Senhor, estes renovarão as suas forças"
Após o torvelinho desvairado em que mergulhei, e tenho andado
mergulhada, na fúria que me consumiu nos últimos dias, apodera-se de mim
estranha calma, plantada em meu peito como uma erva estranha que nasce
insensata e inesperada em um terreno cultivado.
Nos últimos dias, cultivei em mim apenas maus pensamentos, desilusão,
rancor, tristeza, apenas fantasmas que me puxam para o fundo, apenas
espectros que me acorrentam à negatividade, ao pessimismo, à falta de
esperança.
Mergulhada tão fundo em todo esse lodo, fechei meus olhos a tudo de
bonito e bom que a vida me traz a cada dia. Fechei meus ouvidos às
palavras meigas das amigas, fechei meus olhos para a beleza das cores
trazidas pelo sol, fechei meus sentidos para o perfume delicado que
pairava sobre a rosa que ganhei, linda e inesperada rosa, que deveria
ter me trazido alegrias e sentimentos de amor, mas me trouxe pouco mais
que nada, pelo desespero em que me encontrava.
Mas tão grande é ainda a minha sorte, que meus dedos em pânico e
desespero procuraram incessantemente um consolo entre as páginas de um
livro... E lá, logo ao abri-lo, deparei-me com estas palavras:
"Mas os que esperam no Senhor, estes renovarão as suas forças. Subirão
com asas, tal como águias. Correrão e não se cansarão jamais; caminharão
e não se fatigarão."
É uma citação do livro do profeta Isaías... Se Ele não estava
pretendendo mandar assim o seu recado, não sei o que mais pretenderia...

O Fio da Espada
O fio da espada talvez tenha
sido o marco que daria novo impulso à sua vida.
A espada pertencia não a algum charmoso cavaleiro antigo, não, antes
fosse. Era uma espada ainda mais pesada. A espada invisível que parece
pairar vez por outra em nossas vidas e torna-se um divisor de águas. Há
momentos em que velhos clichês se fazem verdadeiros. O mundo cai, um véu
se rasga em dois. E de repente estamos expostos em toda a nossa
fragilidade.
Siallon sentia-se como alguém completamente despido em meio a uma
multidão. A confusão tomava conta de seu espírito, e se avolumava a
sombra das incertezas. O que aconteceria agora ? Qual seria o rumo a
tomar ? O que seria feito de sua vida ? Siallon não sabia. Não poderia
saber jamais. Nesses momentos de cisão, pouco sabemos além da certeza de
que nada poderemos saber.
Lembrava ainda da última vez em que havia estado com Kundalar.
Lembrava-se de suas palavras carregadas de sentimento, lembrava-se
claramente de seu rosto, por onde passavam tantos pensamentos distintos,
que se transformavam em marcas visíveis. Lembrava-se do calor, dos
sorrisos. Lembrava-se de cada gesto com uma dolorosa nitidez.
Não saberia explicar o que havia acontecido. Onde teria se quebrado o
elo que os unia ? Onde teriam arrebentado os laços que os tornavam
partes de um mesmo ser ? Onde teria ido parar aquela conexão tão
profunda, onde se rompeu a fusão de duas mentes tão parecidas ?
Siallon sentia-se sem chão. O fio da espada pendia sobre sua cabeça. O
mundo dividia-se em antes e depois de Kundalar. O antes era repleto de
vida. O depois... Não sabia. O que o esperava além da curva do caminho ?
Não podia prever. Mas esperava que fossem momentos tão memoráveis quanto
os que já havia vivido.

Demolições
Incrível como uma coisa tão
simples como o ato de ler um livro possa ser capaz de mudar tantas
coisas.
Os últimos dias têm sido de muita reflexão.
Reflexão, lágrimas, revoluções interiores.
O livro, aparentemente inofensivo, está trazendo grandes mudanças.
Está me mostrando a outra volta do parafuso, o que se esconde por trás
de muitas das minhas atitudes.
E como é difícil passar por essas demolições... Não tem sido fácil.
Tenho uma colega aqui no trabalho que gosta de fazer massagens, e ela me
disse hoje que fica espantada quanto toca no meus ombros e percebe o
quanto é falsa a calma que aparento.
E é verdade, por dentro está tudo em ebulição.
Às vezes não consigo dar conta de tantos pensamentos desencontrados.
É nada e tanta coisa aO mesmo tempo.
É um sentimento ansioso de querer prever o futuro, e de querer mudá-lo.
É um sentir-se presa na teia da vida, nas mãos de algum deus maluco que
rege os destinos.
É uma sensação de impotência e pequenez diante de tudo o que eu não
consigo mudar.
É a angústia de querer viver tudo ao mesmo tempo, e de querer fazer tudo
diferente, porque tudo pode acabar tão de repente.
É a dor de não poder fazer diferente, de não poder esticar o número de
horas dos dias.
É a alegria ao estar junto de quem eu amo, é querer rir feito louca sem
motivo.
É a felicidade de alguns momentos que brilham como estrelas iluminando
um céu escuro.
É o amor enorme, constante e silencioso que sinto pulsando dentro de
mim.
É um duvidar permanente de todas as certezas, e ao mesmo tempo saber que
existem verdades inexoráveis.
É a constatação de que as coisas são como devem ser, e que a vida segue
em frente mesmo a gente esperneando, mas, ao mesmo tempo, é a não
aceitação dessa constatação.
É uma ampliação vertiginosa dos pensamentos, janelas que se abrem novas
a cada novo dia.
É perceber o quanto tudo no mundo está tão errado desde sempre, e querer
mudar tudo, mas não saber por onde começar.
É estar mais atenta a tudo o que é dito, é conseguir ler as pessoas nas
entrelinhas e enxergar o perigo e o veneno que se esconde por trás de
comentários aparentemente inocentes.
É se decepcionar com muita gente insuspeita, é descobrir que as pessoas
são tremendamente falhas, e, mesmo assim, continuar gostando delas.
É cada vez mais não querer ter definições nem etiquetas, e detestar os
rotuladores de emoções, pessoas e atitudes.
É começar a ver a vida não como uma estrada em linha reta, mas como um
grande caminho cheio de curvas, às vezes interrompido, às vezes
tortuoso, mas quase sempre desembocando na mesma velha poeira.
É saber que não sou apenas uma passageira nesse barco, mas quem sabe o
próprio barco...

As Vinhas da Ira
Se há um pecado favorito, um
que mais cometo, dentre tantos, a cada dia... Inevitavelmente só consigo
pensar na ira.
Ira que me acomete com a mesma facilidade do embevecimento do amor.
Ira que me cerra os olhos e me tranca o coração.
Ira que envenena e cega para qualquer outra coisa.
A ira torna-me uma fúria descontrolada, um ser desprovido de bom senso.
A ira corrói profundamente, em pouco tempo, tudo o que tenho de bom.
As paixões que me movem são todas intensas.
Amo demais, me entrego demais, vivo demais.
Tudo é muito intenso e apaixonado, todos os sentimentos à flor da pele.
A ira, obviamente, não poderia ser exceção.
São tantos os motivos que podem acender essa chama, tantas as pequeninas
fagulhas que detonam essa implosão.
Pode ser contrariedade, desânimo, pode ser a raiva de constatar que
mesmo sendo um ser aparentemente livre tenho ainda assim obrigações a
cumprir.
E então, uma nuvem negra se abate sobre mim, e sinto-me aprisionada e
cega, destemperada, uma bomba prestes a explodir em cima do primeiro que
aparecer.
Tudo isso seria extremamente desagradável, é lógico... Mas o fato é que,
por mais que a ira cresça e tome força, ela jamais se expande para fora
dos limites do meu corpo.
A ira não atravessa minhas palavras; não faz de minha boca seu
instrumento.
A ira mesmo, fervente, tempestuosa, não sai de dentro de mim, não jorra
sua torrente de destruição sobre qualquer outro ser que não eu mesma.
Poder-se-ia dizer que tudo isso é muito bom, um prodígio de
auto-controle, um triunfo da bondade e da abnegação...
Mas não... A ira contida se expande em detonações internas, em
tempestades de pensamentos negativos, de ódios e rancores.
A ira está contida pelo orgulho. Pelo não querer dar o braço a torcer,
pela não aceitação de que sou humana, sujeita à fúria das paixões
humanas.
A ira está contida pela culpa antecipada de causar qualquer dano.
A ira está contida em si mesma, aprisionada como a lava no subsolo da
terra.
O grande medo é saber que todos os rios de lava que percorrem o subsolo
um dia se transformam em vulcões.
Quando se abrirá a cratera que permitirá a essa torrente de ira subir à
tona e causar estragos ?
Qual será o estopim que abrirá uma ferida tão grande que permita à ira
se manifestar sem freios ?
Temo em pensar. Temo pelo dia em que vai acontecer.

