Raimundo era, desde pequenininho, uma criança  alérgica e frágil. Sofria de uma rinite que o fazia espirrar tanto, tanto mesmo, que terminava por provocar falta de ar, culminando com uma crise asmática. Diziam os antigos lá do interior de Pernambuco, onde ele morava, que “o menino era dado a canseira”, recomendando sempre que os seus pais procurassem um médico em Petrolina, onde ele poderia se tratar e ficar bom.

            O tempo passava, e como o menino não ficava bom, terminou sendo levado para o atendimento com o Dr. Morais, médico renomado e grande autoridade em pneumologia naquele estado. Aos doze anos, Raimundo foi submetido a testes alérgicos, mostrando sensibilidade exacerbada à poeira, pólen e, especialmente aos perfumes. Para minimizar as crises, o Dr. Morais receitou um medicamento para tomar durante trinta dias. Entretanto, quando estivesse seriamente atacado, deveria fazer uso de um remédio que chamou vulgarmente de xarope, em vista da pouca cultura dos pais do garoto. Recomendou a eles que nunca deixassem faltar em casa o xarope e que dessem uma colherinha a cada oito horas, sempre que o menino começasse a cansar.

            Satisfeitos, Seu Abelardo e Dona Isaura voltam para Serra Talhada, com a receita em mãos e a certeza que fariam o filho ficar bom de uma vez por todas da canseira e dos espirros. Ah, sim! Não deviam esquecer a recomendação do Dr. Morais de eliminarem o uso de vaso com flores, manterem a casa sempre limpa e sem tapetes, além de evitarem o uso de todo e qualquer perfume. Desodorante somente sem cheiro, sabonetes neutros e antialérgicos como os dos bebês.

            Depois dos trinta dias do tratamento de choque e de seguirem religiosamente as orientações do médico, Raimundo parecia outra criança. O xarope recomendado só foi usado por 4 vezes nos 5 anos seguinte, para o rapaz, agora nos seus 17 anos. Olhando aquele corpo atlético, a destreza no futebol e a agitação natural da idade, ninguém podia imaginar que ali estava uma antiga criança alérgica, frágil, sempre com aquela rinite inclemente. 

            Muito popular, cheio de amigos, a casa de Raimundo parecia ser sempre uma festa. Da mesma forma, visitava os demais companheiros de escola e de esportes, quando aproveitavam para ouvir música, jogar futebol totó, sinuca e ping-pong, jogo em que era um verdadeiro craque. Com o passar do tempo, as reuniões que sempre variavam de casa, passaram a ser mais amiúde na residência de Ricardinho.  Por coincidência e para dar maior tranqüilidade ao Seu Abelardo e Dona Isaura, a casa deles era fundo com fundo com a de Ricardinho, não necessitando que Raimundo andasse pela rua à noite, já que durante aquelas férias, ele tinha passado a chegar cada vez mais tarde. 

            Perguntado pela predileção dos encontros na casa do Ricardinho, os amigos confessaram que era pelo lanche que a Guiomar, jovem e escultural crioula alagoana que ali trabalhava, preparava com tanto esmero para eles. E os dias iam se passando e sempre na quinta-feira, Raimundo chegava mais tarde em casa. Preocupado em não incomodar os vizinhos, Seu Abelardo questionou o filho, sendo-lhe dito que naquele dia acontecia o torneio de ping-pong e, como ele era o melhor atleta na modalidade, constantemente ficava para a disputa final. O homem acreditou piamente, pois passou a perceber que Raimundo chegava muito cansado, dando até sinais de que estava prestes a ter de volta aquela rinite tão preocupante.

            Durante toda a semana, exceto às quintas-feiras, o rapaz parecia bem disposto, chegando mais cedo em sua residência. Todavia, demonstrava uma grande ansiedade para que chegasse aquele dia, tido como do torneio de ping-pong, voltando cada vez mais abatido e mais tarde. Já na terceira semana ocorreu a primeira manifestação do retorno da rinite, isso, cinco anos depois do tratamento com o Dr. Morais. 

            Dia seguinte, bem cedo, Dona Isaura correu até a farmácia do Seu Mário, com aquela receita amarelecida pelo tempo, para comprar o tal do xarope. Sexta e sábado, três doses em cada dia, bastaram para tirar o jovem da crise. Já na segunda-feira ele voltava à casa do Ricardinho para novos papos e novos jogos. Parecia que tinha sido apenas um susto, mas, lá pela madrugada da sexta-feira seguinte, nova crise de rinite, dessa vez mais forte. Xarope à mão, Dona Isaura consegue colocar bom, em dois dias, o rapaz. 

            Mais uma e mais outra madrugada de sexta-feira tiraram o sono da Dona Isaura. Ela chegou a pensar que era pelo esforço despendido nos torneios de ping-pong ou pela frieza da noite. Mas, raciocinando friamente, Raimundo tinha o hábito de jogar mais de duas horas de futebol em uma só tarde de sábado e nas demais noites, nada acontecia. Que tinha algo estranho, diferente, tinha.

            Durante o almoço do domingo, família reunida, Seu Abelardo já cogitava em levar de novo Raimundo até Petrolina, a fim de ser examinado pelo Dr. Morais. Quem sabe, agora já não teria novos remédios, novos tratamentos para evitar outras crises que vinham acontecendo e cada vez mais forte. 

