sob o signo de gêmeos |
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A Bomba
Por causa de uma bobagem, Olha o que você fez ! Matou todos de uma vez, Não deu chance, não deu tempo... Pense nas pessoas, tantas Que você trucidou ! Pense em todos os bichos Que você esmagou ! Pense em todas as plantas Que você pisou ! Pense nas crianças, tantas Que você matou e marcou Pense em milhões de vozes Sentindo e chorando ! Pense nas rosas sem vida, Sem cheiro, sem cor ! Em milhões de pessoas Dilaceradas pela dor ! Pense nas águas dos rios Que você poluiu ! Pense nas pequenas flores, Mortas, estraçalhadas ! Pense nos que ainda sofrem Por sua causa ! Pense em sua fúria animal, Águia, mensageira do mal.
Na Senzala
Em meio à imensa dor Uma criança nascia. Da luz não sentiu o calor; Na palha sórdida dormia.
Enquanto a noite caía, No fundo da alma pura, O vento, gélido açoite, Batia-lhe; chorando, gemia.
Vivendo, era infeliz, prisioneiro Da vontade de um tirano. A mãe, num momento insano, Quis libertá-lo primeiro.
Com sobre humano esforço o sufocou; Com trevas n'alma o enterrou. À Deus o filho entregando, Cria que feliz o estava tornando.
O Rio de Janeiro Continua Lindo...
O
que é que a cidade tem ? Tem gente bonita tem Gente podre de rica tem Praia maravilhosa tem Tem ? Na Zona Sul tem Será que é só o que tem ? O que é que a cidade tem ?
O centro da cidade tem Assalto e morte tem Tem muita sujeira tem Verba desviada tem Tem muito descaso tem Será que é só o que tem ? O que é que a cidade tem ?
Favela e morro tem Tem fome e pobreza tem Menor abandonado tem Tem gente faminta tem Criança morrendo tem Será que é só o que tem ? O que é que a cidade tem ?
Governo explorando o povo tem Ensino falido tem Professor na miséria tem Criança sem escola tem Tem desempregado tem Será que é só o que tem ? O que é que a cidade tem ?
Liberdade pro jogo tem E pra corrupção também Será que é só o que tem ? O que é que a cidade tem ?
Tráfico rolando tem Tem jovem se drogando tem Perdendo a juventude tem Pensando que faz tão bem... Será que é só o que tem ? O que é que a cidade tem ?
A Zona e o Mangue tem Tem mulher da vida tem Precisando de ajuda tem E tem seus filhos também Será que é só o que tem ? O que é que a cidade tem ?
Hospital sem verba tem Doente sem leito tem Dormindo ao relento tem Excesso de greve tem Falta de remédio tem E de médicos também Será que é só o que tem ? O que é que a cidade tem ?
Tem gente preocupada tem Querendo mudar tem Lutando pra melhorar tem Vem pra luta você também Com amor por seu povo vem Trazendo alegria vem Ou será que você não tem Vontade de mudar também ? Será que você não vem ?
Inimigo da Sociedade
Fim de tarde na cidade fria. Na rua arborizada, limpa e feliz, Passeia elegante o aristocrático burguês. Sombras na esquina... Por trás do arvoredo o sutil movimento... Repentinamente, gritos, correria. Está aos brados o implacável burguês. "Fui assaltado ! Infame ! Vil"
Vários passantes, narizes empinados, Prontamente acodem. Vêem, em meio à noite que cai Os contornos do infame ladrão. Surge um tiro na escuridão... Um grito de glória ressoa Dentre a multidão.
Correm
ao local onde o vil tombara. Momentaneamente, o horror. "Mas é uma criança !" Exclama o insensato, insano burguês.
E logo a habitual frieza recupera. "Está tudo aqui, nada falta. Quanto à este incidente, ora ! Deus nos livre, é um a menos. Afinal, era um marginal... Tinha mesmo que morrer."
A treva da noite agora é total. E o corpo fica na calçada fria, Estupidamente gelada Como o coração dos burgueses.
* * *
Fruto desde o ventre renegado, Cresceu por aí, à toa, largado Rotulado pela sociedade Que segue sempre velhos Moldes estereotipados.
Vive nas ruas, nos becos, onde der. Dorme nas ruas ( isso se puder ) Apanha da polícia, dos lunáticos, bêbados, Mesmo sem nada fazer. Conhece o vício, o assalto e o punhal. Fica rotulado pela incompreensão. Já é conhecido como "marginal"...
Termina por aí, com um tiro no peito, Bêbado, sem respeito, Ou se esvai de inanição. Depressa enterrado em vala comum, Some apressado, sem passado algum Logo ignorado, como quando viveu.
Que chances ele tem contra Essa gente hipócrita, Insensível, demagógica, Ditadora estúpida, Que diz ter a mão estendida, Prestes a ajudar ?
Que chances ele tem Contra esse mundo hostil, Sorrindo falsamente, Prestes a lhe abocanhar ?