Da Impossibilidade do Afeto
Quinta corrente.
Uma algema aprisionando os sentimentos dentro do peito, sem
permitir-lhes nenhuma saída.
A corrente opressora da falta de afeto.
A impossibilidade de demonstrar carinho por outro ser humano, qualquer
que ele seja.
Foi uma das barreiras mais intransponíveis, que me acompanhou em boa
parte da vida.
Certamente que ninguém nasce assim.
A sociedade nos faz assim, incapazes de demonstrar o que sentimos.
Nossos pais nos fazem assim, nossa criação nos fazem assim, as amizades,
amores, decepções e julgamentos nos fazem assim.
A vida desde cedo é recheada de ¿não podes¿. Não pode isso, não pode
aquilo, nada pode.
Ou melhor, talvez possa, mas o medo dentro da gente toma tais proporções
que nos impede completamente de ousar.
É permitido conviver com meninas. É permitido que você tenha amigas. É
permitido que troquem confidências, sussurros, mas jamais devem ser
tocadas. Jamais, pena de banimento total.
É permitido que você conviva com meninos, mas não confie neles, não dê
confiança, porque eles só querem te arrastar para algum canto escuro e
fazer todas aquelas coisas que você ainda nem tem idade para saber quais
são, mas certamente devem ser terríveis.
É permitido que você saia na rua depois de certa idade, mas pelo amor de
Deus volte logo, o mundo é um perigo, você pode morrer a cada esquina.
Não confie em ninguém.
É permitido que você seja a menininha do papai, a princesinha, mas só
até crescer. Ou você não sabe que uma mocinha não pode ficar dando beijo
no pai ? Homem é homem !!!
É permitido que se viva a vida.
Mas que se viva pela metade.
Que se viva sempre com medo, sempre com receio de estar infringindo
regras imemoriais, com verdadeiro terror de estar se tornando um ser de
comportamento indesejado.
O toque, o beijo, o abraço, não são permitidos salvo em ocasiões
especiais, como aniversários, casamentos e etc, ou entre namorados.
Mesmo assim, oras, tenha compostura !!! Que história é essa de ficar se
agarrando em público ? Que indecência...
Lógico que não falo aqui de todas as histórias. Falo da minha história,
que é certamente a história de outras tantas pessoas.
História dos meninos a quem o pai jamais permitiu um choro sem críticas.
História de todos os que não conseguem consolar um amigo que chora
simplesmente porque não consegue se aproximar.
História de quem não consegue expressar o que sente, por mais que tente.
Há coisas que ficam para sempre dentro de nós.
E mesmo fatos aparentemente insignificantes podem provocar esse
sentimento de que demonstrar afeto é inadequado.
Talvez quem me conheça hoje desconheça essa batalha interna.
Talvez jamais possa imaginar que há não muito tempo atrás eu era aquela
que saía antes de acabarem as comemorações de fim de ano porque me
repugnava a idéia de sair distribuindo beijos e abraços.
Talvez não acreditassem se me vissem naquela época, ostentando minha
frieza e minha indiferença como se fosse algo para se orgulhar.
Talvez se espante ao saber que antes do ano passado e da corrente ser
quebrada, eu só havia dito ¿eu te amo¿ a uma única pessoa, justamente a
que demonstrou menos merecer tamanho sentimento.

A Enganosa Onipotência
Quarta corrente.
Uma das mais pesada.
A corrente da onipotência diante da vida e da morte, diante do drama que
se desenrola diante de nossos olhos, e sobre o qual não temos o menor
controle.
Desde muito cedo as pessoas são levadas a pensar que são um pouco
deuses, que tudo podem, desde que queiram com vontade, desde que lutem
para conseguir.
Vem das próprias escrituras essa noção, afinal, é lá que está escrito
que fomos feitos por Deus à sua imagem e semelhança.
Talvez por isso seja tão terrível e avassalador o sentimento de que
existem muitas coisas diantes das quais pouco ou nada podemos fazer.
Talvez venha daí a dificuldade enorme em aceitar a morte, de aceitar que
tudo que começa um dia tenha um fim.
Talvez por isso nos culpemos tanto por tudo, e sempre tenhamos aquela
impressão de que poderia ter sido diferente, "se"...
A existência do "se" nos traz de volta, paradoxalmente, a tranqüilidade,
pois, mesmo nos culpando por não termos agido da forma que teria dado
certo, ainda assim reafirma que o controle sobre os fatos é possível.
Tudo isso é ilusório.
Não há como controlar o fluxo de acontecimentos que se sucedem, às vezes
de forma positiva, às vezes catastrófica.
Não há como controlar o imprevisto, o desastre, o acidental, o que não
deu certo.
Não há como manter seguras as rédeas da vida...
Mas talvez também seja um engano essa visão da vida como um cavalo
chucro que devemos tentar manter sob controle, custe o que custar.
Talvez a vida seja muito mais como uma montanha-russa, na qual você
embarca disposto a enfrentar tudo o que encontrar.
Talvez a vida se assemelhe não a um barco que se navega, mas ao próprio
rio onde se navega.
E, se a vida for como um rio, está sujeita a momentos de cheia e de
estiagem, está sujeita a oscilações em suas águas, está sujeita ao
tempo, as intempéries, à inclemência do sol e da chuva.
Está sujeita a curvar-se ao inesperado, a tornar-se caudalosa e fértil
ou estéril e destituída de sentido.
Não devemos achar, contudo, que este rio deve ser apenas desfrutado e
devemos nos deixar levar por seu fluxo, seja ele qual for.
É necessário lutar contra a correnteza se ela se mostrar desfavorável, e
estiver nos afastando do nosso destino.
É necessário não se tornar um tronco de árvore que flutua ao sabor das
águas, mas sim um peixe valente que sobrevive seja em que água for.
O fato de sabermos que não somos onipotentes não nos torna impotentes.
Apenas nos torna humildes e capazes de reconhecer nossos limites,
reconhecer quando avançar e quando retroceder, e até onde podemos ir sem
nos machucar.
É preciso conhecer o fluxo e o refluxo da maré, para saber como agir da
forma que menos traga dor.
Como agir de forma a passar pelas águas molhados, sim, mas sem nos
afogarmos nelas.

O Elogio da Loucura
Será loucura aquilo que se
mostra dissonante,
Rebelde, livre e sem condenações interiores ?
Será loucura querer voar, querer ir além, querer ser mais
Do que a simples miragem enevoada que esconde
Tudo aquilo que se passa no mais profundo do espírito ?
Será loucura ousar, quebrar as regras, destituir de seu trono imutável
Todas as comodidades e convenções que norteiam a vida ?
Ah, se louco é aquele que se diferencia do mar sempre igual de rostos,
Se louco é aquele que se faz original e não se importa em apenas ser,
Louca eu também hei de querer ser.
Hoje me pego pensando no quanto a noção de normalidade é equivocada.
No quanto é uma noção injusta, e baseada tão somente em pontos de vista,
em enfoques pessoais, em visões particulares de mundo.
De perto ninguém é normal, nos diz Caetano.
E é uma verdade mais que cristalina.
É mais que claro que a maior das loucuras é se achar um ser
completamente normal.
Ah, pobre daquele que se acha dono de todas as certezas e condena o
outro baseado tão somente no que pensa, sente, ou julga ser melhor e
mais adequado.
Pobre daquele que se julga tão são quanto se percebe como a melhor e
mais perfeita criatura do mundo, e não admite suas falhas, atos falhos e
omissões.
Pobre de quem entende os atos e sonhos, e idéias e vislumbres alheios
como falhas, defeitos, deméritos, loucura...
Pobre, pois encontra-se tão amparado em sua visão, tão cego às suas
imperfeições, tão crente em sua tranqüila normalidade, que jamais
perceberá crescer em seu íntimo o abismo a se formar.
Abismo que se tornará armadilha certa para, ao primeiro sinal de
discordância, nele despencar e perder-se para sempre, na confusão de
pensamentos e emoções na qual se verá envolto.

