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De caso de polícia a fenômeno midiático

DivulgaçãoUm caso raro. Daqueles que pipocam aleatoriamente, sem ninguém esperar ou compreender direito. “Tropa de Elite” já nasceu para ser cult. Evidentemente, podemos supor que tamanho sucesso pavimentou-se pelas polêmicas geradas nas investidas judiciais da instituição policial (esta, desgostosa com o retrato feito da “corporação”) e na inusitada pirataria da obra (ainda inacabada) que acabou nas ruas muito antes da chegada aos cinemas (especula-se que 2,5 milhões de pessoas tenham assistido ao longa antes mesmo da estréia). Mas um elemento não pode ser ignorado na hora de explicarmos este (verdadeiro) fenômeno cinematográfico: o filme é mesmo bom pra c...!

Alguns podem rosnar que a produção é maniqueísta. Que se limita a mostrar o lado podre da moeda, mostrando a corrupção e a violência “do sistema”, monocraticamente. Expondo o “outro lado” apenas para (comparativamente) deixar sua faceta brutal e realista ainda mais escandalosa. Tudo verdade. E nos conformes. Estamos falando de um exemplar ficcional. O reducionismo visto nas telas é coerente dentro do âmbito da Sétima Arte - vide a dramatização natural das obras audiovisuais. Longe de ser uma tese científica, “Tropa” se paga pela excelente história (inspirada no livro “Elite da Tropa”, escrito pelo trio André Batista, Rodrigo Pimentel e Luís Eduardo Soares) e pela forma (crua) como ela é contada.

Demonstrada pela ótima (e visceral) narrativa comandada por José Padilha (do premiadíssimo documentário “Ônibus 174”), cheia de câmeras nervosas, música alta, ritmo forte e edição alucinada. Tudo para não dar descanso ou trégua para o espectador, transportado da poltrona para a montanha russa protagonizada pelas incursões do BOPE (“Batalhão de Operações Especiais”) às favelas cariocas. Numa verve que se ampara no off e nas falas do Capitão Nascimento, oficial da “tropa de elite” que pontua a ação com observações críticas (pertinentes) e - longe de qualquer heroísmo (moralista) inocente - de forte cunho fascista.

Nascimento balbucia e emprega atitudes extremas - daquelas que (só) são defendidas por aqueles que pregam: “os fins justificam os meios”. Usando da violência para combater a própria violência. Posições antagônicas à parte, o “anti-heroísmo” do capitão e a brilhante atuação de Wagner Moura transformam o personagem na figura mais cativante - justamente - por quebrar paradigmas hipócritas (recorrer a vingança, seja ela aceitável ou não) e sofrer as conseqüências físicas de seu comportamento (moralmente) questionável. O mais “barra pesada” dos “caveiras” é também o mais abatido psicologicamente, deixando transparecer a todo momento (mais para o público do que para si próprio) os efeitos do absurdo stress provocado pelas habituais transgressões à lei e aos direitos humanos.

Moura fala com áspera firmeza, mas sabe passar corretamente o desgaste físico/emocional de sua frágil persona fictícia. E aqui está o grande “pulo do gato” de Padilha. Seu filme não vangloriza os atos de Nascimento, em nenhum momento. Pelo contrário, ele os deprecia. Só o faz partindo da ótica do próprio “objeto de estudo”. Assim como retrata o BOPE ou a policia, escancarando-os de dentro para fora. Num recurso lingüístico imprescindível para compreendermos não só a faceta humana dos oficiais envolvidos, como - propositadamente - demonstra (de vez) a inadequação dos métodos/políticas atuais de repressão à criminalidade. Seja por parte das policias, ONGs e/ou poderes constituintes. Numa artimanha que - jocosamente - eleva como “mocinho” a figura mais criticável (e carismática) de todo o filme.

 

Carlos Campos

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