Que chances ele tem Contra essa vida injusta, Que simultaneamente O atrai e o destrói ?
Bombardeio
Desce dos céus, cinzenta e fria, A mensageira do mal humano - a bomba. Levanta-se a nuvem da devastação. Torna-se a feliz cidade sombria. Gritos, brados de angústia e dor. Crescem na alma a repulsa e o horror. Nesta aldeiazinha, outrora fremente, Da vida amante, que agora arde, Crepitante monte de ruína e chama, O clarão da vida há muito se foi.
Maria Favela
Fala, Maria ! Fala da favela, Da miséria de todo dia ! Fala de teu homem, Que remexe o lixo, Que lixo come ! Fala dos teus filhos, Fantasmas sem nome, Andando pelas valas Negras da fome ! Fala, Maria ! Do teu povo sofrido, Cansado, doído, Largado nas calçadas A viver do nada !
Retirante
Pegaste o burro e vieste Em busca do Eldorado. Viste no que deste ? Aprendeste, desgraçado ? Teus filhos fome ainda passam, Tua mulher esmola na rua, Teus sentimentos já frios se enlaçam Com o vazio da noite escura ! Rouba, homem, sim, rouba ! Sente da morte o sussurro ! Na noite da delegacia, Sofre, homem ! Murro após murro. Ah, alma perdida ! Não é melhor a cidade que a seca, Nem os restos melhores que a raiz. Aos menos lá tens sua casa... Vai pra tua terra, infeliz !
Dor
Cinzenta
era a manhã. Que se acumulava Em todo humano coração. O dia amanheceu aborrecido. O sol, pálido e sombrio, Se escondia atrás das nuvens, Como a esperança se escondia Por trás do cinzento da alma. Tristeza... A agonia imperava absoluta, Revoltada, pura mágoa, Da dor de ver seres humanos Rastejando como imundos vermes, Por restos de sórdido lixo.
Fantasmas
Quem no futuro Cantará a dor da perda Dessa gente sofrida, Que remexe nossas entranhas Da mesmo forma Casual e terrível Que o lixo nos latões dos edifícios ? Quem expressará a força Magnífica e macabra Que move este imenso exército De cadáveres pálidos, a quem Falta até mesmo o mais Básico alimento: o amor ?
Dia da Caça
Qual é o dia dos inocentes, Dos dementes, Dos inválidos ? A hora da arraia miúda, Das favelas e dos párias ? A vez dos desvalidos, Oprimidos, Dos calados ? O dia dos podados, Enganados, Indigentes ? Qual é o dia da caça ?
Ser Brasileiro
Ser brasileiro. Triste, amarga condição. Infeliz povo Que caminha sorrindo Para um abismo profundo, E nem sequer avalia A extensão de sua desgraça ! Negaram-lhe tudo, Até mesmo o direito à dignidade. Até quando nossos Intrépidos, Desonestos governantes, Permanecerão Em sua condição Aparentemente eterna De fantoches intocáveis ?
Somali
Nos campos da fome ressoa um ronco; Centenas de almas acorrem então. Estouram as caixas em terras sem chuva; De nada adianta o imenso avião.
A luta é voraz; se espalham no solo Arroz, lama, batatas e pó. A guerra prossegue, morticínio vão. De nada adianta o imenso avião.
Pessoas famintas que nada mais querem Senão suas terras, seus campos, seu chão, São bombardeadas pela caridade. De nada adianta o imenso avião.
Lapa
Meia-noite na praça. Gloriosa praça, Que a névoa dos tempos enlaça. De suas calçadas, Famintos fantasmas, Milhões de meninos, Dão a vida por nada.
Iraquian
A guerra é a morte da humanidade, Esta centelha frágil e moribunda. Na modernidade, não há espaço Para piedade, e a violência abunda.
Se ser moderno é considerar Todo este inferno como real, Meu Deus, eu quero ser transportada À boa guerra medieval.
Guerra justa, homem a homem,
Lutando
por seus deuses, seu próprio chão. Sem exageros, sem tanta ambição.
O Capital
A ambição varre Os sentidos do homem. Provoca sua fúria insensata. Fantasma dos tempos modernos, Elege a guerra como aliada. Sim, esta mesma guerra Que a propósitos Vários já serviu, À fúria do capital dobra-se E, em sua trama sutil, Enreda o destino de muitos, Destrói vidas de outros tantos, Em nome de frios metais,
De
impérios do absurdo, De meia dúzia, se muito.
Guerra de Secessão
Arrastão ! Ressoa ao longe O absurdo grito. A areia em pânico vibra; Correria pra todos os lados. É a nuvem da revolta Invadindo sulistas prados. Problema antigo como o tempo ! Ah, a miséria a ninguém mais assusta ! Mas, ao crescer a ameaça, Polícia nas ruas, pancadarias, Morte, prisões, injustiças; E as vozes destes meninos Para sempre serão caladas. A ninguém incomoda a fome, A ninguém faz sofrer a ganância. Mas a árvore cresce e dá Frutos em abundância ! Quando o Apocalipse chegar, Quem restará na balança ?