A Frágil Teia das Verdades
Absolutas
A terceira corrente a ser
quebrada foi a corrente das idéias certeiras, das verdades absolutas,
das certezas consolidadas.
Batalha difícil essa...
Complicado mexer em time que está ganhando.
Esse é um dos conceitos mais difundidos do mundo.
Impossível não temer a mudança.
Impossível evitar de pensar se não seria melhor tudo permanecer como
está, se não seria melhor deixar quieto...
A gente vai colecionando certezas ao longo da vida.
Certezas sobre quem se é.
Certezas quanto ao que é certo ou errado.
Certezas sobre o que é ou não normal, o que é ou não aceitável, o que é
ou não tolerável...
Certezas que vão se consolidando e enrijecendo de tal forma que, de
simples conceitos que são, passam ao status definitivo de verdades
absolutas.
Porém nos esquecemos de que nenhuma verdade é absoluta, nem conceito é
definitivo, nenhuma idéia consegue se manter imutável no correr do
tempo...
É preciso sempre revisar o que se pensa, o que se sente, é preciso
renovar o pensamento e arejar o porão onde guardamos nossas certezas,
porque, se não o fizermos, corremos o risco de nos transformarmos em
pessoas mofadas, em completo desuso.
Pior que isso, corremos o risco de jamais podermos contemplar a beleza
de um novo olhar.
Olhar o mundo com outros olhos, debruçar-se sobre a vida, mergulhar nas
paixões que movem o corpo e o espírito, afundar-se em divagações,
reflexões...
Tudo isso é necessário, tudo isso é imprescindível para que possamos
verdadeiramente existir.
Se permanecermos atrelados aos conceitos com os quais fomos criados, se
permanecermos atados à visão comum, ao bom senso, aos bons costumes, ao
pensamento cristão ortodoxo, que nos diz que tudo é pecado, inclusive a
vida, não conseguiremos jamais enxergar a enorme beleza do universo.
Universo que se expande em todos os sentidos. Universo cósmico, sim, mas
o universo humano acima de tudo.
É preciso realizar uma viagem ao fundo de nós mesmos, uma viagem sem
compromissos e críticas ao fundo de nossos companheiros de jornada ¿
amigos, parentes, conhecidos, ou simplesmente os rostos desconhecidos
dos noticiários de TV.
Não importa.
Importa apenas a viagem, a travessia, o conhecer.
Reconhecer a si mesmo no outro, reconhecer nossa própria feição em seus
traços.
Reconhecer a humanidade que nos une e nos faz a todos peças da mesma
grande engrenagem.

A Onda Pegajosa do Desânimo
Segunda corrente.
Lutar contra o desânimo.
Muitas vezes essa onda pegajosa me prendeu, tolhendo que acontecessem
muitas pequenas maravilhas.
Mas já faz algum tempo que aprendi a contorná-la e a deixar de lado os
sentimentos negativos que só nos levam para baixo.
Aprendi demais no ano que passou.
Aprendi que a vida merece ser celebrada a cada segundo.
Aprendi que a gente deve dizer aos que amamos sempre e cada vez mais o
quanto são importantes.
Aprendi que mesmo o pouco que podemos fazer por alguém pode ser muito.
Aprendi que secar as lágrimas de uma amiga que chora pode ser mais
precioso que qualquer tesouro.
Aprendi que fazer brotar um sorriso da dor e do pranto é de um valor
inestimável.
Faz o coração dar pulos e as lágrimas correrem de alegria.
Descobri que quanto mais minutos de atenção que você doa, mais tem para
doar.
Descobri que madrugadas no icq podem ser mais poderosas que muitos anos
de terapia.
Descobri que a verdade às vezes dói, mas que é sempre melhor encará-la
de frente do que se iludir.
Descobri que nem sempre podemos tudo, e que infelizmente não somos Deus.
Descobri que, mesmo sem ser Deus, temos parte de sua chama, e podemos
dividir as tristezas, alegrar o espírito, estar ao lado, amparar,
apoiar, trazer o sentimento de que não se está só.
Descobri que o amor é o sentimento mais poderoso, que cruza qualquer
distãncia e é capaz de sobreviver a tudo.
Descobri que tenho amigas verdadeiras.
Descobri que as amigas mais caras que tenho são muito mais que irmãs.

Síndrome de Heroína
Por muito tempo em minha
vida ( desde sempre, eu diria ), eu desejei ser algo mais no mundo, como
uma luz que brilhasse forte, como um lampejo salvador que se faz
presente frente a uma situação de risco, como um pássaro que consegue
com seu vôo rápido alcançar o abrigo antes da chuva, como uma nuvem que
passa deslumbrante no céu, levando embora consigo a poeira que embota os
dias.
Desejei ser maior e mais forte. Desejei ter o poder da fala fácil, o dom
de escolher as palavras com precisão.
Desejei poder ser uma força da natureza, um rio que se renova e traz a
vida sempre renascida.
Desejei, em minha infinita ignorância da vida, ser mais do que na
verdade eu era. Desejei ser uma heroína.
Não sei dizer bem quando esses sentimentos e desejos começaram a brotar
dentro de mim.
Não sei precisar o exato momento em que surgiu em mim a primeira vontade
de ser esse algo mais que faria diferença no arrastar sempre igual dos
dias.
Talvez tenha sido ao ver o pequeno pombo ser atropelado na minha frente,
aos cinco anos.
Talvez tenha sido ao ouvir minha mãe dizer que ia ligar o gás durante a
noite para que morressemos todos, aos nove.
Talvez tenha sido ao perder minha melhor e então única amiga, aos dez.
Talvez tenha sido ao saber da irmã que tive e que se foi tão pequena.
Talvez tenha sido ao saber da história trágica de meu avô, que se lançou
nos braços da morte em plena véspera de Natal.
Talvez tenha sido ao ver o choro por dias a fio de minha mãe traída.
Talvez tenha sido no dia em que minha irmã adoeceu e eu desejei ser Deus
para curá-la.
Não sei. Não sei dizer ao certo. Só sei que um belo dia o desejo de ser
mais brotou, e desde então só fez crescer e lançar raízes.
Não sei se surgiu da carência. Talvez. Talvez tenha surgido simplesmente
da raiva, e da recusa em aceitar a inevitabilidade do destino.
Lembro-me de Cazuza cantando "eu vi a cara da morte e ela estava viva".
Eu nunca quis que ela, a tenebrosa morte, ganhasse nenhuma batalha.
Assim como nunca quis que a dor ganhasse, porque a dor é um pequeno
pedaço de morte dentro da vida da gente.
Cresci assim, com esse desejo sempre vivo. Cresci com essa vontade de
dar um soco bem dado na cara de todas as tristezas. Com uma vontade
doida de encher de chutes todas as maldades, as injustiças e as dores
que houvessem por perto.
Cresci querendo ser a heroína.
Enquanto as mocinhas suspiravam pelo Capitão Rodrigo, em "O Tempo e o
Vento", o garboso cavaleiro no cavalo branco, o salvador... Eu queria
apenas poder ser Ana Terra, salvando o índio ferido e solitário de
dentro do riacho.
Eu pensava na saga dos três mosqueteiros, e sonhava com Athos sempre tão
triste e tão magoado. Sonhava em encontrá-lo e poder curá-lo.
Me tornei professora porque gostava. Mas desde o primeiro dia, lá estava
eu ao lado dos que mais precisavam ser salvos. Pela minha carência ? Não
sei... Ela poderia ser resolvida com qualquer outra criança. Mas eu só
pensava nos que precisavam ser "salvos", e isso se tornou cada vez mais
marcante em mim.
Em nenhum momento eu quis ser santa, anjo ou nada parecido. Em nenhum
momento desejei ser uma Madre Teresa.
Eu apenas tinha uma imensa raiva da dor, e não queria que ela ganhasse a
batalha. Não queria me render a ela, não queria dar o braço a torcer. A
teimosia sempre foi um traço forte do meu caráter.
O fato de não me dobrar à vontade de ninguém, também. A única coisa que
me fazia agir diferente era a necessidade de salvar.
E salvar incluía dar apoio, dar carinho, dar amor. Incluía estar sempre
perto, sempre constante. incluía ouvir e aconselhar. Salvar era a única
coisa que importava. Era um maldito desejo de onipotência. Era querer
ser Deus e dar um soco na cara da morte, de todas as pequenas mortes por
quais passamos durante a vida.
Não desejava salvar as pessoas apenas por elas. Acho que desejava também
por mim. Pela minha recusa em aceitar a rendição. Pela minha recusa em
aceitar que não era onipotente. Pela minha teimosia de achar que minha
vontade teria que ser soberana. Pelo meu egoísmo, por assim dizer.
Esse desejo ardente permeou toda a minha vida, e foi o fator que mais
contribuiu para o fracasso do único e grande amor da minha vida.
Não me eximo de culpa no fim desastroso desse amor. Sei que não fui a
única culpada, mas a gente deve aprender a enxergar os próprios erros, e
eu errei ao ver no homem que amei a soma gloriosa de todos os
salvamentos possíveis.
Eu quis torná-lo melhor. Eu quis deixá-lo bem novamente com a vida.
Eu quis devolver tudo o que havia perdido. Eu quis salvá-lo das crises
de depressão, dos acessos incontidos de choro, da baixa auto estima, do
preconceito, da injustiça, da falta de grana, da infelicidade, quis
salvá-lo de tudo que pudesse remotamente um dia lhe causar algum tipo de
dor.
E com isso me tornei exatamente o que ele não precisava. Me tornei não
mais uma mulher, mas uma mãe.
E a mãe mais paciente, amorosa e compreensiva que jamais havia existido.
Me tornei a mão sempre estendida, mesmo que não encontrasse uma mão que
se estendesse de volta.
Me tornei alguém que dava sempre, que dava muito, que dava tudo, mas que
nunca exigia algo em troca.
Me esqueci completamente que a vida é feita de trocas. Me esqueci de
mim.
Mergulhada nos problemas dele, eu não enxergava os meus. Melhor dizendo,
não achava que existiam. Era muito melhor não vê-los, nem acreditar na
sua existência. Eu era feliz, acreditava. E bastava.
Ao terminar o que foi meu grande amor, e ao terminar da pior forma
possível, eu mergulhei no inferno. Nada mais importava, nada mais havia
de bom. Nem no mundo nem nas pessoas. Eu não acreditava nas pessoas. Eu
não acreditava em Deus nem em justiça. Eu me meti nas trevas e fiquei
sentada na escuridão do quarto dias a fio, sem pensar em nada além da
minha desgraça. Eu não queria mais acreditar. Eu não podia mais confiar.
Eu me sentia morta. Mas ao mesmo tempo ansiava pela vida. Ansiava por
ter de volta as sensações de antes, ansiava por poder amar, por poder
lutar, por poder viver. Eu olhava para minha mãe e não sentia nada.
Olhava para meu irmão e não sentia nada. Olhava para amigas de muitos
anos e não sentia nada. Eu não me sentia morta apenas. Eu estava
verdadeiramente morta. Não sentia nada quando via o noticiário na tv.
Não sentia nada ao ver alguém chorar. Não sentia absolutamente nada. Era
como um deserto árido. Mas um deserto que um dia havia sido um jardim, e
então eu me culpava por ter me tornado assim.
Eu queria poder ter coragem para mudar as coisas.
Eu queria ter coragem para poder mudar as coisas que eu via acontecerem
erradas. Queria ter coragem de parar a mão que via agredindo, queria ter
coragem de falar aquela palavra entalada na garganta.
Queria ter coragem de ousar, de lutar pelo que acreditava.
Mas sempre fui muito covarde. Sempre fui tomada por um medo imenso.
Medo de dizer o que eu pensava e afastar as pessoas de mim, medo de me
expor e afugentá-las, medo de mostrar minha raiva por ser um sentimento
maligno, medo de descobrir que eu não cabia no molde que havia traçado
para mim.
Medo de enxergar que agia como uma Pollyanna louca, como uma maquiadora
destrambelhada, que transformava ruínas em castelos, e farrapos em seda.
Medo de ver que eu tinha também os meus próprios problemas. Medo de ver
que eu era humana também.
Medo principalmente, e tremendo, de descobrir um dia que eu não passava
de uma pessoa tremendamente mesquinha, tremendamente egoísta,
tremendamente infeliz.

