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Atravessando a fronteira dos universos paralelos

DivulgaçãoQuando “O Senhor dos Anéis” estourou, levando multidões aos cinemas, estava mais do que claro que seu retumbante sucesso influenciaria toda a indústria cinematográfica. Como esperado, os grandes estúdios de Hollywood - ávidos em conseguir um possível (e lucrativo) substituto ao épico de Tolkien - saíram as compras, adquirindo os direitos das principais literaturas fantásticas (ainda) disponíveis no mercado. Grandes sagas (como “Eragon” e “Nárnia”) começaram a pipocar através dos recantos da Sétima Arte, todos tentando preencher o vácuo deixado com o fim das aventuras de Frodo e sua Sociedade.

De todas as tentativas, esta é de longe a mais complicada. “A Bússola de Ouro” é produzida pela mesma New Line da saga do anel. E eles fazem questão de vendê-la com este lembrete. Ou seja, o próprio filme, primeira adaptação da popular série “Fronteiras do Universo” (escrita por Philip Pullman), precisará não só seguir a esteira como - obrigatoriamente - se tornar a legitima “herdeira” da Terra Média. Com o apoio financeiro necessário, elenco de peso e bela campanha de marketing, “A Bússola” parecia predestinada ao sucesso, mas o longa tem arrecadado bilheterias muito aquém das expectativas. E não é difícil entender o problema.

Apesar da eloqüência visual - encabeçada pelo uso extensivo dos belíssimos efeitos visuais - e por um bom material original, a produção peca clamorosamente na hora de se destacar dos “concorrentes” à vaga de "novo" Lord of the Rings. Tudo é tão semelhante entre eles que a impressão geral é de repetição. Como se estivéssemos vendo o mesmo longa-metragem novamente - pela enésima vez. Tal sensação de similaridade estraga qualquer surpresa e ofusca qualquer novidade proposta pela película, pois ela adquire um status tão manjado que fica realmente impossível conquistar o público, já cansado (provavelmente) de assistir a mesma fantasia de sempre. Com as mesmas vestimentas, os mesmos cenários paradisíacos, as mesmas situações - e falas parecidíssimas - de tantas outras produções do gênero - que pintaram em rebordosa nos últimos tempos (Harry Potter que o diga).

Pouca coisa sobra de empolgante e poderia ser destacada na nova empreitada, Nicole Kidman merece uma menção, vê-la em um multiverso mágico é algo raro - já que preferencialmente a atriz se debruça em dramas mais pesados. Entretanto, destaque mesmo são os “dimons”, que assumem formas animais e se constituem como autênticos parceiros espirituais - um para cada pessoa - acompanhando os personagens e agindo como extensões dos seus respectivos companheiros humanos. Os guerreiros ursos também precisam ser citados, com coragem, carisma e determinação, os bichos (exageradamente parecidos entre si, só alguns poucos se destacam do bando) se tornam o centro das atenções - principalmente nas cenas de ação. Ah, um deles tem a voz do Gandalf...!

Contudo, apesar de haver um potencial nato nesta história (envolvendo uma autoridade política/religiosa com ares nazi-fascistas, determinada profecia bruxa sobre o nascimento de uma menina e um enigmático pó - estilo "pirlimpimpim"), nada vai além do trivial. Pior ainda, a própria idéia de “trilogia” depõe contra o lugar-comum encontrado nesta “1º parte”, uma vez que - aparentemente - tudo leva a crer em continuações muito melhores. Pelo menos, levando-se em conta o tom de apresentação e a falta de aprofundamento da etapa inicial - afinal, não dá para entregar o ouro logo de cara. Assim, podemos supor que, se este título é o osso que precisamos roer enquanto a segunda aventura não chega, o filé mignon precisará ser muito bom para trazer o (já frustrado) espectador de volta aos cinemas.

 

Carlos Campos

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