A poeira estelar de Neil Gaiman
Os amantes das boas HQs já devem saber. Qualquer produção que estampe o nome "Neil Gaiman" nos créditos é para ser conferida de perto. Cultuado e prolífero, este popular escritor Inglês costuma (felizmente) dar suas estocadas (também) fora dos quadrinhos, escrevendo livros e - por vezes - adentrando no campo cinematográfico. Em “Stardust - O Mistério da Estrela” tal imersão é ainda maior, já que se trata de uma adaptação direta de sua consagrada Graphic Novel - o que lhe valeu até status de produtor, garantindo (uma sempre bem-vinda) fidelidade à obra escrita (belamente ilustrada por Charles Vess, diga-se de passagem).
E esta é a grande (e agradável) surpresa no trabalho do diretor Matthew Vaughn (conhecido pelo elogiado "Nem Tudo é o que Parece"), apesar de condensar conteúdos e suavizar alguns momentos mais pesados, o resultado nas telas mantém muito do estilo espontâneo de Gaiman - costumeiramente lembrado/caracterizado pelo conjunto: imaginação fértil, tom sombrio (bem) acentuado e humor sarcasticamente britânico. Resguardando um "conto de fadas" denso e complexo, num lirismo fantasioso que - apesar de contentar as crianças - costuma ser apreciado (majoritariamente) pelos mais velhos.
Não é surpresa, portanto, que a excelência do material seja respaldada pela (grata) reunião de um elenco respeitável. Na história, Tristan (o novato Charlie Cox) precisa encontrar uma estrela cadente (que viu despencar do céu) para presentear sua amada (Sienna Miller, de “Factory Girl”), cruzando - em sua louca busca apaixonada - o muro que separa o mundo real do universo mágico. Lá, ele descobre que a estrela caiu na forma de uma garota (brilhantemente, se me perdoem o duplo trocadilho, vivida pela radiante Claire Danes - de “Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas”). Além de encontrar outras tantas figuras, como a bruxa decrépita em busca da imortalidade (interpretada por Michelle Pfeiffer), príncipes brigando pela sucessão de um rei em seu leito de morte (Peter O’Toole) e um robusto capitão pirata - que esconde um delicado segredo (bem revelado na interpretação divertidíssima de Robert De Niro).
Danes (formidável como sempre) é daquelas que costumam entrar na lista de “atrizes favoritas” de muita gente. Com toda justiça. Assim como Michelle, que emplaca seu terceiro longa-metragem no ano, se divertindo uma barbaridade no papel de vilã carcomida em busca da beleza eterna - algo que não parece lhe faltar na vida real, pois continua notavelmente bonita - mesmo passando da casa dos 40. Bem mais jovem, Cox mostra desenvoltura e carisma, sendo a grande revelação desta película. Mas o destaque, até pela aparição inusitada, fica por conta de De Niro, talentosíssimo e raro freqüentador destas peças fantasiosas/fantásticas, inclusive - por este ineditismo - já fazendo valer o preço do ingresso, independente de qualquer outro aspecto.
E olha que não faltariam (ademais) pontos positivos a serem ressaltados. O filme esbanja qualidade nos ótimos efeitos, fotografia e direção de arte. Uma superprodução (de fato) muito bem cuidada e realizada. Visualmente se constituindo (faceiramente) na fantasia prometida pela (já) imaginativa historieta - contada e supervisionada por um dos mais emblemáticos talentos do entretenimento mundial. Resta a torcida (transformada em pedido pessoal pra próxima estrela cadente que cair do céu) para que Gaiman ganhe espaço e amparo para - depois de “Stardust” - conseguir emplacar nas telonas vários de seus trabalhos mais reconhecidos e admirados, como “Sandman” e “Morte - O Alto Preço da Vida”.