Paralisante Medo
A primeira corrente.
A primeira barreira a vencer.
Talvez tenha sido a do medo.
Medo que sempre esteve presente, desde que comecei a pensar.
Medo que tolhia cada movimento, que travava as palavras na garganta,
medo que me impedia de viver.
Porque sentir tanto medo ? Não sei explicar.
Talvez eu não quisesse errar.
Talvez eu achasse que se mostrasse o que eu pensava e sentia, e isso
fosse errado ou ofensivo, as pessoas se magoariam e se afastariam de
mim. Não sei ao certo. Talvez eu quisesse ter mais coragem, ser mais
ousada, mas tinha medo.
Era um medo tão enorme e sufocante que não me deixava sair. Medo de não
voltar. Medo que me acontecesse alguma coisa ruim na rua.
Medo grande que não deixava que eu me aproximasse das pessoas, muito
menos daquele menino bonito que eu tanto amava. Medo da rejeição.
Medo que não permitia que eu levantasse a voz para responder aquela
pergunta do professor, embora eu tivesse certeza da resposta. Medo de
errar e ser ridicularizada.
Medo que me travava a língua, e me fazia engolir a resposta a algum
comentário desaforado. Medo do descontrole que a raiva gerava em mim.
Medo gigante de agir, mesmo quando via que as pessoas eram injustas e
cruéis umas com as outras. Medo de defender e apanhar também.
Medo de tantas coisas. Medo de enfrentar o mundo, de encarar a vida, de
mudar de rumo.
O que teria sido se o medo tivesse sido maior que tudo ?

Duas Vilas
Existia em verdade um
povo, esquecido entre as montanhas, que vivia como se na vida nada
houvesse além de sonhos e encantamento.
Vivia este povo em uma
idade dourada, um tempo esquecido nas brumas, um instante cristalizado
no tempo.
Era quase um Eldorado,
um perpétuo amanhecer presente em cada sorriso amigo, em cada abraço
fraterno, em cada pequenino gesto de bondade e amor.
Vivia este povo cercado
pela cálida certeza dos bem aventurados, dos amados, dos benquistos;
acostumados que estavam a serem sempre como irmãos,
permaneciam seguros no
seio da pequena comunidade, sem jamais quererem saber o que se passava
no mundo além das montanhas.
Eis que, um dia, em
meio à calma dourada dos dias, surgiu em meio à vila um estranho ser, um
homem coberto com um manto esfarrapado, sujo, trajando palavras amargas
que o cobriam como um espectro imundo.
O estranho não era
amável, nem mesmo generoso como os demais. Não existia nele nenhum traço
de bondade ou amor, não havia em seu rosto a menor sombra de um sorriso.
Apenas os grandes
sulcos deixados pela mágoa e pelo tempo existiam em sua face. Em seus
olhos, mudos como a floresta incendiada, apenas os vestígios da
desolação.
Entretanto, o povo
bondoso que habitava a aldeia, acostumado que estava a aceitar seus
semelhantes e amá-los como a si próprios, imediatamente o acolheu em seu
seio, e mesmo com seu aspecto desagradável e inóspito, começou a
acariciá-lo com palavras gentis, a encher seus ouvidos com a música dos
sorrisos, a instilar em seu espírito a humanidade.
Em pouco tempo, o
homem deixou-se conquistar pelo amor de seus pares, e transformou-se em
um grande líder, que muitos progressos trouxe à vida da pequena vila.
Existia em verdade um
outro povo, também isolado entre as montanhas, que vivia em meio à
tormenta, como se mergulhado em perpétuo pesadelo.
Este povo habitava uma
vila desolada, cercada de ruínas, onde imperavam o medo e a traição; era
o inferno na terra, um território onde não se respeitava ninguém. Pais
matavam seus filhos, filhos matavam seus pais; a maldade se infiltrava
como lodo em cada coração.
Cada dia era marcado
por novas indignidades, e a desesperança era uma constante, levando os
habitantes da vila a se enfurnarem em suas casas, trancados à sete
chaves, temendo até a própria sombra.
Em cada esquina
escondia-se um algoz. Nunca se sabia em quem confiar.
Eis que um dia, em
meio ao conflito reinante, surgiu em meio à vila um estranho ser,
trazendo no rosto um sorriso e a paz plantada fundo no peito.
O homem era cercado
por uma aura luminosa, pela segurança que irradiava, e pela luz do amor
que transmitia a cada palavra.
O estranho não era
insensível nem desagradável como os demais. Não existia nele nenhuma
mágoa, nenhum rancor, sequer o menor rastro de ódio.
Em seus olhos brilhava
a chama das certezas plenas, a luminosidade do arco-íris após a chuva.
Entretanto, a vida de
crimes e violência daquela vila terminou por minar sua confiança e foi
transformando-se lentamente para pior, adequando-se, por fim, ao
comportamento vigente, passando a viver mergulhado nas trevas.
Em pouco tempo, estava
transmutado em um vago fantasma do homem que fora, vindo a morrer de
puro desgosto.
* * *
As pessoas
constantemente se transformam na imagem que projetamos delas.
Se alguém convive com
amor, é tratado com respeito e recebe sorriso e gestos de carinho,
tenderá a se tornar semelhante aqueles com os quais convive.
Ouvindo como é
importante, tendo suas qualidades reconhecidas e apreciadas e recebendo
elogios a cada acerto, é altamente provável que venha a ser tudo aquilo
que acreditamos que seja.
O fortalecimento da
auto estima e a generosidade são capazes de transformar mesmo espectros
em pessoas de verdade.
Se, ao invés disso,
tratarmos com rudeza e desrespeito aos que nos cercam, desestimulando o
carinho e o amor, desprezando suas atitudes, tecendo críticas sobre
críticas, sem jamais tentarmos compreender nem aceitar aquilo que trazem
de diferente de nós, faremos morrer aos poucos tudo o que tiverem a nos
oferecer, terminando por transformar a vida em morte, o amor em ódio, o
doce em fel.

O Dom da Rosa
O dom de cada rosa é
se transformar inteira em uma explosão de perfumes.
O dom de cada rosa é se suplantar a cada pétala desabrochada, a cada
novo raio de cor, a cada veio empergaminhado e macio.
O dom de cada rosa é se constituir inteira de lembranças suaves, de
duradouros beijos, de encantadoras cores.
O dom de cada rosa é se infiltrar no espírito de todos os que a seguram,
mesmo que somente por um instante.
O dom de cada rosa é trazer a vida, renovar o ânimo, fazer retornar aos
rostos cansados a pura alegria de um sorriso.
O dom de cada rosa é ser única mesmo em um imenso mar de rosas, mesmo
sendo cada rosa cópia exata da primeira.
O dom de cada rosa é se fazer toda ela mesma, rainha absoluta, com plena
consciência de sua maravilhosa constituição de rosa.

