Os segredos de Cloverfield
Preciso confessar uma coisa antes de começar. Tenho certa afixação por monstros gigantes que destroem tudo pela frente. Cheguei - na adolescência - a (tentar) gravar alguns filminhos caseiros, onde monstruosos bonecos miniatura despejavam sua ira destrutiva contra inofensivas maquetes (mal feitas) de plástico. Portanto, minhas expectativas com relação à “Cloverfield” (me recuso a citar o bobo-desnecessário-absurdo subtítulo “Monstro” acrescentado a versão tupiniquim) eram altíssimas. Principalmente depois da inteligente campanha de marketing, usando e abusando da Net (através dos fãs do gênero) como veículo propaganda da nova empreitada de J.J. Abrams (criador do seriado “Lost”). Uau... Foi uma baita espera até a estréia deste curioso longa-metragam, contei os dias, felizmente, valeu a pena.
Para efeitos comparativos, a película segue um esquema até parecido com o estabelecido em “A Bruxa de Blair”, ou seja, só vemos nas telas as imagens feitas pelos próprios personagens - munidos de suas respectivas câmeras amadoras. Testemunhas oculares amparadas/incentivadas por fenômenos “documentaristas” da vida como o popular site de vídeos Youtube (outra co-relação deste produto com a Internet). Portanto, os olhos do público são os mesmos dos protagonistas. Enxergamos o que eles vêem - apenas. Inteiramente rodado desta forma, o longa se constituí numa experiência visual diferenciada, onde o suspense e a sensação de perigo - real - se sobressaem à natureza fantasiosa da história. Gerando uma obra audiovisual que basicamente justifica totalmente-completamente sua qualificação enquanto “Cinema” (conjugação de áudio + visual). Na sua essência.
Logo no desenrolar dos primeiros minutos, somos apresentados ao elenco, enquanto uma festa de despedida é organizada, já que o homenageado da noite está prestes a se mudar para o longínquo Japão - ironicamente, conhecido historicamente como o lar cinematográfico de inúmeros “Cloverfields”. A câmera caseira (nervosa - provocando enorme sensação de tortura) de um dos participantes permanece atenta a cada detalhe da festa, interrompida por um sonoro estrondo. Seguido do caos mais absoluto. Daí pra frente, o mundo vem a baixo - o desespero toma conta de uma Nova York atingida ferozmente, do nada. Se você ainda tem as imagens do “11 de Setembro” na cabeça, fica fácil imaginar a magnitude (multiplicada exponencialmente) do inferno criado ao redor dos apavorados habitantes da “Grande Maçã”, completamente perdidos e sem qualquer idéia do que lhes acomete.
Sim, como o nome do filme já entrega previamente, se trata (realmente) de um monstro. Amendrontador, voraz, gigantesco. Contudo, não esperem outras informações. A história é mesmo reducionista. Até pelo processo adotado pela narrativa: seguir as figuras mais ordinárias em meio à devastação provocada pelo atordoante ataque. Só tomamos conhecimento daquilo que chega ao conhecimento das personas acompanhadas pela trama. Rapazes e moças comuns, diante de um evento muito maior. Esta falta de explicações sobre o enredo (como tudo começou ou acabará) pode irritar alguns, mas se torna um artifício precioso para criar tal clima de medo paralizante - absurdamente realista. Colocando o público numa situação tão indefesa quanto às vítimas da monumental criatura.
Ótimos efeitos especiais e um excelente trabalho de direção (a cargo de Matt Reeves, cria de Abrams) emulam o restante da veracidade encontrada neste - assustador (literalmente) - exemplo de como usar apuradamente imagens e sons (estes últimos importantíssimos, inclusive no final dos créditos) para o registro deste abissal rompante de violência. A cidade (rapidamente) vira palco do desproporcional embate “exército incapacitado” contra “invasor desconhecido super poderoso”, ao mesmo tempo em que pacatos cidadãos tentam fugir - desesperadamente - do visceral campo de batalha. Baixas crescem conforme a progressão geométrica da destruição, evidentemente. Sem dar (qualquer) descanso ao longo de seus minguados 85 minutos. Poucos, porém, suficientes para dar cabo desta saga-catástrofe.
Todavia, mesmo diante de tal correria translocada, sequer fica difícil supor como transcorrerá o ato derradeiro - vide a análise feita logo na cena de abertura. Normal. Já que a proposta aqui é exatamente igual. Deixar para cada espectador a tarefa de tentar explicar o que assistiram - quase sempre de relance. Brincando com nosso imaginário e abusando de nossa fértil capacidade em criar teorias a respeito do enigmático “Cloverfield” (eu mesmo tenho as minhas). Assim, naturalmente, a peça fundamental deste quebra-cabeça sci-fi é a imersão proporcionada. Amplificada pela forte sensação de veracidade-fantástica. Numa devastação tão chocante que deixaria Godzilla (em pessoa) orgulhoso com os feitos - cinemáticos ao extremo - de seu colossal (misterioso) co-irmão norte-americano.

