Certo dia, um jovem pássaro macho migra para o sertão em busca de uma vida melhor, novos conhecimentos, algo que viesse a lhe trazer o progresso para a sua existência. Quem sabe, nesse percurso não encontraria uma árvore forte onde pudesse, junto a uma ave nativa, formar um novo ninho?

            Resolveu fincar pés em um local onde começou a trabalhar, voltado para construir um ninho, mesmo que provisório, já que havia conseguido uma parceira que o atraía. Gravetos juntados um a um, fizeram a primeira morada do jovem casal de pássaros. Com pouco, por conta das  suas obrigações, viu-se o macho forçado a mudar-se com a sua fêmea para uma outra cidade, onde veio a nascer a sua pequena cria: o pássaro azul.

            Nascida frágil, quase sem penas, era uma pequena fêmea que parecia determinada a marcar a vida do casal. O clima do local não era dos melhores, muito embora tenham trocado de ninho uma, duas, três, quatro vezes. Finalmente, quando no ninho mais seguro e mais bonito, viram-se obrigados a vir para a cidade grande, onde a labuta do macho e da fêmea ofereciam novas perspectivas. A pequena cria, agora já era a mais velha e não tão só, ou seja, o pássaro azul agora já tinha um irmãozinho. Mas isso não lhe tirava a majestade de ser, como sempre foi, a primeira e única fêmea gerada daquele casal, o verdadeiro pássaro azul. 

            Determinada, desde os primeiros vôos, por mais rasteiros que fossem, eram cheios de coragem. Machucava-se, claro, mas sempre de pé, sempre na luta. Os seus sonhos sempre eram imutáveis, por mais que a natureza lhe oferecesse novas alternativas. Nesse tempo nasceu também a terceira cria do casal e o pássaro azul já ajudava o seu pequeno irmão nos primeiros vôos, cuidando como faria uma futura mãe. Nos três ninhos da cidade grande em que habitou, sempre mostrou que conhecia o seu lugar e os seus desejos de crescer forte. Sua garra no meio de outros pássaros jovens mostrava toda a sua liderança e determinação para muitos. Era, para  os pais, motivo de orgulho, de vitória. 

            Havia sonhos também para realizar. Entre eles, preparar-se para cuidar de pássaros recém-nascidos, filhos de outras aves. Também sempre pensou, com orgulho, em mostrar aos pais que não investiram em vão naquela fêmea de aparência frágil mas que era um belo pássaro azul, exuberante pela sua sabedoria, beleza e sonhos.

            O tempo passou e logo um outro pássaro jovem, verde como os campos que tanto venera, fez pousos provisórios no seu ninho, até que os seus pais permitissem uma presença quase que constante. Era a própria natureza aproximando os semelhantes, fazendo com que a vida viesse a ter forma e se dar indícios de querer se perpetuar. As vitórias que o pássaro azul tinha conseguido em todo o seu aprendizado, até aquele momento, somava-se agora à conquista de um grande parceiro. Juntos, com o apoio dos pais, procuraram construir o seu próprio ninho e o fizeram com muito amor. Os gravetos adquiridos se somavam aos recebidos e, com carinho e criatividade formaram um belo ninho. Por outro lado, o jovem pássaro verde, juntamente com o pássaro azul, cada um no seu labor, mostravam que, com conhecimento, sabedoria e honestidade, levariam adiante todos os ideais e planos feitos pelo tempo em que se preparavam para formar uma nova ninhada. Filhos, nova casa, dignidade, limites dos vôos, horizontes, foram aos poucos se concretizando.

            Não demorou muito e logo veio um pequeno pássaro dourado, brilhante como o sol de início de outono tropical. Encheu de brilho a existência dos jovens pássaros, pois não estariam sozinhos para acolher aquela pequena ave, cheia de vida, de cor e inquietação, fazendo com que o casal de pássaros que  se formou com o migrante e a ave sertaneja, agora associados ao outro par que deu luz à ave verde, tivessem os seus dias mais cheios de sol.

            O tempo vai passando e os sonhos do pássaro azul se realizando, horas um pouco tumultuados, ora serenos, mas vão acontecendo. O mundo é o seu universo e os seus vôos serão cada vez mais altos, planejados, seguros. Sabe que também há um pássaro verde ao seu lado, um pássaro dourado para quem tenta reservar um futuro, e o suporte de outras aves mais antigas que lhes deram origem, mas que estão sempre prontas a ajudar.

            Em momentos se mostra uma ave nobre, conseguindo perdoar os mais intensos tropeços alheios. Outras vezes, enraivecida, implacável, mostra-se insensível, magoando os mais próximos, sem lembrar que as fraquezas são inerentes aos seres vivos. No entanto, passado o instante de rancor, mesmo sem confessar, é capaz de dar  as mãos, mais uma vez, e outras, àqueles que de alguma forma traíram a imagem que deles formou. 

            Planos? Sempre haverá muitos até que a ave azul consiga se sentir plena em sua existência. Outros pássaros dourados, quem sabe, completarão o seu ninho, com muito amor e com os mesmos ideais previamente traçados para o primeiro e para os outros planejados. Viver? Sim, com a intensidade que a vida possa permitir, sem correrias, mas com muita dignidade e luta. Pode-se até não se entender, às vezes os seus temores, os seus medos. Todavia, logo consegue se soerguer, com a majestade que sempre a caracterizou, mostrando para todos que não foi à toa que nasceu como um verdadeiro pássaro azul.

 

Hugo Hereda

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