O Mar Em Uma Caneca
Um dia, Anya olhou
para o mar e viu-se repentinamente tomada de um grande temor diante de
sua imensidão.
Desanimava pensar na tarefa árdua que a aguardava. Desanimava pensar que
o esforço poderia resultar inútil.
Com paciência e tentando se sentir confiante, segurou com força sua
caneca de louça e entrou em meio às ondas, para iniciar sua missão.
Começou a encher a caneca com a água do oceano e, atravessando as
pequenas ondas que brincavam na orla, seguia até a areia quente, onde a
esperava um pequeno balde. A cada vez que o balde se enchia, Anya o
levava até o reservatório de água, e de lá deixava que o líquido
precioso escoasse para cada casa da vila.
Muitas vezes desanimava, e pensava em desistir. Muitas vezes se
entristecia, quando a caneca levava um tranco mais forte das ondas e
derramava toda a água. Muitas vezes chorava quando via o tamanho do
esforço que a aguardava, o enorme tamanho do mar.
Mas Anya era persistente, e seguia em frente sempre, por mais que o mau
tempo tentasse dobrá-la, por mais que o vento soprasse em direção
contrária, por mais que as ondas quebrassem com força por entre seus
pés.
Durante muito tempo, permaneceu sozinha ali, a encher canecas e mais
canecas de água do mar, e levando-as até o reservatório, de onde
seguiria cada gota o seu destino.
Porém, lentamente percebeu que seu esforço havia chamado a atenção de um
pequeno grupo de pessoas, que, envergonhadas de sua falta de ação, e
impressionadas com o tamanho de sua coragem, trouxeram também suas
canecas para a praia, e juntaram-se a ela em silêncio.
Anya não mais se sentia só, mas o oceano parecia permanecer imenso;
melhor dizendo, parecia encher-se mais e mais a cada nova gota que lhe
era retirada.
No entanto, mesmo tendo se dado conta de que nem a soma de todos os
esforços do mundo dariam conta de esvaziar completamente o oceano,
percebeu que as gotas d'água que levava ao reservatório faziam felizes
muitas pessoas, salvando suas vidas, e matando a sede incalculável que
havia em seus corações.

Descobertas & Encantamentos
Hoje estava envolvida
em lembranças.
Lembranças novas e velhas,
Lembranças de fatos passados há muito tempo.
Lembrança de palavras ditas à pouco.
Lembrança da primeira e fundamental amiga,
Que infelizmente se foi tão cedo.
Lembrança de novas amizades descobertas,
Todas necessárias para a possível felicidade.
Lembranças da infância, lembranças doces...
Lembranças de manhãs de sol, de conversar e risos,
De deslumbramento, dúvidas e descobertas
Que se renovam, se repetem e se encadeiam
Tornando cada vez mais interessante e profundo
O desenrolar dos dias.
Descobrir a si mesmo no outro.
Descobrir seu olhar em outros olhos.
Descobrir sua alma escondida no fundo de outra alma.
A descoberta da vida que se abre em possibilidades
Frente a uma palavra amiga, o apoio que consola,
O cuidado desinteressado, a compreensão incondicional.
A descoberta do sentimento do mundo,
E de todos os sentimentos que há no mundo.
A redescoberta de todos os pensares,
Gostares e desejos que se julgava perdidos.
O encantamento de se encontrar novamente, uma volta ao lar...
Volta ao estado primal de ternura, ao estado latente de esperança.
A redescoberta do deslumbramento, da amizade, da solidariedade.
A volta da confiança, o acreditar no poder de um abraço,
No poder de um beijo, das palavras.
Emoções que evocam o passado, que evocam o futuro,
Que clareiam a mente, que norteiam o coração.
Emoções que renascem como grãos que aguardavam a chuva.
A volta aos anos da infância, à amizade mais terna,
Ao afeto compartilhado em uma era de inocência...
- Seremos amigas para sempre.
Sorrisos, dias de sol divididos, olhar para as nuvens que passam
Colher muitas flores, falar sobre todos os sonhos,
Sobre todos os medos, sem temores, sem receios,
Sem o fantasma da incompreensão, da crítica,
Sem a tensão que antecipa a dor de não ser entendida.
Saber que sempre haverá alguém com quem contar,
Alguém que sempre ouvirá com toda a dimensão do espírito,
Que sempre estará com o coração aberto,
Que sempre será tudo o que expressa
O mais pleno signifcado da palavra amiga.

Em
Meio à Escuridão
Enquanto
sentia o medo crescendo dentro de si, Siang era invadida por ondas de um
pânico que congelava seus músculos e não lhe permitia pensar em uma saída.
Estava
sozinha. Trancada no escuro, deixando-se tomar pelo medo que a cada
segundo só fazia crescer.
Siang
procurava por uma solução. Olhava em desespero para todos os lados,
mas tudo o que enxergava era o vazio. Um vazio enorme, infinito.
Estava
sozinha. Tateando, seguiu em frente com passos trêmulos, mãos
estendidas, perdida em meio à escuridão que a cercava com sua fome
devoradora.
Cada
passo era dificultado pela ansiedade e pelo coração que se acelerava
no peito. Sentia mais e mais medo. O que haveria à frente ? Que coisas
terríveis poderiam lhe acontecer, que monstros espreitavam nas sombras
?
Siang
não sabia, e avançava lentamente.
De
repente, suas mãos tocaram em algo sólido. Enorme. Uma parede. Onde
iria terminar ?
Foi
tateando, passo após passo, sem enxergar, numa angústia sem fim. Não
via como escapar; parecia-lhe não haver saída.
Em
seu desespero, não percebeu que havia um som que se repetia através do
silêncio e das sombras. Um som ritmado, de cadência suave.
Siang
não conseguia ouvir.
Quando,
muito tempo depois, cansada de tatear pelo escuro e abatida pelo pânico
resolveu desistir de sua busca infrutífera, sentou-se no chão
desolada, o rosto delicado coberto de lágrimas.
Foi
quando ouviu o som. Ouviu-o, e aquele pulsar transformou-se em um
último fio de esperança.
Siang
ergueu-se e andou em sua direção. Não lhe importavam mais os perigos
que a rondavam nas sombras, não lhe importavam mais os riscos que
corria. Apenas caminhou, guiada pelo som cadenciado e suave.
E
descobriu no escuro outra pessoa.
Não estava sozinha. Havia alguém.
Siang
tocou aquele outro ser igual à ela, estendendo suas mãos para aquele
coração que como o su batia nas sombras.
E
fez-se a luz.
É
bom saber que não estamos sozinhos quando sentimos medo ou relutamos em
assumir um risco. Quando tomamos coragem e expomos nossas dúvidas a
alguém de nossa confiança, o medo perde seu poder sobre nós. E nos
tornamos mais fortes e capazes de chegar até a luz.

O
Mar Nos Olhos de Ana
Era possível que jamais
se soubesse o que significou para Ana aquele pequeno gesto. Apenas um abraço, seguido de um "eu te amo" proclamado aos sete ventos.
Sozinha olhando o mar, Estela pensava em tudo o que havia acontecido nos últimos anos.
Lembrava bem de quando haviam se visto pela primeira vez. Embora não fosse a primeira vez que se falavam, ainda assim foi uma surpresa agradável.
Ana era como Capitu: tinha olhos de ressaca, que atraíam para dentro. Olhos da cor do mar. Revelou-se desde o primeiro momento uma pessoa admirável, dotada de muita alegria e vida.
Tudo em Ana era movimento, e Estela ficou fascinada por seu jeito divertido, e sua enorme simpatia. Naquele mesmo dia, começou a amá-la.
Durante o tempo que se seguiu, a amizade entre as duas só fez crescer, lançamdo suas profundas raízes em ambos os corações.
Ana era um farol que ajudava a atravessar as tempestades. Ana era um refúgio seguro para todas as tristezas.
Estela ainda se lembrava da primeira vez em que a visitara. Lembrava-se bem dos sorrisos, do encantamento ao descobrir a alma de Ana em cada pequeno detalhe da casa.
Entretanto, apesar de amá-la como se fosse parte de si mesma, sempre que estavam juntas Estela era somente egoísmo. falava muito de si, sem jamais ouvi-la. Estela na verdade acreditava que era impossível que alguém como Ana tivesse problemas. Parecia impossível que sofresse. Se soubesse então o que sabia hoje... Como teria agido diferente ! Teria procurado saber mais da vida de Ana; teria procurado descobrir seus sonhos, seus temores, suas esperanças. Teria dito com todas as letras o quanto era importante em sua vida.
Agora era tarde demais. Ana se fora para não mais voltar, e a dor da perda devastava a alma de Estela.
Nunca havia perdido alguém a quem amasse de verdade. Ou ao menos nunca havia perdida alguém a quem amasse tanto. Era uma dor completamente nova, um sentimento terrível de melancolia e saudade, que a deixava completamente sem ânimo.
Doía o peito cada vez que se lembrava do sorriso de Ana. Doía muito cada vez que se lembrava do seu olhar. Estela não sabia ainda como lidar com a dor. Mas sabia que teria que aprender. Teria que sobreviver.
Agora, sozinha olhando o mar, Estela sentia todo o peso da tristeza. O mal calmo como Ana. Mar imenso como o amor que abrigava em seu coração. Mar que brilhava da cor de seus olhos.
Apenas uma coisa fazia com que Estela se sentisse melhor. Felizmente pudera dizer à Ana o quanto a amava. Tivera tempo de lhe contar das coisas que apreciava nela. Tivera tempo de lhe mostrar o quanto se importava. Tivera tempo de faze-la mais feliz.
Era possível que jamais se soubesse o que significou para Ana aquele pequeno gesto.
Mas, para Estela, significou a diferença entre despencar em um mar de culpa e deixar-se invadir pela saudade. E a saudade que sentia era imensa, mas boa, repleta de lembranças felizes e iluminadas pelo sorriso de Ana. Um sorriso emoldurado pelo mar em seus olhos, que viveria para sempre em seu coração.
"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã
Porque se você parar pra pensar, na verdade não há."
( Legião Urbana, in "Pais e Filhos" )

