O forte cinema dos irmãos Coen
Primeiro já vou avisando, este filme realmente não é para os fracos. Sejam eles personagens ou espectadores desavisados. Existe aqui uma brutalidade análoga a própria repressão gerada pela “terra de ninguém“ onde a história se passa. Tommy Lee Jones, vestindo a insígnia de Xerife, deixa isso bem claro no monólogo de abertura deste belo (e pesado) faroeste contemporâneo. Discurso amparado pela necessária exposição da citada - rústica - paisagem. Que automaticamente nos remonta ao "Oeste Selvagem" tão retratado nas antigas sessões de cinema americanas - repletas de valentes cowboys e perigosos "foras-da-lei". Sobre tamanha semelhança, exaltando as influências do próprio gênero no trabalho de Ethan e Joel Coen, Tommy Lee ainda acrescenta: “É impossível não compararmos com o passado”. Um lembrete importante se quisermos entender a complexidade do material criado pelos (reconhecidamente talentosos) irmãos cineastas.
O ambiente, assim como num autêntico Western, adquire feições de protagonista, pois a compreensão de suas imagens nos guiará pelos meandros das criaturas que habitam estas pastagens. Como a figura vivida por Josh Brolin, caçado pelo matador-frio (psicopata) encarnado pelo ator Javier Bardem, após encontrar - por acaso - e se apossar (gatunamente) de uma mala com 2 milhões de dólares - provenientes de uma fracassada venda de drogas no meio do deserto sangrento. Em determinado ponto, Brolin se posta diante da câmera para cuidar de um ferimento provocado em sua brava fuga com a grana, deixando ao fundo um incidental relevo machucado pelas mãos invisíveis do tempo. O corte entre as montanhas demonstram um rasgo similar ao buraco estancado no corpo do “mocinho”. Como se as lentes nos dissessem: as marcas indeléveis do cáustico local se tornam presentes, literalmente, naqueles que se encorajam em atravessá-lo.
Repressão física somada aos abalos psicológicos vociferados no rastro dos corpos deixados para os lobos se alimentarem. O termômetro deste destempero aparece irresistivelmente estampado na atuação de Bardem, aparentemente se divertindo um bocado no papel de assassino-louco (de pedra). Javier constrói uma persona inabalável, como exigido pelos termos da cruel narrativa. Nem um pouco gentil. A linguagem adotada pela dupla de diretores transparece a robustez comum aos seres colocados nas telas (e vice-versa). Com cortes abruptos e uma câmera sem qualquer tendência conciliatória para facilitar a vida do público - colocado para correr atrás da trama. Um ato mordaz. Principalmente para quem não conseguir acompanhar este ritmo/estilo seco e contumaz. Tudo tem o seu preço. E teremos que pagá-lo. Como vamos aprender a duras penas no transcorrer dos acontecimentos.
Assim, as coisas surgem e desaparecem sem rodeios. Sem concessões. Exemplificando o peso da fatalidade abatendo-se, principalmente, sobre os “Fracos” citados pelo título. Deixando evidente que eles “Não Têm Vez” na dura percepção dos Coen. Relativizando, com esta postura firme, os efeitos da “coragem” inerente - e valorizada - nas disputas para decifrarmos quem é o verdadeiro “gatilho mais rápido”. Um momento de fraqueza torna-se suficiente para os rumos deste bang-bang mudar drasticamente. Rebaixando heróis e bandidos à mesma categoria de opressores e oprimidos, simultaneamente. Todos, pagando o pato pelo austero mundo criado neste atordoante longa-metragem. Capaz de nos penalizar na proporção em que castiga (igualmente) suas adjacentes pessoas fictícias - como manda, aliás, a tradição do grupo cinematográfico lembrando/homenageado nesta obra-mestra.

