sob o signo de gêmeos
** Marcas do que se foi... Sonhos que já dançaram e outras conclusões **




 

 

Casa Vazia

 

A casa está vazia.

Vazia ?

Tudo nela é vida,

Cor, alegria.

Mas para a menina

A casa está vazia.

A ela não importam

Os risos, os planos.

De que lhe adianta sonhar ?

O astro-rei se foi,

Foi-se a sua alegria;

Sua luz desapareceu.

A casa está cheia de vida.

Mas para a menina

Nada importa.
Relembra com tristeza

Os felizes momentos.

Chora amargamente,

Terrivelmente sozinha,

Na calada da noite.

Para ela, a vida morreu,

E a casa estará sempre vazia.

 

 

Tão Difícil !

 

Estrela cadente,

Longínqua e tão só,

Eu tenho um pedido,

Um pedido só...

Porém em voz alta

Não o direi;

É coisa tão grande

Que só eu sei.

Estrela cadente

De brilho infinito,

Dai-me a solução

Da qual necessito.

 

Quero ajudar-te.

Como, não sei.

Por toda parte

Em pensamento vaguei,

E auxílio não encontrei...

 

Espíritos benquistos,

Espíritos de luz,

Filho de Maria,

Meu doce Jesus,

Dizei-me o que fazer !

Cansei-me de percorrer

Caminhos vários em vão

Esbarrando num problema

Para o qual não há solução.

 

 

Tempo Curto

 

Nosso tempo é precioso

Corre, voa, se esvai

Foge a vida pelos dedos.

Passa o tempo !

A vida está se acabando.

 

 

Re-Sonhando

 

"Os tempos mudaram"

Dizem os senhores do progresso.
Será ? Mudaram não...

As mentes mudaram superficialmente.

Mas por dentro, lá no fundo,

Continuam sonhando

Com um mundo

Igual ao de antigamente.

 

 

Testamento

 

Quando meu corpo reclamar

Pelo infinito repouso,

Quando de vagar pelo mundo

Eu me cansar,

Que seja em uma noite de outono,

Com a brisa suave a me tocar.

Então minh'alma, nela embalada,

Clamará por sua libertação.

O mistério do infindável se desfará.

Não quero da morte a dor

Cobrindo como um véu tudo ao meu redor.

Por mim, não desejo ver rolar

Nenhuma lágrima.

Que nenhum traço de tristeza

Se infiltre na alma límpida

E no semblante feliz

Desses seres que amei.

Que as chamas devorem a matéria vã,

Vazia e sem razão de ser.

Recolham com cuidado as cinzas.

Então, é só deixar o vento soprar...

Que se espalhem por todos os campos

Deste Brasil com que tanto sonhei;

Cheguem junto ao azul que idolatrei;

Toquem as crianças, esses seres perfeitos,

Filhos que eu sempre quis ter,

Em minhas carícias derradeiras.
Deixo de herança os sonhos desfeitos,

Os amores perfeitos que inventei em vão.

Deixo meus versos, retrato de uma vida

Refletida, cheia de meditação.

Abram estas páginas, escassas talvez,

E através das palavras aqui desenhadas,

Leiam tudo aquilo que

Não ousei lhes dizer.

Apaixonada fui, com ardor

Por tudo o que vi;

Por todos aqueles com quem convivi.

E impossível dizer que não tive um amor...

Um poema é pouco

Para o muito que tenho a dizer.

Nele não cabem

Os momentos indeléveis,

Os atos perenes,

Os dias solenes,

Os planos para o futuro,

A vontade louca de romper esse muro,

As pessoas incríveis que conheci

E o grande amor que lhes dediquei.
Se um tanto escondido,

Profundo, porém !

 

 

Dicionário

 

Vide vida vide vida

Experiência complexa

Jamais repetida.

Vide tempo vide tempo

Foge mais rápido

Que o pensamento.

Vide mundo vide mundo

Aperta-se um botão

E tudo acaba em um segundo.

Vide gente vide gente

Divide-se em dois tipos:

Calculista fria e humana quente.

Vide amor vide amor

Dádiva maior

Do Criador.

Vide chama vide chama

Arde abrasando o coração

De quem ama.

Vide morte vide morte

Angústia do fraco,

Continuação do forte.

 

 

Andorinha

 

Andorinha no fio

Escutou um segredo.

Veio me contar

E fugiu com medo.

Andorinha, andorinha,

Perca o medo agora...

Sou tão frágil como tu;

A vida, às vezes, me apavora.

 

 

Solidão

 

Solidão de manhã

Melhor que a solidão vã

De quem se isola do mundo

Achando que num estado

Profundo de solidão

Algo em sua vida vai mudar.

