30 dias de medo genuíno na fria escuridão
O que uma ambientação bem cuidada não faz. “30 Dias de Noite” seria só mais uma história (dentre tantas) de criaturas vampirescas se não fosse a destreza do criador Steve Niles em transportar sua trama para uma longínqua cidade do Alaska. A decisão de Niles parece lógica numa análise posterior, pois tal ambiente isolado e desprovido de luz é um verdadeiro oásis para os descendentes cinematográficos de Béla Lugosi. Contudo, apesar da inegável simetria, ninguém havia pensado em algo tão óbvio. Muito menos, realizado coisa parecida.
Sucesso nos quadrinhos (contando com os ótimos desenhos de Ben Templesmith), “30 Dias” ganha uma justa adaptação para os cinemas, através da benção do produtor-especialista Sam Raimi (cujo currículo nos filmes de terror inclui clássicos como “Uma Noite Alucinante”) e com o próprio autor da HQ colocando o bedelho no roteiro. Garantindo fidelidade (mudanças naturais - algumas até necessárias - à parte) e um maior conforto na transposição da notável arte-seqüencial para o diferente reino da sétima arte.
O longa consegue manter e assegurar um clima de terror/suspense que apaga qualquer equívoco ocasional. Beneficiado por uma belíssima fotografia, o diretor Dave Slade (do ótimo “MeninaMá.com”) usa a selvagem e gelada paisagem como um desafio extra para as vítimas do mortal ataque impetrado pela horda de seres noturnos. Sabiamente aproveitando o desolado local e a escassez de sol para potencializar todos os momentos de tensão. O trabalho é tão bem realizado que (em muitos momentos) é possível sentir o frio emanado pela película - seja ele provocado - ou não - pelo forte ar condicionado das salas de cinema.
O bom uso dos campos açoitados pela neve cria curiosas discordâncias visuais, a mais notável é a utilização da luz amarela contrapondo ao azul-cinzento do meio-ambiente. A cor quente (colocada nas telas com muita inteligência) representa um - minguado - foco aquecido no meio do intenso inverno, um alívio bem-vindo e um toque dramático referencial, pois transforma justamente a luz - tão temida pelos vampiros - como um ponto de apoio (apesar de sua escassez) extremamente necessário, inclusive, para guiar a visão do público diante da mordaz noite interminável.
Sem se destacar por grandes sustos (todos um tanto quanto previsíveis) ou por suas sub-tramas desgastadas (principalmente para aqueles que já carregam na bagagem o conhecimento de centenas de contos cheios de dentes pontiagudos, trevas e muito, muito sangue), “30 Dias de Noite” sabe aproveitar como nunca sua impecável atmosfera - bem sacada/desenvolvida num breu arrepiante. Validando um antigo argumento dos grandes mestres do gênero: qualquer espectador teme (naturalmente) os perigos invisíveis da escuridão muito mais do que aquilo que podemos enxergar claramente.
Neste caso, os realizadores (até se aproveitando do material original) conseguiram (e)levar o conceito ao pé da letra. Só não espere pela (provável e futura) continuação de luz apagada, acredite, não é uma boa alternativa para fazer o tempo passar enquanto “o dia” não chega...