Um
Amor Imortal
Para um discípulo, ninguém é mais admirável que seu mestre. Ninguém será mais confiável nem mais digno de ser imitado.
Assim também Kyalir admirava o exemplo de seu amado mestre Ryashi.
Dia após dia Kyalir observava a eloqüência e o poder de oratória do mestre, e bebia suas palavras como se fossem um néctar dos mais preciosos. Kyalir apreciava sua rapidez de raciocínio, sua transparência, sua honestidade. Kyalir alimentava-se de sua sabedoria e sentia o espírito transbordar com a sua fé.
Ryashi parecia também ele apreciar muito a companhia de seu jovem discípulo. Freqüentemente procurava por ele, e lhe elogiava sempre a força de vontade, a grandeza da alma, o poder de concentração. Ryashi admirava sobretudo sua inesgotável capacidade de amar.
Sem perceber, Kyalir tornava-se a cada dia mais parecido com seu mestre. Trilhava com outros passos pelo mesmo caminho. Percebia com novos olhos tudo o que Ryashi já havia visto. Sentia em seu coração jovem toda a riqueza de sentimentos que o amoroso mestre já havia experimentado ao longo da vida.
Os laços entre discípulo e mestre se tornaram mais e mais fortes com o passar dos anos. Ambos compartilhavam seus sonhos e unificaram seus espíritos, alcançando cada um, com
profundidade, o mais íntimo do ser.
Entretanto, como sempre acontece na vida, houve entre eles um desentendimento, que os levou a um rompimento total.
Passou-se o tempo, e, um dia, já muito avançado nos anos, Ryashi veio a falecer esquecido em sua aldeia natal.
Kyalir, ao saber de sua morte, mesmo com a enorme distância que então os separava, trancou-se em seu quarto chorando um pranto convulsivo por muitos e muitos dias.
Foi então que percebeu que o amor compartilhado por duas almas em sintonia jamais morre. Os laços que o uniam ao velho mestre eram muito mais profundos e muito mais duradouros que qualquer desentendimento.
As lições que aprendeu através do exemplo e da dedicação de Ryashi o tornaram apto a viver sua própria vida. O afeto que dividiram tornou-se eterno no tempo.
"A sobrevivência de um organismo depende da sobrevivência de um outro." ( Charles Darwin )

A
Talha e o Jarro de Ouro
Nos tempos antigos, era comum que se usasse uma talha para buscar água em rios e fontes. As talhas eram geralmente de barros, toscas, saídas muitas vezes de mãos pouco habilidosas e rústicas.
Essa é a história de uma destas simples talhas.
A talha da qual falamos se encontrava em uma casa muito humilde, onde morava um pescador e sua filha.
Todos os dias, a filha do pescador andava até a única fonte da aldeia para encher a talha de água e com ela prover o sustento de sua casa.
Anos a fio serviu a talha a seu propósito. Anos a fio saciou a sede daquela pequena família.
Entrementes, um belo dia o pescador, ao lançar suas redes, recolheu com ela não peixes, mas um belo tesouro afundado. Havia muitas moedas de ouro e prato, muitas jóias preciosas e diversas outras quinquilharias preciosas.
O pescador e sua filha eram agora muito ricos.
Imediatamente, como sempre acontece na vida, ambos se desfizeram de todo e qualquer vestígio de sua vida de pobreza. Atiraram ao mar suas roupas velhas e usadas, quebraram sua mobília grosseira, e, como não poderia deixar de ser, lançaram ao longe a velha talha de barro.
Compraram em seu lugar um reluzente jarro de ouro, cravejado de brilhantes. E de muitas outras coisas se cercaram, toda a espécie de luxo e riquezas...
No entanto, dentro de poucos anos chegou à aldeia, onde agora o pescador enriquecido ostentava sua fortuna como um rei, um mercador de um distante país, dizendo-se dono do tesouro encontrado.
Com seu séquito de soldados, arrasou o palacete do pescador, tomou-lhe todos os bens, expulsou sua bela filha e jogou-o no fundo de uma prisão.
O rico jarro de ouro, agora inútil, servia ao mercador de enfeite, obra rara a ser apreciada em suas viagens pelo mundo.
O pescador agonizava em sua prisão... Tinha sede.
Sua filha, do lado de fora, em desespero, procurava dar ao pai algum conforto, através das grades.
Lembrou-se então da velha talha, esquecida durante anos perto da cabana agora semi destruída e cercada pelo mato. Correu até lá, mas ao chegar, para seu infortúnio, percebeu que a talha estava partida, definitivamente estragada, perdida para sempre...
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Assim fazemos nós muitas vezes ao longo da vida. À menor possibilidade de ganhos, abandonamos nossos amigos, nossos sonhos, nossos valores... Deixamos de lado tudo aquilo que verdadeiramente somos.
Até chegar o dia em que a superficialidade da nova vida se quebra, e ao tentar retomar o que um dia fomos, percebemos, com profunda tristeza, que algo se quebrou. Os amigos se foram, os sonhos estão mortos, os valores corrompidos,
nossa essência, para sempre perdida..

Você
Ama Alguém ? Diga-lhe Agora !
Minha bisavó sempre dizia que há sempre tempo pra tudo nessa vida.
Não é verdade.
Não há tempo na loucura do dia a dia.
Não há tempo sobrando na correria da vida.
Tempo para tudo nunca haverá.
Existe sempre o risco de deixar de se fazer, dizer ou viver o necessário.
Possível é definir prioridades.
O que é mais importante em nossa vida ?
Trabalho, família, amigos, estudo, lazer ?
Aqueles que amamos são o mais importante de tudo. Para sermos sensíveis ao próximo é necessário dedicar-lhe tempo.
Tire um tempo para...
Enxugar as lágrimas de um amigo que sofre...
Pensar, pois é a fonte do entendimento de si mesmo...
Ouvir as alegrias e tristezas daqueles que te amam...
Brincar, por é o segredo da eterna juventude...
Dizer "eu te amo" para quem considera importante...
Amar, pois é o maior poder que existe sobre a terra...
Ser amado, pois é um privilégio divino...
A amizade, pois é o caminho para a felicidade...
Rir, pois é a música do espírito...
Dar, pois a vida é curta demais para ser egoísta...
A caridade, pois é a chave do céu...
E o céu ou começa agora aqui na terra,
Ou não começa nunca.
Não perca tempo. O agora é o momento mais importante. Valorize. Ame. Construa. Lute para ser feliz. Jamais se envergonhe de viver e sentir.

Quando
Há Nuvens
"Não dá para ficar intacta em meio a uma maluqueira dessas !"
A frase, dita em tom de desânimo, muitas vezes me acompanhou por essa vida.
A maluqueira em questão é a de hábito, a de todo dia. Família, trabalho, aborrecimentos, falta de grana, violência, medo do futuro.
Muitas vezes, sobreviver ilesa parece mesmo difícil.
Talvez porque tenhamos nos acostumado a encarar a felicidade como algo eterno e linear...
A autêntica felicidade vem e vai e geralmente não dura muito. Você passa o resto do tempo pensando nela, esperando-a, procurando-a...
Conhecendo esse fato, é fácil encontrá-la com mais freqüência e usufruir dela apaixonadamente.
A felicidade está no sorriso sincero de um amigo, nas pétalas perfeitas de rosa, na calma serena de um papo gostoso, na alegria dos encontros pela madrugada, conversar no escuro, sentir a chuva cair sobre o rosto, está no ronronar confortante de um gatinho...
Se você carrega nas costas o seu passado, se além disso carrega a angústia e o medo do futuro, não lhe sobram forças para enfrentar o mais importante: você agora, no momento presente.
A vida é feita de pequenas vidas de um dia cada uma.
Nem todos os dias são fantásticos, mas quase todos tem algo de bom que não houve nos outros e você tem que viver cada momento, cada "agora", como se fosse o momento mais importante da sua vida.
O tempo corre entre os dedos... Não desperdice !!!
Faça o que fizer, esteja com quem estiver, viva com emoção !!!
É uma chance de ficar inteira !!!

