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10 mil anos de filmografia pipoca

Divulgação“10.000 A. C.” parece um "filme primitivo", descerebrado - feito para satisfazer - sem menosprezar - os instintos animais da cinematografia comercial. Dos quais Roland Emmerich se especializou no transcorrer da - discutível - carreira. Para os expectadores (homo sapiens) cansados do tal “papo cabeça”, seus projetos megalomaníacos são um oásis para apreciadores dos blockbusters acéfalos. Ou seja, comestíveis e divertidos (só) enquanto duram. Por isso mesmo são curtos. Rápidos. Alegres, sem se furtarem em colocar o conteúdo num plano inferior ao simples passa-tempo. Como neste caso, onde a "história da pré-história" dos homens é retorcida ao máximo para ganhar a dinâmica dos "arrasa-quarteirões" típicos. Com trama (mesmo que seja limitada) de menos (ainda que complicadíssima) e/ou aventura demasiada (gerada pelos exaustivos efeitos especiais, belos na medida em que são igualmente cansativos, se mal aproveitados).

Na trama, há 12 mil anos atrás, um herói desacreditado deixa sua tribo para cumprir uma profecia antiga, quase messiânica. Condensando, nesta jornada de 108 minutos, décadas inteiras da transição entre a vida nômade e o início da irrigação. Além de percorrer continentes numa questão de horas, naturalmente. Mas isso é “balela arqueológica” para Emmerich. Pois, pra ele, legal mesmo (independentes das elipses espaço-tempo) é ver uns Mamutes gigantes (virtuais) sendo perseguidos - e perseguindo - guerreiros tribais. Melhor ainda são os tigres dentes-de-sabre, predadores naturais - com dentes afiadíssimos em pura CGI. Obviamente, explorando um mundo mágico, com imagens quase pré-mitológicas, fotograficamente bonitas, principalmente quando somos levados ao "topo do mundo", vendo tudo lá de cima. Aliás, no alvorecer da humanidade - em seus primeiros passos numa terra em perfeita formação, ilustrado quando tudo se movimenta em torno (não acima) dos altíssimos picos - quase tocando os céus "recém-nascidos".

Abusando da força imagética do território vislumbrado, o diretor move a câmera através de uma inabalável palheta de bobagens - muitas delas, campeãs de bilheteria. Autor de bombas bem-sucedidas, como “Godzilla” e “O Dia Depois de Amanhã”, o sujeito trabalha realmente como se fosse uma criança, mexendo numa caixa de areia forrada de brinquedinhos sortidos. Sem qualquer discernimento maior no uso dos mesmos. A única preocupação acaba sendo desperdiçar bem o tempo vago. Sendo assim, seus “homenzinhos de mentirinha” enfrentam deuses imponentes, criaturas gigantes, ou qualquer outro desafio colossal saído da mente “doentia” (no bom sentido) do cineasta (daqueles “sem infância”). Que peca por tudo, menos pelo ideal de grandeza. Algo sempre presente em suas obras, independente das diversas críticas ao estilão “faz-de-conta”. Fruto de alguém que teima em não crescer (muito menos quando falamos da cinematografia deste cara, esta, despretensiosamente inocente). Gerando narizes torcidos na proporção em que cria também lucros astronômicos, em uníssono.

Apesar dos (inúmeros) detratores fixos - e dos eventuais admiradores - Roland tem méritos (e deméritos) para validar posições de todos os tipos. Pra cima. Ou para baixo. Sem, com isso, mudar sua forma de ser. Criando uma linguagem acessível até para o homem de Neanderthal. Nivelando as coisas por baixo, neste “mínimo denominador comum” infantilóide - presente desde que explodiu com “Independence Day”. Cartilha seguida por seus projetos posteriores, como este fraco “10.000 A.C.” (que limita-se a seguir a boiada). Assim sendo, tem ação, aventura, pirotecnia, comédia, frases tolas, incongruências históricas-científicas... Portanto, é tudo. E nada. Ao mesmo tempo. Evidentemente, servindo a Sétima Arte fast-food como poucos fariam. Seja por sua competência, vergonha ou total desprendimento cultural. Mas, sobretudo, por tratar o cinema como uma mera brincadeira. Doa a quem doer.

 

Carlos Campos

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