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Entrevista com Luiz Eduardo Ricon

DivulgaçãoCV: Luiz, o que de proveitoso podemos tirar da associação de RPG com educação?

Muita coisa. Se percebermos que o RPG faz com que NATURALMENTE os seus praticantes sejam incentivados a ler, a pesquisar, a trabalhar em grupo em prol de um objetivo (ainda que virtual), veremos que a simples prática do RPG como entretenimento ou hobby atua no sentido de desenvolver a criatividade, a leitura, a escrita, a expressão verbal, a organização das idéias e do texto, a atuação dentro de um grupo, desenvolvendo as competências sociais e argumentativas, além de cultivar a imaginação e a fantasia, elementos que têm sido relegados apenas à infância, mas que deveriam fazer parte das nossas vidas adultas também. E isso se refere ao RPG sem NENHUMA intenção didática... Se encararmos o RPG sob uma perspectiva educacional, veremos que ele pode ser uma ferramenta importante não para apenas "transmitir" os conteúdos, mas para criar uma OUTRA relação do aluno com o conteúdo, uma relação de proximidade e intimidade, de pertencimento. Depois que você jogou umas aventuras no quilombo dos Palmares, lutou ao lado de zumbi e "viveu" aquele momento histórico em sua imaginação (e também na emoção), acredito que a relação que você, como aluno, poderia ter com o conteúdo se transforma. Volto a dizer que acho limitante usar o RPG APENAS para passar conteúdos. Ele é muito mais do que isso. E acho cada vez mais que o que ele trabalha e opera NATURALMENTE em seus praticantes é muito mais precioso e valioso do ponto de vista educacional do que o mero fato deles aprenderem quando ocorreu determinado fato ou como se resolve uma equação do segundo grau.

CV: Como é possível transformar uma fonte de entretenimento como o RPG em uma atividade acadêmica sem que o jogo perca sua diversão e seja realmente útil para o aprendizado?

Esse é o verdadeiro desafio. A Andréa Pavão, que pesquisou sobre o RPG para sua dissertação de mestrado (o livro foi publicado pela Devir com o título "A Aventura da Leitura e da Escrita entre os Mestres de RPG") aponta que introduzir o RPG na escola pode causar exatamente isso que você disse, a perda da identidade de prática cultural (no sentido de social e não "didática") e de entretenimento. Esse risco é real e deve ser analisado com atenção por quem quer instituir alguma prática educativa usando o RPG. Mas eu acredito que dá pra se fazer um meio-termo.

CV: Você ministra palestras e oficinas de RPG e educação, de que forma o RPG deve ser usado para o ensino (seja na escola ou numa empresa)?

O RPG pode entrar na escola simplesmente como uma atividade extra-classe, com os alunos tendo a chance de jogar, de criar campanhas e histórias durante o fim de semana, ou depois do horário da aula, com a escola fornecendo o local para isso, tipo um clubinho ou grêmio, de preferência com acesso à sala de leitura ou biblioteca, para que eles possam utilizar o acervo em suas aventuras. Outra opção é o professor trabalhar com o RPG em momentos como feiras de cultura e outros eventos especiais e por último introduzir em sala de aula, mas aí, eu acredito que o melhor é colocar os próprios alunos para serem os narradores e jogadores, ficando o professor como um "consultor" especial, e coordenador da atividade.

CV: Quando você criou o jogo "Desafio dos Bandeirante" qual era sua intenção? Você já estava pensando em usar o RPG para educar ou simplesmente quis fazer algo que fosse diferente?

Minha intenção era clara. Eu e o Carlos Klimck queríamos lançar um RPG depois que soubemos do lançamento do Tagmar. Na hora de escolher o tema, tínhamos duas opções: lançar um OUTRO jogo de fantasia e concorrer com Tagmar, D&D e outros ou lançar algo DIFERENTE. EU sempre fui apaixonado pela cultura brasileira. Lia muito Monteiro Lobato na infância (o Klimick também), logo para mim a oportunidade era clara de lançar um RPG de fantasia (o gênero mais popular na época) com temas brasileiros, pois seria tanto uma coisa que traria muita divulgação e também marcaria um espaço estratégico no mercado, pois dificilmente alguém faria algo parecido, especialmente depois que já houvesse algum jogo desse tipo no mercado. Foi tanto uma decisão estratégica quanto afetiva (risos!) Mais tarde, a partir da curiosidade dos pais e professores que conhecíamos nos eventos, percebemos essa possibilidade educacional e passamos a encarar isso como mais uma responsabilidade que tínhamos. O Desafio nunca se propôs a ser educacional. é um RPG de fantasia, de aventura e magia, que por acaso trata de temas nacionais, e daí vem sua possibilidade educacional. Mais tarde, com os mini GURPS é que eu dei vazão a essa vontade de fazer algo especificamente educativo com o RPG, algo que eu acredito que seja pioneiro no mundo, especialmente com um sistema tão conhecido quanto o GURPS.