 

 

Auto Retrato aos Dezesseis Anos

 

Nasceu da noite, afilhada da lua

Odeia sol

Quase tanto quanto odeia

Prepotência e guerra

Adora flores, animais, poesia

Tem na alma um espaço cheio de cores

Escondidas e novas

Gosta de boa comida, música, primavera

Criatura da noite, ama a escuridão

Animais noturnos, frio

A chuva que fecunda a terra

Não tem por costume a fala fácil e atraente

Não consegue deixar de gostar

À primeira vista

Mesmo que o objeto da paixão seja

Um besouro

Pensa que se deve ser profunda e

Arrebatada a cada instante

Confia fácil

Desilude-se e muda a cada segundo

Tempestuosa, deixa-se levar

Ainda mais fácil

Inconstante, não sabe parar e

Perder tempo pensando

Detesta hipocrisia e intolerância

Acha que nunca será feliz

Porque felicidade é satisfação plena

E crê que os insatisfeitos

Vivem melhor consigo mesmos.

 

 

Prenúncio

 

Não quero passar por esta vida em vão

Como a estrela cadente de efêmero brilhar.

Quero ser muito mais, como o pássaro azul,

Símbolo perene do sonho da liberdade,

Que consola os homens com seu doce cantar.

 

Não quero ser como as águas dos rios,

Que apenas correm, sem nada fazer.

Que eu seja como o seu leito lodoso,

Não tão belo, mas de eterno viver.

 

Não seja eu como Midas, o rei,

Tornado ouro por seu muito poder.

Antes prefiro o destino de Cristo,
Que incompreendido e pobre, amava viver.

Feliz é o simples que o sabe ser.

 

E então, quando a matéria cansada desintegrar-se, enfim,

Ergam à minha memória apenas uma lápide,

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra das frondosas árvores outonais, e lavrem nela:

"Foi poetisa, amou - viveu a vida."

 

 

Fuga

 

Solidão absurda

Fuga sem razão

Mentes insensatas

Insanas

Verdades incertas

Indiscretas talvez

Proclamadas aos sete ventos

Com a força que o desalento

Da solidão nos dá.

 

 

Distância

 

Do que estarão falando ?

Meu Deus ! Do que falarão ?

Que falta sinto do contato

Dessas mentes descontentes,
Cheias de ambição !

Amei-os sem o sentir...

Caí em abismo profundo.

Agora eis-me a me ferir,

Vivendo isolada do mundo.

 

 

Verdades

 

A solidão é quase um ato reflexo;

É algo íntimo, complexo,

Meditado, premeditado;

Hábito meu tão arraigado,

Que é-me impossível viver

Sem um momento haver

Em que sinta essa necessidade

De viver tão somente em mim,

Dentro da minha verdade,

Estrela maior do meu camarim.

 

 

Sonhos de Verão

 

Quando a noite cai,

Recostada a pensar,

Principio a sonhar

E a realidade se esvai...

Corre, meu pensamento...
Voa, livre como o vento.

Corre o mundo, cruza os ares,

Encurta distâncias, atravessa os mares.

Voa, meu pensamento...

Leva-me a todos os lugares

Onde eu tanto queria estar.

Me leva muito, muito longe...

Me faz viajar !

Sonhando, digo às pessoas

Tudo o que eu sempre quis;

Assim, não é preciso magoá-las

E consigo viver feliz.
Sonhos de verão...
Sonhos da juventude !

Quando sonho, invento histórias

Onde há sempre um feliz final.

E, em meio a lutas e glórias,

Há um alguém especial.

Esse alguém escreve-me lindos poemas,

Jura-me eterna paixão.

Creio mesmo que é parte de mim...

Soberbo sonho do meu coração.

 

 

Súplica das Almas

 

Vós que tanto reclamais

Dessa existência em que ainda

Reina por vez a alegria,

Ouve pois esta minha súplica:

Este ente que vos fala

Há muito abandonou a vida.

Venho aqui falar a vós

De uma existência sofrida,

Tanto em morte

Quanto em vida.

Vivo, muito pequei;

Todos os fazem, bem sei.

mas eu ! Muito feri

A quem ousou me amar.

Os obstáculos que surgiram

Simplesmente ignorei.

Não procurei superá-los;

Erguer-me, não tentei.

Optei pelo mais fácil modo:

Com minha vida acabei.

Eis-me então aqui,

Pobre alma banida,

Dos seus há muito esquecida,

Condena ao eterno vagar

Pelo mais mortal pecado:

Desprezar o dom da vida.

Pago agora todo o mal

Nestas trevas sem descanso.

Esta alma arrependida

No céu não encontrou remanso.

Peço-vos que me absolvam,

Livrem-me destes grilhões !

Não suporto mais tanta dor...

Suplico a vossos corações !

