O Wood & Stock da animação tupiniquim
Animações brasileiras são raras de serem vistas nos cinemas. Encontradas mais facilmente em festivais, estas peças costumam chamar a atenção do público que se engalfinha na entrada destas sessões - sempre lotadas e muito disputadas. Afinal, é uma oportunidade única de se ver (devidamente) um desenho brasileiro na tela grande. Expectativa que normalmente cria um otimismo favorável ao filme. Todos assistem com gosto. Lógico que péssimos desenhos não resistem muito, mesmo com toda a boa vontade do mundo. Mas não é o caso. “Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock‘n’Roll” vale mesmo a pena (e o preço do ingresso), independente de qualquer “patriotismo cinematográfico” exacerbado.
Baseado na série “Chiclete com Banana”, o clássico do mestre Angeli ganha (com méritos) um longa que faz justiça às famosas tiras. A começar pela direção de arte, que emula com uma felicidade incrível os traços (tão típicos) do citado cartunista. O resultado só poderia ter sido melhor se o próprio Angeli tivesse desenhado cada quadro, pessoalmente. Tal fidelidade se estende igualmente ao restante da película. Principalmente quanto a caracterização de cada personagem - tudo digno e legítimo representante da popular série em quadrinhos.
Exatamente por isso, “Wood & Stock” tenha herdado a mesma rebeldia de seus protagonistas. Nada é poupado, podado ou amenizado em nenhum momento. Todo o clima da história no papel é transferido para o universo cinematográfico - necessitando apenas um tempo para o expectador se acostumar com o inerente ritmo mais pausado (importado da nona arte) das historietas paralelas, compostas por uma avalanche de figuras, todas dotadas de um humor satírico e absurdamente incorreto.
A trama de Wood com Stock é eficientemente simples, os dois hippies estão em decadência e tentam reativar sua antiga banda dos anos 60 - para poderem sobreviver no careta (e exigente) mundo contemporâneo das contas vencidas e falta de grana. Cruzando o caminho dos músicos, diversas criações de Angeli infestam a narrativa (nem os Skrotinhos são esquecidos), com destaque para a (até então falecida) Rê Bordosa, que literalmente ganha vida na voz de Rita Lee, sua interprete perfeita (a cantora já havia comentado jocosamente - tempos atrás - que por serem parecidas, a cantora teria - inclusive - servido de “inspiração” para a criação de Bordosa).
Tom Zé é outro cantor conhecido que dá as caras, com sua música e no gogó de um imaginário Raul Seixas, emprestando sua “baianidade” numa das tiradas mais bem sacadas da psicodélica aventura (tântrica!). Cheia de detalhes (realmente curiosos) e com um estilo inimitável, a produção entrega um divertidíssimo acervo de referências ao lendário “Paz e Amor”. Lembrado e aproveitado habilmente pelo diretor (já veterano em animação) Otto Guerra - responsável também pela adaptação da obra “Rocky & Hudson: os Caubóis Gays” (de Adão Iturrusgara) em 1994. Não por acaso, outra animação (provinda das tiras de jornal) das mais adultas. Como em "Sexo, Orégano e Rock‘n’Roll". Ou você acha que o orégano (como já entrega o título parafraseado) é usado por Wood e Stock apenas na cozinha? Existem mais coisas na mistura entre Woodstock e desenhos animados do que imagina nossa vã filosofia...

