Uma cidade de contrastes e homens
Contrastes. Este é o mote de “Cidade dos Homens”. A “continuação” cinematográfica da consagrada série global (iniciada em 2002) começa colocando a favela em primeiro plano, sem se esquecer de contrastá-la com o restante da cidade. Em cada passeio pelos morros cariocas notamos claramente as “diferenças” que caracterizam uma megalópole como o Rio de Janeiro. O caos urbano salta à tela ostentando ao fundo algumas das mais belas paisagens brasileiras.
É nesse ambiente que acompanhamos Laranjinha e Acelora emergindo para a maioridade, cada um seguindo seus respectivos (e já conhecidos) arcos televisivos. Um quer encontrar o pai desconhecido e o outro se estabelecer como o pai que nunca foi. Os dois personagens são quase homólogos. Só que em posições inversas. Não raro, ficam colocados em takes muito similares. Devidamente espelhados, pois (ás vezes) os “irmãos” vagam por lados diametralmente opostos - inclusive visualmente. Principalmente quando divididos pela constante guerra entre traficantes.
Idealizado por Fernando Meirelles (produtor) e Marco Morelli (diretor) como uma extensão do premiadíssimo “Cidade de Deus”, a “cidade” do novo filme (desta vez) tem um contexto mais “humanizado”. A violência é menos estética ou chocante do que no longa de Meirelles. O “lugar” ainda pulsa como personagem, igualmente. Mas em “Homens” o foco se desloca inteiramente para os dois heróis/protagonistas - vividos por Darlan Cunha e Douglas Silva. Ambos atuam com esmero, esbanjando naturalidade. Numa espontaneidade que apenas escancara a “humanização” proposital do gueto marginalizado (mesmo que suavizado em alguns momentos).
Sem ser totalmente perspicaz - nem absurdamente provocante quanto ao tema - “Cidade dos Homens” agradará principalmente aos expectadores do seriado. Mesmo que consiga ganhar alguns pontos por se traduzir para o cinema sem muitos percalços, sequer exigindo qualquer conhecimento prévio da “história” na telinha. Serviço prestado em prol daqueles que desconhecem o passado de Laranjinha e Acelora - já que as informações necessárias recebem o devido repeteco na forma de flashbacks.
De qualquer forma, independente das qualidades inerentes, a impressão final é de tristeza na saída do cinema. Não pelo filme em si, entretanto. Apenas, pela própria dor causada por qualquer (bom) trabalho que se preste a retratar nossas mazelas sociais. O universo opressor dos “subúrbios verticais” pode parecer absurdo, chegando a se estabelecer como uma espécie de “irrealidade” pertencente exclusivamente aos noticiários. Só que, “realidades” a parte, é impossível ficar impassível diante de tamanho contraste. Justamente, o ponto onde “Cidade dos Homens” mais acerta (apropriadamente) em nos machucar (violentamente).

