Fique de olho: seus alunos podem ser desinteressados por
não enxergar direito
Carlos Fioravanti
Arquivo pessoal de Virgínia Nina
Rosélia da Costa: óculos ampliaram
horizontes da leitura e da escrita
e de repente, o mundo de Rosélia Ribeiro
da Costa, de 12 anos, ganhou nitidez. Moradora de uma comunidade
rural de Pauini, município do Amazonas com cerca de 16000
habitantes, ela começou a usar óculos no final do
ano passado. E pôde, enfim, aproveitar as aulas do Programa
Alfabetização Solidária, desenvolvido por
prefeituras, universidades e empresas. O programa atende cidades
do Norte e do Nordeste onde o analfabetismo entre jovens de 15
a 17 anos chega a 48% ou mais.
A psicóloga Virgínia da Costa Liebort Nina, pesquisadora
da Universidade de São Marcos (USM) e responsável
pelo programa em Pauini, logo percebeu que as aulas andavam devagar
por causa de deficiências na visão. "Os professores
procuravam contornar o problema escrevendo com letras grandes
no quadro-negro", comenta ela. Uma equipe de quatro oftalmologistas
da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp)
esteve lá em setembro e receitou óculos para 178
dos 524 alunos examinados. "O atendimento médico era
precaríssimo", diz o oftalmologista Wallace Chamon,
integrante da equipe que foi a Pauini.
A origem do desinteresse
Arquivo pessoal de Wallace Chamon
Escola de Pauini: problemas de visão
O Alfabetização Solidária está mostrando
como os estudantes de 148 municípios do interior do Brasil
enxergam mal. Mas os problemas de visão podem ocorrer até
nos grandes centros urbanos. "Alunos com dificuldade para
ver a lousa ou a linha do caderno geralmente escrevem mal e perdem
o interesse pelos estudos", diz a professora Yeda Maria Cordeiro,
diretora do Centro de Apoio Pedagógico para Atendimento
do Deficiente Visual (CAP), da Secretaria de Educação
do Estado de São Paulo. "Às vezes, quando põem
óculos, tornam-se ótimos alunos." Distúrbios
como miopia, astigmatismo ou hipermetropia são os casos
mais freqüentes, que devem ser detectados o quanto antes.
Veja como, a seguir.
OS SINAIS DE QUEM PRECISA DE ÓCULOS
Na sala de aula ou no pátio, é
fácil perceber quando os alunos apresentam problemas de
visão e devem passar por exames detalhados.
Kipper
Crianças com deficiência visual
costumam apertar ou esfregar os olhos com freqüência,
vivem com os olhos irritados, avermelhados ou lacrimejantes, piscam
muito ou franzem a testa para olhar à distância.
Podem também se queixar de tonturas, náuseas, dor
de cabeça ou sensibilidade excessiva à luz.
A má visão também pode afetar
o estado emocional. Míopes não enxergam bem de longe
e, por isso, podem evitar atividades esportivas, sentir-se inferiorizados
e tornar-se tímidos. Os astigmáticos, por ver os
objetos embaçados, podem ficar dispersivos, indisciplinados
ou com aversão à leitura.
O comportamento desses alunos é peculiar,
especialmente nos casos mais graves: andam com cuidado excessivo,
esbarram ou tropeçam com facilidade e ficam inquietos e
desatentos com freqüência. Para escrever ou ler, às
vezes aproximam-se demais do caderno ou do livro.
Mostre pequenos objetos do dia-a-dia, como um
lápis ou uma flor, a distâncias variadas, e peça
para o aluno identificar pelo nome e pela cor. A demora para dar
a resposta pode indicar problemas de visão.
Fontes: O Deficiente Visual na Classe Comum, da Cenp/SP, e Manual
de Orientação, do Conselho Brasileiro de Oftalmologia
OLHAR ESTATÍSTICO
Kipper
Um em cada cinco estudantes, em média, apresenta alguma
deficiência na visão, de acordo com levantamentos
do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). Esses problemas
abrangem desde os chamados erros de refração, como
a hipermetropia, a miopia e o astigmatismo, que provêm de
alterações na estrutura do olho, até casos
mais delicados, resultantes de acidentes ou de malformação
genética.
