A lenda do projeto maldito
Normalmente já devemos ficar com o pé atrás quando o assunto é Will Smith e seus "grandes" blockbusters de fantasia/ação/aventura. Estas produções "pipoca" - como “Independence Day”, “As Loucas Aventuras de James West” e “Eu, Robô” - não raro, proporcionam péssimas experiências, extremamente decepcionantes - sempre lotadas de efeitos especiais para compensar os vários defeitos (claros) enquanto cinematografia. E “Eu Sou a Lenda” tinha tudo para seguir nesta - detestável - esteira.
A terceira adaptação para os cinemas da sci-fi escrita por Richard Matheson em 1954, contudo, surpreende. Pelo lado positivo. E olha que as coisas poderiam ter sido diferentes. Após duas versões bem distintas, uma fiel ao livro e outra com a cara dos anos 70, o projeto de levar esta história (apocalíptica) novamente às telas parecia fadada ao fracasso garantido. Durante anos, a “bucha” passou de mãos em mãos na problemática Hollywood, sem ninguém conseguir luz verde para iniciar a filmagem. Nomes de peso, como Arnold Schwarzenegger, chegaram a namorar o roteiro (já amaldiçoado depois de tantas tentativas frustradas), texto que acabou parando na mesa de outro (improvável) astro: Will Smith. O ator conseguiu a proeza de não só tirá-lo do papel como transformá-lo num filmaço atípico - se levarmos em conta suas incursões anteriores ao gênero e o “histórico maldito” de “A Lenda...” até aquele momento.
Ironicamente, o sucesso da empreitada se deve (relativamente) a mesma “entrega” ao “puro cinemão” (antes) tão nociva na filmografia de Smith. Dando a película uma cara diferente de suas encarnações passadas. Sejamos sinceros, tal narrativa sobre destruição em massa realmente ganha robustez quando podemos observar esta hecatombe com toda a megalomania que os altos orçamentos conseguem comprar. Na trama, um vírus mortal dizima a humanidade, deixando o imune personagem de Will sozinho na devastada Nova York do futuro. E aqui está a grande tacada do título. Mostrar de uma forma realista - em escala real - a aterradora destruição da megalópole (Bin Laden, particularmente, vai adorar esta parte). Criando uma imensidão vazia - caindo aos pedaços - que só ajuda (adequadamente) na atmosfera de solidão (plena) colocada sobre o protagonista.
Com todo este cenário favorável, literalmente, Will Smith entra em cena. Andando por uma N.Y. verdadeira (quarteirões inteiros foram fechados para as gravações) com enorme competência, numa atuação muita acima de suas (demais) obras comerciais. A estrela do finado seriado “O Rei do Pedaço” consegue se impor apostando no lado humano - falho e sincero - do herói, conseguindo uma identificação imediata com o público. Algo providencial, já que 2/3 do filme mostram apenas Will em companhia do fiel cão de guarda (a simpática cadelinha Sam). Sobreviventes do massacre e dos ataques das criaturas noturnas que assolam as ruas após o sol se pôr. Boas cenas de suspense, CGI incluído cuidadosamente e ótimo desenvolvimento das questões (existenciais) levantadas encarregam-se de manter a qualidade do longa em sua - quase - totalidade.
Só o final perde impacto - desnecessariamente - se prendendo no (anti-climático) “Happy End”, apesar da existência de uma (interessante) resolução filosófica "alternativa”, mais melancólica (similar ao encerramento original encontrado no romance), limada na sala de edição e cotada para integrar o futuro DVD “Especial”. Menos mal. Entretanto, a derrapada na última volta é resguardada pela aparição de Alice Braga (“Cidade de Deus”), sobrinha de Sônia Braga. A moça aparece (fazendo o papel de uma brasileira!) nos momentos decisivos, marcando terreno e galgando (logo na primeira estocada) uma promissora carreira internacional. Ganhando - merecidamente - elogios rasgados do próprio companheiro de tela, “A Lenda” (fã de Shrek e Bob Marley) que conseguiu salvar da catástrofe um longa-metragem cotado para permanecer - eternamente - engavetado.