 

 

Conselho

 

Que a mente reflita

Sobre tudo o que capta;

Que os olhos analisem

Objetivamente o que percebem;

Que os ouvidos não aceitem

Passivamente

Tudo que lhes é imposto;

Que dos lábios não rolem

Palavras insensatas.

 

 

O Fosso

 

Frio, plácido, sereno e firme,

És tu, mórbido fosso !

Como podes manter-te assim tão inerte

Após as trevas que derramaste

Sobre tuas redondezas ?

Ah, assassinas águas !

Ah, sórdidas ondulações !

Mantêm-te tão gélida e pétrea

Como os teus muros de pedra

E as paredes mórbidas

Que insensivelmente te cercam !

Ah, terrível paisagem da minha infância !

És tão desprezível e cruel

Como o mais bárbaro homicida !

 

 

Esperança

 

Não há mais suave martírio,

Não há mais doce prisão

Que viver com a ave azul - a esperança

Reclusa no coração.

 

A esperança do cativo

De um dia livre sonhar,

Enquanto o látego do algoz

Seu sangue faz derramar.

 

A esperança do sertanejo, ave de arribação,

Tranqüilo a chuva esperando,
Enquanto vê sua gente

Morrendo à míngua, em vão.

 

A esperança do povo,

Mantendo-se à custa são,

Enquanto vê o governo

Acelerando a inflação.

 

A esperança do amante,

Sonhando delírios de amor,

Enquanto o amado, impassível,

A outro entrega o fulgor.

 

Não há mais suave martírio,

Não há mais doce prisão

Que viver com a ave azul - a esperança

Reclusa no coração.

 

 

O Sonho

 

Acordei feliz.

Feliz ! Completamente envolta

Nesta névoa sensível e obscura,

Quente e estranha,

Envolvente,

Que me arrasta

Até o mais fundo do ser.

Sonhos...

Delírios dourados,

Mágicos pedaços

 De sentimentos e sensações,

Fusão inebriante

De esperanças e anseios...
Ah ! Os sonhos...

Renovadores da vida humana !

Queria eu para sempre perder-me

Entre a intensa neblina

Do véu da noite...

 

 

O Eterno Show

 

O show deve continuar.
O show da vida

Exasperante e sofrida.

O show da cidade

Palco de toda loucura e crueldade.

O show da dor

Sofrimento sem rancor.

O show da morte

Só o assiste quem tem sorte.

 

 

Visão

 

Era um ônibus sem vida,

Numa manhã cinzenta.

O velhote o pegou,

Subiu, e com suas vestes

Maltrapilhas de mendigo,

Com um saco sórdido às

Costas, no pior banco, como ele

Velho, sentou-se.

E, engraçado paradoxo,

Todos olhavam o velhinho.

A moça loura, o rapaz fardado,

Homens, mulheres, até mesmo

Meu olhar cruzou com o seu.

Mas, o mais formidável,

Aqueles olhares não eram de dó,

Ou de curiosidade.

Eram olhares de êxtase,

Cheios de admiração.

Aquele velhinho era Deus.

 

 

Poesia

 

Escrevo versos como quem morre;

Da agonia retiro a rima.

Eu faço versos como quem morre;

Da dor eu faço matéria-prima.

 

Outros a dor com asco afastam,

Pensando tê-la como inimiga.

A mim a dor é que me arrasta;

Em minha morbidez ela se abriga.

 

Estranhos sonhos me varrem a alma...

Desespero, lágrimas, noites perdidas.

Deles retiro minha fria calma

Em companhia de almas vendidas.

 

Almas vendidas que como eu choram

No desvario das horas vazias.

Por Deus, queria eu ter um motivo

Pra não matar as minhas fantasias !

 

 

Negro Futuro

 

Nas areias de imensos desertos

Vem o homem traçando seu rumo.

Encerra em seu andar incerto

O futuro deste mundo.

Do princípio ao fim dos tempos

Destruir ele só soube.

Será que ainda há tempo

De consertar o que nos coube ?

 

 

Modernidade

 

Caminhava um homem

Sozinho, livre de seus pensamentos,

Pelas areias de grande praia.

E achou ! Sim, achou

Estranho grão de areia,

Diferente dos demais.

Extraordinário !
Coisa mais feia e esquisita !

Absurdo ser assim tão diferente !

Abominação ! Que

Insulto à natureza !

Melhor jogá-lo fora,

Queimá-lo, ou

Enterrá-lo bem fundo,

Para que ninguém mais !

Ninguém ! Nenhuma

Alma viva se ofenda

Com sua presença

Infame, hedionda.

Odiosa !

E assim foi feito.

E o homem

Voltou para a cidade

Feita em série,

Igual a milhões de outras tantas,

Onde o esperavam todas

As corretas comodidades

Do mundo moderno.

 

 

Vagar

 

Noite tão tempestuosa e fria !