Recordações
Hoje estava remexendo uns papéis velhos, e achei uma carta de uma amiga da época do normal... Nessa época, escrevíamos muito uma pra outra. Ambas adoravam escrever, e faziam isso muito bem.
Lendo a carta, me senti um tanto triste por nunca mais tê-la visto... E isso me fez pensar...
Quantas vezes pensamos em ligar para um amigo mas a falta de tempo nos impede ?
Quantas vezes, quando o tempo aparece, dizemos "ah, amanhã eu faço ?"
Quantas vezes pensamos em escrever uma mensagem, mas não temos paciência para fazê-lo ?
Quantas vezes simplesmente ignoramos mensagens tristes de nossos amigos por achar que não vai adiantar de nada respondê-las ?
Quantas vezes por preguiça, indiferença ou descuido, deixamos de dizer aquilo que é tremendamente necessário ?
Quantas vezes deixamos de dizer a um amigo querido o quanto o amamos ?
Eu mesma deixei de fazer tudo isso tantas vezes...
E as pessoas se vão, partem sem saber o quanto foram importantes...
Muitas vezes uma palavra simples é capaz de fazer tanto !
Temos que dizer, fazer e acontecer hoje.
O amanhã nem sempre existe.
Acho que é por isso que hoje em dia sou tão diferente...

Do
Espírito Turbulento
Hoje
foi um dia feito da pura matéria dos sonhos. Vaporoso, enevoado, confuso. Um
dia que não houve.
Na vida há dias assim. Dias que passam e se acabam sem que nem porque. E de
repente você se dá conta de que chegou a noite e a madrugada se aproxima à
toque de caixa.
Dia estranho, de estranhos pensares. As coisas parecem estar suspensas no ar
por um fio. Há um certo mistério, um não saber como será o amanhã. Muita
incerteza, isso me atordoa. Como gostaria que fosse tudo previsível e
controlado ! Quer dizer, não as coisas boas. Essas poderiam cair como uma
surpresa dos céus. Mas as coisas ruins, decepções, doenças, morte, ah !
Essas a gente devia poder prever e controlar, paralisá-las e não deixar que
acontecessem. Senhor, isso seria tão bom !
Sinto a alma turbulenta que se esconde dentro de mim. Na superfície tudo é
calma. Reina a tranqüilidade, a paz, os bons conselhos. Mas o fundo... Ai, o
fundo é tempestuoso ! Águas que se agitam sem trégua, dúvidas, tanta
ansiedade, tanta angústia, medo... Sentimentos sepultados bem lá dentro. A
vida não pode ser uma ode à tragédia, enfim. Há que se viver da melhor
maneira, há que se sorrir embora se sangre, há que se agüentar firme e
seguir levando porque... É o que há a se fazer.
Não me dou nunca ao luxo de chorar, não me dou nunca ao luxo de sofrer.
Pessoas precisam ser cuidadas, acariciadas, confortadas. Sempre uma mensagem
confiante, de fé, de esperança. Nunca a tristeza ou o desespero. Sempre
avante, sempre tocando o barco. Amor há muito pra dar. Minha dor é pequena
frente a outras tantas dores.
Tenho medo de quebrar um dia. Medo de me partir em duas. Medo que a metade
sombria sufocada venha à tona. Mas acho que é um medo comum, no fim das
contas. Conheço outras pessoas assim. Reconheço meus semelhantes quando os
vejo. Sei que há quem ria e sorria para afastar a angústia enorme da vida.
E, na maioria das vezes, funciona mesmo. Líquido e certo.
A vida é um reflexo do que fazemos e pensamos. Espelhos somos de nossas
atitudes perante a vida. Pensar pra baixo só afunda. Pensar pra cima levanta,
dá fôlego novo, reanima, traz bons fluidos, boas energias, transforma o que
sentimos e o que somos.
Não se trata de se enganar. Não se trata de ter duas caras. A dor e a
alegria são dois lados da mesma moeda. Não se trata de esconder o que se
sente de ruim, trata-se de não cultivar esses sentimentos. Não cultuá-los
jamais. Reconhecer que existem. Que são normais. E saber, ter certeza plena
de que um dia tudo passará.
Minha bisavó sempre dizia que tudo nessa vida tem jeito, até a morte. Porque
a morte nada mais é senão a continuação da vida. Sábias palavras !

Das
Amizades Trazidas Por 2001
Estou
muito, muito cansada. Cansaço tremendo, profundo. Dormi pouco, dormi mal.
Acordei com dor. A manhã foi atordoante, me sinto extremamente confusa.
Apesar disso, estou feliz. Cansada e confusa, mas feliz. A página fez
sucesso. Minhas homenageadas ficaram felizes. É tudo que me importa !
Ambas são pessoas fantásticas, com quem me orgulho de poder conviver. Aliás,
verdade seja dita, me orgulho demais das minhas amigas. O amor que eu sinto é
algo mágico, inexplicável e muito forte. Unidas. Essa é a palavra. Na
alegria e na tristeza, na saúde e na doença, para sempre e sempre, cada vez
mais junto.
Elas são meus raios de sol, são o lastro do navio. A vida pegou novo
sentido, simplesmente porque existem. Confidentes, conselheiras, anjos, irmãs.
Minhas certezas mais verdadeiras, meus belos presentes de Deus. Presentes de
gato ! Quem poderia adivinhar que seria assim ? Quem poderia prever essa
empatia instantânea, esses laços tão fortes, essa comunhão de almas ? Ah,
os gatos são realmente iluminados, mensageiros da alegria ! Trouxeram consigo
uma grande luz...
Um ano tão ruim esse em que estamos ! Mas em meio a tanta turbulência,
brilha uma coisa enormemente boa, que foi tê-las conhecido. Foi um
conhecimento de vida, um leque que se amplia. Um universo inteiro se abriu,
com seus muitos sóis. Cada astro de um jeito, cada qual com sua órbita. Cada
uma com seu jeito de ser. Conhecimentos profundos de seres humanos. Com suas
dores, perdas, sorrisos, carências, tristezas, mas, acima de tudo, vida !
Exemplos de vida, modelos, tanto a admirar em cada uma, tanto a aprender com
todas...
Meu eu reflexivo, que se compraz em analisar e compreender tudo o que há, se
derrama e se espraia em suas vidas. Ah, se cada uma soubesse o quanto é admirável,
o quanto é delicada, o quanto é batalhadora, o quanto me faz bem saber que
somos amigas... Uma guerreira vive em cada uma de nós. Guerreiras juntas
fazem um exército. E exércitos vencem batalhas, mesmo as mais difíceis.
O tanto que sei de cada uma só me dá certezas do quanto foi maravilhoso
encontrá-las. Como foi fundamental para cada uma que nos encontrássemos.
Isso parece fazer parte de uma espécie de projeto, de plano de uma esfera
superior. Dizer isso parece supersticioso, mas é a pura verdade ! É o que eu
sinto. Porque não nos encontramos somente. Não foi um esbarrão puro e
simples.
As vidas se cruzaram, fizeram-se pontes, traçaram-se objetivos comuns.
Formou-se uma rede. Aranha nenhuma teceria uma teia tão perfeita... Somos
quase mosqueteiras, uma por todas e todas por uma !
Delícia saber que temos com quem contar, aconteça o que acontecer.

Inclusão
& Doação
Palestra
sobre inclusão. Muito interessante. Bom para refletir sobre o que é
diferente. Qual o significado dessa palavra ? Há que se mudar o olhar, como
trabalhar, como encarar as pessoas independentemente do que apresentem.
Penso
na dificuldade que muitas pessoas têm de encarar os problemas alheios, e, às
vezes, até os seus próprios. Gente que sussurra ao falar as palavras. Gente
que tem palavras proibidas. Gente que diz: "Coitada, o filho dela tem
......" Você pergunta: "O quê ?" E a pessoa: "Problemas,
coitado ! Coisa de cabeça. Sabe ?" E você: "Não, o que
éééééééééééé ?!" Depois você descobre. E aí você se
pergunta, com os diabos, que mal há nisso ? Qual a vergonha em dizer ? Porque
o medo ? Porque tamanho horror ? Acham que escondendo ou sussurrando a coisa
some ? Só pode !!!
Pessoas são pessoas, cada
uma do seu jeito, cada uma com seu momento, cada uma com seus problemas e
limitações. Cada um é cada um. Há que se tratar a todos com igualdade,
respeito, carinho, amor...
Já
resolvi: vou trabalhar nessa área. Estão sempre precisando de gente. É um
trabalho que ninguém quer. A maioria das pessoas não têm estrutura, ou,
simplesmente, não quer se envolver. Eu tenho, e quero.
Já
estão me condenando por isso. Me perguntaram se estou ficando doida, se não
tenho mais o que fazer... Porque é tão difícil aceitar ? Tenho tanto amor
pra dar, tanto carinho a distribuir, tanto sentimento, tantas idéias
!!! Conheço tantas atividades, tantas dinâmicas, tantos trabalhos a
desenvolver !!! Então, porque não faria uso de tudo isso ?
Deus
não nos dá dons para que usemos em nosso próprio proveito. Ele nos dá suas
graças para que sejamos úteis, para que sejamos parte de seus planos, para
que ajudemos a formar seu reino de amor, para que amar ao próximo acima de nós
mesmos.