C(R)I(M)EP
Centros Integrados de Ensino Público. Será ?! Por si só se explica Tamanho absurdo. O povo está nas ruas penando, Pagando a ferro e fogo Pela vida, pela luta, por comida, Restos da burguesia ! O povo, Ah, o povo ! O povo não tem tempo Para educação, O povo não tem tempo para Amar ou rir, valorizar-se, Tampouco para demagogias ! O povo não quer Ser posto de lado E encerrado em caixas de concerto ! Chega de guetos ! O povo quer estar Lado a lado com a burguesia, Ter o mesmo direito à vida ! Que caiam por terra As hipocrisias !
Pátria
Bósnia-Herzegovina. Nome adequado para o horror ! Horror que toma de assalto Pátria tão cruelmente dividida.
Irmão contra irmão; O poder me causa repulsa ! Centenas aniquilados sem perdão. Pátria tão cruelmente dividida.
Triste país rasgado Por tanta violência e morte ! Resta esperar que o futuro Nos reserve melhor sorte.
Pois a nossa Pátriamada Idolatrada, salve, salve ! É igualmente rasgada Por tanta injustiça e rancor.
A força que a todos move É sombrio ensejo de vingança, Igualdade e justiça ainda em vida. Pátria tão cruelmente dividida !
Fúria
Do ventre da Terra ressoa o grito Dos guerreiros mortos da nação tupi. Grito dos fortes, dos desesperados, Ao ver murchar a vida que deixaram aqui. Ah, a maldita civilização ! Mania absurda do homem moderno ! Não sabem que em suas aldeias de aço Estão fadados ao tormento eterno. Sábios eram estes guerreiros; Tão sábios que suas vozes Calar foi preciso. E prosseguiu em sua ambiciosa fúria A Europa, qual egoísta Narciso, Sacrificando inocentes aos milhares,
Aos
prazeres e ao luxo dos frios metais. Construiu seus castelos e catedrais.
Bichos Novos
Tatus, jacarés, morcegos, carunchos. Belas denominações para seres humanos ! Quando tomaremos um pouco de vergonha E não mais permitiremos absurdos tamanhos ? Jamais a indignação nos atingirá ? Jamais nos levantaremos aos bandos ? Até quando seremos levados Por nossos preconceitos, Como estúpido rebanho ? É chegada a hora do despertar ! Não mais nos guiemos Por nosso egoísmo e ambição ! É obrigação de todos salvar a Terra Do abismo que a espera. Abismo do qual muitos poucos sairão.
Profecia
Em um não distante e róseo amanhecer,
Das
veias abertas da América Latina, Tantas vezes violada. Amanhecerá o dia e brilhará no céu A esperança e o brilho da vida recriada. Dos templos incas, maias, astecas, O grito dos derrotados far-se-á ouvir. Cairão por terra os castelos de areia Que a riqueza de poucos ergueu por aqui. Nas brumas festivas da tarde Erguer-se-ão dos escombros a força e a glória Das civilizações renegadas novamente despertadas. E nas purpúreas luzes do anoitecer Viverá o Novo Mundo recém libertado.
Atualidade
Pelos cantos do mundo ecoa um vento frio. Dividida está a vida, rasgada a Terra. Sopram por toda parte a morte e a guerra. O Universo se afoga no imenso mar da ambição. Ganância sem freios, destemperança; Os avanços da ciência de nada valerão. Triste está a Terra, rolam lágrimas de sangue De seu ventre, e prossegue em sua fúria A parcela menor da humanidade, cuja ira Destruirá o futuro de milhões de outros Pobres e indefesos seres humanos.
A Falsa Ciência
De tristes homens depende O reinício da vida na Terra. Homens que sequer sabem ao certo Como fazer cessar Em seu interior a guerra. De tantos conflitos o homem se faz, Prisioneiro é de tantos males ! Não consegue sequer enxergar Que a verdade, a vida, a esperança, Encontram-se além de tudo que a sua Idolatrada ciência lhes traz.
Profética
Revoada se pássaros no horizonte; Sanguíneos raios varrendo a terra. O sol se desmancha por trás do monte; Brilham nos céus os faróis da guerra.
Se enchem de crime os recantos da Mãe De sadismo e crueldade ergue o homem seus castelos Tornam-se pouco menos que serviçais Por montes de ouro, cobiça e nada mais.
Dos rasgões das vestes do chão maltrapilho Se erguerá um dia uma nação de bravos. Guerreiros do amanhã, filhos nobres da Terra, Na eternidade libertos dos grilhões escravos.
Pranto Ianomami
Garimpo é absurda fonte De desespero e destruição. Nele a miséria é a ponte Que faz crescer a ambição.
Massacres dos donos da terra, Tantos crimes sem perdão. Silenciosa guerra, Na qual impera a traição.
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