Haverá sangue e sombras
Títulos nem sempre fazem justiça a natureza real de um filme. Outros, já evidenciam - desde sua exposição lá na marquise luminosa do cinema - quais elementos serão encontrados pelo público caso decidam por assisti-lo. Como uma espécie de aviso, preparando o espectador incauto para uma projeção sem concessões ou pausas para retirar a criançada da sala. Como é o caso deste exemplar cinematográfico. O título original, “There Will Be Blood”, dá o alerta de que “Haverá Sangue” (numa livre adaptação) e o nome adotado no lançamento brasileiro, “Sangue Negro”, complementa a sugestiva alcunha norte-americana: tudo por causa do petróleo. Principalmente, dos sacrifícios feitos para se obtê-lo.
O longa começa nos colocando como única companhia do igualmente solitário personagem de Daniel Day-Lewis, caçando-cavocando ouro/prata em locais tão distantes da humanidade quanto tal rude figura faz questão de ficar. Marcado pela obstinação, o minerador se tornará um empreendedor pioneiro ao descobrir petróleo - acidentalmente, numa de suas investidas, antes mesmo da chegada do século XX. Migrando da dura posição de trabalhador braçal para um marajá dos poços de perfuração. Transformação lapidada por sua lábia dócil, simples, direta e persuasiva - composta por Lewis, num trabalho estupendo de completa/total imersão, deixando evidenciar o (difícil) esforço de sua cara-metade fictícia em se comportar desta forma apenas para conquistar a confiança das pessoas. Abominadas - no íntimo - por ele.
Entretanto, o sucesso financeiro não ocorrerá sem contratempos. E aqui a película aproveita para contrapor duas importantes instituições para a construção da História (com “H” maiúsculo), a Indústria Petroquímica e a Igreja. Pois, os problemas começam a aparecer - coincidentemente - após o pedido de “benção” (para um dos novos poços descobertos) ter sido negado. Fora um dízimo acordado e nunca pago. Dificuldades técnicas... Baixas humanas... Toda uma gama de infortúnios surgem só para suspeitarmos dos "Céus" - que parecem conspirar para derrubar cada torre petrolífera erguida sob esta Terra. Mas cego pela cobiça, a figura eternizada por Day-Lewis insiste em seguir por caminhos próprios, pouco se importando com a providência divina - ou ajuda de terceiros, de quem desconfia (a cena do batismo é um verdadeiro primor neste sentido, engraçada e dramática como deveria).
Tal persistência termina por vitimar seu filho, cuja audição acaba perdida depois de um acidente na prospecção. A “cegueira” do pai com relação ao drama da criança (ou sobre uma possível ira do “Senhor”) é emblemática, sendo que a própria surdez parece alentar para as dificuldades de comunicação familiar - evidenciada pela quase ausência de diálogos entre progenitor e rebento - ostensivamente - mesmo antes da fatídica explosão. Apesar de ficarem juntos quase o tempo inteiro. Detalhe explorado pelo diretor Paul Thomas Anderson, colocando-os insistentemente - silenciosamente - emparelhados, caminhando por belíssimos (longos) planos conjunto. A contraposição com os cenários, inclusive, faz parte da complexidade visual bolada pelo excelente Anderson, explorando o combustível fóssil tanto quanto o selvagem meio-ambiente deixado ao fundo - e postado diante dos homens.
Vide o take utilizado para mostrar - simultaneamente - a construção de um tubo de escoamento (visto em primeiro plano - como se fosse uma prioridade na vida/perspectiva destes desbravadores) com o reencontro de pai e filho (em segundo, literalmente falando - depois, forçosamente centralizado na imagem para marcar o esforço de ambos para mudar a controversa relação "família vs. trabalho"). Nestes momentos, especialmente, a música se faz presente com composições mais pesadas do que as imediatas situações resvaladas nas telas. Utilizando um tom macabro, propositadamente mantendo um fio de constante tensão (quase subriminar), alertando a todo - santo - momento para os comunicados audíveis no registro deste longa-metragem. Não espere por resoluções fáceis. Só por fatalidades. O “mundo” construído na viril luta pelo precioso líquido escuro é tão mortífero quanto uma chama acesa (perto demais) do galpão de combustíveis - altamente - inflamáveis.

