O Pai e o Filho

 

Um pai falou ao seu filho: 

 – Meu filho te entregues à sabedoria e a compreensão da vida, para entenderes o mundo; construa na sua alma um templo sagrado, e sejas um monge, e todos os dias cante com a aurora, seus cânticos de louvor, para louvar o dia, mas à tarde quando o sol vai sumindo atrás do cume da montanha, e a púrpura negra da noite fechar os olhos do dia, chore com o silêncio da noite, no escuro da tristeza... 

O Filho disse ao Pai: 

– Minha alma é grande, posso construir muitos templos, meu canto é bonito, e meus lábios podem cantar, e a voz vibrante que nasce de dentro de mim, tem a força dos ventos que sopram do meio da noite... Meu olhar é terno, olho o mundo com ternura, e os meus olhos alumiam meu caminho... 

Perguntou o Filho:

– Mas por que tenho que chorar...? 

Respondeu o Pai::

– As pradarias florescem na primavera, mas não nas demais estações, e estas jamais deixarão de existir... Assim o pai e o filho conversavam, passavam horas, dias e noites, certa noite o filho falou: 

– Hoje eu não chorei ao pôr-do-sol, e os demais dias também não, e também não louvei o dia... 

Falou o Pai:

– Mas eles se passaram e continuarão a passar, eles são o tempo, o que faz com que cantamos a alegria, e choramos a tristeza, eles são o existir, são eles que dão-nos a beleza, a força e a inteligência, mas também tiram-nos... E nós, somos os passarinhos que acordam com a aurora e cantam saudando a chegada do dia, e brincam, cuidam do seus filhotes, trazem comida para eles, e ao cair do dia voam cansados para seus ninhos com medo da noite que se aproxima, trazendo o desconhecido, porque sabem que não vão cantar para o dia na próxima aurora...

 

 Vanderlei Bogen

 

 

 

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