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Falando a linguagem do amor

DivulgaçãoÉ sempre um enorme desafio transpor títulos literários tão bem acabados (como é o caso de “Amor nos tempos do Cólera”) para os cinemas. Os riscos de escorregar são proporcionais ao reconhecimento que tais livros deram aos seus criadores, já que as pressões para o sucesso se repetir são enormes. Costumeiramente lembrado como uma das maiores histórias de amor já escritas, esta adaptação da belíssima obra tecida pelo ganhador do prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez, mantém muito da inspiração romântica do original, mas escorrega na difícil tarefa de escapar ileso das concessões (frutos das tais pressões) feitas para (tentar) se adequar aos mercados mundiais.

E isto fica explícito (logo) de imediato. A começar pela insistência do diretor Mike Newell em lidar com um elenco (e equipe) internacional. Apesar de juntar um grupo respeitável de profissionais, a produção (norte-americana) se descuidou na hora de render-se totalmente ao idioma do Tio Sam, exclusivamente, mesmo tendo que lidar com atores/atrizes majoritariamente hispânicos - uma vez que a saga se passa em terras espanholas. Mesmo para os não-fluentes na língua Inglesa, o deslize fica extremamente audível, pois todos (incluindo nossa representante brasileira, Fernanda Montenegro, bem, apesar de todos os problemas) falam de forma arrastada, com risível sotaque e enorme dificuldade. O que atrapalha um bocado na hora de desenvolver uma atuação mais convincente.

Outro deslize bobo - se levarmos em conta o alto investimento (contando - inclusive - com uma bonita música original interpretada pela colombiana Shakira) e a qualidade técnica empregada (vide a ótima fotografia/reconstituição de época) - fica por conta da sofrível maquiagem adotada para o gradual envelhecimento dos personagens. “Amor nos Tempos...”, lida (justamente) com um amor que resiste ao tempo, acompanhando o amante platônico Florentino Ariza (vivido na fase adulta por Javier Bardem de “Mar Adentro”) em sua longa espera para (ousar) consumar sua paixão contumaz pela difícil Fermina Daza (Giovanna Mezzogiorno de “O último beijo”). Ambos chegam à terceira idade de forma pouco convincente, atrapalhando os interpretes na árdua tarefa de dar veracidade ao relato - como seria necessário - principalmente no registro dos 50 anos transpassados.

Dois erros que desmontam boa parte daquilo que a película (já) havia consolidado de positivo, como as garantidas presenças de Montenegro e Bardem. Ótimos, contudo, aprisionados - lamentavelmente - pelas péssimas escolhas de Newell (conhecido por ter dirigido “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, o quarto filme do bruxinho). Todavia, mesmo afetado por isto, o longa consegue se destacar - principalmente - no seu apaixonante (e irretocável) conto romântico. Capaz (inclusive) de se esquivar destes erros capitais, numa amostragem que só aumentará a curiosidade/popularidade da literatura escrita por Garcia Márquez.

Se o forte erotismo acaba (meio que) mascarado - na película - pelo forte senso de humor utilizado/valorizado na tela grande, nada parece afetar a atração de Ariza pela bela Fermina. Apesar de suas amplas experiências sexuais (de fazer inveja a Ben Affleck e seu famoso comercial de desodorante...), Florentino se mantém obstinado pela mulher de sua vida, revelando uma alegoria amorosa que fará a alegria do público - principalmente dos casais que se engalfinham nas poltronas. Se o longa-metragem encerra de forma pouco surpreendente, acabando mais pela falta de novas “conquistas” para o (sedutor) protagonista do que por qualquer outra resolução conciliatória, a impressão final é de que o amor se constitui (mesmo) numa legítima linguagem (universal), capaz de burlar confusões e enganos, como as cometidas por esta autêntica "Torre de Babel" da Sétima Arte.

 

Carlos Campos

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