O homem que desafiou o bom cinema nacional
E não é que Moacyr Góes conseguiu? Marcado por empreitadas discutíveis, dirigindo Xuxa e Padre Marcelo Rossi, “O Homem que Desafiou o Diabo” pode (e deve) ser considerado (até agora) a melhor obra deste diretor (de segundo escalão). Principalmente se levarmos em conta o nível médio - e lamentável - de seus trabalhos prévios.
O novo longa de Moacyr tateia no universo “barroco-nordestino” esmiuçado em “Auto da Compadecida” e “Lisbela e o Prisioneiro”. Só que sem o mesmo cuidado estético dos citados. Mesmo realizando um bom trabalho, Góes é incapaz de grandes arrojos cinematográficos - e quando o faz, entrega passagens pouco inspiradas, arriscando, por exemplo, algumas “fusões” (entre imagens) desnecessárias - e de gosto extremamente duvidoso.
Sua sorte (ou inesperada competência) é saber conduzir a curiosa história (baseada no conto de Nei Leandro de Castro) entregando-a por inteiro para o protagonista Marcos Palmeira. Antes, interprete de Zé Araújo, que engravidou indevidamente a mulher do “Turco”, e agora renascido como Ojuara (Araújo ao contrário), um valente mulherengo (cabra macho, sim senhor) que depois de tantas humilhações, resolve mudar de vida e bancar o Don Juan dos Sertões.
Desafiando até o Diabo, se for preciso.
Palmeira atua com honestidade, visivelmente à vontade no papel do galã/herói típico. Emprestando e empregando a simplicidade dos bravos caboclos sertanejos - já famosos nas telas verde-amarelas. Outro achado é o “Cão Danado”, reinventado pelo ator revelação Helder Vasconcelos, um show de ginga e simpatia, mesmo no nefasto papel de “capeta” arretado.
Recheado de palavreados chulos (que vão ofender os ouvidos mais sensíveis), expressões idiomáticas e belas mulheres (todas, alvos do conquistador Ojuara), o filme diverte (com seu encantador passeio pelo rico misticismo-pitoresco do agreste) o suficiente para nos esquecermos - momentaneamente - de seus defeitos.
Ainda sobre o hall de lindas raparigas, o destaque (positivo e negativo) fica por conta de Fernanda Paes Leme “pagando peitinho” (!) apesar do seu enorme talento. Tudo bem, sexualidade faz parte, principalmente no cinema latino. Basta assistir qualquer longa do Almodóvar para compreender isto. Só que não era o filme - nem o caso - para tirar (tantas vezes) a parte de cima da roupa, principalmente numa narrativa tão frívola. Pior ainda, comandada por Moacyr Góes, pelo-amor-de-Deus, Fernanda!
Paes Leme é uma ótima atriz. Poderia passar (muito bem) sem essa exposição tão gratuita, aparecendo semi-nua para a alegria dos “nerds pervertidos”. Diferente do que faz Flávia Alessandra, beldade que permanece vestida - mesmo nos momentos mais “calientes” de sua (voraz) personagem - devoradora de homens. Mas engraçado como as coisas mudam... Depois de filmar “Abracadabra” e “Irmãos de Fé”, quem poderia imaginar que Góes fosse capaz de se concentrar (tanto) nas “curvas” de sua protagonista feminina? Com certeza, um desafio digno (inclusive) para o próprio “Cão Miúdo”.

