Crônicas de uma adolescente grávida (acidentalmente)
"Juno" está para o Oscar 2008 tanto quanto “Pequena Miss Sunshine” esteve para o Oscar anterior. Assim como no longa-metragem citado, a película atual carrega em si um ar simplório (quase despretensioso), contudo, de longe é o filme mais simpático (carismático ao extremo) do ano. E por vários motivos. Roteiro, atuações, direção, trilha... Cada aspecto indicado ao prêmio da Academia, técnico ou artístico, corrobora para a criação deste - pequeno - milagre cinematográfico, capaz de transformar “tamanha” produção independente (de baixo orçamento) num “arrasa-quarteirão” capaz de amarrotar os cofres e - extemporaneamente - cair automaticamente no gosto da (sempre) exigente crítica especializada.
Fica mesmo virtualmente impossível não se apaixonar por “Juno”. E por tudo o que alicerça um dos melhores longas exibidos ultimamente nos cinemas comerciais. A começar por Ellen Page (a Kitty Pryde em “X-Men 3”), emendando uma promissora - oscarizada? - carreira no papel de Juno, uma imatura adolescente grávida “antes da hora”. A moça tem uma atuação irresistível, daquelas para ficarmos torcendo por uma - merecidíssima - premiação, diante de tanto talento despejado nas telas. A atriz consegue passar com enorme personalidade os apuros de uma jovem marcante, principalmente pela (mesma) forte... Personalidade! A característica comum entre interprete/personagem. E isto fica evidente quando a menina, cujo nome de batismo homenageia a esposa de Zeus, não consegue se definir como pessoa (dentro de um grupo ou arquétipo) em vários momentos da trama. Ela é única. Diferente. Aumentando o drama e o fascínio proporcionado por tal figura - tão distinta das outras.
Page, logicamente, é auxiliada por um texto delicioso, repleto de (meticulosas) referências pop-cult (até a velha gorda dos Goonies é lembrada!) e cuidadoso ao abordar carinhosamente o universo adolescente - retratado até de forma bem-humorada. Além de contar com o olhar autoral do diretor Jason Reitman (lembrado pelo ótimo “Obrigado por Fumar”), responsável por uma narrativa simples, direta e ainda sim, cativante. Muito cativante. Passando de animações nos créditos iniciais a inteligentes composições visuais, ilustrando o farto imaginário juvenil presente neste belo enredo. Mas principalmente sabendo se aproveitar - preciosamente - de um aspecto importantíssimo para o sucesso desta obra: sua exuberante trilha sonora.
O compositor Mateo Messina recheou seu score com belas músicas indie, emoldurando a história com o mesmo tipo de música que - suponho - faria parte da junglebox de Juno. Principalmente as várias canções de Kimya Dawson utilizadas, a cantora anti-folk funciona como “tema” da heroína principal, transformando suas melodias em verdadeiros depoimentos subriminares dos monólogos interiores da gestante título. A abstração surtiu tanto efeito que as músicas instrumentais também se baseiam nestas composições, sustentando uma espécie de “refrão” para os diversos momentos (divididos entre as 4 estações do tempo) que compõem a passagem da “bruxinha” pela (difícil) gestação prematura.
Só para registrar, vale citar também o alto nível do elenco, contando - inclusive - com alguns rostos bem conhecidos (como a “Elektra” Jennifer Garner e J.K. Simmons, o “J.J. Jamerson”, patrão de Peter Parker em “Homem-Aranha” e suas posteriores continuações). De resto, pouco sobra a dizer a não ser terminar este texto, humilde e sinceramente, recomendando amplamente este filme. Claro, “Juno” pode não ser perfeito, o “melhor de todos os tempos”, nem agradar a todos, entretanto, seria um tremendo pecado à Sétima Arte deixar de divulgar/propagandear um produto tão atraente. E custoso de se encontrar, portanto. Corra quando a oportunidade - indispensável e/ou única - de assisti-lo aparecer, faça-me o favor.