Por qual motivo a solidão abunda ?

Por que sinto-me eu tão sombria ?

Por que esta tristeza que me inunda ?

Em cada beco ressoa minha dor,

No tormento dessas horas vazias.

Nunca o mundo pareceu-me tão sem cor,

Nunca a solidão tão profunda !

Por que razão serei eu assim ?

Por que este destempero insano ?

Por que o mesmo egoísmo frio,

Ano após ano ?

 

 

Gaya

 

A vida que se inicia

De forma tão bela se faz

Como do seio da terra

 Brotam plantas e animais.

 

No ventre que se arredonda

No berço que se prepara

O amor é raiz e semente

Do novo ser que gerara.

 

Assim se celebra a vida

Faz-se nascer a esperança

Do renascimento da Terra

Renovada, Gaya criança.

 

 

Daquele Menino

 

Na curva dos séculos de longe veio

Exemplo sublime do humano destino.

Pararam todos para ouvir

A palavra ardente daquele menino.

 

Rasguem-se todas as malfadadas vestes;

Derrubem por terra as falsas alegrias.

Mirem-se o homem e sua cobiça

Na humildade daquele menino.

 

Joguem-se ao alto os horrores da guerra;

Ponham-se fora as hipocrisias.

Deixem correr o coração à fonte

Cristalina e bela daquele menino.

 

Deitem-se todos aos pés dos humildes;

Reconheçam todos  suas mentiras.

Faça-se ouvir em todos os cantos

A voz mais pura daquele menino.

 

Cuspa-se ao longe o veneno das mentes

Que descontentes norteiam o destino.

Governe-se o mundo como se deve:

Com a ingênua graça daquele menino.

 

 

Da Natureza

 

A beleza da Terra se encontra nas folhas

Que tecem nos galhos renda delicada;

Se encontra nos céus riscados de pássaros;

Nas aranhas que correm em suas teias bordadas.

 

Nos campos e vales, nas planícies e montes,

Estepes, vulcões, pradarias, fontes;

Nas éguas que correm ao lado dos potros,

Nos leões e guepardos, zebras e elefantes.

 

Nas espécies extintas havia esse toque

Sublime e possante que Ele lhes deu.

Arrastadas à ruína pelas mãos dos homens,

Que julgam-se a única criação de Deus.

 

Violar a Terra é violar a vida;

É aumentar a agonia de um futuro sem luz.

Violar a vida é desejar a morte;

É selar para o homem sua própria sorte.

 

 

Onipresença

 

Nas estrelas do céu Ele habita,

Em cada riacho faz morada.

Vive na flor mais bonita,

No cume dos montes tem pousada.

 

Ele sopra na voz dos ventos,

Nas abelhas que nas flores pousam.

Na genialidade dos inventos,

Nos sonhos daqueles que ousam.

 

Nos jovens está seu grito,

Nos velhos sua serenidade,

Nas crianças se encontra seu íntimo,

Nos pássaros, sua liberdade.

 

 

O Sétimo Selo

 

No imenso lodaçal deste mundo

Não há lugar para bondade ou paixão.

Não há espaço para nada profundo.

Somos todos templo da solidão.

 

Não há almas repletas de luz;

Não há cores a bailar noa r.

Neste abismo de desesperança

Só as trevas têm lugar.

 

Ah, o destino da humanidade

Já está para sempre traçado.

Todo esforço resultará inútil:

Nosso tempo está contado.

 

 

Balada Para Um PC Não Tão Careca

 

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Page up, page down

Não há quadro que melhor pinte

Essa loucura geral.

 

Shift, caps lock,

Control, esc sem parar.

Somos agora robôs;

Não há tempo pra pensar.

 

F5, F9,

Não há tempo para amar.

Insert, home, delete,

Não podemos escutar.

 

Enter, shift, control,

Quero o mundo controlar.

Alt, tab, caps lock,

Graça não mais haverá.

 

Apertamos parafusos;

Nos impele a engrenagem da vida.

Estamos todos confusos,

Neste país sem medida.

 

 

Vozes do Silêncio

 

Senhor,

Hoje te ouvi na voz dos ventos.

Ouvi tua voz

No pulsar de muitos corações.

Senti teu respirar

No murmúrio suave de outros pulmões.

O jogo suave das estrelas

No céu formava o teu nome.

E, Senhor, eras

O tudo e o nada,

O simples e o maravilhoso,

O princípio e o fim,

A mola mestra da vida.

Em meio às trevas,

Lá estavas, Senhor,

Como a lembra-me

De que a humanidade inteira

Está em ti, e estás nela,

Tornando indissolúveis nossos laços,

Entrelaçando nossas vidas

Em teias tão complexas e delicadas

Como não as faria

A melhor das tecelãs da Terra.