De cada 100 estudantes, em média dez precisam de óculos,
por apresentar problemas de refração, e cinco têm
menos da metade da visão normal, segundo o CBO. Mas não
há razão para alarme: mais de 95% dos problemas
oftalmológicos podem ser detectados com a simples observação
e o acompanhamento das crianças em sala de aula.
Evitando acidentes
O Manual de Orientação do Conselho Brasileiro de
Oftalmologia sugere alguns cuidados para prevenir acidentes, mesmo
entre alunos com visão normal.
Proíba brincadeiras com lápis apontados ou materiais
pontiagudos que possam atingir os olhos.
Selecione os brinquedos de acordo com a idade das crianças.
Certifique-se de que o espaço de recreação
é seguro.
Se uma partícula (cisco) cair sobre o olho, lave com água
filtrada ou soro fisiológico. O cisco deve ir para o canto
do olho. Com cuidado, remova-o com cotonete ou gaze. Se não
conseguir retirá-lo, tampe o olho com gaze e leve a criança
ao oftalmologista.
USE E ABUSE DO TESTE DE SNELLEN
O centenário método de avaliação
visual ainda é insubstituível
Cartela de Snellen com números da acuidade
visual à esquerda: eficácia
O exame mais eficaz para detectar problemas de
visão é o teste de Snellen. Foi criado pelo oftalmologista
holandês Hermann Snellen no final do século passado,
com base na letra "E". A professora Walkíria
de Assis, diretora do Serviço de Educação
Especial da Secretaria de Educação do Estado de
São Paulo, e o especialista Wallace Chamon ensinam a usar
a cartela, que pode ser solicitada nas Secretarias de Saúde.
Como preparar o teste — Peça à criança
que sente numa cadeira a 5 metros da parede. Então, pendure
a cartela de modo que a linha de acuidade visual 0,8 a 1,0 fique
na altura dos olhos dela. A acuidade está indicada ao lado
de cada linha.
Como fazer o teste — Teste um olho, depois o outro. Comece
pelo direito. Peça para o aluno cobrir o olho esquerdo
com um cartão ou com a palma da mão, sem pressionar.
Se a criança usar óculos, teste primeiro com eles
e depois sem. Aponte cada letra com um lápis e pergunte
se as hastes do "E" estão viradas para cima ou
para baixo, para a direita ou para a esquerda. Utilize referências
como "do lado da porta ou da janela" se as crianças
confundirem esquerda e direita. Comece do alto da cartela, indicando
duas ou três letras por linha. Se o aluno ficar indeciso
em alguma letra, mostre outras da mesma linha, para ter certeza
de que há mesmo uma falha de visão. Quando o resultado
for muito abaixo do esperado, repita o teste para confirmar o
resultado.
Como avaliar — Registre para cada olho
o valor de acuidade correspondente à última linha
que o aluno leu com mais facilidade.
Anote separadamente os resultados do olho direito
(OD) e do olho esquerdo (OE). O limite de visão considerado
normal é 0,8. Resultados abaixo desse valor podem indicar
a necessidade de óculos e de exames mais detalhados. O
valor 0,8 não quer dizer que a criança apresente
80% da visão normal. As porcentagens devem ser evitadas,
segundo o professor Wallace. Os números dos resultados
indicam, a rigor, uma divisão: 0,8 é o resultado
de 20 dividido por 25. Ou seja, uma pessoa com 0,8 de visão
enxerga a 20 metros o que uma outra com visão normal veria
a 25. Preste atenção principalmente na diferença
entre os valores obtidos para cada olho. São preocupantes
as diferenças maiores que 0,2, quando, por exemplo, o olho
esquerdo tem 0,6 e o direito, 0,9.
PARA VER O MUNDO COM NITIDEZ
O uso de óculos pode corrigir a miopia
e a hipermetropia ao fazer as imagens dos objetos se formarem
exatamente sobre a retina.
Miopia
Incapacidade para focar a distância. Deve-se ao alongamento
do globo ou a uma excessiva curvatura da córnea. A imagem
se forma antes da retina
Hipermetropia
Dificuldade em focar objetos próximos. Nesse caso, o globo
é mais curto ou a córnea tem curvatura pouco acentuada.
As imagens se formam atrás da retina.