CV: Em jogos de RPG educativos, como os Mini GURPS que você criou, que cuidados devem ser tomados para que o conteúdo seja didático e como ele é produzido?

Acho que é uma questão de pesquisa e enfoque. A pesquisa deve ser criteriosa, ampla e consultando as fontes mais reconhecidas sobre aquele tema, inclusive as polêmicas, para que a gente tenha uma visão o mais completa possível sobre o tema escolhido. Depois, o enfoque é importante para saber diferenciar o que é informação relevante e o que não é, para construir um cenário que seja ao mesmo tempo atraente como tema de aventuras mas não distorça ou desequilibre a visão que a disciplina específica tem daquele tema. Acho que o segredo (se existe algum) é olhar o tema tanto do ponto de vista do educador quanto do jogador. Se você como autor renega um desses pontos, vai ter um material chato ou que não é em nada educativo.

CV: Ainda existe uma atitude preconceituosa com jogos que usam elementos da cultura nacional em detrimento as internacionais?

Acho que sim, mas em menor grau. Quando comecei com o "Desafio", o grosso dos jogadores de RPG tinham aprendido o jogo com livros em inglês, não havia RPGs em português. Com o tempo, os jogadores passaram a ser apresentados ao RPG em português e os livros em inglês praticamente sumiram das lojas. Isso ajudou a tornar o RPG nacional mais popular. Acho que o problema é mais global, afeta o cinema, a música, a cultura brasileira em geral. Mas o RPG é um dos espaços onde a cultura brasileira é valorizada e apreciada, ainda que não por todos, mas por uma boa parcela dos jogadores e mestres.

CV: Em sua coluna no "SoBReCarGa" você disse que o incidente em Ouro Preto o fez desistir de lançar um jogo chamado "Infierno", uma vez que os RPGs estavam sendo acusados de incentivar o satanismo e a violência...

Foi uma decisão empresarial, de negócios. Eu achei que não valia a pena prosseguir com esse projeto NAQUELE MOMENTO. Depois, a onda passou, mas o meu parceiro já estava em outra fase de sua vida, a banda não se chamava mais Infierno e o CD já tinha sido lançado, não havia mais a oportunidade editorial, entende?

CV: (...) Qual é a sua opinião sobre as acusações ao RPG? O jogo pode ser responsabilizado pelos atos ilícitos de seus praticantes?

Isso é difícil de dizer. Não existem estudos conclusivos e nem confiáveis sobre esse tipo de relação, tipo TV-cinema-quadrinhos e a violência. Acho difícil fazer qualquer tipo de relação com o RPG também. Pessoalmente, como jogador, mestre e autor, com mais de 12 anos de trabalho com o RPG, posso atestar que no meu entender o RPG faz exatamente o contrário, isto é, ajuda os jogadores a serem mais tolerantes, equilibrados, sociáveis. Não elimino a possibilidade de um caso aberrante, mas a violência faz parte da nossa vida, da sociedade em que vivemos, dizer que ela é culpa do RPG ou dos desenhos animados me parece uma simplificação meio estúpida. Além disso, como pai, eu me preocupo em acompanhar de perto o que meus filhos assistem, o que fazem e como essas práticas os afetam. Acho que com atenção, diálogo e abertura dificilmente vai haver espaço para esse tipo de desvio, ou ele será percebido e trabalhado pelos pais, pelos amigos ou pela escola.

CV: O que você pensa sobre a imprensa fazer acusações do tipo que acusam o RPG (assim como o cinema, a música...) de fazer apologia ao satanismo e a violência?

Quanto à imprensa, acho que é falta de informação, estranhamento quanto a uma prática cultural nova e bastante inovadora. Foi assim com os quadrinhos, com o Rock pesado, os desenhos animados, por que seria diferente com o RPG? Acredito que a partir da divulgação cada vez maior do RPG como uma ferramenta educativa, essa visão global do que é o RPG se torna mais difundida e essa miopia que enxerga apenas os temas mais chocantes (que são uma parcela pequena dos títulos do mercado de RPG), as aberrações, acabam sendo combatida pela maior arma de todas: a informação.

CV: Termino aqui a entrevista, agradecendo muito sua colaboração com nosso trabalho no site Claquete Virtual.

Eu que agradeço seu interesse no meu trabalho. Estou à disposição para o que precisar, o.k.?

Abraços, Ricon.

Carlos Campos

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