 

 

Prece

 

O meu destino em ti está,

Como em ti se encontra meu passado.

Tudo o que tenho sempre foi teu,

Como teu também é tudo o que me falta.

 

Governas minha vida, como

Me concederás a morte:

Ao leme, em mar revolto,

Ou tempo de bonança.

 

Cruzas comigo os caminhos dessa Terra

Pela boa estrada que trilhastes.

Ou, ao redor do nada.

Guias meus passos no limiar do abismo.

 

Passas como o sangue corre em minhas veias,

Suave, claro, além da insensatez do corpo.

Agarras no meu pulso e carregas minha dor

Assim como na alegria brinda-me com sua taça.

 

Teu puro amor é que me faz mover

Minha vontade em direção à ti.

Quero seguir-te, brilhar em teu seio,

Na eternidade meu sonho cumprir.

 

 

Fonte

 

Deixa nascerem em ti

As cascatas puras do amor;

Deixa fluírem as águas

Para o mar que são teus irmãos.

 

Deixa correr a fonte

Da vida na imensidão.
Deixa serenos os rios

Que percorrem teu coração.

 

Deixa brilhar no escuro

A luz da estrela maior.
Deixa que o sol fulgure

Na paz do tempo que vai.

 

Deixa que a lua ilumine

Tua trilha a caminho do céu.

Deixa que o broto floresça

Em meio ao sal e ao mel.

 

Deixa correr a fonte

Da vida na imensidão;

Deixa serenos os rios

Que percorrem teu coração.

 

 

Em Tempos de Paz

 

Rolavam as ondas em tempos de paz;

Dos mares a sorte aos homens sorria.

Nas areias da praia vagavam seu canto

De amor, de profunda magia.

 

Murmuravam as árvores em tempos de paz;

Dos galhos, cascatas de luz se filtravam.

Nascia nas folhas a seiva e o canto

Das veias pulsantes se derramava.

 

Sopravam os ventos em tempos de paz,

Semeando a vida no seio da Terra.

Cresciam em força e maravilhavam

O mar e a montanha, as ondas e a serra.

 

Fervilhava a terra em tempos de paz,

Festejando a boa semente plantada.

Em tempos de paz renasciam os sonhos

Da humanidade, revigorada.

 

 

O Rio


O rio corre para o mar por tortuosos caminhos
Caminhos às vezes tranqüilos, cheios de mansidão
Caminhos às vezes sombrios; nas veredas, escuridão
Sempre os mesmos caminhos, nas muitas vidas que vão.

Perseguem as águas do rio seu ideal alcançar
A paz das ondas serenas, a calma do imenso mar
Somos todos como barcos, frágeis e pequeninos
Em suas águas passando cruzando nossos destinos.

Serenos rios que correm para essas águas assim
Muitas vezes passam apenas como abelhas num jardim
Que voam, voam sem rumo, passando a vida buscando
E nunca nunca encontrando da vida o derradeiro fim.

Rios que passam revoltos, na turbulência talvez
Sejam no fundo mais belos, mais doces em sua altivez
Águas que correm sombrias, mas que revelam de fato
A verdadeira alegria, que persiste em cada ato.

Os rios se cruzam e se vão, as vidas se entrelaçam
As dores e alegrias ficam nas águas que passam
Nosso destino, contudo, sempre há de se encontrar
Nas mãos serenas de Deus, nas águas doces do mar.

 

Esperança Serena

 

Da esperança vem as flores
Que ponteiam o coração
Assim como em meio às pedras
Brota a água do chão.

Da esperança há sempre
Um pouco mais a esperar
Sempre a certeza da vida
Na mente a se confirmar.

Bate bem fundo a esperança
Lá dentro do coração
É como a mão da criança
Estendida em oração.

Esperança no futuro
Esperança em verdes anos
Esperança em dias calmos
Meus verdes sonhos ciganos.

Brota no peito a esperança
Como a flor brota do chão
Como a luz nascendo forte
Ilumina a escuridão.

Esperança que nos guia
Esperança que acalma
Esperança e alegria
Verde chama enchendo a alma.

 

 

Do Amor e da Fé

 

A fé é uma coisa engraçada
Muitas vezes pouca há
Mas se forte a desejamos
Nunca ela há de faltar.

A fé que move montanhas
A fé que é um pouco dor
A vela brilhando nos sonhos
A chama perpétua do amor.

Amor que derrama a vida
Amor na vida assim vai
Amor que reúne os anjos
Amor que vem lá do Pai.

A fé que arde no peito
Por mais profunda que seja
Nunca, nunca se acaba
Ao contrário, mais sobeja.

A fé que o amor traz
É a certeza mais ardente
É o alívio que dá paz
É o sopro de Deus na gente.

A fé agindo em conjunto
Une sempre os corações
Traz sempre à tona a certeza
De atendidas orações.

