1408: O monólogo de Cusack
“Não sei se estou tendo alucinações ou presenciando, realmente, uma manifestação sobrenatural”. A fala, do escritor Mike Enslin, personagem do inspirado John Cusack, refere-se aos eventos perturbadores que ele presencia durante sua estadia no mal-assombrado quarto 1408 do Hotel Dolphins, em Nova York.
Nunca fui fã dos filmes de terror, sou um medroso assumido. Embora todos os filmes deste gênero me assustem muito (mesmo), eu sei diferenciar os bons dos ruins. E "1408" é muito bom!
Remando contra a maré dos remakes nipônicos e da seqüência de Jogos Mortais, "1408" lança mão de um estilo mais sutil, menos sanguinário, e muito mais avassalador. Como o inimigo é onipresente, uma entidade (ou várias) do outro mundo que não se revela em sua plenitude, o clima de tensão (e confusão epiléptica) segue, impiedoso, durante toda a estadia do escritor no quarto 1408. Até mesmo quando o quarto oferece um enganoso descanso à Enslin, a atmosfera ainda é tensa.
No filme, Jonh Cusack interpreta um escritor que ganha a vida desmistificando os boatos de lugares mal-assombrados. Quando está escrevendo sobre os "10 quartos de hotéis mais assombrados da América", o escritor se depara com seu mais audacioso desafio, passar uma noite no quarto 1408 do hotel Dolphins, famoso pelos suicídios inexplicados de seus hóspedes. A partir daí, o filme é entregue ao (como faço questão de repetir) inspiradíssimo Cusack que enfrenta desesperadamente desafios de dar frio na espinha. E o quarto também tem seus méritos no sucesso do filme. Sádico, brinca com os sentidos do escritor até transporta-lo à beira da loucura, alternando, sem pressa, momentos de tensão que se transformam em tortura psicológica.
Destaque para várias seqüências, entre elas as que o rádio liga sozinho (“Você sabe que estamos apenas no começo”), quando no lugar de mostrar as horas, inicia uma contagem regressiva de 60 minutos e, claro, as opções de “fechar a conta” oferecidas, sarcasticamente, pelo telefone. Para não deixar passar, o filme também conta com uma pequena, mas marcante, participação de Samuel L. Jackson, como gerente do supersticioso hotel, que não tem nem o 13º andar.
Deslizes e alguns clichês marcam presença também, talvez aqueles silêncios que precedem o susto sejam usados em demasia. Mas nada que estrague o produto final. Em tempo, dormi de luz acessa, como sempre, mas valeu à pena.

