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Encontro de gerações na sessão anos 80

DivulgaçãoQuem poderia imaginar que o cinema nacional fosse capaz de dialogar tão bem com as platéias adolescentes? Num primeiro enfoque, “Podecrer!” pode até passar como um folhetim teen destes qualquer - estilo “Malhação” - que encontramos as pencas na televisão. De certa forma, isto não deixa de ser uma verdade, dramas “aborrecentes” tendem a ser parecidos, mesmo quando estão diluídos num involcro muito mais interessante: o retrato (apaixonadíssimo) da juventude no início dos anos 80.

Este é o grande acerto e maior mérito deste (raríssimo) filme, conseguir conversar aberta/honestamente com o público jovem (muitas vezes negligenciado na cinematografia brasileira). Contando a saga de um grupo de estudantes vivendo seus últimos dias no colégio, aproveitando - além do clima típico de amizades, rivalidades e azarações comuns à idade - um cenário nostálgico e delicioso que nos leva numa divertidíssima viagem no tempo. Mais exatamente para o ano de 1981. Época em que florescia a geração que impulsionaria a cena musical do rock brasileiro - pouco tempo depois.

A produção foi pródiga em dotar a película de toda a ambientação necessária para retratar o período, inclusive sabendo lidar - sem (de)cair para qualquer vertente panfletária/política - com os “órfãos da ditadura” e o renascimento da livre expressão artística, principalmente daqueles que “queriam mudar o mundo”, estampado (exemplarmente) pela ótima escolha temporal, mostrando o exato momento em que surgiam no horizonte bandas importantes (como “Paralamas do Sucesso”, “Britz”, “Engenheiros do Havaii”, “Titãs”, “Ira!”, "Barão Vermelho", "Ultraje a Rigor", etc...) e uma nova geração de cineastas (ambos os segmentos devidamente representados entre a turma de alunos retratados na história).

Se o cotidiano dos estudantes (e seus hormônios pueris) já se notabiliza por juntar confritos particulares e festas memoráveis, o adendo histórico permite desdobrar as “pegações” e travessuras para momentos (outros) até mais cativantes e/ou emblemáticos (pena que exagerados em alguns pontos, conciliatórios em outros). Onde a necessidade de se preservar os sonhos de juventude e (ao mesmo tempo) confrontar a difícil realidade (no ritual de passagem para a idade adulta) torna-se ainda mais importante-interessante.

Méritos totais para o diretor Arthur Fontes (de “Surf Adventures - O Filme”, um documentário de aventura igualmente direcionado para o espectador dotado de acne) e para Marcelo O. Dantas (autor do roteiro e do livro homônimo que deu origem ao longa). Ambos conseguem reproduzir o universo juvenil oitentista com enorme competência - e deleitosa referência - abusando de imagens semi-documentais (que ficcionalmente emulam registros inesquecíveis “daqueles dias”) e uma feliz seleção de músicas saudosistas - que dão o tom em conjunto com os inspiradíssimos objetos de cena - muitos, símbolos dos anos 80, vide as fitas K7 ou (até mesmo) os brinquedos Falcon e Gênius.

No elenco, várias participações especiais (Malu Mader, Lulu Santos, Stephan Nercessian...), alguns novatos e um rosto (bem) conhecido entre as colegiais protagonistas: Fernanda Paes Leme (que esteve no recente “O Homem que Desafiou o Diabo”). Mais uma vez usando de suas curvas (sinuosas) para auxiliar sua personagem na (difícil) tarefa de “catar” todos os meninos da escola. Dos mais populares aos mais “goiabas”. Não é por menos que seu desabrochar - em plena balada - ocorre (propositadamente) ao som de “As Frenéticas”, ficando emoldurada pelo refrão: “Eu sei que eu sou bonita e gostosa. E sei que você me olha e me quer”. Como já traduz o próprio espírito do título: "podecrer"!

 

Carlos Campos

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