Somos todas passageiras
Nos trilhos de um grande trem
Mas a fé é uma corrente
Que nos leva sempre além.

Além e sempre adiante
Seguimos o mesmo destino
Os corações e as mentes
Cantando uníssono hino.

Hino de amor, de esperança
De harmonia e fé
Quando a alma se agiganta
Em um corpo de mulher.

 

 

Para Não Desistir

 

Razões para a vida
Há muitas a dar
Há muitas veredas
Caminhos sem par
Assim como o rio
Corre sempre ao mar
Assim nossos rumos
Nossa vida no altar.

Os corpos e mentes
Encadeiam o destino
Nas mãos o futuro
No peito a certeza
No fundo da alma
Não há mais tristeza.

Unidas as vidas
Unidos os laços
A mão do Senhor
A guiar nossos passos.

Caminho sem tréguas
De luta e de dor
Consola-nos todos
A certeza do amor.

Amor que se fecha
Amor que irmana
Amor que na alma
A todos levanta
O amor em meu peito
Também se agiganta.

 

Dois Mundos

 

Vento
Luz
A certeza
Dúvidas
Tantas coisas
Tantos pesares
Tantos sentimentos
Ocultos
Controversos
Nos olhos cansados
Exaustos, o Universo
Se desenha sombrio
Incertezas tamanhas
Quem dera a esperança
Quem dera a fé
Quem dera houvesse
Ainda uma vela acesa.

Contracanto
O murmúrio dos galhos
Solidão infinita
Quietude, trégua
Quase paz
Irresistível paz
Indescritível leveza
Sussurros no coração
Em meio às trevas

Ressurge a beleza
Esperança que nasce e brilha
Gotas de dourado orvalho
A vida que segue no sorriso
No deslumbramento do amor.

Um fio une dois mundos
Um elo inquebrantável
No pensamento sempre estarás
Somos todos partes
Da engrenagem de Deus
Sonhos unidos por anjos
Comunhão profunda do espírito
Intermináveis ondas
Pequeninos grãos de areia
No imenso plano celeste.

 

Aos Meus Trinta e Um Anos

 

Ah, vem a chuva enfim, serena,
Lavando os campos cheios de pó.
Chuva que cai como benção...
Gotas de alívio que banham a alma.

Chuva após a seca.
Pingos que caem a renascer a vida.
Já se vai a estiagem...
Brilhantes gotas que varrem o cansaço !

Quase se torna doce a dor da espera,
Mediante tamanho bem estar do espírito.
Como as flores desabrochando nos vales,
A alma se desdobra e se faz forte.

Retorna o azul suave ao firmamento,
Límpida calma transbordando os céus.
As nuvens se afastam, como por encanto;
O véu da mágoa aguarda o próximo inverno.

Pois que a vida se sucede em estações,
Dias de chuva, ventos, tempestades;
Anos de seca, de desesperança...
Sempre um fluxo contínuo de paixões !

Em toda semente vive já a flor;
E toda flor tem sua presença passageira.
Resta o perfume, vívidas lembranças;
A alegria suave de um doce sorriso.

 

 

Depois da Tempestade

O barco segue vagando
Os mesmos caminhos rumando
Após a tempestade tenebrosa
Devastadora, medonha
Que arrasou num instante
Dentre seus raios minha alma
Tornou-a um arquejar arfante.

Mas segue o barco seu rumo
Segue agora sereno
Nas águas deste caminho
Não há mal nem tempestade
Que me arranque do ninho
Que me abata o espírito
Que me enfraqueça a verdade.

Pois se os raios trovejam
E arrepios sobejam
A percorrer minha pele,
Meu corpo e toda minha mente,
O espírito se encrespa,
Se torna altivo e mais forte
Mesmo sob a fúria inclemente.

Um dia os raios se afastam
Voltam a brilhar as certezas
Reaparece a beleza
A vida de novo se enfeita
Não perca a fé, tem coragem
Não se perca na voragem
Pois sempre tudo se ajeita.

Enquanto isso, espera
Espera e confia sempre
Nas mãos de Deus nós estamos
E questionar não nos cabe
Aguarda com fé a justiça
Que a vitória se conquista
Por mais que tudo demore.

 

A Verde Folha

Ainda que não existam os frutos

A arvore persiste em cada folha

Cada pedaço de tronco, cada parte de raiz.

Ainda que não existam flores

A possibilidade de sua vinda ilumina o futuro.

 

Ainda que não existam somente vitórias,

Ficam pelo caminho o valor das batalhas,

A valentia de ousar, a força dispensada,

O esforço de querer ir além

E o acalorado ímpeto das vontades.

 

Ainda que não exista somente a beleza,

Estará presente sempre a vida

A cristalina maravilha de existir,

O admirável milagre de ser

Que se faz renovado a cada dia.

