Capítulo 1                                           

                                                                    

          Passava os dias sozinha, às vezes em cima de uma goiabeira, outras, perambulando pela chácara que fazia fundos com nossa casa.

          Vivia completamente envolvida por meus sonhos.

          Aos 10, 11 anos, sonhava...

          Via-me em uma praia cheia de palmeiras, o céu maravilhosamente estrelado, a lua espiando por entre as folhas das palmeiras e eu, já mocinha, cabelos longos, soltos ao vento, corria com o coração desabalado.

          Vez ou outra olhava para trás e o via cavalgando, quase que sem pressa, sabendo que, aquela, era uma corrida já ganha.

          Finalmente me alcançava, pegava-me nos braços e me dominava...  Como nos filmes que eu, ainda, nem via, pois não havia televisão e o cinema, me era proibido.

          Eu lutava, mas era em vão.

          Debatia-me, tentava escapar e ele, segurando-me pelos cabelos, beijava-me, abraçava-me, usando sua força. 

          Eu gritava:

          __ “Não! Não!”

          Porém, ele não me ouvia.

          Continuava me acariciando, segurando-me com força, até que eu, vencida, me entregava.

          E o céu explodia em luzes.

          Esse era um sonho constante; tão constante, que já fazia parte de mim.

     

          Sonhando acordada cresci com uma certeza interior: eu o iria reconhecer logo de cara.

          Assim que o visse!

          O homem dos meus sonhos.

          E com ele iria dar vazão ao vulcão que se mantinha oculto dentro de mim. Só ele saberia fazer com que entrasse em erupção, que se abrisse todo, liberando o fogo, até então, oculto.

          Cresci, casei, me separei e então, um dia, numa praia, eu o vi.

          Estava de costas, mas o reconheci e ao reconhecê-lo, meu corpo todo estremeceu de puro prazer antecipando o momento de explodir em violentas chamas de amor.

          Era ele!

          O homem dos meus sonhos!

          O meu homem!

          Lembro-me, com nitidez, que ele também me reconheceu.

          Ao virar-se e olhar-me, uma palidez incrível cobriu seu rosto.

          Seus lábios formaram uma linha fina e seus olhos me diziam que, também ele, havia me esperado.

          Mais tarde me contaria que, naquele momento, de meus olhos saíram estrelas.

          Estendeu-me a mão e, ao toque, levamos um choque. 

          Estremecemos.

          Não ouvi o que disse, nem seu nome, mas sinos tocaram... E eu os ouvi.

          Estrelas brilharam, saídas de meus olhos, fazendo com que resplandecêssemos com sua luz.

          Foram poucos minutos e nos separamos.

          No caminho de volta para casa pensava, vibrando de felicidade.

          Não sabia seu nome, não sabia de onde era, nem quem era, mas nada de medo em meu coração.

          De alguma maneira nos encontraríamos de novo.

          E foi assim que, depois de uma semana, voltei à mesma praia e quando ele chegou não precisei virar-me; meu coração me avisou, batendo feliz e descontrolado.

          Veio direto ao meu encontro.

          Nenhuma dificuldade, pois já nos conhecíamos, um conhecimento muito antigo, uma afinidade e uma emoção que vinham de longa, muito longa data.

          Lembranças de uma felicidade divina e preciosa.

          Passamos aquele fim de semana juntos, curtindo aquele reencontro, acariciando-nos, sentindo o prazer da proximidade de nossos corpos, o fogo crescente percorrendo-nos e queimando-nos com uma intensidade de tirar o fôlego.

          Mas não fomos além.

          Eu precisava de mais tempo e assim, no domingo, fugi dele, coração saltando no peito.

          E sem planejar, nem pensar, permiti que meu antigo sonho se concretizasse por inteiro.

          Ele me ligou:

          __ “Você fugiu de mim! Recebeu a rosa verde que lhe deixei?”

          Sua voz com uma urgência velada.

          E nos encontramos no fim de semana seguinte.

          Havia delicadeza, mas também firmeza em sua atitude.

          Gentil, levou-me para jantar e então o medo me acometeu.

          Sabia que ele iria querer chegar às vias de fato, isto é: à cama e me apavorei.

          Timidamente falei-lhe que deveríamos “só jantar; que tinha meus limites e, portanto, nada de cama!”

          Meio espantado ficou um segundo me olhando; depois, caiu na risada.

          __ Não estou pedindo nada!

          __ É... Mas vai pedir!

          __ E não pode ser no sofá?

          O medo se desfez.

          Transmitiu-me tamanho afeto que o medo se foi.

          Senti-me totalmente à vontade ao seu lado.

          Trocamos carícias, nossos corpos ardendo...

          Mas ceder com facilidade nunca esteve em meu temperamento, nem em meus sonhos.

          Eu precisava de mais...

          A cama ficou para outro dia.

   

          ...e então, numa praia onde só faltavam as palmeiras para completar o cenário, inesperadamente, ele me agarrou com firmeza.

          Eu me debatia, tentava escapar...

          Dizia:

          __ “Não! Não!”

          Tentei correr...

          Ele me agarrou pelos cabelos, rasgou a minha roupa e me venceu.

          A lua e as estrelas foram testemunhas...

          Imediatamente meu sonho veio, nítido, à minha mente.   

          Maravilhada, plena de amor, a felicidade explodindo em meu peito, fui possuída por ele e o possui... Num frenesi louco, violento e doce, explosivo, abrasador...Urgente!

          Depois, repleto de emoção, ele ajoelhou-se a meus pés, em êxtase. 

          Com medo de ter-me ofendido, balbuciava desculpas abraçado às minhas pernas.

          Assim meu sonho se tornou realidade.

          Eu havia encontrado minha alma gêmea, o amor tão sonhado e esperado.

          1980... Agosto...

          Estava com 32 anos e, se me fosse dado o direito de voltar no tempo, escolheria essa época, mesmo conhecendo todos os atropelos do caminho.

 

                                          

                                             DO LIVRO “RETALHOS DE UMA VIDA”

                                             Escrito por NÁDIA   [email protected]

                                             Direitos autorais reservados.

                                             Registrado na Biblioteca Nacional.                                            

 

 

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