Da
Vida e da Morte
Hoje
pensei em Luciano. Faz anos que não penso nele. Luciano que se foi tão
jovem, Luciano que se foi de repente, Luciano tão amigo, tão meigo...
Um
jovem sensível, delicado, e muito, muito bonito. Uma amizade ainda em botão,
começando a florescer. Flor que foi cortada antes do tempo.
Estive
com ele em seu último dia entre nós. Quatro dias antes do Natal. Desci do ônibus,
ele estava no ponto. Conversamos, rimos, brincamos... Na manhã seguinte, a
notícia. Um acidente. Foi instantâneo. Luciano tornou-se mais um entre os
belos anjos de Deus.
Lembro
do desespero que tomou conta de todos. O inesperado da notícia foi um choque.
Alto impacto. A tristeza se espalhou como uma mancha negra.
Lembrei-me
de Cazuza, o meu poeta, que, ao ser perguntado sobre como se sentia por
conviver com a morte, disse simplesmente que isso não era privilégio seu,
mas sim que acontecia com todos nós, todos os dias. E é verdade. Vidente
nenhum, medicina alguma pode ter a pretensão absurda de querer prever quanto
tempo nos resta. Somente a Deus pertence o poder sobre nosso destino. É ele
quem escreve a duração da vida no eterno livro do tempo.
A
morte, porém, assusta à maioria dos povos ocidentais. No oriente, ao contrário,
veste-se branco. Festeja-se a passagem para uma nova vida.
Mas
não assusta a mim a morte, em absoluto. Por algum motivo, desde muito cedo
aprendi que não somos eternos. Aprendi a lidar com o sentimento da nossa
efemeridade. E, acima de tudo, percebi que não há um fim. O espírito
continua vivo, imutável, eterno como o universo. O corpo é uma passagem, um
veículo, um claustro onde a alma habita e aprende, cresce e conhece, amplia
os horizontes e desabrocha. A morte apenas nos encaminha para o imenso amor de
Deus. Ninguém termina. Não viramos pó.
Esse
fantasma só é ruim para quem fica. Quem parte vai ao encontro de algo maior.
Vai para um plano infinitamente superior, onde a felicidade e a fraternidade são
sonhos possíveis. Mas quem fica... Esses sim são os verdadeiros miseráveis,
pois sofrem a dor da eterna saudade e choram a ausência mais sentida a cada
dia. Nesse ponto, sou covarde. Tenho medo de sofrer. Mas sei que é inevitável.
É um dos preços que se paga. Ou paga-se o preço, ou não se vive.
Da
vida nada se leva, senão o que vivemos e sentimos. Como já dizia Renato
Russo, "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã".
É preciso dizer hoje o que se sente, é preciso desmanchar as mágoas, é
preciso estreitar os laços no momento presente, porque amanhã pode ser
tarde... É tempo de amar, é tempo de sentir, é tempo de compreender, é
tempo de viver cada momento.
Um
momento pode ser eterno. Um único momento de ternura vibra por muito e muito
tempo. A dimensão do tempo é relativa. Cem anos mal vividos não valem vinte
e um como os de Luciano. Pessoas como ele sobrevivem através dos tempos, e
mesmo sua breve vida torna-se enorme nas pequenas coisas que ficam na memória.
São
suaves as lembranças que tenho dele. São doces os momentos que ficaram. É
tudo que espero que aconteça quando meu momento chegar. Que meus amigos
guardem de mim a recordação de palavras de amor, de carinho, de sorrisos e
festa. Quero ser uma fotografia viva que se guarda dentro do peito.

Virada
A
felicidade chega, sem avisar que vinha. Numa nuvem dourada, trazendo de volta
a fé e a esperanças quase que perdidas. Estava tudo por um fio, e esse
fio... Acaba de receber nova roupagem, novo encapamento, fortaleceu-se,
encorpou, está forte novamente.
Engraçado
como o estado de espírito é capaz de mudar num giro de 180 graus, de um
momento a outro... Uma horas, estamos quase a ponto de desistir, de repente...
A maré muda, começam a chegar boas notícias, sopra um vento novo !!!
Estava
muito desanimada, por conta de tanta coisa !!! Mas agora... Sinto que o mundo
está retomando seu eixo. A vida está retornando aos poucos, a luta, enfim,
vale à pena !!!
Resoluções
novas. Novas prioridades. Voltar ao ponto que larguei. Tenho que me
esforçar. Tenho que conseguir.
Ah,
a vida novamente se estende pela frente mansa, parece que as águas
turbulentas sossegaram... Que o rio finalmente está fluindo sereno. Ninguém
sabe nunca o que virá na próxima curva, mas mesmo assim... O que vier será
apenas passageiro... Apenas o rio é eterno, em sua viagem em direção ao
mar.

A
Pior Parte do Amor
Dia
triste. A tristeza me invade sem controle. Sem domínio, sem freios, sinto-me
invadida pelo desânimo, pelo cansaço, pela dor, pela impotência. Não
consigo lutar contra essas coisas, parece impossível resistir. Hoje nem mesmo
a máscara de eterna Pollyanna consigo vestir.
Sei
que não devia, sei que estou errada em questionar e não aceitar o destino,
mas me desespero tanto, sofro tanto, não consigo deixar de achar injusta a
vida. Por que um Deus de amor permite a existência da dor ? O que Ele espera
de nós, afinal ?
Somos
tão pequenos, tão inúteis, tão impotentes, somos como folhas voando ao
sabor do vento. Somos esmagados pela vida, somos forjados pelo destino, somos
presa fácil das armadilhas desse caminho tão curto. O que podemos fazer senão
tentar viver da melhor forma possível ? O que podemos fazer senão viver ?
Viver e lutar, lutar e viver, nisso se resume tudo.
Eu
poderia não estar sofrendo, eu poderia não estar chorando. Mas estou, e a
escolha foi toda minha.
Foi
minha decisão voltar a me aproximar das pessoas, foi minha decisão
assumi-las e, com elas, toda a vastidão de sentimentos que trazem dentro de
si. Ninguém pode escolher viver um meio-amor, ou ter uma meia-amizade. Toda
pessoa tem suas duas faces, todos têm um lado iluminado e um lado negro. Não
dá pra se amar meia-pessoa. Ou se assume o pacote completo ou não se assume
tudo.
Dessa
decisão vem todo o meu sofrimento, mas também toda a alegria que tem
preenchido meu coração. Não me arrependo. Não me arrependo de amar.
É
impressionante a força desse amor, é incrível que tenha brotado tão fácil
e criado raízes tão profundas tão rápido. É um poder estranho, é algo
que me perturba, o fato desse sentimento ter chegado tão de repente e tão
forte.
Não
sei se é um amor compartilhado, não sei se é desse mundo, não sei nem
mesmo se é recíproco. Mas isso pouco me importa. De fato, me importa apenas
que amo. É um amor completamente incondicional. Eu amo e pronto. Não faço
questionamentos. Recebi presentes especiais de Deus.
Todas
tão diferentes, todas tão parecidas, todas tão ricas, todas tão
guerreiras, todas tão meninas, todas esperança em botão, luminosidades,
flores que me alegram a vida.
É
como já disse antes. Não se pode amar pela metade. Só se ama a totalidade
do ser.
Se
a vida traz junto com o amor a tristeza das dores compartilhadas, e a amargura
da perda possível, traz também todo um universo de histórias, carinho,
risadas, encontros, solidariedade e união.
O
mesmo destino que nos traz as trevas, traz também a luz.
Por
ela, pela luz, e pela honra de poder ter conhecido e compartilhado de tantas
vidas, eu já seria eternamente grata. Por esse preço, vale a pena viver.
No
balanço final das coisas, podem restar algumas tristezas, mas sem dúvida
alguma restará em muito maior quantidade uma lembrança suave do afeto
compartilhado.

Aquecendo
o Coração
Das
muitas coisas da vida que fazem com que ela valha a pena, nenhum é mais
valiosa que a amizade verdadeira. Amigos têm sempre o poder de aquecer o
coração. Mesmo nos momentos de maior tristeza, mesmo naqueles dias em que o
pranto impera, nunca se estará totalmente sozinho se existir um amigo, mesmo
que longe.
Sou
uma pessoa privilegiada. Conto com o amor de muitas amigas. E todas elas são
pessoas esplendidamente tocadas pelo dedo de Deus. Todas abençoadas com os
dons do seu Espírito.

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