 

Ainda que não existam somente alegrias,

Persistirá em cada coração

Uma pontinha de esperança,

Uma verde folha ainda no galho,

Trazendo em si a certeza do amanhã.

 

 

São Francisco Revisitado

 

Senhor,

 

Fazei de mim um instrumento de vossa paz !

Que a paz possa correr o mundo 

E se tornar mais e mais palpável a cada dia.

 

Onde houver ódio, que eu leve o amor... 

Sabendo sempre que amar a quem nos ama é fácil, 

Difícil é o amor incondicional.

 

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão...

E que eu jamais me esqueça de que 

Em primeiro lugar é preciso perdoar a si próprio.

 

Onde houver discórdia que eu leve a união... 

E que jamais eu deixe a ira se infiltrar 

Em meu coração matando a flor pura do afeto.

 

Onde houver dúvida, que eu leve a fé... 

E que a fé seja sempre cultivada e sua chama 

Mantida acesa pela força da oração.

 

Onde houver erro, que eu leve a verdade...

Mas não a minha verdade, pois é preciso que se saiba 

Que cada pessoa traz em si suas próprias verdades, 

Que precisam ser respeitadas e tomadas como ponto de partida.

 

Onde houver desespero, que eu leve a esperança... 

E que eu tenha sempre a oferecer o consolo das palavras amigas 

E o carinho que conforta e alivia a dor.

 

Onde houver tristeza, que eu leve a alegria... 

Que eu seja como um raio de sol a iluminar as manhãs cinzentas.

 

Onde houver trevas, que eu leve a luz, 

E que essa luz trazida ao mundo 

Possa se difundir de coração em coração.

 

Ó Mestre, fazei com que eu procure mais

Consolar que ser consolado

Compreender que ser compreendido

Amar que ser amado

Cuidar que ser cuidado

Acariciar e beijar,

Celebrar a vida a cada instante

Desfrutar cada momento com profunda intensidade...

 

Pois é dando que se recebe,

Perdoando que se é perdoado,

Amando que se é amado,

Morrendo que se vive para a vida eterna,

Vivendo a batalha que se alcança o sonho.

 

Por Mais Que Eu Tenha Andado 


Por mais que eu tenha andado nesta terra

Apesar de tantos sonhos que ela enterra
Não deixarei jamais de acreditar

Que um dia as esperanças serão todas

Confirmadas com a plenitude das certezas.
 
Não consigo, nem conseguirei

Jamais deixar de ter essa fé dentro do peito,

De ter, apesar dos contratempos
Apesar das lutas, obstáculos, desalento,

Essa chama que arde ininterrupta.
 
Por vezes cercam os meus olhos negras nuvens

Por vezes me abalo e tudo cai
Mas na mesma medida em que me lanço ao chão

Logo me levanto, impetuoso coração

Feito de vida e guerra, obstinado e forte.
 
É este mesmo coração que enfrenta a sorte

Que mesmo estremecido ergue o olhar
Que mesmo entristecido move o riso
E ainda que sangrando enche o ar
De amor e pensamentos de amar.
 

 

Quando Eu Morrer

Quando eu morrer
Que não haja lágrimas a correr,
Mas sim o som cristalino
De muitas risadas.

Quando eu morrer
Espero que a chuva caia serena
E lave de forma abençoada
A terra onde eu estiver.

Quando eu morrer
Quero que me plantem uma roseira
De belas rosas vermelhas
Rubras da paixão que abrigo em mim.

Quando eu morrer
Que eu tenha deixado sementes
Sementes de amor, de paz, de esperança
Em cada coração que conquistei.

Quando eu morrer
Que eu seja lembrada
Não como alguém que se foi,
Mas como uma presença que ficou.

Quando eu morrer
Não quero me desintegrar
Quero virar estrela
E brilhar para sempre.

 

 

Cântico Para a Desconstrução

Se tendes medo de por abaixo os muros
Se o frio do pavor lhe freia os sentidos
Se sentes a mão pesada do destino
Aprisionando seus caminhos com sentenças imutáveis
Ah, companheiro !!! Estás perdido.
Estás definitivamente perdido no abismo da segurança eterna
Mergulhado para sempre no conforto sereno da mesmice
Nas águas paradas das certezas que jamais se abalam.
Desconstruir é preciso, sim, viver também é preciso.
Viver só se torna possível da maneira mais plena e deleitosa
Se a coragem nos impele a fazer cair por terra
Todas as máscaras, todas as certezas, todas as verdades
Absolutas que nos norteiam o pensamento.
Pois que seguir sempre o mesmo rumo é seguro, é sólido, é tranqüilo,
Mas ao mesmo tempo nos mantém cativos eternos da monotonia.
E é essa mesma monotonia e calma,
Essa mesma serena forma sempre igual de viver
Que nos traz a morte ainda em vida, o pesar dos atos não cometidos,
A derrocada definitiva dos sonhos, dos anseios, da esperança.
Que resta mais a esperar se a vida já se mostra tão perfeita ?
Que resta mais a sonhar se aparentemente tudo possuímos ?
Não, desconstruir é preciso. Demolir é preciso.
Arrancar as folhas mortas, varrer para sempre a poeira do tempo.
Tornar-se árvore nua, mas de grossa e firmes raízes.

