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A literatura cinematográfica de Daniel Filho

DivulgaçãoAna Luíza tem um cotidiano de madame. Duas empregadas em casa, casada com o Gianecchini (em uma surpreendente boa atuação), freqüentadora de espetáculos, sem falar da convivência com a alta sociedade paulistana. Sempre impecavelmente vestida (aproveitando um vasto e belíssimo figurino) e cheia de discutíveis amizades, nada lhe parece ser suficiente, falta algo à protagonista de “Primo Basílio”. Justamente, a realização (material) do amor platônico que a moça sente pelo primo (vivido por Fábio Assunção, outro galã de novela). Que perdura mesmo ela estando casada (feliz) e bem de vida.

Quando eles se reencontram novamente, o próprio mundo parece conspirar para que Luíza ceda aos galanteios de Basílio. Não demora e a sedução logo dá lugar ao pecaminoso adultério. Palco dramático ideal para a dramaturgia tecer suas críticas à burguesia e aos recatos do dia-a-dia. Algo que a obra original faz com admirável competência. Com tantos bons elementos, não fica difícil imaginar os motivos que levaram o diretor Daniel Filho a voltar para uma segunda excursão ao tema (ele já tinha no currículo a mini-série “O Primo Basílio” de 1988).

Seu maior acerto (desta vez) é ter apostado em um elenco global bem conhecido e - sobretudo - competente ao extremo. Débora Falabella, em mais uma atuação camaleônica (típicas desta atriz excepcional), encarna perfeitamente a Luíza imaginada por todos os leitores da expoente obra criada por Eça de Queiros. Sua ternura nos faz sorrir na medida certa. Já sua dor, nos deixa sofrendo - mesmo que escondidos - nas poltronas do cinema. Tamanho talento não se ofusca nem com a forte presença emanada pela já gabaritada Glória Pires, interprete da empregada humilde que descobre o “caso” da patroa - e passa a chantageá-la.

Pires não atua, dá aula. Mostra como os pequenos trejeitos podem mandar as favas qualquer definição de mocinha ou bandida. Ela é ambos, ao mesmo tempo. Não por menos, o filme se desdobra e concede mais atenção a relação da empregada com sua senhora do que na cerca sendo pulada. Daniel, sequer se preocupa com isso, sabe se aproveitar bem do texto de Queiros - e confia fielmente neste mestre da Literatura Portuguesa pra levar seu longa nas costas. Afinal, estamos diante de uma história que funciona tão plenamente que seria uma incompetência absurda conseguir estragar tudo, seja adaptando a peça escrita para a TV ou para o cinema.

Pena que o diretor parece tão confiante (com a “força” do material que tem em mãos), que se mostra descuidado na hora de costurar suas seqüências. Boa parte delas acaba abruptamente, durante seu clímax - e imediatamente já somos jogados (no meio) de outro importante acontecimento. Sem termos tempo de degustar as minúcias de cada instante. Nada que atrapalhe o entendimento, felizmente. Mas decepcionante (de qualquer forma) em alguns momentos-chave. Pois faltam “aqueles” segundos preciosos para digerirmos (com o devido cuidado) as sutilezas plantadas por Eça.

Demonstrando um bom cuidado estético, ajudado pela recolocação da trama - criada no século XIX - para a década de 50, de belo visual (romanceado) e naturalmente cinematográfico (os carros e os trajes típicos são lindos de se ver), o filme se desvencilha de alguns vacilos ao dar vida (da melhor maneira possível) aos personagens do livro. Estes, tão atemporais quanto o próprio relacionamento extraconjugal suscitado pela película. E por isso mesmo, funcionais. Tanto como literatura quanto cinematografia. Seja na Lisboa de dois séculos atrás ou nos tempos atuais.

 

Carlos Campos

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