O poderoso chefão do Harlem
Três indicações ao Globo de Ouro, incluindo melhor filme, diretor e ator (drama). Um baita cartão de visitas, sem dúvida. A trinca de categorias importantes já evidencia precocemente o sucesso da nova parceria entre Russel Crowe e Ridley Scott, astro e maestro, respectivamente, do mega-sucesso “Gladiador”, ganhador de 5 Oscars em 2001. Oscar que foi cruel com a película atual, "rebaixada" a duas indicações “menos importantes” na badalada premiação da Academia. Contudo, mais representativas - principalmente - quanto às qualidades deste ótimo (imperfeito) longa-metragem.
Após mitificar a Roma Antiga, Scott resolveu apostar num nicho (bem) freqüentado pelos grandes cineastas norte-americanos. Costumeiramente, as sagas mafiosas rendem filmes ímpares na carreira de qualquer artista de renome. “O Poderoso Chefão”, “Scarface” e “Os Bons Companheiros” fazem parte deste acervo de peças mestras, elevando seus criadores para outro patamar de apreciação. Pedestal maior que inexiste para Ridley, autor inconstante, capaz de realizar pérolas cinematográficas (tipo "Blade Runner: O Caçador de Andróides") e emplacar verdadeiras “bombas” logo na seqüência. Sem conseguir render o suficiente para criar uma autêntica “obra de arte”, o talentoso comandante acaba por realizar uma sessão de altos e baixos, evidenciando sua própria cinematografia, marcada pelos mesmos solavancos. Felizmente, com os altos superando os baixos, como seu currículo já corrobora há tempos.
Usando de seu habitual olhar clínico e meticuloso, o diretor consegue reproduzir (auxiliado por uma Direção de Arte - justamente - indicada ao Oscar) um cenário impecável da Nova York entre as décadas de 60/70, repleta das mazelas que deram ao ex-guarda costas Frank Lucas (Denzel Washington) a oportunidade de dominar o tráfico de drogas - num universo controlado pela “branca” máfia italiana. Com maneirismos de um legítimo cavaleiro, Lucas esconde das autoridades (corruptas ou não) sua existência. Agindo diretamente sem atrair suspeitas, mesmo trabalhando - por vezes - com enorme violência. Na frente de todos. Erguendo seu império sabendo se aproveitar do caos social cosmopolita provocado pela decadência acentuada neste difícil período histórico - com a Guerra do Vietnã ao fundo.
A atuação de Denzel é chamativa como sempre (fazendo valer à máxima de nunca errar na escolha de seus filmes). Em mais um personagem “de cor” importante historicamente. Demonstrando sua (legítima) participação inegável para a valorização dos atores negros em Hollywood. No encalço do bandido, Crowe interpreta um dos poucos policiais honestos da cidade, cuja função na trama parece servir para inspirar seu companheiro de tela, pois a disputa entre ambos escorrega para uma titânica - e sadia - luta de “performances”. Cuja vitória ficou com a “menos cotada” Ruby Dee, indicada surpreendentemente ao Oscar de Atriz Coadjuvante por sua inspirada composição de “big mama”.
Desta soma entre nomes fortes e impecável recriação de época, “O Gângster” consegue se desvencilhar da narrativa entupida de (necessárias) figuras secundárias, todas, incapazes de aparecer adequadamente na comprimida/complicada historieta. Basta olharmos as fotos dos “procurados” nas paredes da central policial para notarmos a vastidão da operação criminosa e posteriori repressão. Elevando consideravelmente (para desespero da edição) a quantidade de personas - muitas delas desperdiçadas pelo pouco espaço - que cercam os protagonistas. Algo que encarde o conto, entretanto, sem manchá-lo ao ponto de deixá-lo intragável. Pelo contrário. Sobra charme para este belíssimo retrato clássico-setentista do lado podre da vida.