 

 


Ausências

É incômoda a dor da ausência.
A ausência... As ausências.
Ausências que se misturam
Às folhas amareladas pelo tempo.
Ausência presente nas cartas
Espalhadas no chão do quarto.
Cartas que esboçam sonhos,
Que lembram sorrisos,
Que trazem de volta
O sabor das tardes passadas.
Cartas que se espalham
Como pálidos fantasmas,
Palavras impressas no tempo,
Cristalizadas no espaço;
Momentos que se eternizam
Como grãos de fina areia.
Grãos que vão se juntando,
Uns sobre os outros, dia após dia,
Formando em uníssono
Um grande deserto.
Deserto cheio de vozes
Trazidas pelo vento;
De miragens em suas altas dunas.
Grãos que formam
Um deserto dentro de mim.
Deserto que se amplia
Na aridez da saudade.
Cartas que se espalham...
Saudades que se misturam.
Tristeza pelo que passou.
Tristeza pelo que não houve.
Dor por tudo e por todos
Que tive nas mãos e perdi.
Dores pelo tanto que ainda irei perder.
Perdas que se cruzam e somem
Escondidas em algum lugar
Profundo de mim.
Elos que se encadeiam
Na corrente pesada da separação.

 

 

Torvelinho

E agora, que faço ?
Que faço para dar conta
Desse manancial de emoções ?
Que faço para dar conta de tantos
Sentimentos controversos, adversos, sem controle ?
Que faço para impor rédeas
Aos pensamentos que povoam meu íntimo,
Às imagens que habitam minha mente ?
Como sufocar os desejos, as iras,
As paixões, as palavras que insistem em insurgir-se
Numa rebelião crescente ?
Não tenho mais respostas
Apenas a interrogação das questões sem solução.

 

 

A Queda

Escrevo hoje não com a poesia dos momentos calmos,
Ou o lirismo incontido das horas sombrias.
Escrevo tão somente com meu punho cansado,
Com meus olhos que teimam em derramar lágrimas amargas.
Lágrimas que são contidas por mera conjunção de lugar e cargo.
Pesado cargo que me impede de ser eu mesma.
Hoje não quero consolar ninguém, não quero fazer ninguém sorrir.
Hoje queria apenas um colo para deitar,
Mãos que me afagassem os cabelos, o conforto suave de um abraço
E uma voz que me garantisse que dias melhores virão.
Me sufocam essas lágrimas impedidas de rolar,
Me deixam cravado na garganta um grito.
Motivo pior não poderia haver, tão frágeis são minhas certezas.
Com que facilidade se deixam cair por terra...
Basta uma palavra atirada em meu rosto,
Palavras que não reconheço que me caibam,
Mas, mesmo assim, mesmo sendo injustas
E descabidas, amargas palavras atiradas pela ira,
Ainda assim me ferem, mesmo de escudo em punho.
Mesmo armada até os dentes, mesmo escondida,
Mesmo inteira coberta por múltiplas certezas,
Ainda assim me ferem, ainda assim descobrem um vão,
Uma brecha inusitada entre as trincheiras.
Não deveria ser assim tão fácil a mira,
Não deveria ser tão certeira a flecha dolorida.
Mas me descubro apenas humana,
Não mais a fortaleza que construo
Minuciosamente a cada dia.
E essa descoberta me atordoa,
Pois que por trás de tudo isso, nada mais existe;
Não há chão onde deitar,
Não há braço algum a amparar minha queda.

 

 

Nas Ondas Serenas do Mar

No mar se escondem as angústias
Nas profundezas se jogam
Nas ondas seguem as tristezas
Na suavidade se afogam

No mar ocultam-se os traços
De derramadas lágrimas
Desilusões e sofrimentos
Em suas águas cálidas

Do mar renasce a vida
Em repetidos refluxos
Em suas ondas transpiram
Inusitados cursos

Cursos de águas tranqüilas
Cursos de águas agitadas
No doce balanço das ondas
Segue a vida renovada

Ao contemplar suas ondas
Que se espraiam na areia
Inspiro um novo amanhecer
O novo em meu peito anseia

Anseia por novas manhãs
Anseia por um novo dia
Uma canção se inicia
E se transforma em alegria.
 

 

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