Sangue, suor e computação gráfica
Poucas são as animações americanas (comerciais) que se aventuram pelo âmbito adulto. Mais raras ainda, boas obras provenientes desta linhagem são imediatamente dignas de nota. E “A Lenda de Beowulf” ganha algumas logo de cara. Uma pela ousadia, entregando um produto amadurecido, onde cenas violentas e sexualizadas são mostradas sem pudor, mesmo que tudo apareça de uma forma mais estética do que vulgarizada.
Outra, pela feliz escolha temática, o longa adapta o famoso poema homônimo, o mais antigo em língua inglesa - moderna - registrado pela história. Originario (primordialmente) nas tradições orais das grandes sagas de cavalaria e depois reproduzido como texto entre 700 e 1000 d.C. Palmas para a dupla Neil Gaiman (criador de “Stardust”) e Roger Avary (roteirista de “Pulp Fiction”), ambos souberam transcrever a obra literária em uma divertida produção cinematográfica - de pura fantasia. O script final, não por acaso, aparenta ser perfeitamente influenciado por “Senhor dos Anéis” - na mesma proporção que Tolkien igualmente se influenciou pelo “Beowulf” original para criar seu estimado épico de capa-espada.
Uma terceira - e mais do que justa - nota deve ser entregue para a exuberância técnica demonstrada em qualquer quadro ou canto de imagem que nossos olhos humanos são capazes de observar. Utilizando a já re-conhecida “captura de performance" para emprestar não só as vozes (e os visuais), mas as próprias "atuações" dos atores/atrizes para suas contrapartes computadorizadas. Reproduzindo expressões faciais e corporais num preciosismo jamais visto nas animações 3D tradicionais. Revelando um lirismo surreal que desafia a realidade construindo um incrível mundo fictício foto-realista.
É de babar (vergonhosamente) e sem parar. Cada frame consegue criar (lindamente) autênticas cópias animadas dos vários nomes conhecidos que empestam o filme, como Anthony Hopkins (no papel do rei Hrothgar) e principalmente Angelina Jolie. Pois se Crispin Glover (o demônio Grendel) representa uma ameaça física para o personagem título (vivido por Ray Winstone), Jolie e sua figura materna ostentam uma ameaça sedutora ainda mais aterradora. As belas curvas esculturais (perfeitamente realistas, diga-se de passagem) somadas aos lábios carnudos da atual mulher de Brad Pitt representam - notadamente - os maiores perigos para um - galante - herói aventureiro como Beowulf.
Uma última nota, mais representativa se comparada com todas as demais, fica para o excepcional trabalho do igualmente excepcional Robert Zemeckis. Merecedor da redundância e de todos os elogios (aka posteriores adjetivos) por sua reconhecida competência (adquirida desde os clássicos tempos de “De Volta Para o Futuro” e “Uma Cilada Para Roger Rabbit”). Aliada e demonstrada com eficácia graças à evolução obtida (em quaisquer dos sentidos, artísticos ou tecnológicos) se compararmos sua criação anterior (“O Expresso Polar” de 2004) com a atual - este último, bem superior.
Só não leva nota máxima porque, mesmo aqui, existem espaços para avanços ainda mais drásticos na utilização das novas ferramentas digitais. Por exemplo, a câmera pode se locomover virtualmente para qualquer ângulo desejado pelo diretor, dito isto, apesar de bem construído, genericamente, algumas passagens parecem não conseguir se esquivar da abordagem trivial-usual. Incapacitadas de explorar com mais afinco suas liberdades e uma censura (razoavelmente) aceitável para um conteúdo pouco inocente (o filme é adequado para maiores de 14 anos). A priori, acaba funcionando como uma diversão mais agradável do que revolucionária, propriamente. In(felizmente).

