Nascido para zoar até na tela grande
“Bee Movie” propõe uma parceria das mais inusitadas. Nem estou me referindo à trama (reunindo uma indecisa abelha recém-formada com uma nova-iorquina dona de floricultura), mas da união entre os dois nomes fortes por detrás desta simpática animação computadorizada, Jerry Seinfeld e Steven Spielberg. Seinfeld, reconhecido mundialmente pelo (ótimo) seriado de mesmo nome, concebeu a idéia que Spielberg (dispensando apresentações) e seu estúdio DreamWorks realizaram prontamente. O resultado deste esforço combinado deixou abelhas e humanos em lados distintos no tribunal, onde a humanidade é processada por roubar e consumir ilegalmente o mel fabricado nas colméias.
Roteirizando e atuando no papel principal de Barry Benson, autor desta ousada “ação” de perdas e danos, Jerry brinca com este absurdo - e divertido - processo judicial. Utilizando sua já conceituada habilidade para criar trocadilhos inspirados - alguns até difíceis de serem entendidos, como a engraçada alcunha dada ao longa-metragem. “Bee Movie” soa como “Filme B” em Inglês, numa alusão as produções de segunda categoria - adaptadas para este (igualmente absurdo) “Filme das Abelhas”. Situações neste estilo recheiam a película, num humor irreverente, irresistivelmente típicos do citado/consagrado comediante. Porém, as “gags” são deliberadamente mais “bobinhas” do que o habitual, claramente realizadas assim para se acomodarem na linha dos desenhos infantis. Embora possam agradar (pela esperteza das "tiradas") algumas “crianças” BEM grandinhas.
Felizmente, o longa não vive só do “jogo de palavras”, abrindo igual espaço para hilárias comparações entre as sociedades de cada espécie e o comportamento dos outros insetos frente à vida operária dos zangões ordinários. Não faltam também participações especiais (como a bem bolada aparição de Larry King, um popular apresentador norte-americano, sem contar a paródia feita em cima de um famoso ursinho comedor de mel...) e a necessária exploração do universo das abelhas - pelo ponto de vista delas mesmas. Obviamente, a proposta aqui não é ser fiel a nenhum capítulo da National Geographic, portanto, esperem encontrar uma fauna organizada aos moldes (porém caricatos) do mundo homo sapiens.
Tamanha é a fixação de Jerry, como qualquer outro humorista à altura, pela textualização de suas piadas, que o lado visual, apesar de tecnicamente bem-acabado, fica abaixo se comparado com os avanços obtidos por outras obras semelhantes. Tudo é agradável de se ver. Contudo, não existe nada de novo para quem já se acostumou com a primazia das animações em três dimensões. Talvez, tenha sido melhor assim, pois desta forma, não apegada ao poder ilusório das imagens, “A História de Uma Abelha” se mantém concentrada naquilo que o título pode oferecer de melhor: a marcante presença (sempre) inspirada de Seinfeld (principalmente para os saudosistas do cult programa televisivo).
Sobra para o público brasileiro, vítima da competente e odiosa dublagem. Sempre utilizada quando falamos em desenhos animados. Artimanha esta, necessária para a criançada, só que cruel para os adultos, impossibilitados de ouvir o que “Bee” tem de essencial: Jerry Seinfeld. E mel algum pode estancar tamanho gosto agridoce. Sem ele, com sua voz e interpretação peculiar, a aventura perde muita personalidade. Uma pena. Já que acaba “matando” a produção tanto quanto se extraíssem o ferrão de uma abelha.