            Raimundo pediu paciência aos pais e levou uma semana sem ir à casa do Ricardinho. Mas a saudade dos amigos e também dos lanches da amável crioula Guiomar faziam imensa falta. Na segunda-feira pela noite ele já se reintegrava ao grupo de amigos. Na quinta-feira, antes de se dirigir à casa do Ricardinho, passou na farmácia do Seu Mário, bateu um longo papo e saiu com um pacote à mão. 

            Naquela noite o torneio de ping-pong foi disputadíssimo e Raimundo chegou bem mais tarde em casa, entretanto, sem nenhum sintoma de rinite alérgica ou prenúncio de uma eminente crise asmática. Para alegria de todos, parecia que o problema estava superado e que aquelas outras manifestações da doença poderiam ter sido pela polinização feita pelas abelhas ou, quem sabe, por excesso de pó provocado pelos ventos que sopravam durante todo o tempo na região. Também coincidiu com o fato de Dona Amélia ter dispensado a empregada, sobrando muito serviço, fazendo com que ela, em alguns momentos, privilegiasse outros afazeres em detrimento à uma limpeza mais esmerada.

            Agora com nova empregada, Raimundo sem os surtos da rinite, tudo parecia ter voltado ao normal. Enquanto na casa do seu Abelardo a vida retomava o curso normal, na residência dos pais de Ricardinho o ambiente parecia tenso. A mãe do jovem já não conseguia se conter em críticas à sua empregada Guiomar, dizendo que ela estava lenta, sempre sonolenta, com enjôos e nervosismo. Os rapazes pouca atenção davam ao fato, visto que continuavam a ser bem servidos e rigorosamente no horário, com os seus deliciosos lanches.

Assim como Raimundo era o expert em ping-pong, Ricardinho era o tal em futebol totó, ganhando todas as disputas. Em cada modalidade, tinha um favorito que, inevitavelmente ficava sempre para a disputa final, em determinado dia da semana. Assim é que, como o ping-pong era disputado na quinta, o futebol totó era na segunda. Na terça tinha a sinuca, cuja fera era Leonel, na quarta o xadrez sempre ganho por Marcos e, finalmente na sexta, a dama, cujo campeão era o Milton.

Os pais de Ricardinho iam sempre dormir antes do término de cada decisão, já que não havia algazarra, discussões e todos moravam por perto. Porém, a medida que o tempo ia passando, os tais torneios iam terminando cada vez mais tarde. Claro que isso era preocupante para  eles e para os demais pais, solicitando aos jovens que procurassem ser mais comedidos e limitassem o tempo das brincadeiras. No começo eles conseguiram, mas, com o passar do tempo voltaram a terminar mais tarde ainda. Raimundo, uma das preocupações de todos os amigos, não mais voltou a apresentar a tão temida rinite e aquela assustadora canseira.

Mas essa não era a única apreensão dos pais do Ricardinho. Eles observavam que a Guiomar estava cada vez mais cansada, mais vagarosa e engordando, a despeito de ter constantes indisposições gástricas. Na segunda-feira, resolveram levá-la ao médico que passou alguns exames e, enquanto não tivessem o resultado, que lhe dessem um medicamento para enjôo e vômitos. Como era uma droga nova, que observassem durante o sono se ela não apresentaria convulsões.

Os jovens, como de costume, ficaram até mais tarde e, para variar, Ricardinho terminou como finalista do torneio de futebol totó. A sua mãe permaneceu lendo na cama, esperando que os rapazes se retirassem para que fosse ver como estava Guiomar, depois de ter usado o novo remédio. Passava da meia noite, luzes desligadas quando ela saiu, pé-ante-pé, até o quarto da empregada para ver se ela dormia tranqüila. 

Lá chegando, ouviu alguns ruídos e, para sua maior surpresa, lá estava o seu filho privando das intimidades da jovem e bela crioula. Ligou a luz, fez um tremendo barulho, terminando por acordar o marido que chegou a presenciar os dois jovens enrolados na coberta, pálidos, sem palavras. Depois de um belo sermão, Ricardinho volta ao quarto, enquanto a sua mãe dizia da vergonha de ter levado Guiomar ao médico. Faltou-lhe malícia para discernir que se tratava de gravidez, o óbvio pelos sintomas que apresentava.

Virou-se para a empregada e disse que iriam assumir o futuro neto. Ele não ficaria desamparado, desde que esta se comprometesse a sair da vida do filho e desse-lhes o direito da adoção. Guiomar procurou tranqüilizar a família, dizendo que nem mesmo ela sabia quem era o pai da criança que iria nascer, pois, a cada noite, recebia um jovem campeão para festejar. No outro dia, pela manhã bem cedo, a jovem alagoana arrumou as malas e saiu triste por ter que deixar para traz tão belos e encantadores atletas.

A mãe de Ricardinho procurou arrumar o quarto para receber uma nova empregada. Em uma prateleira encontrou um frasco de remédio que cuidou de levar imediatamente até a casa da Dona Amélia. Era o xarope que Raimundo usava antes dos encontros amorosos e que passou a neutralizar o forte perfume que Guiomar teimava em usar todas as noites antes dos seus furtivos encontros. 

 

 Hugo Hereda

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